quarta-feira, 13 de julho de 2016

FIM

No domingo passado publiquei o post que representa o livro de número 300 e hoje, logo depois do pôr do sol, o deixei no banco do calçadão que fica quase em frente ao Farol da Barra. Assim, após abandonar trezentos livros que faziam parte da minha biblioteca, e da minha vida, encerro o blog.

Dou por cumprida a missão que estabeleci em abril do ano de 2010 e parto para uma nova forma de leitura. Quero voltar a fazê-lo despreocupadamente e no meu ritmo. Aproveitar esse tempo de vida que me resta para degustar as palavras escritas e não mais sorvê-las freneticamente porque tenho que cumprir a meta de um livro por semana.

Não pretendo apagar o blog da rede. Vou deixa-lo pairando nessa nuvem que é a Internet para visita-lo quando sentir saudade, ou até escrever um novo post quando achar que um bom livro merece meu humilde comentário. Também deixarei ativos o e-mail e o campo dos comentários para responder aos que escreverem.


Aos leitores e amigos meu sincero agradecimento.

Até um dia.

domingo, 10 de julho de 2016

EM BUSCA DE UM NOVO AMANHÃ


Sidney Sheldon (1917-2007) foi ousado quando escreveu Lembranças da Meia Noite – 1990, a continuação de seu maior sucesso O Outro Lado da Meia Noite – 1973, com o inegável estilo que o consagrou. Outra ousadia desse mestre foi desenvolver uma história para um personagem coadjuvante de outra obra. Foi o caso de Dana Evans, ela aparecia numa trama paralela em O Plano Perfeito – 1997 e ganhou o protagonismo no livro O Céu Está Caindo – 2000. Tilly Bagshawe continua escrevendo na sombra do mestre já falecido com autorização da família que detém os direitos da obra. Já publicou livros cujo enredo foi desenvolvido por Sheldon e que não houve tempo para terminar, assim informa a assessoria de imprensa. Prova disso é o ótimo A Senhora do Jogo – 2009, que é a continuação de O Reverso da Medalha – 1982, outro livro memorável.

Em 1985 Sheldon publicou Se Houver Amanhã, um livro que alcançaria enorme sucesso de crítica e público e sua heroína Tracy Whitney é, na minha mais modesta opinião, a mais carismática das personagens do autor. Sofremos com seus percalços e vibramos com suas vitórias, uma protagonista fora do padrão para a época. Todos ficam apaixonados por Tracy e torcem para que seus roubos fiquem impunes e ela tenha um final feliz ao lado de Jeff Stevens, seu grande amor.

Eu sou um dos milhões de fãs de Tracy e quase enfartei quando vi na livraria o título “Em Busca de Um Novo Amanhã”, em cuja capa a esperta editora ainda achou espaço para colocar a seguinte frase: “A heroína de Se Houver Amanhã, Tracy Whitney, está de volta em uma sequência de tirar o fôlego.” É óbvio que apanhei um exemplar e corri para o caixa. Tracy e Jeff se casam no Brasil e, aposentados dos crimes, vão morar em Londres. Ele vai trabalhar no museu e ela aguarda ansiosamente um filho para completar sua nova vida. O filho não vem e uma estagiária do museu estraga seu casamento. Tracy some no mundo disposta a esquecer Jeff. Dez anos se passam. Roubos de joias e obras de arte estão acontecendo no ‘estilo’ Tracy e uma coincidência levanta a suspeita de que ela esteja envolvida com os assassinatos de mulheres cujos cadáveres são encontrados ao lado de textos bíblicos. Jean Rizzo, detetive da Interpol, começa sua investigação que vai colocar Tracy e Jeff frente a frente novamente.

Mesmo com todos os elementos de um livro que faz jus a grife Sidney Sheldon: fortuna, poder, intriga, assassinatos, hotéis de luxo, desaparecimentos, obras de arte, vinganças, Tilly Bagshawe não consegue ser tão genial como seu mestre. Há fragilidades desnecessárias na trama. Talvez lhe falte a possibilidade de seguir o próprio rumo e não ficar à mercê de pensar como Sheldon escreveria. Deve ser muito difícil ver a capa do livro que você escreveu sozinho e constatar que seu nome aparece abaixo de outro autor mais famoso e ainda escrito numa fonte menor. Basta ver a fotografia do livro que está no post.

PS: Este é o livro de número 300 que vou abandonar. Para mim uma marca significativa. São 300 livros retirados da minha biblioteca e estou muito feliz em dividi-la com vocês.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco calçadão quase em frente ao Farol da Barra
Data: 13/07/2016

domingo, 3 de julho de 2016

O MENINO DO DEDO VERDE


Tinha 14 anos e me considerei velho demais para aquele livro de capa verde, estava lendo por causa de um trabalho escolar e não percebi de imediato a grandeza da obra que tinha em mãos. Lembro que houve um sorteio entre as equipes de trabalho para os livros que a professora selecionou e na minha hora recebi diretamente O Menino do Dedo Verde porque ela sabia que eu já havia lido Meu Pé de Laranja Lima, Caçadas de Pedrinho, O Pequeno Príncipe, dentre outros. Não lembro como ficou o trabalho da escola, mas a história de Tistu voltaria a aparecer na minha vida.

Anos depois estava na casa de meus pais arrumando os livros que levaria para meu primeiro apartamento quando achei o exemplar do mais famoso livro de Maurice Druon (1918-2009). Lembro que pensei em reler, mas não o fiz. Quando mudei para São Paulo muitos livros ficaram em caixas durante meses até que as estantes do apartamento ficassem prontas e é claro que reencontrei o livro nas arrumações. Nem precisei reler todo, bastou folhear algumas páginas e me ater aos grifos feitos para o trabalho da escola para que a história voltasse à memória, exatamente como aconteceu agora antes de escrever esse post.

“- Descobri uma coisa extraordinária – disse Tistu em voz baixa. – As flores não deixam o mal ir adiante.”

Para quem ainda não conhece, Tistu é um garoto que não conseguia frequentar a escola formal e os pais resolveram que ele teria professores particulares para a escola da vida. Quando Tistu conhece Bigode, o jardineiro, descobre que possui um dedo verde que tem o dom de fazer crescer plantas e flores quando toca em algum lugar. Esse talento secreto de Tistu tocaria diretamente a alma do jardineiro. O menino começa então a desbravar o mundo questionando padrões estabelecidos da forma como só uma criança é capaz, com o coração aberto e o pensamento simplista frente ao que vê e o que sente.

“A prisão é dessas coisas que a gente encara tranquilamente para as pessoas que não conhecemos. Mas logo que se trate de um menino de quem a gente gosta, é tudo diferente.”

Não estou triste por abandonar minha edição de 1976 cheia de trechos grifados, acredito sinceramente que o livro será achado por alguém que aproveitará o que já está marcado e fará novas inserções. É um livro de criança que todo adulto deveria ler para não esquecer que já foi pequeno um dia.

“Pois fiquem sabendo que nunca conhecemos ninguém completamente. Nossos melhores amigos reservam sempre surpresas.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Lounge Sala DeLux - Shopping Barra
Data: 12/07/2016

domingo, 26 de junho de 2016

MENSAGEM


Quando comecei a folhear o livro que pretendo abandonar fui tomado por um saudosismo que nem sabia que existia dentro de mim. Senti uma saudade imensa de São Paulo, cidade que morei por treze anos e onde fui muito feliz, mas também muito infeliz. São Paulo tem esse efeito dubio em mim. A felicidade em ter por perto todos os teatros, cinemas, mostras de filmes que não entram em circuito normal, galerias, museus, exposições que não viajam para outras cidades, livrarias, sebos e bancas de revistas com publicações do mundo inteiro. A infelicidade estava no fato de ter tudo isso à mão e usufruir muito pouco porque trabalhava de forma insana às vezes quinze horas por dia. Ao tocar o livro lembrei exatamente do dia e local onde comprei, e também o quanto foi difícil sua leitura.

Mensagem foi editado pela primeira vez em 1934 e seu autor, Fernando Pessoa (1888-1935), faleceu nove meses depois da publicação. Consta que é sua única obra escrita em português e também a que mais enaltece Portugal. Dividida em três partes, Brasão, a primeira, é subdividida em: Os Campos, Os Castelos, As Quintas, A Coroa e O Timbre. Depois vem a segunda parte chamada de Mar Português, a que mais gosto, e por fim O Encoberto, que também possui subdivisões cujos títulos são: Os Símbolos, Os Avisos e Os Tempos. Não é uma obra de fácil leitura, eu precisei consultar um dicionário luso-brasileiro em determinados momentos para entender alguns simbolismos da história de Lisboa e o que chamam de Sebastianismo.

Mas, se quiser um conselho, não leia tudo com a intenção de entender as palavras ao pé da letra. Deixe embriagar-se pela métrica e fluidez de Fernando Pessoa, se entregue ao som das palavras e deixe que elas cheguem ao seu coração, mantenha-se alerta e com a mente aberta para descobrir as riquezas dos versos simples e leve-os consigo para a vida.

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
(Mar Português)

Tenho que dar dois créditos antes de terminar o post, o primeiro vai para Jane Tutikian (1952) responsável pela organização e introdução feita de forma primorosa nessa edição. O segundo vai para a editora L&PM responsável pela democratização dos clássicos literários impressos em formato poket e vendidos a preços módicos nas bancas de revistas. Comprei o exemplar que vou abandonar na banca que fica na Av. Paulista, em frente ao Conjunto Nacional.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
(O Infante)

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento Shopping Barra - Mezanino G1
Data: 12/07/2016

domingo, 19 de junho de 2016

NÓS


No mesmo dia que comprei o já best seller Um Dia, escrito em 2009 pelo David Nicholls (1966), também comprei sua mais recente obra ‘Nós’, publicada no Brasil em 2015. Nos dois livros existe a perfeita construção de personagens que se caracterizam pelo realismo, bom humor, uma dose de criticidade de suas próprias atitudes e a humanidade. Você é capaz de amar e odiar os personagens com a mesma intensidade durante a leitura sem, contudo, enfastiar-se. E foi por aí que novamente fui conquistado.

No primeiro livro, Um Dia, já comentado aqui no blog em setembro de 2015, os personagens Em e Dex descrevem seus sentimentos e pensamentos para com o outro e ainda temos um narrador para as notas de bastidores. Em Nós, a versão da história é narrada sob o ponto de vista do personagem Douglas Petersen, um bioquímico de cinquenta e quatro anos, metódico, tímido, fatalista, extremamente organizado e casado com Connie há vinte e cinco anos. Ela é uma mulher vivida, gosta de arte, festas, muitos amigos, e vê em Douglas um porto seguro após relacionamentos anteriores muito conturbados. Ele é o feijão e ela é o sonho, uma inversão de papéis se compararmos ao livro de Origenes Lessa. Entre o casal está Albie, o filho de dezessete anos que cresceu entre a mãe artista que tudo permitia em nome da liberdade de expressão infanto-juvenil e o pai rigoroso que não encontrava no filho o seu espelho, seja nos gostos pelos mesmos brinquedos, profissão ou perspectiva de vida.

Antes de Albie ir para a faculdade a família programa as férias de suas vidas, um tour pela Europa que inclui cidades como Paris, Amsterdã, Veneza, dentre outras, para visitar os principais museus e obras de arte. Um roteiro traçado pela artista Connie e minuciosamente programado pelo metódico Douglas sem consultar os gostos estéticos da nova geração, Albie. Às vésperas da viagem Connie acorda Douglas no meio da noite para informa-lo que está pensando em divorciar-se dele. A partir desse momento seremos levados pela narrativa de Douglas para diversos tempos de suas vidas: quando conheceu Connie, quando casaram, o nascimento de Albie, suas vidas se transformando, tudo isso contado durante a epopeia de pequenos desastres, brigas, frustrações, pedidos de desculpas, momentos de comédia pastelão e reencontros que se transformará a viagem, ou grand tour como se refere Douglas.

David Nicholls constrói seu herói, ou anti-herói, com mãos de ferro. Quando o personagem tenta manipular a história para puxar o leitor para seu lado, o autor o faz contar coisas não muito boas do seu passado familiar, fazendo a balança pender para um lado e para o outro. Alguns leitores acham suas histórias arrastadas e com pouca ação, eu particularmente gosto do estilo que humaniza os personagens até que você comece a identificar-se com eles, no bom e no mau sentido.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mesa da varanda - Restaurante Rama
Data: 11/07/2016

domingo, 12 de junho de 2016

TRÓPICO DE CÂNCER


Quando li Trópico de Câncer eu já era um velho, o livro havia sido publicado há mais de cinquenta anos e o autor, Henry Miller (1891-1990), já estava morto. Por isso eu não sofri quando a obra foi proibida nos EUA, sob a acusação de ser pornográfica, voltando a circular só em meados dos anos 1960. Aqui no Brasil também houve veto dos militares para tradução e venda, embora existam boatos de que livros em inglês circulavam contrabandeados entre os intelectuais da época. A chancela dos censores para a proibição estava no pressuposto de que a obra era autobiográfica, mesmo que o autor nunca tenha assumido isso por completo. Para eles a literatura erótica podia existir desde que tudo fosse ficção.

Autobiográfico ou não o certo é que Herry Miller sempre misturou sua vida pessoal com os livros que escreveu e quem o conheceu em Paris nos anos 30 sabia que as noites eram animadas. Lendo a obra temos uma narrativa ansiosa por revelar por quais recônditos andava o nosso autor. Sem necessidade de cronologia essa pressa narrativa é explorada em textos na primeira pessoa extraídos das experiências vividas nas camas onde dormiu com prostitutas ou senhoras solitárias, das bebedeiras em lugares não recomendados pela sociedade, mas seu viés filosófico vem principalmente da convivência com os intelectuais e artistas que, como ele, viviam sem dinheiro e a mercê de favores.

Logo no início o próprio autor nos alerta sobre o que vamos ler: “Isto não é um livro. Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto. Uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza... e do que mais quiserem.”

Na minha mais modesta opinião Trópico de Câncer é um livro erótico. E vai além do erotismo quando prepara o leitor para o próximo, Trópico de Capricórnio, que também li depois de velho e é o meu preferido.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da pracinha em frente ao Teatro ISBA
Data: 10/07/2016

domingo, 5 de junho de 2016

O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO


Praticamente toda a minha geração leu O Apanhador no Campo de Centeio, único sucesso literário de J. D. Salinger (1919-2010) e figurinha fácil em várias listas de livros para ler antes de morrer. A obra tornou-se um ícone adolescente a partir dos anos 60 do século passado por tratar de temas como angústia, alienação, sensação de pertencimento do jovem, tudo embalado com uma linguagem típica da época, gírias e palavrões, demonstrando a rebeldia do anti-herói. Em 1951 não havia uma literatura voltada para a faixa entre 15 e 18 anos como nos dias de hoje e talvez por isso a obra foi tão discutida e abraçada.

No site da editora existe a informação que o livro foi traduzido para as principais línguas do mundo e ainda hoje vende cerca de 250 mil exemplares por ano, atingindo estratosféricos 65 milhões de cópias desde seu lançamento. Uma curiosidade sobre seu autor, J. D. Salinger, é que ele se recolheu após o sucesso do livro e viveu recluso até sua morte com raríssimas aparições para a imprensa. Chegou a publicar outros livros considerados pela crítica especializada como ‘sem relevância’.

A primeira vez que fiz a leitura eu tinha a mesma idade do protagonista do livro e passava pela minha fase adolescente rebelde. Acredito que exatamente por isso achei o livro parado demais e quase abandonei a leitura. A história de Holden Caulfield acontece num fim de semana e começa após ele saber que, devido às suas notas e ao seu mau comportamento, seria expulso no dia seguinte do prestigiado Colégio Pencey. Uma briga com seu colega de quarto é o estopim para uma peregrinação por Nova York que o levará ao encontro de Sunny, a prostituta, Sally Hayes, a ex-namorada, Phoebe, sua irmã mais nova, e o Professor Antolini. Apesar de conter passagens interessantes como a história do museu e o sonho do apanhador de crianças, eu achei o livro chatíssimo.

Posteriormente, aos vinte e quatro anos, reli a obra em outro contexto da minha vida e percebi que na primeira leitura faltou maturidade para entender as entrelinhas e o processo de transformação física e psíquica que passava pela cabeça do Holden. A narração na primeira pessoa é o ponto de partida para entender que pouco importa a ação do livro, o sentido está no que o personagem pensa. Todas as metáforas nos levam a perceber sua dificuldade em crescer, sair da infância e passar a ser adulto. Esse hiato é uma fase difícil até hoje, largar o infantil é perder a inocência das coisas e talvez o sonho do apanhador seja exatamente não deixar as crianças caírem no precipício, mantê-las num mundo perfeito em que brincar é a principal tarefa. Até hoje a obra é passível de críticas veementes e elogios eloquentes, eu passei pelas duas fases. Agora tente você.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da praça em frente à igreja do Sr. do Bomfim
Data: 10/07/2016

domingo, 29 de maio de 2016

AI, QUE LOUCURA!


Você já ouviu falar na socialite carioca Narcisa Tamborindeguy (1966)? Assistiu ao programa Mulheres Ricas exibido pela TV Bandeirantes? Se você respondeu não para as duas questões anteriores esse livro não é para você. Esqueça, devolva, troque e não perca seu tempo porque a leitura será confusa, em alguns momentos rasa e em outros será eloquente demais. Mas se por acaso respondeu sim para as duas questões, ou apenas uma delas, então aproveite e divirta-se, mas não espere grande coisa.

É claro que uma história é sempre uma história. Principalmente se você for como eu e pensa que a vida de todo ser humano na face da terra pode render uma biografia. Guardadas as devidas proporções entre a lição de vida de Andressa Urach (Morri para Viver), Kéfera Buchmann (Muito Mais que 5 Minutos) ou Luan Santana (Luan Santana – A Biografia) e a obra sobre Nelson Mandela (A Luta é a Minha Vida), Mahatma Gandhi (Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade) ou Irmã Dulce (O Anjo Bom da Bahia), na minha humilde opinião, existem histórias que simplesmente foram contadas e existem histórias que fizeram a diferença no mundo. Ao terminar de ler o livro Ai, Que Loucura! percebi claramente que a história de Narcisa faz parte do primeiro grupo.

Se você acabou de ler Guerra e Paz (Liev Tolstoi) e tem pela frente O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir) dê um refresco para seus pensamentos e leia Ai, Que Loucura! Será um oásis de frescurinhas entre dois livros “cabeção”. Narcisa relata sua vida entre a piscina do Copacabana Palace e uma carreira de cocaína, festas, alta sociedade, viagens, e outras memórias que as drogas não apagaram antes de se declarar ‘limpa’. E não precisa seguir os capítulos, a autora se encarrega de mudar abruptamente de assunto assim como o faz na vida real. Felizmente, para quem decidiu enfrentar as 136 páginas, ela ainda não havia criado os outros bordões: “Ai, que Absurdo!” e “Ai, que Badalo!”.

Agora podem me crucificar!

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Grade do portão lateral ao Teatro SESI - Rio Vermelho
Data: 08/07/2016

domingo, 22 de maio de 2016

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA


Na época que prestei o vestibular pela primeira vez recebi um manual que informava a relação dos assuntos para estudar e também a lista dos livros que deveriam ser lidos. Era uma espécie de direcionamento ao aluno para obter um bom aproveitamento nas provas. A leitura das obras indicadas foi feita com tanto prazer que se tornou um hábito e por vários anos consultei a lista do vestibular como referência para minhas leituras, mesmo sem a necessidade de fazer as provas.

Foi exatamente por causa dessa lista que li Triste Fim de Policarpo Quaresma. A obra do mestre Lima Barreto (1881 – 1922) foi publicada em capítulos durante os meses de agosto a outubro de 1911 dentro do Jornal do Commercio, que na época era escrito com dois emes, e só lançada como livro em 1915 com o dinheiro do próprio autor. Lima era um apaixonado pelo Brasil e foi muito criticado pelos escritores da época pelo despojamento de seus diálogos, sempre fiéis ao modelo de romance realista, que resgatava as tradições da cultura popular.

Policarpo era o nosso Dom Quixote, impossível não comparar com o personagem criado por Miguel de Cervantes cuja trajetória de vida se confunde. Policarpo era um homem simples, por ser um leitor voraz era criticado pela vizinhança que não entendia porque um homem que não era professor ou acadêmico tinha tantos livros em casa. Ele se entrega ao conhecimento das culturas populares e decide aprender a tocar violão, um instrumento que via como representante do mais popular no país. É então que conhece Ricardo Coração dos Outros, um seresteiro que irá acompanha-lo por suas desventuras. Na repartição que trabalhava comete o desatino de escrever um memorando em língua Tupi, é taxado como louco e acaba internado num hospício. Passados alguns anos o já livre Policarpo é aconselhado por Olga, sua sobrinha, a comprar um sítio na fictícia cidade de Curuzu. Começa então a saga de Policarpo pela agricultura com o objetivo de ajudar no crescimento do Brasil. É quando estoura a Revolta da Armada e ele é convocado a liderar um grupo de voluntários sem nenhum treinamento. Seu destino é selado quando escreve uma carta ao Marechal Floriano Peixoto criticando e denunciando arbitrariedades cometidas contra os prisioneiros.

É incrível a atualidade desse livro escrito há mais de 100 anos. Não é uma leitura fácil para o vocabulário dos dias de hoje e exigirá uma imersão no universo de Lima Barreto e sua época. Seu personagem é o próprio slogan do “sou brasileiro e não desisto nunca”, um indivíduo cuja essência deveria ser injetada nas veias da maioria dos nossos representantes que estão em Brasília.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio externo da Escola de Teatro da UFBa.
Data: 07/07/2016

domingo, 15 de maio de 2016

QUEBRA DE CONFIANÇA


Ultimamente Harlan Coben (1962) tem sido responsável por noites insones, quando começamos a leitura de um livro seu só conseguimos parar quando estamos na última página. Depois que li os primeiros quatro livros que estão catalogados como independentes: Não Conte a Ninguém, Confie em Mim, Seis Anos Depois e Desaparecido para Sempre, todos já comentados aqui no blog, iniciei a leitura da série Myron Bolitar pelo primeiro livro lançado em 1995 nos EUA, título do post.

Na metade do livro fiquei com a impressão de que o autor já tinha a intenção de escrever uma série e não acredito que isso aconteceu por acaso. Myron Bolitar é um personagem construído para ser carismático e um tanto quanto enigmático. Talvez por essa razão quando o livro começa ele já está na profissão de agenciador de talentos esportivos há dois anos. Sua carreira como jogador de basquete já está encerrada, fato que é explicado ao longo do livro, entretanto suas passagens como advogado e membro do FBI são apenas citadas sem maiores detalhes. Há um breve relato contando como conheceu seus dois fiéis companheiros: Win, o excêntrico milionário, e Esperanza, ex-lutadora e atual secretária. O mesmo não acontece com a personagem Jessica, o autor cita que já foram namorados, mas não esclarece porque terminaram embora fique claro que ainda nutrem uma forte atração um pelo outro.

Myron está prestes a fechar o primeiro contrato num clube de elite para Christian Steele, um quarterback promissor para o mundo milionário do futebol americano. Só que o jovem é atormentado pelo desaparecimento de sua namorada Kathy Culver há mais de um ano e a polícia não tem pistas do caso. Tudo piora quando Christian recebe o exemplar de uma revista pornográfica cujo anúncio de sexo por telefone aparece com uma foto de Kathy. Para enrolar mais a situação o pai de Kathy, Adam Culver, é assassinado numa tentativa de assalto muito suspeita. Jessica, filha de Adam e irmã de Kathy, tem certeza que as duas mortes estão relacionadas e isso faz com que se reaproxime de Myron.

A trama é muito bem amarrada exceto por um fio solto que não sei se será resolvido no livro seguinte, o personagem Chaz Landreaux fica sem final. A última citação ao seu nome é feita na página 232 quando Myron entra no escritório e pergunta a Esperanza: Conseguiu falar com o Chaz? E ela responde: Ainda não. Mas isso é só um detalhe já que é uma história paralela. A trama principal sobre o mistério de Kathy Culver é desvendada aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo e me deixou sem fôlego, tanto que reli as últimas trinta páginas só para saber se tinha entendido tudo por causa da velocidade que li na primeira vez.

Vale aqui uma ressalva para a construção da dupla Myron e Win, eles são imbatíveis nos quesitos: carisma, sarcasmo, companheirismo e boas piadas. Preste bem atenção em Win, por trás da aparência frágil, loira e quase pueril existe um ninja que não perdoa seus inimigos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Passeo, 1o andar em frente a sorveteria.
Data: 25/06/2016

domingo, 8 de maio de 2016

DOROTÉIA


Muitos anos já se passaram desde que assisti pela primeira vez à peça Dorotéia, escrita em 1949 pelo lendário Nelson Rodrigues (1912-1980), e lembro muito bem que na última montagem que vi em São Paulo todos os papéis eram interpretados por homens e a única mulher em cena era a personagem principal: Dorotéia. Entre as apresentações da obra no teatro e a leitura em livro existe uma enorme diferença. Nos palcos vi a encenação dos diretores e a leitura da obra foi entre o autor e eu, isso me fez compreender coisas que passaram despercebidas nas versões para os palcos.

Ainda hoje acho a obra de Nelson Rodrigues genial, consegui assistir a montagens de quase todas as suas obras para o teatro, algumas eu vi também em filmes e na TV com boas adaptações, mas a leitura física das obras desse autor é muito enriquecedora. Sua capacidade de esmiuçar o cotidiano suburbano da classe média e expor as mazelas, preconceitos e sexualidades fora das quatro paredes do quarto de certa forma fez o público debater-se entre a curiosidade e a aversão. Em se tratando de Dorotéia essa aversão ficou nítida e seus críticos mais vorazes afiaram as garras para desmerecê-la.

Com a morte do seu filho Dorotéia pede abrigo na casa das primas: D. Flávia, Carmelita e Maura, três viúvas puritanas e feias, todas acometidas pela sina que as mulheres da família devem ter: a náusea sentida em sua noite de núpcias que às fará renegar o sexo para sempre, e a falta de visão do masculino já que nenhuma delas é capaz de ver um homem. Dorotéia é o oposto de tudo isso, de uma beleza exuberante ela não sente a náusea pelo sexo ou a falta de visão do masculino e por isso é tratada como prostituta. Para ser aceita na casa ela deve enfeiar-se e renegar a vida passada. Todas devem padecer do mesmo mal que evoca o sexo, a culpa e a morte, e todas se vigiam e serão vigiadas, principalmente por D. Flávia que é a mais velha e a única a ser chamada de Dona. Elas vivem numa casa que não possui quartos, só salas, impossibilitando a intimidade, os segredos de alcova, o amor e a sexualidade.

D. FLÁVIA - Porque é no quarto que a carne e a alma se perdem... Esta casa só tem salas e nenhum quarto, nenhum leito... Só nos deitamos no chão frio do assoalho...

Passados muitos anos desde a morte de Nelson Rodrigues costumo pensar que, se vivo fosse, ainda teria a capacidade de chocar as pessoas com seus escritos. Eu, na minha mais humilde opinião, acredito que não. Mudaram os costumes, embora a hipocrisia permaneça, a internet nos brinda com novidades diárias e, para mim, o ataque às Torres Gêmeas em 2001 vai ser difícil de ser superado.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande - Banco perto do parquinho.
Data: 04/06/2016

domingo, 1 de maio de 2016

DE VOLTA À CABANA


Reza a lenda que William P. Young escreveu o livro A Cabana para exorcizar dores vividas na infância. Fez quinze cópias e presenteou amigos no Natal de 2005, mais de dez anos depois quase quinze milhões de cópias foram feitas, vendidas, e o livro tornou-se um best seller. Diante de tamanho sucesso é óbvio que outros livros surgiriam no rastro assim como aconteceu com o bruxo Harry Potter, os vampiros da saga Crepúsculo e as versões inspiradas no sucesso de Cinquenta Tons de Cinza, três exemplos aleatórios.

Apesar de ter lançado outros livros William não alcançou o mesmo patamar em vendas do primeiro, como aconteceu com Paulo Coelho depois do estrondoso sucesso de Diário de um Mago. Mas isso não impediu que outros autores lançassem suas versões da obra, assim como ocorreu com Dan Brow e seu livro O Código Da Vinci, cuja obra foi esmiuçada em diversos outros livros. Nesse contexto A Cabana não passaria incólume. E não estou desmerecendo quem o faz, ou já fez, lançar livros que comentam uma obra rende algum dinheiro e, dependendo da forma como se faz, também rende algum prestígio.

De Volta à Cabana é um exemplo de livro que comenta outro livro, e esse tem o respaldo do autor do primeiro, William P. Young escreve o prefácio recomendando a leitura da obra escrita pelo teólogo C. Baxter Kruger. O livro tem a função de esmiuçar de forma mais acadêmica os fatos relatados pelo personagem Mackenzie, seu caminho para o perdão, a reconciliação com o ‘Divino’ e consigo mesmo. Cabe ressaltar que se você não leu A Cabana será complicado acompanhar algumas passagens e referências do livro comentado.

Não sou um cético, mas também não sou daqueles que se deixa levar pelas primeiras palavras bonitas que ouve. Me emocionei lendo A Cabana e acredito que isso me levou a ler esse livro. O autor até tenta aprofundar o recurso da Santíssima Trindade usado no livro original, mas se você está buscando respostas, esqueça, este livro também não responderá as perguntas deixadas em A Cabana. É muito filosófico ficar discutindo o comportamento do ser humano face às dores e tragédias da vida e sua capacidade de regeneração diante das desilusões. Essas respostas surgirão de diferentes formas e o impacto individual vai depender do momento de vida de quem o lê.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Temaqueria - Restaurante Shiro
Data: 28/05/2016

domingo, 24 de abril de 2016

SHAKESPEARE – O QUE AS PEÇAS CONTAM


Ao escrever o post Romeu e Julieta em 10/abril/2016, enfatizei o fato de que o livro tem a tradução de Barbara Heliodora (1923-2015), tida como autoridade máxima no Brasil em William Shakespeare. Dois dias depois do post ainda estava com o nome de Barbara na cabeça quando descobri que minha publicação ocorreu exatamente um ano após sua morte. Arrepiei. A grande conspiração do universo foi ter descoberto o fato através do Facebook, quem me conhece sabe que não sou de ficar navegando pelas redes sociais e na terça feira eu quebrei a rotina ao visitar minha página num dia de semana. Para quem não sabe, o meu mural tem poucas coisas postadas realmente por mim, na sua grande maioria aparecem por lá as marcações feitas por equipes de divulgação dos trabalhos que estou envolvido no teatro ou compartilhamento do trabalho de amigos.

Como no domingo passado foi o aniversário de seis anos do blog, deixei para fazer hoje o post sobre um livro que me incentivou a leitura e o conhecimento da obra de William Shakespeare e assim homenagear Barbara Heliodora. O livro que dá título a esse post é de importância vital para qualquer ser humano que deseja ser minimamente informado sobre as obras, sem, contudo, ter que desbravar todos os volumes. Barbara nos poupou esse trabalho.

Durante as comemorações pelos 450 anos de nascimento de Shakespeare ela nos brindou com um livro em que comenta 37 peças desse dramaturgo inglês tão encenado. Uma seleção que contempla os clássicos Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo, Rei Lear, Macbeth, Comédia dos Erros, Sonhos de Uma Noite de Verão, e também outras que eram desconhecidas por mim como: Troilus e Créssida, A Noite dos Reis e Coriolano. Barbara faz um resumo do enredo, cita os principais personagens e transcreve uma seleção de trechos que julgou crucial em cada obra.

Um livro para os preguiçosos, dirão alguns mais radicais. Eu prefiro tratar a obra como um convite para conhecer textos clássicos e apaixonar-se pelo teatro universal. Ser fisgado pela curiosidade e ir buscar o conhecimento da obra completa. Em 2014, quando Barbara afastou-se da crítica teatral para dedicar-se unicamente à tradução de textos, a revista Época publicou uma matéria sobre o assunto e ela disse:

“Amava dar aulas. A melhor sensação do mundo é perceber quando um aluno começa a se interessar pelo assunto e se entusiasmar pelo teatro.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Passeo - Cafeteria em frente à sala de cinema
Data: 28/05/2016

domingo, 17 de abril de 2016

ANO SEIS



Fiquei um bom tempo na frente do computador refletindo sobre o título do post: ANO SEIS. Senti um alívio imenso por ter ultrapassado a barreira dos cinco anos de escrita no blog após uma pequena crise. Depois fui invadido pela sensação de energias renovadas para continuar a escrever toda semana sobre um livro diferente. No post do aniversário de cinco anos comentei sobre a dedicação, perseverança e a dose de abnegação necessária porque, tal qual um casamento, ter um blog e ser fiel aos leitores também é passível de um período em crise, e ela chegou no fim de 2015.

No ano que passou trabalhei muito nas diversas frentes que atuo e quase não deu tempo de me dedicar à leitura. A cada ano tenho que abandonar 51 livros, mas no ano passado só consegui ler 18, então retirei 33 da estante mais antiga de livros que li antes de começar a escrever no blog, recurso que tenho utilizado com frequência nos últimos anos para fechar a conta. Desde que iniciei o blog já abandonei quase 300 livros e se continuar lendo pouco em breve a estante antiga estará vazia. Não que eu me importe com isso porque sempre haverá livros novos para ler e preencher os espaços, mas não terei um livro para abandonar semanalmente afetando a dinâmica estabelecida para o blog, fato que me deixará profundamente triste.

Ao pensar em tudo isso fiquei parado e respirei fundo várias vezes. Essa dose extra de oxigênio me fez renovar as energias para assumir um compromisso íntimo de ler mais porque isso não é um martírio, pelo contrário, a leitura me faz um bem enorme. Será sempre um prazer ir até a livraria, vagar pelas estantes, manusear os livros, olhar as novidades, sair de lá com um exemplar, abri-lo para sentir aquele cheirinho de papel impresso e por fim relaxar para embarcar em mais uma aventura. Assim como num casamento estou renovando meus votos, farei um esforço maior para conciliar meus interesses profissionais e pessoais com a escrita no blog e assim levar até você, caríssimo leitor, a minha humilde opinião.

Muito obrigado aos seguidores visíveis e aqueles que recomendam a leitura do blog aos amigos. Aos desconhecidos que fizeram uma busca qualquer pelo Google, acharam meu espaço e dedicaram um pouco do seu tempo para ler o que escrevo. Aos familiares que compram ‘Cartão Presente’ de livrarias para me dar nas datas festivas (bendita invenção que facilita a vida de vocês) e, esse ano em particular a três pessoas: Cybelle, Epa Neto e Roberto Camargo, amigos que me aturam em infinitas conversas sobre livros e temas ligados ao blog.


PS: O bolo da foto eu ganhei de presente de outra amiga, Juciara, ela diz que não consegue ler livros, em compensação faz bolos divinamente.

domingo, 10 de abril de 2016

ROMEU E JULIETA


Quando escrevi o post sobre Ricardo III em julho de 2015 fiz uma retrospectiva sobre a entrada de William Shakespeare (1564-1616) em minha vida e falei muito sobre como o teatro funcionou para o entendimento da obra. Lembro que o espetáculo Romeu e Julieta apresentado durante 13 anos pelo Grupo Galpão me fez chorar por causa do lirismo da encenação, embora, mesmo sem ter lido o livro, eu já soubesse do que se tratava e qual seria o final da história. Acredito que 99% dos seres humanos sabem esse enredo, mesmo que nunca tenham lido o livro ou assistido uma versão para o teatro, cinema ou TV.

Em Verona, Itália, pelos idos anos 1600, duas famílias, Capuletos e Montecchios, se odeiam ao ponto de ter a cidade onde moravam completamente dividida. Romeu Montecchio conhece Julieta Capuleto numa festa e é fisgado definitivamente pelo amor romântico plenamente correspondido. Na mesma noite Romeu pula o muro da mansão inimiga para revelar seu amor por Julieta, é aí que acontece a famosa cena da varanda e os versos de amor que serão repetidos para todo o sempre. Decididos a casar-se em segredo por causa da inimizade entre suas famílias os jovens buscam o apoio do Frei Lourenço, peça fundamental nessa trama que acabará na tragédia mais conhecida do mundo, só perdendo para a crucificação de Jesus.

Essa obra irá influenciar inúmeras versões para os mais variados gostos e estilos, fiz uma busca no Google sobre sua correlação com o cinema e encontrei desde versões teatralizadas como as dirigidas por George Cukor – 1936 e Franco Zeffirelli - 1968 até as mais modernosas como Romeu + Julieta de Baz Luhrmann – 1997 (no meu conceito a melhor) e a versão para a TV de Carlo Carlei de 2013, passando por aquelas que fazem uma analogia à obra original como West Side Story de 1961 e a nacional O Casamento de Romeu e Julieta dirigida pelo Bruno Barreto em 2005. Temos também as versões de animação como Monica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta de 1979 e a esquisita Gnomeu e Julieta de 2011. Sem deixar de fora o filme Romeu Tem Que Morrer dirigido pelo Andrzei Bartkowiak em 2000, muita ação e pouco contexto literário. Claro que não posso esquecer a citação no filme chanchada Carnaval no Fogo – 1949, a paródia da cena do balcão com Oscarito interpretando Romeu e Grande Otelo como Julieta é impagável.

O livro que vou abandonar tem uma tradução primorosa de Heliodora Carneiro de Mendonça (1923-2015), mas conhecida como Barbara Heliodora, professora, escritora, tradutora e ferrenha crítica de teatro. Foi a maior autoridade brasileira sobre a obra de Shakespeare. Portanto prepare-se.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco do jardim na entrada da Escola de Teatro da UFBa.
Data: 29/04/2016

domingo, 3 de abril de 2016

A DEUSA CEGA


Quando trabalhava no Café Teatro Rubi sempre havia um hiato entre a passagem de luz do show ou peça de teatro e a efetiva realização do mesmo. Um espaço de tempo de mais ou menos noventa minutos entre os ajustes finais e a abertura da cortina. Eu ocupava esse tempo conversando com os colegas e também lendo, claro. Desde a adolescência que me faço acompanhar de um livro quando vou a algum lugar e desfruto do tempo a meu favor. Já revelei esse fato algumas vezes aqui no blog. Numa dessas esperas a diretora de teatro e grande mestra Hebe Alves me encontrou lendo num canto e surpreendeu-se, sem querer desmerecer os demais colegas técnicos de luz ou som, mas tenho de concordar que a leitura não é um hábito da classe técnica.

Começamos a conversar e ela me contou sobre sua predileção por livros com histórias de crimes e suspense e então me fez anotar o nome Anne Holt (1958) para que pudesse pesquisar sua obra. Não sou um aficionado por esse tipo de literatura, mas histórias são histórias e é delas que gosto. Pesquisei a autora e descobri uma série de livros publicados, desde 1993, dedicados ao crime e a resolução deles pela inspetora de polícia Hanne Wilhelmsen. Resolvi começar com o primeiro, A Deusa Cega.

A história começa num passeio matinal da advogada Karen Borg com o seu cachorro que é interrompido pela descoberta de um corpo desfigurado jogado num canteiro de plantas. Em seguida Hakon Sand, seu ex-colega de curso e ex-melhor amigo, que agora trabalha como assistente da promotoria de Oslo, a chama para defender o assassino que foi preso vagando todo ensanguentado pelas ruas. Em seguida um advogado é assassinado de forma fria e cruel com um tiro no rosto. Os crimes não parecem ter relação até a chegada da inspetora Hanne Wilhelmsen que tem a intuição de que algo grande está para acontecer e começa uma investigação em parceira com Hakon.

Prepare-se porque a autora gosta de nos ver sofrer, ela antecipa acontecimentos para que fiquemos curiosos em saber como isso irá se desenrolar, escreve capítulos curtos e explicativos dos fatos passados e nos instiga a querer mais e mais. Rapidinho as 342 páginas serão consumidas avidamente pelos leitores mais afoitos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada do Teatro Jorge Amado
Data: 28/04/2016

domingo, 27 de março de 2016

O ROMANCE D'A PEDRA DO REINO


Tive a oportunidade de ouvir Ariano Suassuna (1927-2014) numa palestra pouco antes do seu falecimento e me emocionei ao ver aquele senhor ser conduzido por um acompanhante até a cadeira no centro do palco, após sentar-se, humildemente agradeceu às mil e quinhentas pessoas que foram ouvi-lo dizendo: “Obrigado por vocês terem vindo, se fosse eu não viria, ficaria em casa vendo a novela que tá muito boa.” A plateia explodiu em gargalhadas e eu secretamente contive as lágrimas que enchiam meus olhos. Acho sensacional quando temos a oportunidade de ouvir uma pessoa que permeou nossa vida, mesmo que longinquamente.

A primeira vez que li O Auto da Compadecida tinha treze anos, leitura obrigatória por causa de um trabalho na escola, eu não consegui perceber a dimensão da importância de Ariano e nem sequer gostei do livro. Achei por demais fantasioso e de vocabulário rebuscado até para mim, nordestino que sou, acostumado com o palavreado do sertão. Anos depois e já envolvido no universo literário comprei através do Círculo do Livro a obra O Romance D’a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, título completo, publicado pela primeira vez em 1971. Nessa edição de capa dura a obra possui 642 páginas e eu tenho que confessar que não consegui ler até o fim, o livro amargou anos com o marcador na página 331 até que em 2007 a rede Globo anunciou a adaptação da obra para uma microssérie dirigida pelo Luiz Fernando Carvalho. Me empolguei em recomeçar a leitura e dessa vez fui até o fim.

A história de Dom Pedro Diniz Quaderna não é contada linearmente, são histórias dentro das histórias que, por sua vez, migram para outras histórias e voltam para história anterior que liga tudo num romance que não é romance. Não pode ser categorizado de forma tão simplista. É também uma novela de cavalaria, música de cordel, epopeia de amor, ódio e sangue. É também comédia, há trechos bem engraçados nas discussões entre o fidalgo Samuel e o tapuia Clemente, e é claro que temos um pouco de picardia e tragédia nessa família cuja história nasce na cidade de São José do Belmonte, fruto da mente genial de Ariano.

No prefácio, escrito por Rachel de Queiroz, você tem uma boa dica para ler o livro até o fim. Ela diz: "Ler livro escrito por um erudito é o diabo. Ou você eleva seu pensamento ao nível do visionário e delirante Quaderna (e da genialidade de seu autor), ou deixará a leitura inacabada." E eu, na minha infinita insignificância, lhes dou outra dica: não é um livro para ler às pressas ou de qualquer jeito. É uma obra que exigirá tempo, e não só o tempo traduzido em número de horas de leitura, mas o tempo de decifrar as palavras, entender o seu contexto e entregar-se ao mundo mágico de Ariano Suassuna.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Doces Sonhos - Pituba - Mesa 3
Data: 23/04/2016

domingo, 20 de março de 2016

O MÉDICO E O MONSTRO


Não faço questão de assistir a filmes de terror, é uma categoria que me interessa muito pouco com exceção de alguns clássicos como Psicose, O Exorcista, O Iluminado e outros poucos escolhidos a dedo. Tenho pela convicção de que três livros publicados no século 19 foram fundamentais para esse gênero: Frankenstein (1818), O Médico e o Monstro (1886) e Drácula (1897), foram os primeiros a falar no assunto que originou inúmeras obras relacionadas. Não posso afirmar com certeza absoluta, mas posso dizer em licença poética que foram esses livros os inspiradores de tudo que existe hoje.

O Médico e o Monstro é o meu preferido, o primeiro livro nessa categoria que li quando tinha entre 12 e 13 anos e buscava outras leituras que não fossem os gibis, confesso que o fato de ter apenas 85 páginas foi fundamental para a escolha. Para quem estava acostumado às aventuras de Mickey, a história de Robert Louis Stevenson (1850-1894) foi lida sob tensão e vários aspectos da dupla personalidade do Dr. Jekll/Mr. Hyde não foram compreendidos por mim na época.

Tudo começa com quando o advogado, Mr. Utterson, ouve a história sobre um homem sinistro chamado Mr. Hyde que estava rondando a cidade e lembra imediatamente que seu amigo, Dr. Jekll, havia redigido seu testamento deixando todos os bens para essa pessoa. Mr. Utterson não desconfia que o Dr. Jekll havia descoberto uma beberagem capaz de fazer o desdobramento da personalidade de uma pessoa comum em seus lados bom e mau, com efeito psicológico e também físico. A história é tão bem escrita e seu final é tão amarrado que se tornou um clássico do gênero terror e mistério.

Nos dias de hoje é tão comum livros sobre seriais killers, monstros e vampiros, as séries com zumbis se proliferam feito ervas daninhas na TV e no cinema. Recentemente lançaram um filme que me fez estremecer todos os fios de cabelo que ainda me restam na cabeça; ‘Orgulho e Preconceito e Zumbis’, é o nome do filme, a Jane Austen deve estar se revirando no túmulo tal qual um espeto rodopiando na churrasqueira.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada da Sala de Arte - Cinema do Museu
Data: 21/04/2016

domingo, 13 de março de 2016

PORTA DOS FUNDOS


Quando ouvi falar dos vídeos feitos pelo grupo Porta dos Fundos fiquei fascinado pela qualidade cinematográfica e o forte apelo cômico dado pelos autores e atores para situações do cotidiano. Lembro que o primeiro filme que vi relatava a revolta de um atendente numa rede de restaurantes face à indecisão do cliente na escolha dos oito ingredientes que iriam compor o molho para sua massa. Achei maravilhosa a ideia porque já me irritei algumas vezes com a indecisão da pessoa que estava a minha frente na fila e imaginei a vida do atendente que aturava o fato se repetir dezenas de vezes ao dia.

O que achei mais interessante é que a rede de fast food retratada no vídeo não se ofendeu com a caricatura e passou a usar o vídeo no treinamento dos funcionários. Mais tarde financiou uma segunda versão com o mesmo atendente fazendo o processo de forma correta, e aceitou que o Porta dos Fundos imprimisse sua marca com um pequeno deslize durante no final. Sem perder o bom humor e jogando pela janela o chatíssimo “politicamente correto” o grupo se firmou com milhões de visualizações de seus vídeos na internet, ganhou um programa de TV num canal fechado e em 2013 lançou os roteiros dos vídeos em livro, visando obviamente amealhar mais uns trocados.

Tirar a imagem e o som de um produto visto por milhões de pessoas poderia ser um tiro no pé, mas, na minha mais humilde opinião, o foco no roteiro salvou a obra de tornar-se objeto de decoração em mesas de centro. O livro possui uma introdução sobre a ideia do texto e como ela se desenvolveu, esse bônus traz um pouco dos bastidores dos trinta e sete esquetes que são apresentados e eu dei risada do texto mesmo sem ter visto boa parte dos vídeos, prova cabal do quanto ele é importante no processo.

Ainda na minha modestíssima opinião acho que o diagramador inseriu cores em excesso, senti também a falta de uma ficha técnica mais apurada dos esquetes para completar o conhecimento de como se faz, mas isso não tira o mérito do livro que pode tornar-se uma boa fonte de consulta para quem quer escrever roteiros de humor. Os tecnológicos de plantão vão adorar os CR Code inseridos na primeira página de cada esquete, de posse de um tablet ou celular mais moderninho você pode ler o roteiro e depois assistir ao vídeo correspondente, uma boa chance para ver a teoria na prática.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: DNA Natural - Barra
Data: 15/04/2016

domingo, 6 de março de 2016

DIÁRIO DA CORTE


Já escrevi sobre o Paulo Francis (1930-1997) no post “As Filhas do Segundo Sexo”, livro que gostei muito embora tenha sido esquecido pela crítica e público. Acredito que a personalidade difícil do autor tenha gerado uma certa má vontade na leitura da obra. Eu o conheci através dos artigos escritos para a revista Status, que adquiria em conluio com o conivente dono da banca de revistas uma vez que não tinha idade para comprar essa publicação. Não entendia tudo que lia mas lembro perfeitamente que achava interessante seu modo de escrever e pensava, esse cara deve ser muito culto.

Como a ditadura agora é outra e vivemos numa época do chatíssimo ‘politicamente correto’, o antigo DPOS (Departamento de Ordem Política e Social) foi transferido para as redes sociais, onde tudo se julga e todos são julgados, ao reler Diário da Corte tenho quase certeza de que mais da metade dos textos não seriam publicados nos dias de hoje. Quer um exemplo? Ao criticar o Sr. Caio Túlio Costa, que na época era o ombudsman da Folha de São Paulo, jornal para o qual trabalhava, Francis escreveu: “Certamente a redação da Folha está infestada de pentelhos.” Mesmo tratando-se de uma disputa interna o texto foi publicado pela Folha em 30 de novembro de 1989.

Organizado pelo jornalista Nelson de Sá e publicado como livro em 2012, o livro contém 76 artigos escritos entre 1976 e 1990. Os assuntos vão da política norte americana à redemocratização brasileira, de Nelson Rodrigues a Woody Allen, ataques ferozes contra José Guilherme Melquior e Caetano Veloso. Ao terminar a leitura você pode ter a impressão de que o Paulo Francis “se acha” e, em parte, é verdade. Há sempre a impressão, principalmente para quem o conheceu pela TV, que ele falava de cima para baixo, com sua voz inconfundível e cheia de inflexões como se dialogasse com ignorantes e ele o arauto da elegância e do bem viver, e isso, em parte, também é verdade.

Li certa vez uma matéria na revista Cult que dizia: “... o texto de Paulo Francis é sempre uma delícia de ler e tem uma qualidade rara: é uma escrita tão sedutora que, de repente, faz com que se esteja concordando com ele, mesmo a contragosto. Ele faz uma mistura do culto com o popular, vai do erudito ao palavrão...”, e arrematava: “Manejava bem o humor, sobretudo quando se tratava de espinafrar alguém.” Eu, na minha mais humilde opinião, concordo plenamente.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Doces Sonhos - Pituba
Data: 09/04/2016

domingo, 28 de fevereiro de 2016

TARJA PRETA


Quando morava em São Paulo gostava de passear pela Fnac que fica localizada no bairro de Pinheiros, num desses passeios me deparei com um livro que tinha um título inusitado e uma lista de autores. Ir à livraria era um programa perfeito para um final de tarde de sábado, três andares de pura diversão e um café no térreo para começar a folhear e ler os livros comprados. Então, com um café Machiatto, meu preferido, uma cesta de pão de queijo, um strüdel de maçã, e meu exemplar recém adquirido de Tarja Preta às mãos, devorei tudo, inclusive o primeiro conto intitulado Frontal com Fanta de autoria do Jorge Furtado, os demais eu li ainda no mesmo fim de semana porque o livro tem apenas 176 páginas.

O livro é composto por sete contos, escritos por sete autores diferentes: Jorge Furtado, citado acima, Pedro Bial, Adriana Falcão, Jorge Mautner, Luiz Ruffato, Márcia Denser e Isa Pessôa, com um elo em comum: medicamentos controlados, mais conhecidos como ‘tarja preta’, aqueles que o farmacêutico retém a receita médica e são vendidos com o controle do CPF do paciente. Mas, longe de qualquer apologia, os contos são bem distintos e preservam as características dos seus autores, nem todos são bons já vou logo adiantando, mas nada de usar isso como desculpa para não ler o livro.

Pedro Bial (1958) conta uma história cujo protagonista deu o nome dos remédios preferidos para seus jogadores do time de futebol de botões. Adriana Falcão (1960), muito boa, escreve a história de uma serial killer que toma remédios e tem conversas hilárias com seu próprio cérebro. O Luiz Ruffato (1961) lança mão de uma crônica denúncia quando conta a história da mulher que vai ao hospital com um histórico de traições e violência doméstica sofridas por causa do marido alcóolatra e sai de lá com um “remedinho” para autoestima. Jorge Mautner (1941) vai para a terapia quando conta a história de um casal em busca de uma felicidade sempre constante e plena que desaba numa viagem quase lisérgica dos personagens.

Recentemente fui assistir ao filme Boa Sorte da cineasta Carolina Jabor, protagonizado por uma surpreendente Deborah Secco, quando li nos créditos que o roteiro do filme foi inspirado no conto do Jorge Furtado (1959) que mencionei no primeiro parágrafo. Que me perdoem os demais autores de Tarja Preta, mas o conto Frontal com Fanta é o melhor. Isso na minha mais humilde opinião de leitor leigo que nunca tomou um tarja preta na vida. Pelo menos até hoje.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Centenário - Ponto de ônibus
Data: 02/04/2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

GAROTA EXEMPLAR


No início de 2015 saiu a lista dos filmes que estavam indicados ao Oscar 2015 e dentre as indicações para Melhor Atriz estava Rosamund Pike pelo filme Garota Exemplar. Numa reportagem sobre o filme descobri que seu roteiro fora adaptado do livro homônimo pela própria autora. Confesso que isso aguçou minha curiosidade pela obra que eu já havia visto nos sites de livrarias. Como não houve indicação do filme para a categoria Melhor Roteiro Adaptado e a Rosamund Pike não ganhou o Oscar, decidi que só assistiria ao filme depois de ler o livro que a essa altura já estava na casa dos seis milhões de exemplares.

Comprei o livro meses depois numa liquidação e foi uma grande surpresa face aos comentários pouco elogiosos que ouvi sobre o filme, e que, acreditem, ainda não assisti. Gosto de me render a boas histórias e a autora Gillian Flynn (1971) faz do seu livro um best seller daqueles que você esquece de comer, dormir, e leva o livro até para o chuveiro. A história de Amy e Nick narrada ora por um e ora por outro, em capítulos alternados, conseguiu a proeza de me prender desde o início, a partir da página cinquenta eu já estava entregue e à medida que lia me envolvia mais e mais.

Amy é a garota exemplar, foi feita de objeto pelos pais psicólogos que publicaram livros contanto sua vida e expuseram sua infância e adolescência para uma multidão de aficionados que compravam os livros da série. Amy cresceu e o público perdeu o interesse pelos livros que seus pais escreviam. Nick nasceu minutos antes de sua irmã gêmea Margo e foi mimado, paparicado e embalado pela sua família. Amy e Nick se conhecem, casam-se e vivem suas vidas até que a recessão lhes tira o emprego e a mãe de Nick é diagnosticada com câncer. Nick usa essa desculpa como mote para sair de Nova York e voltar a morar em North Carthage, Missouri, sua cidade natal, o casamento estava desintegrando. No dia do aniversário de cinco anos de casados, bodas de madeira, Amy desaparece e várias evidências apontam Nick como culpado. Mas será que ele assassinou Amy, a garota exemplar? O pior é que ele é um babaca, mente para a polícia, esconde fatos, e só ajuda a incriminar-se ainda mais.

Mas engana-se o leitor que pensar tratar-se de mais um livro de crime e castigo, é muito mais que isso, Amy e Nick são duas mentes doentes em diferentes níveis, precisam um do outro para sentirem-se motivados e atormentados, cada um cumprindo seu papel na frente das câmeras de TV. Por diversas vezes parei de ler completamente estupefato pelo que se revelavam os capítulos. Hoje vivo num mix de emoções: tenho medo da autora, penso nela como uma desequilibrada mental e acho que seu marido devia repensar a relação, mas também estou ansioso para ler seu próximo livro. No fim das contas talvez o louco aqui seja eu.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente à Sala de Arte - Cinema da Ufba
Data: 26/03/2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O BANGALÔ


Numa fase de minha vida que já relatei aqui no blog eu lia qualquer coisa, e quando escrevo as palavras ‘qualquer coisa’ não o faço no sentido pejorativo. Não eram os grandes clássicos, mas livros populares vendidos nas bancas de revista cujo preço eu podia pagar, estou me referindo à série de livros Júlia, Sabrina e Bianca cujas histórias de amor rocambolescas, passadas em castelos, ilhas ou paisagens paradisíacas, variavam sempre entre uma mulher pobre que se apaixonava por um homem rico ou vice versa.

Apesar de achar as narrativas por vezes muito pobres eu gostava de imaginar os autores debruçados em suas máquinas de escrever, único recurso da época ainda sem computadores, transpondo para o papel uma quantidade sem fim de romances ambientados em lugares exóticos, com passagens sofridas e o amor vencendo nos finais. Nesses livros a autoria das histórias não aparecia com o destaque merecido e posso até apostar que eram todos pseudônimos. Eu, canceriano que sou, gosto de um bom romance, mas acima de tudo gosto de uma história bem contada.

É como vejo a escritora Sarah Jio (1978) e seus livros. O Bangalô, que irei abandonar, faz parte de uma evolução das histórias contadas nas séries Júlia, Sabrina e Bianca. Já na capa a editora providencia um verbete que diz “Quanto tempo você está disposto a esperar por sua felicidade?” Agora é só começar a ler a primeira das 314 páginas para deparar-se com um segredo, uma carta recebida que trará recordações mais de cinquenta anos depois de vividas. Uma senhora, Anne, conta para sua neta, Jennifer, o que aconteceu em sua vida quando tinha apenas 21 anos, ia casar-se com um homem bom, tinha a segurança da família em Seattle, mas resolve seguir os passos da melhor amiga Kitty e alistar-se como enfermeira voluntária para a base aliada situada na ilha de Bora Bora durante a Segunda Guerra Mundial.

Chegando à ilha ela vai conhecer uma realidade dura e inóspita durante o período de guerra, mas também conhecerá Westry, um soldado que despertará em Anne sentimentos ainda não vividos dentro de um bangalô escondido numa praia deserta. Idas e vindas, tarefas da guerra, mal entendidos, segredos, traições e o assassinato de uma nativa serão explicados mais de cinquenta anos depois. Os românticos de plantão irão suspirar ao final.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mezanino restaurante Raízes - Shopping Barra
Data: 26/03/2016

domingo, 7 de fevereiro de 2016

GREY


Faz algum tempo que estou aqui parado sem saber o que escrever sobre o livro citado no título deste post e isso é raro de acontecer. Não tenho pretensão de ser a nova Mãe Dináh ou tão famoso quanto Walter Mercado, mas escrevi aqui no blog em junho de 2014, no post ‘Cinquenta Tons de Liberdade’ que era bem provável que a escritora E. L. James (1963) ainda abocanhasse uns trocados lançando a versão de Cristian Grey para a saga Cinquenta Tons, no último livro havia um capítulo inteiro com a versão dele para o primeiro encontro com Anastacia Steele. E não é que dois anos depois lá está ele nas livrarias com todo o alarde que a editora pôde pagar para o lançamento.

É óbvio que ninguém me obrigou a ler o livro, muito menos a compra-lo, mas quem me conhece sabe que eu não ia resistir à curiosidade de ler o que ainda poderia render da história de amor e fantasias BDSM soft sob a perspectiva de Christian Gray. Nos três livros da série li sobre todas as inseguranças, questionamentos e devaneios românticos de Anastacia, o Christian aparecia nos diálogos, e-mails, SMS, e nas ações que ambos faziam juntos. Nesse novo volume eu li sobre todas as inseguranças, questionamentos e devaneios antirromânticos que o Christian viveu nos momentos que não estavam juntos e Anastacia tem voz somente nos e-mails, mensagens de SMS e nos diálogos copiados do primeiro livro.

Pelo menos para mim esse livro serviu para mostrar o quanto Grey é doente, uma alma atormentada, prepotente disfarçado e bom moço com suas ações para abrandar a fome mundial ou a ajuda que proporciona aos poucos eleitos do seu séquito de empregados. Mesmo vestindo essa capa sedutora de luxos e benesses que o dinheiro pode comprar Grey se mostra extremamente machista, possessivo, subjugando a mulher como objeto de prazer sexual.  Na minha mais modesta opinião nem seu passado obscuro justifica esses atos. Fantasias sexuais todos nós temos, é uma forma de amainar o entediante “sexo baunilha”, mas imprimir dor na pessoa amada e sentir prazer com isso deve ser passível de tratamento.

Acredito que E. L. James trabalhou muito para escrever esse volume e a ideia é boa, contar a mesma história sob a ótica de outro personagem, ser fiel à primeira obra e ainda por cima buscar o ineditismo dos acontecimentos. Confesso que por breves momentos dei algumas risadas com a nova versão, principalmente na relação de Christian com seus fiéis empregados e o comportamento deles face ao atendimento inquestionável dos seus desejos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Passeio Público - banco próximo à entrada do Teatro Vila Velha
Data: 25/03/2016

domingo, 31 de janeiro de 2016

AS ESPIÃS DO DIA D


Fico tão feliz quando leio um bom livro que às vezes me pego sabotando a leitura para que o livro não acabe e ao mesmo tempo quero ler rápido para saber como vai terminar a história. Parece contraditório e realmente o é, sou acometido por uma ansiedade boa e fecho o livro nas horas mais impactantes para, em seguida, abrir novamente e seguir devorando as palavras com os olhos. A leitura de As Espiãs do Dia D aconteceu exatamente como expliquei acima. Ganhei de presente no ano passado e como leio imediatamente a orelha de qualquer livro que me caia às mãos, o tema Segunda Guerra Mundial me pareceu déjà vu com outra obra do Ken Follett (1949), O Buraco da Agulha, que li nos anos 1980.

Por isso o livro acabou ficando na estante por uns bons meses até que tia Liane me ligou pedindo emprestado algo para ler, ela sempre faz isso e deixa a escolha sob meu critério. Como já sei que gosta dos romances e de preferência com personagens femininos fortes, bastou olhar a estante para escolher As Espiãs, mas fiquei impressionado quando ela me devolveu, quatro dias depois, dizendo que não conseguiu parar de ler. Minha curiosidade foi despertada e eu coloquei o livro no primeiro lugar da fila. Não me arrependi.

Ken Follett conquistou seus fãs com um estilo absolutamente avassalador de escrever, a grande maioria de suas obras possui a temática da guerra, com doses de espionagem e um pouco de romance para apimentar a história que, quase sempre, usa fatos históricos como pano de fundo. É às vésperas do Dia D que os destinos de Felicity Clairet, ou Flick como todos a chamam, e Dieter Frank se cruzam. Ela é Major da Executiva de Operações Especiais do exército britânico, uma mulher lutadora, bonita, bem treinada, capaz de pensar rápido e escapar quase ilesa do perigo iminente nas operações de resistência face à fúria expansionista do Terceiro Reich. Dieter é General do Exército Alemão, extremamente sagaz e exímio torturador de soldados inimigos, não se furta a torturar também civis se perceber que pode tirar proveito disso para o bem de Hitler e da Alemanha. Flick e Dieter travarão uma luta de inteligência e perspicácia que vai culminar num final de tirar o fôlego.

O que mais admiro na escrita de Ken Follett é que, mesmo usando fatos históricos como ambientação da obra e todos já sabendo como esses fatos aconteceram, a narrativa é tão interessante quanto se fosse cem por cento inventada.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escada lateral do casarão do Museu Palacete das Artes
Data: 25/03/2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

DESAPARECIDO PARA SEMPRE


Quando gosto de um autor quero que todo mundo o leia, e como não sou um déspota a palavra ‘quero’ que escrevi antes fica, no máximo, com o contexto de recomendo. Por isso abandono os livros, é uma forma de compartilhar e levar para algum desconhecido o gostinho pela literatura e quem sabe fazê-lo despertar para outros livros. Quando gosto de um autor fico com aquela ansiedade boa para ler toda a sua obra, foi assim com a Marguerite Yourcenar, Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado, Sidney Sheldon, Nelson Motta, Dan Brown, John Green, dentre outros, e agora está acontecendo com o Harlan Coben (1962).

Esse foi o quarto livro que li do autor e por coincidência também é o quarto livro da sua fase ‘independente’. Harlan escreveu os livros Play Dead e Miracle Cure, que eu saiba ainda não lançados no Brasil, antes de se dedicar à série de livros de suspense com o personagem Myron Bolitar, seria uma espécie de Hercule Poirot se eu o estivesse comparando com a autora Agatha Christie. Foi um hiato de dez anos dedicados a essa série até o retorno aos independentes com o ótimo Não Conte a Ninguém, já comentado aqui no blog.

Desaparecido para Sempre é a história de dois irmãos, Will e Ken, este último desaparecido e dado como morto desde que fugiu da cena do assassinato da jovem Julie Miller, ex-namorada de Will. A história começa onze anos depois, Will refez a vida, trabalha numa instituição que retira jovens das ruas e está apaixonado por Sheila Rogers, uma voluntária da instituição. Tudo muda quando, antes de falecer, a mãe deles revela a Will que seu irmão está vivo. No dia seguinte Sheila desaparece e logo depois é encontrada às margens de uma estrada, foi assassinada com requintes de tortura. Amigos de infância, gângsteres, matadores profissionais e até o FBI estão atrás de Will, todos supõem que ele é o elo de ligação para tudo que está acontecendo.

Não sei se este é o melhor livro do Harlan Coben, tive que vencer as cem primeiras páginas para começar a ler compulsivamente, mas não posso deixar de reconhecer que é uma grande história, cheia de reviravoltas, com vilões verossímeis apesar de quase caricatos, um final inesperado e muito bem amarrado. Ainda assim é um desses livros que você lê e se esquece de almoçar, recomeça à tarde e quando percebe já está escuro, e se vai ler antes de dormir não pensa que no dia seguinte vai ter que acordar cedo para trabalhar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio interno do Mercado Modelo
Data: 20/02/2016

domingo, 17 de janeiro de 2016

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES


Considero a década de 1980 como e época mais fértil das minhas leituras. Foi quando comecei a trabalhar e amargava boas horas dentro do ônibus que me levava e trazia do trabalho. Nessa época me acostumei a ler com o coletivo em movimento, mas dependia de ter acentos livres. Quando a empresa que eu trabalhava passou a oferecer ônibus fretado o hábito se intensificou, eram pelo menos três horas de leitura diária que compreendia o trajeto de ida e volta, muitos colegas dormiam e eu aproveitava o silêncio como se estivesse numa biblioteca. Durante quatro anos usei esse tempo para ler quase todos os livros das coleções que a Editora Abril lançava quinzenalmente nas bancas de revista.

Eram coleções formadas basicamente por grandes obras da literatura nacional e estrangeira, impressos em papel “inferior” os livros eram bem mais baratos que os encontrados nas livrarias. Sorte a minha que pude ler obras primas sem pagar muito, uma delas foi O Morro dos Ventos Uivantes, um clássico da literatura inglesa escrito por Emily Brontë (1818-1848) com pseudônimo de Ellis Bell. O livro foi lançado em 1847, mas só chegou ao Brasil por volta de 1940, até os dias de hoje foram muitas edições e também adaptações para o cinema e a TV. Nos dias de hoje é uma obra quase esquecida assim como foi a vida da sua autora, uma mulher extremamente tímida que vivia reclusa e morreu de tuberculose aos trinta anos sem provar o gosto do sucesso de seu único livro em prosa.

A história é contada pela governanta Ellen Dean e começa quando o patriarca da família Earnshaw volta de viagem e traz um jovem órfão de procedência não explicada para morar na propriedade de Tcrushcross Grange. O jovem de nome Heathcliff desperta a afeição da filha Catherine e ao mesmo tempo um ciúme doentio do filho Hindley por achar que o pai gostava mais do intruso que do próprio filho legítimo. Com a morte do Sr. e Sra. Earnshaw, Hindley passa a tratar Heathcliff como um criado, humilhando-o e castigando-o. Catherine e Heathcliff se apaixonam, mas ela decide casar-se com outro temendo que o jovem não consiga sustenta-la como está acostumada e isso faz com que Heathcliff abandone a propriedade. Anos mais tarde ele volta rico e disposto a vingar-se de todos que o humilharam, essa vingança irá se arrastar por três gerações.

O livro é tão rico em detalhes e por vezes tão sombrio e violento, com descrições precisas sobre a alma dos personagens, que fica difícil acreditar que foi escrito por uma mulher tão solitária e introspectiva. Li um texto que Charlote Brontë escreveu sobre a irmã Emily: “Embora seus sentimentos pelos que a cercavam fossem benevolentes, relações com eles ela nunca procurou, nem, com poucas exceções, as experimentou. E mesmo assim ela os conhecia: sabia seus costumes, sua linguagem e a história de suas famílias. Podia ouvir sobre eles com interesse, e falar deles com detalhes, porém, com eles, raramente trocou uma palavra.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sorveteria do Porto da Barra
Data: 20/02/2016

domingo, 10 de janeiro de 2016

ORFEU DA CONCEIÇÃO


Comecei recentemente a fazer uma pesquisa de textos escritos para o teatro musical quando achei na minha estante esse requinte publicado pelo Vinicius de Morais (1913-1980) cuja obra eu foi pouco citada aqui no blog. Temos o hábito simplista de ligar o Vinicius à música ou à poesia e esquecemos sua faceta de jornalista e escritor, o que é uma injustiça com a universalidade de suas obras. Em se tratando de um artista tão completo Orfeu da Conceição nasceu para ser peça de teatro, foi publicado em livro, acabou inspirando um filme e posteriormente virou um disco com canções memoráveis.

Orfeu é uma das mais lidas e encenadas obras da mitologia grega. Já Orfeu da Conceição faz parte da tragédia carioca, ambientada numa favela traz para o grande público o universo de um compositor que perde sua musa e se rende à dor. Num feriado de carnaval a história de amor entre Orfeu e Eurídice tem um final trágico, o sambista que vive no morro é filho de pai músico e mãe lavadeira. A paixão que os une desperta o ciúme doentio de Mira, ex-namorada de Orfeu que influencia Aristeu, apaixonado por Eurídice, a matá-la.

No exemplar que pretendo abandonar há um detalhe bem bacana na obra que é a cifra de todas as músicas compostas para o espetáculo, para quem sabe tocar violão é a oportunidade de cantar enquanto lê a obra. As músicas de Vinícius, estreando a parceira com Tom Jobim, são imortais: Se Todos Fossem Iguais a Você, Lamento no Morro, Um Nome de Mulher, Eu e o Meu Amor, etc, são canções que faziam parte do LP lançado posteriormente à obra e estão imortalizadas.

Algumas curiosidades sobre a peça musical é que o cenário foi feito pelo Oscar Niemeyer e a estreia foi em setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no elenco estava Abdias Nascimento, Haroldo Costa, Ademar Pereira da Silva e Ruth de Souza, dentre outros. Era a primeira vez que atores negros pisavam o palco do Teatro Municipal. O elenco composto por atores negros foi exigência do próprio Vinícius, como está escrito na sua biografia: “Todas as personagens da tragédia devem ser normalmente representadas por atores da raça negra, não importando isto em que não possa ser, eventualmente, encenada com atores brancos.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da praça em frente ao restaurante Coco Bahia
Data: 13/02/2016

domingo, 3 de janeiro de 2016

DICIONÁRIO DE BAIANÊS


Gostaria de começar o ano com um pouco de bairrismo e afirmação da minha baianidade nagô, quando escrevi sobre o almanaque Mofolândia declarei aqui no blog meu gosto pessoal por dicionários e enumerei alguns que tenho em casa. Dentre eles não poderia faltar o Dicionário de Baianês, pesquisado, divulgado e já algumas vezes revisado pelo Nivaldo Lariú, grande pesquisador da cultura baiana. Cabe alertar aos leigos que em Salvador/BA fala-se português como em todo o território nacional e o dito “Baianês” é fruto da variação dialética do português culto, que é a língua oficial do Brasil, onde se insere o sotaque baiano na emissão dos fonemas e as gírias faladas nas ruas.

Vou dar um exemplo que li outro dia sobre a evolução do tratamento clássico ‘Vossa Mercê’ que vem do português culto, ou arcaico como alguns já o denominam. Os escravos e as pessoas pouco alfabetizadas transformaram a expressão ‘Vossa Mercê’ em ‘Vosmissê’, que posteriormente foi adotado por todos por ser de mais fácil dicção. A partir daí foi adaptado para a forma mais comum: ‘Você’, que ganhou uma variação simplória para ‘Cê’ e, atualmente na linguagem da internet, escreve-se somente ‘vc’.

Vejam o caso da expressão “Vamos embora”; ela foi modificada pelo Baianês para ‘Vumbora’, que posteriormente foi cortada e surgiu a gíria ‘Bora’ e esta por sua vez já foi simplificada para ‘Bó’. Daí ganhou uma versão mais cheia de malemolência e criatividade do baiano que é ‘Borimbora’, adaptada de ‘Vumbora embora’, quase um pleonasmo. Mesmo sendo nativo dessa terra por vezes ouço diálogos que não entendo o linguajar, isso também acontecia em São Paulo e também quando me reunia com os amigos gaúchos, todos os lugares acabam por criar expressões regionais que só enriquecem nosso vocabulário.

Para dar um gostinho vou citar algumas expressões contidas no dicionário:

Comer água – beber com amigos, com sentido de comemorar.

Dei um ninja – escapei de um compromisso ou algo desagradável.

Vai chorar, é? – quando alguém fica cheio de explicações sobre alguma coisa que aconteceu. Ex: time do Bahia perde o jogo e o torcedor fala que o time perdeu porque estava sem os titulares e o que o juiz roubou, etc. Quem está ouvindo esse monte de desculpas diz: "vai chorar, é?"

Larga o doce – desembucha, fala logo.

A ideia do Nivaldo Lariú é pura diversão, se você é baiano vai rir bastante com suas próprias gags, mas se você é turista saberá por que o baiano é tão ‘gente boa’.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Pereira (varanda)
Data: 02/02/2016