domingo, 28 de dezembro de 2014

TODO VÍCIOS


Ganhei esse livro de presente na noite de Natal e confesso que o li em dois dias tamanha a curiosidade que se apoderou de mim frente às histórias de João e Stella, personagens do novo livro de Maitê Proença (1958). Eu já havia abandonado outro livro dela, Uma Vida Inventada, veja o post publicado em julho de 2012, do qual gostei muito e essa sua faceta de escritora a cada dia me agrada mais.

Neste livro não existe uma trama. Os personagens João, um publicitário que já passou dos cinquenta anos, feioso, viciado em remédios reguladores de humor, e Stella, uma mulher madura, atriz, escultora, muito bonita e viciada em relacionamentos difíceis, são o protótipo dos casais atuais. Eles vivem se falando pelo celular já que o João foge da intimidade do telefone ou de encontros pessoais, o sexo entre eles é meio insosso, e pelo fato de escrever muito bem ele se safa em conversas bem humoradas e inteligentes. Stella por sua vez não consegue deixar de mergulhar nesse relacionamento, ela tem uma personalidade meio doentia ou não cairia nessa armadilha de desamor.

Isso me chamou a atenção, o desamor, os personagens dessa história não são o fator primordial do livro. O que eles fazem profissionalmente, suas famílias, seus bens, nada disso, seus sentimentos é que me interessaram, a forma como cada um se expressa e pensa é o grande trunfo do livro de Maitê. Fica claro logo nos primeiros capítulos que há pinceladas de experiências pessoais nos relatos e essa composição de humanidade tão próxima e tão atual me pegou de jeito. É uma relação improvável e confusa, de pessoas imersas em pensamentos e voltadas para o mundo virtual com uma falsa sensação de vida exuberante e feliz.

Vou abandonar esse livro para compartilhar rapidamente as sensações e tomara que quem o ache consiga trazer para si uma luz no fim desse túnel de relacionamentos. Boa leitura.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça de Alimentação em frente ao Baby Beef Express
Data: 08/02/2015

domingo, 21 de dezembro de 2014

SETE ANOS


O ano era 2007 quando Fernanda Torres (1965) recebeu um convite do Mario Sergio Conti para escrever um artigo para a recém-lançada revista piauí sobre o medo do ator de estar em cena. Ao ler esse texto na revista intitulado “No dorso instável de um tigre” a editora Cristina Grillo sentiu que dava um caldo e convidou-a para escrever uma coluna quinzenal na revista Veja Rio. Aceito o convite da Veja Rio e vários outros textos escritos para a piauí, em 2010 o sempre atento Sérgio Dávila propôs que ela abordasse o assunto eleições em uma coluna para o caderno Poder, do jornal Folha de S.Paulo. Convite aceito lá estava Fernanda Torres lançada aos leitores em diversas facetas.

Na apresentação Fernanda justifica o livro e título escolhido escrevendo: “as crônicas aqui reunidas foram escritas ao longo de sete anos e contam a história do meu noviciado. Desenvolver uma ideia dentro de um espaço determinado de linhas, falar de temas de interesse comum sem abrir mão do tom pessoal e dar valor à concisão são algumas lições que tomei do jornalismo.”

É óbvio que o lançamento vem na aba do sucesso de FIM. Já escrevi sobre ele aqui no blog em fevereiro desse ano, e é uma oportunidade de conhecer mais o pensamento da autora sobre outros assuntos que fogem completamente da ficção, tem um que de diário de bordo, é bem humorado e para quem gosta de bastidores é um deleite. E você ainda pode decidir a ordem de leitura subvertendo completamente a ordem meio que por assunto imposta pela editora.

Na minha mais humilde opinião recomendo a leitura do livro sem criar expectativas. Principalmente se você já leu FIM. Se não o leu então inverta a ordem de publicação e leia Sete Anos primeiro. Você vai se acostumar com o estilo de escrever e o humor fino de Fernanda e quando for ler FIM vai gargalhar. Eu recomendo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Perini - Graça
Data: 01/02/2015

domingo, 14 de dezembro de 2014

A SANGUE FRIO


No início do ano perdemos o ator Philip Seymour Hoffman (1967-2014), não por acaso porque não acredito em coincidências esta semana eu assisti pela terceira vez o filme Capote, do qual gosto imensamente, cuja interpretação do personagem título Philip arrebatou o Oscar de Melhor Ator em 2005. Do filme fui para o livro A Sangue Frio, o mais célebre da carreira de Truman Capote (1924-1984) e que inaugurou uma até então inédita classificação na literatura ‘Romance de Não-Ficção’.

Em setembro de 1965 a revista The New Yorker publicou o último dos quatro capítulos sobre o assassinato da família Clutter com recordes de venda, a história toda em formato de livro só seria publicada um ano depois. Os Clutter foram mortos com tiros de espingarda, depois de amarrados e amordaçados, Herb Clutter, o pai, Bonnie Clutter, a mãe, e os filhos Kenyon e Nancy eram muito queridos na pacata cidade de Holcomb, estado do Kansas, e o motivo dos crimes era uma incógnita uma vez que só foi levado da casa um rádio, um par de binóculos e quarenta dólares.

Poucos meses depois Richard Hickock e Perry Smith foram presos pela chacina e logo depois condenados à morte. A sentença foi cumprida em 1965 por enforcamento. Truman Capote tomou conhecimento do caso por uma nota no jornal e resolveu investigar o caso. Um mês depois dos crimes já estava na cidade e entrevistou moradores e familiares das vítimas. Com a apresentação dos assassinos foi mais fundo, recolheu documentos oficiais, leu diários, conheceu os familiares e conseguiu entrevista-los. Toda essa ação durou seis anos, tempo suficiente para que Truman ficasse íntimo dos condenados, principalmente Perry Smith cujos depoimentos revelam uma tamanha proximidade que há indícios que eles tenham tido um relacionamento amoroso até a data da sentença. Truman assistiu ao enforcamento dos assassinos.

Por não ser uma reportagem houve quem duvidasse de alguns relatos e de várias passagens descritas na história acusando Truman de romanceá-las demais, mas há de se dar o devido crédito pela reconstituição dos perfis psicológicos das vítimas e de seus algozes. O livro, claro, é muito mais rico que o filme. E este tem a seu favor o talento inigualável de Philip Seymour Hoffman.

Leia o livro e veja o filme, na minha mais humilde opinião, necessariamente nessa ordem.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Campo Grande - Parquinho
Data: 10/01/2015

domingo, 7 de dezembro de 2014

WILL & WILL - UM NOME, UM DESTINO


Toda Vez que vou abandonar um livro do John Green (1977) fico na dúvida se devo fazê-lo ou não. O primeiro livro dele que abandonei foi A Culpa É das Estrelas e já faz algum tempo, foi em novembro de 2012. Li esse livro duas vezes e presenteei amigos antes dele ficar ‘famosinho’ e virar filme em 2014. Depois escrevi sobre outro livro: Teorema Katherine, que John havia escrito seis anos antes. Desde 2012 venho lendo obras anteriores do autor, já que não houve nada de novo posterior ao grande sucesso editorial e cinematográfico de A Culpa... E cada vez me surpreendo com o jeito de escrever e o estilo bem peculiar do autor de colocar frases e pensamentos na boca de adolescentes de maneira tão bem humorada e verdadeira.


A bola da vez é Will & Will, que na tradução brasileira ainda ganhou o subtítulo; Um nome, Um destino. De todos os livros do John Green que já li esse é o mais gay, entretanto é quase um gay idealizado para um mundo perfeito. A homossexualidade é tratada de forma normalíssima, até no ambiente escolar, com uma ou outra raríssima cara feia. E se estou usando todos esses superlativos é porque sei bem o que estou dizendo.

No livro fica bem claro quando estamos lendo separadamente a história de cada um dos Will Grayson e sua forma de encarar a vida. Ambos tem problemas em arranjar amigos, e nesse assunto tanto o Will Gayson hétero quanto o Will Gayson homo padecem de formas diferentes, o Will hétero tem um enorme amigo, com mais de 100 quilos e é o aluno mais gay da escola. O Will homo tem uma tendência depressiva e sua baixa autoestima deixa que sua melhor amiga Maura o puxe ainda mais pra baixo.

A vida de ambos será ligada pelo destino, coisas que acontecem e fazem com que as pessoas se conheçam. O amigo gay do Will héreto, Tiny Cooper, será o protagonista do livro. Será ele quem vai unir esses dois Will’s de forma tão intensa e para o bem. O livro parece uma daquelas comédias quase românticas que passarão um dia na Sessão da Tarde, um mix de jovialidade, vida escolar, relacionamento com os pais, os amigos, o primeiro amor e, claro, um musical para dar vazão aos talentos de jovens atores e justificar a união de todos para um final feliz.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Rio Vermelho - Escada do mezanino
Data: 10/01/2015

domingo, 30 de novembro de 2014

DROPS DE ABRIL


Ao fazer uma pesquisa no Google sobre o Paulo Leminski para escrever o post da semana passada me deparei com uma frase atribuída a ele sobre outro poeta, Ricardo de Carvalho Duarte (1951), ou como muitos o conhecem desde os quinze anos de idade, Chacal. A fase atribuída ao Leminski dizia: “A palavra lúdico é a chave para a poesia de Chacal.”

Isso ficou martelando na minha cabeça por dois dias e então numa quarta feira de folga noturna, sim, folga noturna, eu trabalho nos três turnos, fui até a estante e achei um livro bem bacana desse poeta e mergulhei na sua obra para saber se o Leminski tinha razão. Até hoje não sei se foi ele quem proferiu tal frase já que a internet é que nem papel em branco e aceita qualquer coisa sem reclamar. Mas uma coisa eu posso lhe garantir caro leitor, a palavra lúdico é realmente a chave para entender a mente desse autor.

Na apresentação do livro feita pelo próprio autor tem uma justificativa para o título que diz: “Esse drops é um voo de reconhecimento da minha gíria de poeta. Anos 70. Nacos de 80. São relatos de minha trip pelo planeta. Onda. Ele podia se chamar ‘Sexo, drogas e rock and roll’, santíssima trindade da rapaziada nesses redemoinhos urbanos. Ou então ‘Xadrez Chinês’, artifícios da palavra no tabuleiro de papel. Mas ficou mesmo ‘Drops de Abril’, pelo que tem de ácido e mel.” Na minha mais humilde opinião isso resume tudo e nas próximas 104 páginas eu tive essa sensação do ácido no sentido do sarcástico, do acido no sentido lisérgico, e provei do mel no seu lado lúdico de ser.

Sinta o poema abaixo.

Rápido e rasteiro

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida.

Acho que o mundo está precisando de mais poesia.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Farol da Barra
Data: 03/01/2015

domingo, 23 de novembro de 2014

CAPRICHOS & RELAXOS


Ando meio sem tempo para ler. A frase anterior me doeu muito para escrever e quando pensei nisso outro dia fiquei ainda mais dolorido, uma dor veio do coração e não sei se era dor física ou aquela dor na alma. A constatação que fiz é fruto do excesso de trabalhos nas mais diversas vertentes que ando me propondo a fazer. Recentemente coloquei na mochila livros de poesia, já que posso ler em pequenas pílulas sem perder o enredo caso seja interrompido.

E foi justamente por isso que joguei mochila adentro um livro publicado ano passado com a obra de Paulo Leminski (1944-1999) e venho me deliciando com seu bom humor, sua requintada e intrincada verte linguística para construir versos que parecem palavras soltas, mas que não o são.

Daí querer abandonar um livro bem bacana chamado Caprichos & Relaxos que li pela primeira vez em maio de 1986 nas várias formas recomendadas pelo autor. A decisão é sua sobre a forma de ler o livro, assim com a ordem da leitura. Ele nos diz:

“Aqui, poemas para lerem, em silêncio, o olho, o coração e a inteligência. Poemas para dizer, em voz alta. E poemas, letras, lyrics, para cantar. Quais, quais, é com você, parceiro.”

E se você tem mais de quarenta anos e pensa: “Nunca li nada desse cara” te digo que se não leu, ouviu, e muito, poemas maravilhosos desse curitibano faixa preta de judô. A começar pela música ‘Verdura’ gravada por Caetano Veloso no LP Outras Palavras, você provavelmente cantou em altos brados ‘Mudança de Estação’ junto com o grupo A Cor do Som, e ouviu até enjoar a música ‘Promessas Demais’ na voz de Ney Matogrosso durante a exibição da novela Paraíso da Rede Globo, e por aí vai.

Paulo Leminiski, ou só Leminski como preferia ser chamado, tem uma obra incrível. Comece agora, leia um poema dele e enriqueça o seu dia.

Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Farol da Barra
Data: 02/01/2015

domingo, 16 de novembro de 2014

A CASA DE BERNARDA ALBA


Todo mundo sabe, ou pelo menos aqueles que convivem comigo, do meu apreço pelo teatro. Desde garoto quando meu pai nos levava ao cinema nos domingos pela manhã para assistir ao Festival Tom e Jerry, e esses momentos eram raros, eu ficava fascinado com aquela sala escura e a ‘tela de televisão’ tão grande. Mais tarde essa tarefa de me levar ao cinema foi entregue ao meu avô José Arlindo, homem rústico que morava no interior, mas deleitava-se com a sétima arte sempre que passava uns dias na capital baiana.

O teatro eu descobri participando das apresentações de fim de ano na escola N. S. do Carmo da queridíssima diretora Olga Mettig, onde estudei até a terceira série. Mas só bem mais tarde eu fui fisgado definitivamente por esse ambiente escuro, parecido com o cinema, mas onde as coisas acontecem ao vivo. Não sou ator, longe disso, mas me considero um “rato de teatro” porque estou sempre ligado a ele de alguma forma, seja lendo e assistindo, me considero um leitor expectador.

Estava ontem à tarde passando os olhos pela minha estante de dei de cara com o exemplar da coleção Biblioteca de Ouro, e o texto era A Casa de Bernarda Alba. Frederico Garcia Lorca (1898-1936) foi um grande poeta e dramaturgo, a Casa de Bernarda Alba é o terceiro texto do que chamam de trilogia que começa com Bodas de Sangue e depois segue com Yerma. Tive a sorte de assistir montagens baianas dos três textos, mas A Casa tem algo especial porque foi encenada dentro da capela que fica no Solar do Unhão, era a primeira vez que eu assistia a uma peça de teatro fora do teatro.

A personagem central é uma matriarca tirana e dominadora que mantem as cinco filhas: Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela sob uma vigilância implacável. Com a morte do seu segundo marido Bernarda decreta luto fechado para ela e as filhas por oito anos, isso significava reclusão total com janelas e portas lacradas. Durante o luto uma disputa cruel e perigosa se estabelece entre a filha mais velha, a filha do meio e a mais nova, todas estão apaixonadas pelo mesmo homem, o galanteador das redondezas chamado Pepe Romano. Assim como nos outros textos da trilogia uma consequência trágica se abaterá por causa desse amor tão disputado.

Há quem diga que Frederico inspirou-se em uma história real para compor os personagens e o desfecho da peça, mas são especulações, jamais saberemos a verdade. Só nos resta ler e deliciar-se com a sua obra.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pereira Café - Shopping Barra
Data: 27/12/2014

domingo, 9 de novembro de 2014

A MORTE DO GOURMET


Da mesma autora eu li A Elegância do Ouriço, um dos meus livros prediletos de 2014. A Morte do Gourmet foi escrito oito antes. O mais interessante de ler a obra de um autor, no caso Muriel Barbery (1969), de forma reversa é descobrir que alguma coisa no livro mais recente já estava presente no livro anterior, só que com mais brilho. A Elegância do Ouriço é um livro melhor, na minha mais humilde opinião estará sempre nas listas de livros para ler antes de morrer. Entretanto A Morte do Gourmet funciona como um trampolim para uma ousada narrativa e o start para um estilo único e próprio da autora.

Em seu leito de morte o grande crítico gastronômico Pierre Arthens está obcecado em não partir sem antes lembrar-se de um determinado sabor, aquele sabor que o enfeitiçara para ser o que é hoje. Com esse mote a autora irá nos conduzir pelas lembranças do moribundo desde sua infância quando as artes culinárias da avó despertaram seu paladar. Começando pelos suculentos tomates colhidos na horta da casa de sua tia, daí vamos para o pãozinho crocante, a maionese caseira, a descoberta da comida japonesa, uma simples sardinha frita, o rasgar do primeiro gole do uísque, o inesquecível sobet de laranja, o aveludado erótico que envolve a deglutição de uma ostra. São capítulos que nos fazem salivar.

Mas há do lado de fora do quarto onde Pierre agoniza vozes dissonantes. Sua vida pessoal não é um mar de rosas e a autora enxerta entre um devaneio culinário e outro os depoimentos da esposa, filhos, amantes, discípulos, empregados que cercam, ou cercaram, a vida quase egoísta desse homem que tudo sacrificou pelos prazeres da boa mesa. Alguns sentirão sua falta e outros estão torcendo para que se vá o mais rápido possível.

Ao terminar o livro fiquei com a mesma sensação do personagem principal: qual o sabor da minha infância que gostaria de reviver? E aí me deixei inundar por uma enxurrada de lembranças, desde o sapoti colhido na árvore centenária do quintal de minha avó, do bolo que minha mãe fazia com uma cobertura de brigadeiro tão espessa que meu pai chamava de ‘bolo asfalto’, da sopa de feijão de Jana nossa empregada na infância, da salada de camarão com manga que tia Liane faz em ocasiões especiais, do beiju com manteiga e açúcar que minha avó fazia quando chegávamos em São Gonçalo, e por aí vai.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Amor aos Pedaços - Salvador Shopping
Data: 21/12/2014

domingo, 2 de novembro de 2014

O MENINO MALUQUINHO


Na semana passada fui ao teatro. Aqueles que me conhecem pessoalmente devem estar dizendo: grande novidade! E é mesmo em se tratando de teatro infantil. Como não tenho filhos e meus sobrinhos estão crescidos demais para isso, fico aguardando a oportunidade de levar meus sobrinhos netos para desfrutar desse encantamento. O teatro infantil é encantamento.  Só trabalhei com crianças uma única vez nos anos 1990 na peça Potato Pum cujo texto de Aninha Franco contava a história de uma batata inconformada por estar na feira, ela queria ser chique e desfrutar do ar condicionado das gondolas dos supermercados e da companhia de rabanetes e aspargos. Quem interpretava a batata era a atriz Cristiane Mendonça, eu a conhecia pouco, mas em questão de dias nos tornamos amigos de infância.

A peça que assisti na semana passada chama-se O Circo de Só Ler e conta a história de um garoto viciado em joguinhos eletrônicos, mas que não sabe ler. Até a chegada do circo e seus personagens atrapalhados que, não só o alfabetiza, mas lhe ensina o quanto o livro é capaz de ampliar horizontes através da imaginação. Outra vez Cristiane Mendonça surpreende e cativa a atenção dos meninos e meninas hiperativos da plateia interpretando o Livro Encantado que conduzirá o menino a mundo inimagináveis.

Num certo momento há uma música que fala sobre dar livros de presente e o quanto é bom receber livros, uma pilha deles chega até às mãos do ator mirim e percebi que entre eles está uma edição em capa dura de O Menino Maluquinho, um livro maravilhoso escrito pelo genial Ziraldo (1932). Confesso a vocês que me emocionei e peço perdão se soar “bufão” demais, mas parecia que eu já tinha vivido aquela cena.

O livro, que já foi adaptado para o teatro, cinema, quadrinhos e série de TV, foi escrito em 1980. Eu já era grandinho quando o li pela primeira vez. Estava na sala de espera da clínica odontológica aguardando para ser atendido quando fucei uma pilha de revistas e lá estava ele no meio de outros livros para crianças. Fiquei enternecido com aquele personagem tão travesso, que aprontava mil e uma confusões, era a alegria da casa e liderava as brincadeiras com os amigos. Era nota dez nas matérias e sempre ganhava um zero no quesito comportamento. Com sua panela na cabeça desbravava o mundo e por isso era chamado de Menino Maluquinho. Depois de ler a última página fechei o livro e pensei – esse garoto não tem nada de maluquinho, é somente um menino feliz.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Foyer do Teatro Castro Alves
Data: 21/12/2014

domingo, 26 de outubro de 2014

O LADO BOM DA VIDA


Sempre que surge um filme baseado em uma obra literária eu o renego até conseguir ler o livro. Esse comportamento pode parecer estranho, mas, como bem o disse Caetano na música Vaca Profana, “De perto ninguém é normal”, exerço meu direito de ser maluco beleza em várias situações. Às vezes me dou bem mal, como foi o caso de O Diabo Veste Prada cujo livro era bem chato e o filme é daqueles que se eu estiver zapeando pelos canais e estiver passando paro tudo e assisto de onde estiver.

Não foi o caso de O Lado Bom da Vida. Primeiro livro de Matthew Quick (1976) quando foi lançado em 2008 rejeitei o título por achar que era mais um exemplar dos livros “modinha” autoajuda, daqueles que nos ensina a dar bom dia ao mundo gritando alto na janela quando acordamos ou entrar naquela seara perigosa de achar que tudo tem um lado bom, e que se por acaso você pega um trânsito caótico e se atrasa para um compromisso é porque seu anjo da guarda intercedeu porque se estivesse no horário certo algo de muito ruim aconteceria.

O livro é uma grata surpresa para quem gosta das comédias românticas literárias, ao contrário do filme, apesar do Oscar de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence. Mas tenho de alerta-los de que alguma coisa interessante só vai acontecer depois da página 100. Antes disso o autor da várias voltas com a rotina de Pat Peoples, um ex-professor de 34 anos que acaba de sair de uma instituição psiquiátrica convencido de que passou por lá somente alguns meses, quando na verdade foram anos. Ele tem um bloqueio sobre o que o levou até lá e põe como foco principal de sua vida reconquistar Nikki, sua ex-esposa. Pat é de uma ingenuidade quase infantil, a dificuldade de enfrentar a realidade o torna um viciado em exercícios físicos e é a partir daí que conhece Tiffany, cunhada do seu melhor amigo, que também enfrenta problemas psíquicos com uma forte depressão após perder o marido.

Pat está determinado a reorganizar sua vida porque acredita que ela é um filme produzido por Deus e que ele será o protagonista de um final feliz. Durante toda a leitura Pat me ensinou uma coisa muito importante para os dias de hoje, a pessoa deve educar-se para ‘ser gentil’ ao invés de ‘ter razão’, testei fazê-lo em algumas situações e tenho percebido como podem ser simples os atos de gentileza e quantos problemas podem ser evitados ou minimizados quando você deixa de querer ter razão em tudo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Lounge da Sala DeLux do Shopping Barra
Data: 20/12/2014

domingo, 19 de outubro de 2014

INCULTA E BELA 2


Quando meu amigo Roberto Camargo escreveu o comentário “Viva a Última Flor do Lácio!” no post anterior confesso que dei gargalhadas sozinho na frente do computador e resolvi alterar o texto deste post que já estava pronto. A alteração é para explicar a origem do título do livro Inculta & Bela sobre o qual falei na semana passada. O Roberto, leitor assíduo, sabe que o título é um fragmento do poema ‘Língua Portuguesa’ de Olavo Bilac, publicado em 1914, no qual o autor declara seu amor incondicional à nossa língua. Segue abaixo um trecho específico que por si só já explica tudo.

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

É óbvio que o autor Pasquale Cipro Neto (1954) publicou o segundo volume em 2001 em função do sucesso alcançado pelo primeiro, publicado em 1999. No Inculta & Bela a coletânea de textos foi garimpada na coluna semanal do jornal Folha de São Paulo no período de novembro de 1997 até dezembro de 1998. Já o Inculta e Bela 2 os textos foram retirados do período de janeiro a dezembro de 1999. O mote é o mesmo e consiste em exemplificar a forma correta, ou culta, como preferem alguns, de lidar com a palavra falada ou escrita sem complicar. O foco é torna-la corriqueira, acessível, sedutora, compreensível e adaptada ao vocabulário diário das ruas.

Confesso que sempre achei o aprendizado da gramática muito chato e só comecei a dar o devido valor às sintaxes e aos verbos irregulares quando me apaixonei pela leitura e, já adolescente, comprava cartões de Natal nas Edições Paulinas e escrevia mensagens de próprio punho para a família e os amigos. Era uma saga que começava em meados de novembro e ia até coloca-los como decoração na árvore.

Neste segundo livro o autor perde um pouco do frescor do primeiro, mas ainda é muito sábio em solucionar dúvidas constantes e frequentes em relação à nossa língua portuguesa. E para isso utiliza-se de textos jornalísticos, letras da MPB, trechos de obras literárias e da publicidade, esses os mais engraçados e divertidos. Uma boa leitura para quem não gosta de acompanhar uma história ou enredo por mais de duzentas páginas. Comece a ler Inculta e Bela e você vai se surpreender, e em vários momentos vai rir de si mesmo, tenha certeza disso.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mesa de entrada da doceria Doces Sonhos - Shopping Barra
Data: 14/12/2014

domingo, 12 de outubro de 2014

INCULTA & BELA


Quando morava em São Paulo eu era assinante do jornal Folha de São Paulo, a escolha não se deu ao acaso, assinei um jornal diferente a cada três meses e depois disso me decidi pela Folha. Na época embasei minha decisão em alguns motivos: a Revista da Folha que trazia às sextas feiras todos os eventos culturais que aconteceriam na semana, matérias grandes e consistentes sobre cultura em especial o teatro e a literatura, os colunistas Danuza Leão, Érica Palomino, Zé Simão, Barbara Gancia, Pasquale Cipro Neto, só para citar alguns, e a coluna do ombudsman aos domingos, um profissional contratado para criticar o próprio jornal.

Depois descobri que o grupo Folha também tinha uma editora, a Publifolha, e de lá vieram alguns livros bem bacanas que li nos últimos tempos. Um deles é o livro título deste post, Inculta & Bela, uma coletânea de 61 textos que foram publicados na coluna do Pasquale Cipro Neto (1954) que eu lia avidamente a cada semana. A compra do livro me deu a oportunidade de reler e reaprender de maneira muito divertida algumas ‘pegadinhas’ da nossa língua portuguesa.

Em tempos de predominância absoluta das redes sociais, postar fotos e escrever comentários, julgamentos, opiniões, tornou-se mais essencial ao ser humano nesse início de século que o fato de beber água. No blog do Roberto Camargo há um post intitulado “A Vírgula e a Crase”, publicado no dia 5 de agosto de 2014, ele faz um desabafo sobre o uso da correta pontuação. Nas redes sociais há textos escabrosos e volta e meia quando estou lendo o jornal Correio da Bahia, que assino aqui em Salvador, me deparo com absurdos erros de acentuação e escrita. Sou um velho e tenho pequenas paralisias faciais quando isso acontece e sempre me pergunto se eles não têm corretores ortográficos na redação, ou profissionais de revisão.

Inculta & Bela pode ser lido em qualquer ordem e lá aprendi que não se coloca algo ou alguém em ‘cheque’, e sim ‘em xeque’, que você pode passar despercebido ou desapercebido, tanto faz, e que o correto superlativo de magro é macérrimo e não magérrimo, difícil vai ser falar isso numa mesa de bar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça de alimentação Shopping Barra
Data: 14/12/2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A VIDA SEXUAL DA MULHER FEIA


Quando ganhei de presente do meu amigo Eduardo Prata o exemplar desse livro percebi logo de cara que ele o comprou como um deboche. Na época eu estava bem gordo, autoestima baixíssima, e o título ‘A Vida Sexual da Mulher Feia’ além da foto de capa com uma mulher na cama com um travesseiro na cara, só podia ser uma piada... E era. Por causa disso o livro amargou uns bons meses na estante tomando doses diárias de poeira, poluição e umidade, destino de qualquer livro que fique numa estante da cidade de São Paulo sem o devido manuseio.

Por sorte dele, ou minha, num sábado daqueles bem frios que você desiste de sair por pura preguiça de ter que agasalhar-se até a alma, e quando falo em frio é frio mesmo, de quatro ou cinco graus, não esse “frio” que vivo hoje em Salvador que quando a temperatura cai para 220 e as pessoas se entocam em casa como se fossem feitas de papel crepom capazes de se desfazer caso um único chuvisco às peguem desprevenidas. Pois bem, estava procurando algo para ler e me deparei com o único exemplar de livro que ainda “virgem”. Comecei lendo a orelha escrita por Marcelo Pires, composta por seis parágrafos só de elogios, mas pensei... Quem é Marcelo Pires? Na outra orelha deveria ter uma biografia da autora, Claudia Tajes, mas eram apenas onze linhas, informando que ela é uma escritora gaúcha, nascida em 1963, publicitária e que estreou na literatura em 2000 com o livro ‘Dez Quase Amores’. Como tenho vários amigos gaúchos de quem gosto muito e também nasci em 1963 pensei com meus botões e falei para o livro... Hoje é o seu dia de sorte. Abri a primeira página e dei de cara com o primeiro parágrafo:

“Eu sou aquela que, quando cruza a sala a caminho da xerox ou levanta para pegar café na garrafa térmica, ouve dois colegas do escritório falando em voz supostamente baixa: Entre a Ju e a morte, quem você escolheria?”

Consumi as 132 páginas do livro até o anoitecer. Dividido em cinco sessões intituladas: Apresentação, As teses da mulher feia, O amadurecimento da mulher feia, Breve histórico dos amores da mulher feia e a Conclusão, conheci a personagem de nome Jucianara na certidão, ou Ju para os mais amigos, e toda vez que ela perguntava à mãe qual o motivo do nome esta repetia a mesma frase: “- Não poderia haver nome que combinasse mais com você.”

 Confesso que meu lado malvado até deu umas risadas com as desventuras da nossa heroína. Mas o que era para ser engraçado vibrava em mim de um jeito diferente, como se a autora quisesse arrancar o riso pela miséria alheia e em vários pontos senti pena e até um pouco de remorso por ler a história. No último momento, a Conclusão, que é feito de depoimentos e segundo a autora todos reais enviados através do seu programa de rádio, desmistifica a solidão como uma praga somente de mulheres feias, também para as bonitas a solidão muitas vezes é a melhor escolha.

Você vai ter que ler para saber.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 13/12/2014

domingo, 28 de setembro de 2014

BLECAUT


Na TV tem muita coisa boa e ruim, quem sou eu para avaliar, tenho cá meus prediletos e gosto de zapear e ver coisas que estão passando nos outros trezentos canais. Uma mania pós-invenção do controle remoto e radicalizada após a vinda da TV a cabo. Na minha adolescência isso era impossível de fazer, a não ser que você ficasse ao lado do aparelho girando aquele botão imenso dos canais. Sim, sou desse tempo. O canal Futura não está entre meus favoritos, mas, às segundas feiras eu sempre procuro saber quem o Tony Bellotto vai entrevistar, o programa chama-se Afiando a Língua e faz uma mistura entre músicos compositores e escritores, ou determinados assuntos que compatibilizam música e livros.

Li no jornal que o programa vai comemorar quinze anos no ar e fiquei espantado com o fato de um programa como esse ter vida tão longa com o mesmo apresentador, embora com algumas variantes de conteúdo. Daí fui conferir a programação na internet e dei de cara com um episódio que vai ao ar em 20 de outubro e reunirá Léo Jaime e Marcelo Rubens Paiva (1959). Eu gosto de ambos, mais ainda do Marcelo que ganhou um limão da vida e dele fez uma boa limonada suíça, essa dá mais trabalho que a comum.

Lembro claramente quando assisti no Teatro Augusta à montagem da peça sobre o livro Feliz Ano Velho, que já falei aqui no post homônimo publicado em janeiro de 2012. E depois veio a empolgação pelo seu segundo livro anos depois. Confesso que na época achei a história de Blecaut bem louca, além de completamente e absurdamente inspirada na série Além da Imaginação. São três jovens, Martina, Mário e Rindu, que viajaram para conhecer as cavernas no Vale do Ribeira, eles são surpreendidos por uma tempestade que alaga a caverna e os deixam presos por alguns dias. Quando finalmente as águas do riacho liberam a saída e eles chegam a São Paulo e percebem que todas as pessoas viraram estátua, estão paralisadas, duras como bonecos de cera, e que aparentemente somente eles estão vivos. No princípio é divertido, mas depois vem as dúvidas, as dificuldades, a saudade e à necessidade de sobreviver.

Anos depois quando li Ensaio sobre a Cegueira do José Saramago percebi que o Marcelo já pensava além do seu tempo. Hoje ele dedica-se mais ao teatro, o que é bem bom, mas ando com saudade do seu lado literato.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 13/12/2014

domingo, 21 de setembro de 2014

O CHEF SEM MISTÉRIOS


Eu sou do tipo de pessoa que ama cozinha e tudo que ela pode proporcionar, mas sou tão desastrado que já consegui queimar um Miojo. Não fui sempre assim, houve uma época que até tentei, eu morava em São Paulo e a cozinha do apartamento era toda montada, daí eu me viciei em programas de culinária exibidos pelos canais de TV a cabo e me propus por um tempo comprar ingredientes e transformar receitas escritas em algo comível.

Nessa época o Jamie Oliver (1975) apresentava uma espécie de reality show para transformar jovens pobres em chefes de cozinha. E aqui tenho que confessar que gosto muito desse tipo de programa e não importa muito o tema, se é uma competição que ensina alguma coisa com certeza estarei na frente da TV. Atualmente acompanho tantos que já perdi até a conta: Face Off, Hot Set, Project Runway, Masterchef, e citando alguns nacionais como Cozinheiros em Ação, Desafio da Beleza, The Voice, e até a versão nacional do Masterchef. Classifico-os de ‘Reality de Talentos’, para mim são completamente diferentes do Big Brother ou A Fazenda.

Foi exatamente nessa época que assistia o Jamie na TV e tentava colocar panelas no fogão que comprei o livro O Chef Sem Mistérios. Confesso que o li como se fosse um livro de contos e fiquei deslumbrado com o estilo do autor que fazia tudo parecer prático e fácil, de lambuja ainda dava umas boas dicas de como comprar alimentos, conserva-los, e até aproveitar as sobras ou o que seria jogado no lixo.

Foi uma rica experiência de ler sobre todas aquelas receitas de sopas, saladas, massas, carnes, frutos do mar, molhos, pães e sobremesas. Mas esse talento não é pra mim, continuo usando meu fogão como peça de decoração e saindo para comer fora, ou esquentando congelados no microondas. Espero que o livro do Jamie tenha mais utilidade para quem o achar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Caixa Cultural - Banco da sala de entrada
Data: 13/12/2014

domingo, 14 de setembro de 2014

CONVÉM SONHAR


Você conhece aquela máxima que diz: “Papel em branco aceita qualquer coisa”, coloquei entre aspas porque não fui eu quem inventou essa frase e também por não saber o seu autor. Pois é, eu aplico essa máxima também para a internet, e com isso adultero um pouco a frase inicial dizendo: a internet aceita como verdade qualquer coisa. Estou com isso na cabeça desde que foi publicada a matéria em que se denunciava uma adulteração caluniosa ao perfil da jornalista Miriam Leitão (1953) no Wikipédia.

Ontem eu estava assistindo a reprise da entrevista que a Miriam concedeu à Marília Gabriela, exibida pelo canal GNT, e fiquei ainda mais fã dessa jornalista, escritora, apresentadora. Miriam é tudo isso, possui uma coluna diária no jornal O Globo, escreve para o blog no site do mesmo jornal, atua na rádio CBN, é comentarias de vários telejornais e ainda encontra tempo para escrever livros de ficção, não ficção e infantil. Ufa! Fico aqui pensando quantas horas ela dorme por dia.

Quando a entrevista acabou fui esmiuçar minha estante e achei um livro bem bacana que ela publicou em 2010 que reúne alguns textos já publicados em outras mídias até a época em questão. É um livro de leitura rápida e fácil porque você pode escolher o tema da leitura sem se preocupar com a ordem cronológica. O livro é um retrato do país, sua história, acontecimentos marcantes, política, economia, e não fica por aí, há espaço para questões sociais, raciais, meio ambiente e temas femininos. No fim do livro temos um bloco bacana com escritos de colunas que mais parecem crônicas e é de lá que vem o título do livro.

Convém Sonhar é uma história sobre a educação e as oportunidades que aparecem na vida das pessoas, o jeito de encarar uma chance que pode ser positivo ou negativo. Não à toa ela conta a história de três garotos e um deles ficamos sabendo quase no final que é o seu pai. Confesso que fiquei muito emocionado com o relato e admirei muito essa mulher, que exemplo bacana ela teve em casa e quantas alegrias sentiu justamente no dia que seu pai faleceu.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escadaria Galeria Espaço Xisto
Data: 30/11/2014

domingo, 7 de setembro de 2014

EXÍLIO NA ILHA GRANDE


Li hoje no jornal o resultado de uma enquete sobre o que as pessoas fazem durante o horário político exibido na televisão nesse período que antecede as eleições, o resultado daria margem para grandes estudos sociológicos, filosóficos e humanos: 70% afirmaram mudar de canal para a TV a cabo, 22% afirmaram que desligam a TV e vão fazer outras coisas, apenas 8% alegam assistir à propaganda eleitoral. Isso significa que 92% não estão nem aí para a política deixando que os 8% que assistem, sejam lá por que motivos forem, decidam sobre suas vidas. Na minha humilde opinião, já que estou entre os 92%, está faltando engajamento social, político e humanitário.

Como sou velho e já passei por muitas fases políticas; tinha cinco anos quando houve o golpe de 1968, depois vieram os anos de chumbo, mais tarde passei pela abertura política, as diretas já, o impeachment, as manifestações de 2013 até os black bloc, e me pergunto onde estão essas pessoas? Incluindo-me nisso já que em diversas épocas da minha vida fui bastante politizado.

Fui buscar na minha estante um livro que pode servir a dois pretextos: Exílio na Ilha Grande pode ser lido como um livro político uma vez que seu autor, André Torres (1950), foi preso sob a acusação de ‘rebelde subversivo’. Desde adolescente participou de grupos de jovens e viveu na clandestinidade, usou de violência para chamar a atenção da sociedade e por isso foi encarcerado no mais temido presídio da época. Na introdução do livro ele diz: “Lá dentro, sob as lajes de concreto, parecia que o mundo ia acabar em fria escuridão.”

Para os jovens de hoje, mais preocupados em fazer selfies para as redes sociais, o livro pode ser lido como uma aventura estilo Indiana Jones, ou para ser mais moderninho, com jeito de Jogos Vorazes. Uma boa parte do livro revela os bastidores da Ilha Grande, as torturas e as fugas explicadas com desenhos e mapas, nosso “herói” consegue fugir do cárcere. O autor nos diz: “Como explicar minhas fugas? Meus êxitos, devo-os ao meu perfeito entrosamento com minha necessidade de liberdade, aos meus planos e métodos de preparação e improvisação, ao ambiente, à ousadia, aos companheiros, ao preparo físico, à simpatia, a um instinto infalível que me levou aos pontos fracos do sistema penitenciário nos momentos adequados, guiando meus passos.”

É um livro interessante, resta saber como você pretende catalogar no seu drive; política ou aventura?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping
Data: 30/11/2014

domingo, 31 de agosto de 2014

BRIDA


Leitores assíduos do blog sabem que não morro de amores pelo Paulo Coelho (1947), um escritor de sucesso com fãs no mundo inteiro, também sabem que já li grande parte da sua obra e que, na minha mais modesta opinião, seus livros atuais estão longe daqueles escritos na origem de sua vertente como escritor, estão rasas e repetitivas. Sou apenas mais um leitor que tem o poder de gostar ou não de um livro e, no meu caso, escrever aqui no blog minha opinião. Leitores podem “pegar pra si” o que escrevo, ou podem dar um “Control-Alt-Del” nos meus escritos e joga-los fora.

Tenho visto as estantes das livrarias repletas de livros juvenis sobre mitologia, magos, bruxas, castas, e fico me perguntando se os jovens de hoje tem o embasamento necessário para entender de tão vastos e complexos assuntos. Ainda pretendo ler todos, um dia, se conseguir viver até os duzentos anos. Hoje fui buscar justamente na literatura do Paulo Coelho um livro bem bacana que nos conta sobre o ritual de passagem de Brida O’Fern, uma jovem de 21 anos que tem seu destino traçado pela Tradição da Lua e se tornará uma das mais jovens Mestras da Tradição das Feiticeiras.

História real ou não? Paulo Coelho jura que sim, faz alguns alertas sobre os rituais que ele descreve no livro informando que fazê-los sem orientação específica é perigoso, desnecessário e desaconselhável.  Quase como dizer a uma criança; “Não ande por aí” despertando a curiosidade e a rebeldia do “Porque?”.

Também em tom de alerta Paulo define os seres humanos entre aqueles que constroem e aqueles que plantam. Põe os construtores como responsáveis por obras finitas, aquelas que fazem seus idealizadores desnecessários após a conclusão. Enclausurados e limitados perdem o sentido da vida. Já os que plantam enfrentam o sofrimento, as intempéries e nunca descansam porque seu jardim jamais cessará de crescer tornando sua vida uma aventura infinita.

Brida não é um livro fácil, mas se você embarcar na aventura da construção sem perder de vista o seu jardim será agraciado com exemplos para sua vida. Quais? Você só saberá lendo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada garagem Salvador Shopping
Data: 30/11/2014

domingo, 24 de agosto de 2014

LEMBRANÇAS DA MEIA NOITE


No início de 2014 o maitre que trabalha no Café Teatro Rubi me pediu uma ajuda. Por sempre me ver com um livro nas mãos antes dos shows começarem queria uma indicação de livro para sua filha de sete anos que, segundo ele, gosta muito de ler e já não se contentava mais com os gibis e os livrinhos infantis de pintar. Pensei na minha infância e sugeri a coleção do Monteiro Lobato. Passadas algumas semanas o maitre veio falar novamente comigo dizendo que a filha estava adorando os livros e que estava cobrando dele o hábito da leitura. Sentindo-se responsável por incentivar a leitura na filha e ele mesmo não ler nada além das manchetes dos jornais achou que devia dar o exemplo em casa. Conversamos sobre livros e chegamos à conclusão de que deveria ser uma leitura fácil e que prendesse o fôlego, tentamos o Dan Brown e não deu muito certo, era erudito demais e ele não conhecia todos aqueles simbolismos, indiquei um Jorge Amado apostando na sua baianidade mas ele achou lento demais, apesar de gostar das passagens com cenas de sexo, não foi além da página oitenta. Apelei então para o Sidney Sheldon e entreguei em suas mãos um exemplar de O Outro Lado da Meia Noite.

Ontem o maite me devolveu o livro com uma cara de triste, pensei logo que ele havia desistido como fez com os outros, mas para minha surpresa e uma dose de interpretação do maitre ele havia adorado o livro, tanto que me contou toda a história como se eu não soubesse. Depois pediu para ficar mais um tempo com o livro porque sua mulher ficou interessada na história que o marido andou lendo nos últimos trinta dias e, fazendo a cara do personagem Gato de Botas do filme Shrek, perguntou se não tinha outro livro agora que estava empolgado, esse maitre é um artista. Confesso a vocês que fiquei emocionado pelo ocorrido e só não chorei por puro pudor.

Hoje estou levando para o maitre a continuação de O Outro Lado da Meia Noite. Escrito pelo Sdiney Sheldon (1917-2007) exatos dezessete anos depois com o título de Lembranças da Meia Noite. Muito embora essa obra possa ser lida separadamente do primeiro é muito bom que obedeçamos a ordem para um entendimento perfeito sobre o passado de Catherine Douglas e sua ligação com o milionário Constantin Demiris. No início ela tem amnésia e está tentando lembrar-se do passado e com isso saber o porquê de estar tão angustiada, apesar de viver bem num convento carmelita na Grécia sua mente está dividida entre assumir o passado ou excluí-lo. Quando ela começa a recuperar a memória o perigo volta a rondar sua vida, Constantin não pode deixar que todos saibam o que aconteceu no passado.

Talvez eu demore um pouco para abandonar esse livro, isso vai depender de quanto tempo o maitre vai levar para lê-lo, mas será por uma boa causa. Vocês concordam?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sala de entrada do Espaço Xisto Bahia
Data: 01/11/2014

domingo, 17 de agosto de 2014

A ELEGÂNCIA DO OURIÇO


Recentemente estive em São Paulo, foram nove dias intensos e cheios de significados graças aos bons amigos que por lá deixei desde que voltei a morar em Salvador e que preservo como joias, daquelas que merecem caixas pretas de veludo e cofres atrás de quadros tal qual vemos nas novelas. Um desses amigos é Roberto Camargo, sempre me hospedo na sua “casa cenário”, piada interna entre nós, e abro o máximo que posso minha percepção para novos horizontes principalmente nas artes.

Dessa visita levei um livro chamado A Elegância do Ouriço, o título pode parecer esquisito a primeira vista, mas basta ler o primeiro capítulo para mergulhar de cabeça no cotidiano do prédio da Rue de Grenelle no 7, Paris, endereço chique onde só moram pessoas ricas e de família tradicional. Esse é o segundo livro de Muriel Barbery (1969), uma escritora que eu nunca havia ouvido falar mas tornei-me fã incondicional do seu estilo literário que mistura uma boa história e um pouco de filosofia para fazer pensar. Nos dias atuais em que a velocidade tirou o lugar da paciência, da singeleza, precisamos pensar mais, e pensar seriamente sobre o que estamos fazendo de nós mesmos.

Muriel tem a ousadia de escrever um livro com duas narradoras: a primeira é Renée, a concierge, ou zeladora para os padrões daqui, uma mulher desprovida da beleza clássica das mulheres em geral, veste-se numa carapaça de ranzinza capaz de bater a porta na cara de qualquer um que a incomode fora do seu horário de trabalho para que ninguém adivinhe o que esconde na sua humilde casa de zeladora. Renée é na verdade uma observadora refinada, uma amante extremada das letras e das artes, leu tudo que pôde, conhece todas as nuances dos grandes pensadores e filósofos, admira a arte na música, no cinema e é capaz de reconhecer o autor de um quadro pelo seu traço, sem precisar olhar a assinatura.

A segunda narradora é Paloma, uma garota de doze anos filha de um dos abastados moradores do edifício e que tem a mesma postura de Renée para esconder dos outros sua inteligência e perspicácia. Ela tem um plano para quando completar treze anos e é a responsável pelos “Pensamentos Profundos” e pelo “Diário do Movimento do Mundo” que o livro nos injeta e nos faz refletir, afinal é uma garota com apenas doze anos.

A chegada de um novo morador, o Sr. Ozu, irá desvendar a alma das duas narradoras e fazer desse trio nosso objeto de desejo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Café da Sala de Cinema Walter da Silveira
Data: 01/11/2014

domingo, 10 de agosto de 2014

AMADO MEU


Antes de ser cineasta famoso Pier Paolo Pasolini (1922-1975) foi professor, poeta, novelista e membro do PCI – Partido Comunista Italiano. Homem controverso, participou do Congresso da Paz em Paris, registrou as lutas dos trabalhadores e camponeses com a polícia italiana transformando-a em argumento do seu primeiro romance, foi preso, acusado de corrupção de menores e atos obscenos em lugares públicos, por isso foi expulso do PCI e perdeu o emprego como professor. Passou fome até mudar-se com sua mãe para Roma.

Seus filmes são muito conhecidos pela forte crítica ao governo italiano e sua ligação extrema com a igreja católica, mas também são marcados pela quebra de ruptura da sociedade. Seu mais famoso filme Teorema, que também é livro, mostra um indivíduo entrando na vida de uma família e a desestruturação que é capaz de fazer, em cada membro dessa família vemos representada uma instituição da sociedade.

O livro que pretendo abandonar tem o título de Amado Meu mas possui duas obras do autor; a primeira intitulada Atos Impuros e a segunda que leva o nome do livro. Tanto uma como a outra refletem o estado psicológico do ensaísta Pasolini cujas reflexões sobre o prazer sexual do amor e a repugnância ao ato sexual reprimido pela sociedade e a igreja, nos levam a dúbios pensamentos. Tratado como criminoso o autor nos faz cúmplices da culpa que o atormentava por sentir esse amor que chamam de homossexual e seu impulso para o prazer sempre cortado pelo considerado ato proibido.

Acredito que os poetas, quando abrem verdadeiramente o coração pra mostrar o que se passa dentro deles contribuem imensamente para, de alguma forma, modificar o mundo e as organizações repressoras que neles existem.  Nesses instantes os conceitos de moral, certo, errado, deixam de ter sentido. No fim prevalece o que costumo chamar de 'amor'.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco do Brasil - Ag. Shopping Barra
Data: 01/11/2014

domingo, 3 de agosto de 2014

FILHAS DO SEGUNDO SEXO


O jornalista Paulo Francis (1930-1997) autor do livro que pretendo abandonar nunca passou batido, era célebre criador de polêmicas desde quando atuou como crítico de teatro. Tentou realizar um movimento para enxotar espetáculos que promovessem somente as estrelas do momento enaltecendo aqueles que apresentassem os textos do repertório clássico não apenas como espetáculo, mas privilegiassem o que ele chamava de ‘ato cultural’. Protagonizou uma critica feroz contra a atriz Tônia Carrero chamando-a de prostituta e foi agredido fisicamente por causa disso pelo marido da atriz, Adolfo Celi, e pelo ator Paulo Autran, colega de Tônia no Teatro Brasileiro de Comédia.

Preso duas vezes acusado de atitude subversiva pelos órgãos de repressão, em 1971 decidiu ir morar em Nova York passando a atuar como correspondente para O Pasquim, Tribuna da Imprensa, revista Status e jornal Folha de São Paulo. Na TV, em 1997, quando fez parte do programa Manhattan Connection transmitido pelo canal GNT, foi processado após a declaração de que a Petrobrás deveria ser privatizada porque seus diretores possuíam milhões de dólares em contas na Suíça.

Amargou fracassos na literatura, desde o livro de memórias intitulado O Afeto Que Se Encerra até Filhas do Segundo Sexo. E eu, na minha mais humilde opinião, acredito que esse fracasso deveu-se principalmente à personalidade do autor do que a obra em si. Achei o livro muito divertido, são duas histórias distintas: “Mimi vai à guerra” e “Clara, Clarimunda”, em ambas há a tentativa de colocar em discussão a emancipação da mulher de classe média brasileira entre 1959 e 1969, rechaçando a lama da elite através de uma crônica sem muitos formalismos, mas de excelente humor, quase beirando o inusitado.

Frases como: “O que mamãe explicava que Mimi entregaria a Gil na noite do casamento, Mimi entregara anos atrás e nem lembrava a quem...”, ou “Clara ficou de pé. Não tinha remorsos, tinha carências...” mostram que não há heróis nos seus escritos, a lucidez gerada pelas experiências dolorosas não deixa nenhuma das duas assumir o papel de vítima.

Citando uma frase muito emblemática da época, Paulo Francis era “Ame-o ou Deixe-o”.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sofá em frente a loja Fototica - Shopping Barra
Data: 12/10/2014

domingo, 27 de julho de 2014

GENTE COMO A GENTE


Recentemente fui ao cinema ver um filme chamado O Último Amor de Mr. Morgan, um raro exemplar nas telonas que foge à tendência mundial de filmes cada vez mais ágeis e voltados para plateias repletas de jovens desconcentrados. Matthew Morgan é um octogenário que vive sozinho e solitário após o falecimento de sua esposa, o destino faz com que uma jovem entre em sua vida trazendo novos ares que reverberam inclusive nos filhos de Matthew, embora isso só aflore nele cada vez mais a sensação de finitude e as angústias da necessidade de continuar ou não a viver.

Não vou contar aqui o fim do filme para não estragar a surpresa de quem ainda não o viu, mas saí do cinema com aquela sensação estranha que sempre acontece quando um filme, uma peça de teatro, ou um livro me causam algum impacto. O tema suicídio sempre foi tratado como maldito e conheço poucas obras literárias que tratam essa referência com o devido respeito. Hoje me lembrei de um livro, que depois virou filme de sucesso, escrito pela então estreante Judith Guest (1936) chamado Gente Como a Gente que trata o tema de forma sensível embora nada indulgente.

É uma história emocionante sobre as transformações sofridas pelos Jarrett, uma família comum de classe média, no momento que o filho mais jovem retorna do hospital após tentar o suicídio. Sentindo-se culpado pelo acidente que vitimou seu irmão mais velho, Conrad sabe que nunca foi o filho queridinho, embora a mãe e o pai se esforcem para manter as aparências, de modo que todos permaneçam unidos.

É um livro que trata questões inerentes ao ser humano: amor, ódio, culpa, morte, relações familiares, a cada página lida emoção e reflexão se contrapõem de forma admirável. No cinema marcou a estreia de Robert Redford na direção, agraciado com o Oscar por isso, e deu a Mary Tyler Moore o papel de sua vida como Beth Jarrett.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escada da garagem subsolo - Shopping Barra 
Data: 12/10/2014

domingo, 20 de julho de 2014

DE MALAS PRONTAS


Em novembro/2012 escrevi um post para o livro ‘É Tudo Tão Simples’, na época o mais recente lançamento da também escritora Danuza Leão (1933) que, ao acabar de ler, fiquei com a sensação de que na vida da escritora nada é tão simples assim. O canal VIVA de TV fechada está reprisando a novela Dancin’ Days e Danuza está lá, participando como personalidade de uma das festas na casa de Julia Mattos, a mesma Danuza que era consultora da Rede Globo na época para ensinar os atores a serem ricos nas novelas de Gilberto Braga.

Recentemente estive em São Paulo e, acompanhado dos meus amigos Roberto Camargo e Claudio Olivotto em diferentes dias, conheci alguns restaurantes fora da ordem; bistrôs de comidinhas elegantemente servidas com inspiração parisiense, um restaurante de comida peruana completamente escondido no centrão, em plena Rua Aurora, sem placa ou identificação a não ser o número do prédio, um restaurante meio mafioso de comida asiática chamado Chi Fu, onde todas as mesas são comunitárias, não aceita cartão de débito ou crédito, nem emite nota fiscal ou pergunta se você a quer, além de uma doceria portuguesa com os famosos Pastéis de Belém feitos a vista do freguês, meu colesterol nesse dia foi elevado à quinta potência. O mais estranho disso tudo é que em todos comi muito bem e me regalei com os sabores. Experiências de viajante.

E você, caro leitor do blog, deve estar se perguntando o que o primeiro parágrafo tem a ver com o segundo. Eu explico. Encontrei numa das minhas arrumações de estante o livro ‘De Malas Prontas’, escrito pela Danuza Leão e que relata exatamente experiências de viajante nas cidades de São Paulo, Buenos Aires, Berlim e Londres, uma espécie de continuação de um primeiro livro que ela compartilha sua visita por Sevilha, Lisboa, Paris e Roma. Não é um guia de viagem, eu encarei como um livro de crônicas em que a autora se propõe a dividir vivências e a dar indicações de lugares, na sua grande maioria, super, hiper, mega luxuosos, que não estão ao alcance dos mortais que hoje em dia conseguem viajar parcelando tudo a perder de vista.

São relatos que incluem um assento de vaso sanitário aquecido, mimo de um hotel em São Paulo, os cafés de Buenos Aires, a efervescente noite de Berlim pós queda do Muro e até a indicação de uma famosa chapelaria em Londres que pode atender rainhas e plebeias. Recomendo a leitura com bom humor e mente aberta para o desconhecido, afinal, nem tudo que é luxo é frívolo, pode ser sinônimo de cultura.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente ao Teatro Castro Alves
Data: 13/09/2014

domingo, 13 de julho de 2014

MEMÓRIAS DE ADRIANO


Lembro perfeitamente do dia, eu estava sentado na escada que ligava o pátio antigo ao novo do Colégio Dois de Julho quando minha professora de português e redação passou dirigindo-se à sala que nos daria mais uma aula e, percebendo o livro que eu lia, perguntou: “Você está entendendo o conteúdo desse livro?”. Eu fiquei envergonhado, era um livro difícil para meus dezoito anos, várias vezes eu tinha que reler algumas passagens para entender o pensamento do Imperador e a autora da biografia, mostrei a ela algumas anotações, grifos feitos a lápis em diversas páginas e disse: Não entendo tudo mas estou me esforçando, anotei algumas coisas de que gosto muito. Ela leu calmamente alguns desses parágrafos grifados me encarou e disse: “Hoje você está dispensado da minha aula, faço isso somente porque percebo que você está em excelente companhia.”

Até hoje fico emocionado com essas palavras. Confesso que já reli Memórias de Adriano três vezes e em tempos diferentes da minha vida, assim como também o faço com O Pequeno Príncipe, e, guardadas as devidas proporções, aprendo muito tanto com um como com o outro. E o mais interessante desse livro é que a cada leitura acabo fazendo novos grifos. Reza a lenda que Marguerite Yourcenar (1903-1987) levou vinte e sete anos para escrevê-lo, sua conclusão consumiu infindáveis horas de pesquisa, diversos manuscritos foram por ela destruídos, interrompidos para pesquisas mais profundas e inúmeras crises de desânimo. Nas horas de desencorajamento diante da grandeza do processo ela visitava museus, passava horas completamente perdida em bibliotecas e sofria muito pela obra inacabada. Anotava coisas, escrevia, reescrevia, recolhia dados, buscava conhecimento para compreender e absorver a essência da personalidade do Imperador Adriano.

O resultado disso foi a publicação de uma das mais fascinantes obras do século XX, escrita na primeira pessoa, com um salto de dezoito séculos sobre o tempo, a biografia romanceada de Adriano reconstrói não só a ambientação física, política, social e cultural do seu tempo, mas também a faceta psicológica de um grande imperador romano. O livro foi publicado em 1951, mas só em 1980, quando Marguerite foi eleita para ocupar a cadeira de Roger Caillois na Academia Francesa de Letras, as editoras nacionais deram a devida atenção a essa escritora que já tinha vinte e cinco livros publicados.

Memórias de Adriano é um livro clássico, daqueles que você encontra em qualquer lista de livros que você deve ler antes de morrer, mas não é um livro fácil, há de se ter concentração, paciência e perseverança. Aquele que perseverar será brindado com palavras inesquecíveis como essas:

“Quantas vezes, tendo-me levantado muito cedo para ler ou estudar, eu próprio coloquei em ordem as almofadas amassadas e os lençóis amarrotados, evidências quase obscenas nos nossos encontros com o nada, provas de que a cada noite deixamos de existir...”

Uma nota aqui se faz necessária, não vou abandonar o exemplar da minha juventude, 5ª edição. Abandonarei uma versão em capa dura que comprei há algum tempo, mas tive o cuidado de transcrever todos os grifos que fiz no meu até a data de hoje.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Caixa Cultural - Exposição Desing Brasileiro - Moderno & Contemporâneo
Data: 13/09/2014

domingo, 6 de julho de 2014

DEPOIS DA ESCURIDÃO


Escrevi aqui no post ‘Escrito nas Estrelas’ (Mar/2014) que, mesmo após sua morte, quatro livros haviam sido publicados usando argumentos criados pelo escritor Sidney Sheldon (1917-2007). Sou fã do autor e não nego isso, embora muitos se espantem com o fato já que Sidney Sheldon é um autor considerado “menor” pelas academias de letras, isso porque seus livros são puro entretenimento e ele ficou rico com isso. Não me importo nem um pouco, recomendo sempre a leitura das suas obras quando algum iniciante na literatura me pede uma sugestão. Eu comecei a ter o hábito da leitura com os gibis, depois passei para os livros de bancas até chegar aos mais eruditos. Acho que é sempre melhor começar a gostar de ler com um ‘Se Houver Amanhã’ do que enfrentando de cara um ‘Guerra e Paz’.

Diz a lenda que Sidney Sheldon tinha o costume de contar a história oralmente, às vezes usava o gravador ou o fazia diretamente para sua secretária enquanto a mesma datilografava, houve dias de conseguir escrever cinquenta páginas. No dia seguinte ele revisava os escritos e recomeçava o processo até que finalmente estivesse satisfeito com o produto final. Com base nessas gravações a família consegue prorrogar o legado mesmo após a morte do autor, satisfazendo fãs do mundo inteiro a cada novidade e ganhando muito dinheiro com isso, é claro.

Depois da Escuridão é o segundo livro lançado após a sua morte, e tem a jornalista quase desconhecida Tilly Bagshawe (1973) como coautora. As bases do enredo são as mesmas: Grace Brookstein, uma mulher linda, inocente, rica, vê seu mundo desabar após o desaparecimento do seu marido, o bilionário Lenny Brookstein, e a posterior notícia sobre um grande rombo do fundo Quorum, administrado por Lenny. Grace vê sua vida de queridinha da América transformar-se num quase linchamento público face à falência de milhares de famílias e de pequenas instituições uma vez que ela é a principal suspeita do roubo da instituição financeira. Ela sabe da sua inocência e fará tudo para provar isso, descobrirá de imediato que ninguém à sua volta é digno de confiança e terá que deixar para trás a Grace doce e angelical se quiser descobrir toda a verdade.

Eu acho, na minha humilde opinião, que Tilly Bagshawe ainda tem muito chão até conseguir chegar aos calcanhares de um Sidney Sheldon. Mas a família dele confia em seus dotes como escritora. Como também acho que cada pessoa deve ter a sua opinião sobre os fatos, instigo você, nobre leitor do blog, a ler o livro e ter a sua.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento G2 - Shopping Barra
Data: 06/09/2014

domingo, 29 de junho de 2014

HAROLD E MAUDE - ENSINA-ME A VIVER


Os meses de junho e julho são aqueles que considero meses de entressafra, há uma sensação de férias pairando no ar devido ao intervalo escolar e lembro bem de quando era garoto os cinemas só exibiam filmes infantis, era a hora e a vez das crianças e adolescentes formarem filas para ver Os Trapalhões, Xuxa e afins. O mesmo acontecia com as livrarias, suas vitrines eram quase temáticas com apelo maior que em outubro. Eu sempre vivo nessa época uma expectativa das minhas próprias férias e isso 70% das vezes significa viajar. Primeiro vem àquela sensação de querer dormir dias inteiros, separar-me física e mentalmente de todas as atribulações que tenho e entregar-me ao desfrute de dormir por 12 ou 14 horas seguidas e, sem nenhum compromisso a cumprir, viver o ócio sem qualquer rastro de culpa.

Como sou um homem velho sempre tenho aquela preguiça inicial de programar a viagem, e muitas vezes o faço com aquele pensamento: ‘se quiser posso desistir a qualquer momento’, tamanha a letargia que me consome, principalmente nos dias que antecedem o processo de arrumar mala, esperar para embarcar, conseguir um taxi, etc. Não tenho o espírito on the road da minha amiga Cybelle, essa se pudesse vivia na estrada, dirigindo, tal qual Thelma e Louise no filme homônimo.

Mas toda vez que penso nessa letargia eu lembro da Maude, um personagem literário que já virou filme e peça de teatro, do livro Hadold e Maude, ou como muitos conhecem; Ensina-me a Viver. Harold é um garoto enxaqueca de quase vinte anos apaixonado pelo tema da morte, ele passa os dias falsificando falsos suicídios que já não causam o menor efeito em sua mãe, que, resignada, tenta a todo custo arranjar uma namorada para o filho com a certeza de que quando ele se apaixonar vai parar com suas esquisitices. Maude é uma senhora de quase oitenta anos, apaixonada pela vida que enche seus dias numa incessante busca por aventuras, crescimento, aprendizados e novas experiências. Maude é tão bizarra quanto Harold, embora em polos opostos, e isso os atrai a ponto de virar romance, o que pode parecer estranho à primeira vista torna-se uma lição de vida quando nos damos conta que ambos fazem coisas comuns da existência humana que é viver, rir, chorar, amar e morrer.

Ensina-me a viver é um livro clássico, está em qualquer lista de livros que você tem a obrigação de ler antes de morrer, já inspirou milhões de pessoas mundo afora e tornou-se cult. Foi imortalizado nas telas com Ruth Gordon e Bud Cort, eu vi muitas versões no teatro, a última com Glória Menezes e Arlindo Lopes nos papéis principais e outra amiga Ilana Kaplan fazendo a mãe de Harold, impagável.

Uso meu lado Maude sempre que arrumo uma mala para viajar, fico imbuído pelo seu espírito aventureiro, quantas pessoas vou conhecer, quais lugares serei apresentado, quantos espetáculos assistirei, quais comidas provarei, e além do inovador fico feliz em rever amigos queridos em terras por onde já passei.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Porto da Barra - Banco da praça em frente ao Instituto Mauá
Data: 06/09/2014

domingo, 22 de junho de 2014

CHICO BUARQUE - TANTAS PALAVRAS


Não sou muito de ficar divulgando factoides extraídos das redes sociais, hoje vou abrir uma exceção para um texto que Caetano Veloso publicou dia 19/6/14 na sua página oficial no Facebook que diz:

“Chico chega aos setenta... O Brasil é capaz de produzir um Chico Buarque: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso... Chico está em tudo. Tudo está na dicção límpida de Chico. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto o Brasil.”

Sem levar para o lado ufanista, a declaração de amor de Caetano para Chico tem um quê de comemoração pelo aniversário do amigo, mas, essencialmente, enaltece o legado artístico do cantor, compositor e autor. Na quinta feira eu passei o dia inteiro ouvindo coisas de Chico das mais diversas fases, e reli alguns posts do blog que fiz referência à sua obra como: Ópera do Malandro e Gota D’Água (Mai/2012), Leite Derramado (Dez/2012), e decidi homenageá-lo de uma forma diferente abandonando o ótimo livro do jornalista Humberto Werneck (1945) chamado Chico Buarque – Tantas Palavras, edição de 2006.

Faço questão de citar a edição porque a publicação de 2006 é substancialmente melhor que a edição de 1989, a nova possui uma biografia compilada do Chico com fatos interessantes que começam na infância, a fase estudantil, participações nos festivais de música, suas desavenças com a ditadura, a paixão pelo futebol, seu lado escritor, e, claro, todas as canções desde Tem Mais Samba, que o próprio Chico enfatiza como sua primeira composição, até às do algum Carioca.

É um livro esplêndido e imperdível, conhecer a obra genial do Chico e ter a oportunidade de ler as letras de suas músicas como se fossem poemas, que na verdade o são, só nos engrandece, enriquece e emociona. Esse livro é tão bacana que só o estou abandonando porque por uma feliz coincidência tenho dois exemplares. Parabéns e vida longa ao Chico e boa leitura para quem achar o livro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Campo Grande - Em frente ao parquinho
Data: 01/09/2014

domingo, 15 de junho de 2014

AMAR SE APRENDE AMANDO


Há duas semanas estive no larguinho do Rio Vermelho aqui em Salvador e vi de perto as estátuas de Jorge Amado, Zélia Gattai e do cachorro que agora não me lembro o nome. Imediatamente me remeti à estátua do Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, que deu origem a esse ‘modismo’ aqui no Brasil. E como ainda estou naquela fase romântica pós dia dos namorados, esse ano bem disfarçado em virtude da abertura da copa 2014 de futebol que caiu no mesmo dia frustrando floriculturas, joalherias, restaurantes e principalmente donos de motel, fui procurar na minha estante o livro Amar se Aprende Amando, que li pela primeira vez em 1986.

Dono de uma obra vastíssima que inclui livros de poesia, prosa e literatura infantil da melhor qualidade, esse mineiro de Itabira fui um dos fundadores do movimento modernista no Brasil. Seus versos livres seguem a proposta de Mario e Oswald de Andrade mostrando que não se depende do metro fixo para se definir uma obra poética, seguindo uma linha mais objetiva e concreta.

Muitos dividem a obra de Drummond a partir de três vertentes, baseadas no mote Eu X Mundo:

Eu maior que o mundo – marcada pela poesia mais irônica e amorosa;
Eu menor que o mundo – marcada pela poesia de cunho mais social, cotidiana;
Eu igual ao mundo – marcada pela poesia metafísica, de cunho mais existencial.

Eu não sei distinguir essas fazes, prefiro cataloga-las da seguinte forma, a poesia que leio e deixo no livro e a poesia que leio e levo pra vida, na página 19 do livro que vou abandonar vocês lerão essa pérola:

O MUNDO É GRANDE

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Sorte de quem achar o livro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente ao Colégio Módulo
Data: 31/08/2014

domingo, 8 de junho de 2014

CINQUENTA TONS DE LIBERDADE


Estamos na semana que antecede ao dia dos namorados, nada mais clichê do que publicar um post sobre o amor, a literatura está cheia, e, apesar de ter antecipado o tema na semana passada com o ótimo O Teorema Katherine, aproveito o ensejo para abandonar o último volume da série Cinquenta Tons. Confesso a você, leitor do blog, que terminar de ler essa saga foi difícil, cheguei a comentar isso no post A Bicicleta Azul (18/5/2014). E volto a dizer, é muita cara de pau da autora espichar uma história para três volumes quando um único bem escrito já daria conta do recado.

Em Cinquenta Tons de Liberdade a escritora E L James (1963) descreve o casamento, a lua de mel, e o que Anastacia Steele, agora Anastacia Gray, chama de volta à vida normal. Só que nada que se refere ao casal pode-se chamar de “vida normal”. Por falta de assunto, entre um ‘meu cinquenta tons’ proferido por Anastacia e um ataque de fúria protagonizado por Christian por algum ato dela que fugiu ao seu controle, entre um ‘eu te amo para a vida toda’ dito pelos dois, e uma descrição do sexo entre eles cheia de orgasmos mútuos, nunca li sobre tantos orgasmos atingidos em toda minha existência, a história descamba para o thriller policial que daria inveja aos primeiros filmes do agente 007 pela ingenuidade e trama rocambolesca.

Nesse volume a troca de e-mails entre os dois, assim como as participações especiais do Inconsciente e da Deusa Interior, são raras. As brincadeirinhas sexuais pervertidas deixam de ser novidade e perdem a inventividade. O final do casal Gray é óbvio, assim como o passado obscuro de Christian é desvendado sem maiores reviravoltas. Todos os factoides narrados nas 518 páginas desse volume apenas servem de entretenimento para que leiamos as três últimas linhas que não fará mal algum em contar aqui:

Ele sorri e me beija novamente.
- Amo você, Sra Gray.
- Também amo você, Christian. Para sempre.

Tenho que dar um crédito para os dois últimos capítulos, dentro de uma divisão que a autora intitula ‘TONS DE Christian’. O primeiro é uma descrição do natal de Christian ainda garoto morando com a família Gray, e o segundo, mais divertido, é a mesma cena de Anastácia chegando para a entrevista com o todo poderoso Christian Gray que lemos no primeiro livro, só que agora sob a perspectiva dele, como se o papel de narrador estivesse invertido. Soa divertido e ao mesmo tempo preocupante, será que a autora vai lançar os três livros novamente só que dessa vez narrado pelo Christian... Espero sinceramente que não.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente ao Colégio Módulo - Av. Magalhães Neto
Data: 30/08/2014