sábado, 24 de dezembro de 2011

RISÍVEIS AMORES


Quantas histórias de amor são realmente originais, será que ainda conseguimos ler histórias de amor e nos surpreender com seus enredos, começos, finais? Nesta época do ano em que se deseja ao próximo: amor, paz, prosperidade, felicidade, otimismo, o quanto disso realmente foi ou será vivido, ou o quanto de verdade e sinceridade existe nesses desejos? Estou um pouco cansado desse tipo de felicitação dita no piloto automático. Você realmente deseja que aquela pessoa tenha amor, prosperidade e felicidade, ou a frase já sai tal qual um pedido de café na padaria? “Por favor, um café grande com leite e um pão francês sem miolo com manteiga na chapa!” Tudo dito assim, sem pontuação, sem respirar.
No livro que pretendo abandonar chamado Risíveis Amores, publicado no Brasil em 1969, com uma refinada escrita de humor pelo grande Milan Kundera (1929), você encontrará sete contos que tratam do assunto inicial deste post: o amor. O risível do título você encontrará no subtexto, essa necessidade humana pela farsa, pela simulação ou dissimulação, pela representação teatral do amor e a incapacidade de experimentar sentimentos verdadeiros.
A obra trata dos equívocos, sejam eles de situações ou de sentimentos, que se desenvolvem a partir de um mal entendido, uma falta de comunicação, ou quem sabe fruto do jogo em que os amantes, conscientes ou não, expõem-se uns aos outros na tentativa de se mostrar merecedor do amor, ou de encobrir seus defeitos colocando uma máscara de “veja como sou bacana”.
Faz mais de 40 anos que esse livro foi publicado e não me surpreende o quanto permanece atual, neste século da comunicação é justamente a incapacidade dela que permeia as relações humanas na dita contemporaneidade. Outro dia estava eu jantando num restaurante, na mesa ao lado um casal, na minha mesa havia silêncio porque eu estava sozinho, na mesa deles também, cada um com seu smartphone acessando as redes sociais e mandando torpedos.
Quem de nós três estava mais sozinho? Fica aí uma boa pergunta.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escada Rolante G1-Sul - Shopping Barra
Data: 10/03/2012

sábado, 17 de dezembro de 2011

MEIA NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL


“Uma obra de arte” publicou o The New Yorker.
“Rico, irresistível” publicou o The Boston Globe.
“Surpreendente” foi o comentário do The Washington Post Book World.
“Cativante” foi a definição do USA Today.
“Um envolvente perfil da Savannah sofisticada e boêmia” escreveu o New York Magazine.

Mas do que estamos falando? De um livro, claro, e este se chama Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal, do jornalista e escritor John Berendt (1939).
A idéia inicial era investigar um crime acontecido na cidade de Savannah, no sul dos Estados Unidos, tornou-se mais do que uma simples investigação já que o autor viveu durante oito anos no local. Berendt acabou fazendo um painel original e excêntrico dos moradores da cidade e assim consegue reconstruir com ares de romance policial um drama real: A história do julgamento de Jim Williams, rico e famoso antiquário, que matou seu assistente, o jovem Danny Hansford.
A princípio você pensa que será mais um livro no estilo policial, mas o que se apresenta é um mosaico de personagens, quase todos reais, como se o autor escrevesse em um mundo só seu, à parte. A cidade de Savannah existe, é real, e torna-se a grande estrela do livro, elegante, isolada, sedutora, sofisticada, tudo isso ao som do mais puro jazz.
A obra foi adaptada para o cinema e, além de boas interpretações de Kevin Spacey (Jim Williams) e Jude Law (Danny Hansford), temos uma mão certeira de Clint Eastwood na direção, com especial atenção para a trilha sonora do filme e a travesti Lady Chablis interpretada no filme por ela mesma, a própria, a original.
Para quem quer gastar um pouco mais, este seria um presente completo: livro, acompanhado do DVD, e de quebra o CD da trilha do filme. Impossível ficar indiferente.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escada Rolante G2-Sul - Shopping Barra
Data: 10/03/2012

sábado, 10 de dezembro de 2011

A CABANA


Seguindo com minha meta de abandonar livros que podem ser bons presentes de Natal, desta vez vou escrever sobre “um livro que não foi escrito para ser publicado”. Foi assim que William P. Young (1955) definiu o seu agora best seller ‘A Cabana’. Isso porque William criou a história, imprimiu e presenteou quinze amigos no Natal de 2005. Muita água passou por debaixo dessa ponte e aposto que muitas lágrimas foram derramadas, inclusive as minhas, sobre as páginas desse livro que, segundo consta no site oficial, já vendeu mais de 12 milhões de cópias.
A Cabana pode ser lido com fé, para quem a tem, mas também pode ser lido como ficção. A obra não se diminui por isso e a “grande tristeza” vivida pelo personagem principal pode ser traduzida em muitos exemplos; pessoais ou não. O fato é que, lido com o coração aberto ou descrente, a pergunta principal fará você pensar. “Se Deus é tão poderoso, por que não faz nada para amenizar nosso sofrimento?”, e eu vou mais além, se Deus é tão poderoso, e tão bom, por que deixa que crianças sejam assassinadas, que vidas sejam ceifadas por pura vilania e desastres aconteçam?
O livro conta a história de Mackenzie Allen Philip, sua filha mais nova foi raptada durante as férias em família e há evidências de que foi brutalmente assassinada e abandonada numa cabana. Quatro anos mais tarde, Mackenzie ainda vive sob o torpor da grande tristeza quando recebe um bilhete suspeito convidando-o para voltar àquela cabana e passar o fim de semana. Ignorando alertas de que poderia ser uma cilada, ele elabora um plano e volta ao cenário de seu pior pesadelo.
O processo pelo qual o atormentado Mackenzie passa no fim de semana, que pode nunca ter existido, tornar-se-á revelador para alguns e para outros será apenas uma aventura. E você meu caro leitor desse blog, vai voltar à cabana junto com o Mack ou vai abster-se e ficar no conforto e segurança do seu lar?
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Balaustrada praia Porto da Barra - em frente ao Instituto Mauá
Data: 04/03/2012

domingo, 4 de dezembro de 2011

PEQUENAS CRIATURAS


Já estamos em dezembro, às vezes o dia demora a passar, mas o Natal chega rapidinho. E por falar em Natal, nascimento de Cristo, mensagens de felicidade, panetone, e-mails com Power Point cheios de frases de efeito e fotografias natalinas, e se não bastasse a cafonice, ainda toca as músicas do disco de Natal da Simone... Ninguém merece. E os presentes “lembrancinha”? Eu detesto presente “lembrancinha”, se a pessoa que está dando já deprecia o presente chamando de lembrancinha, você que está recebendo faz o que? Cara de paisagem? Cara de resignado? Ou recebe já pensando pra quem vai repassar?
Por isso vou abandonar durante este mês alguns livros em ótimo estado de conservação para quem achar sentir-se presenteado, ou então servir de sugestão para um presente bacana sem ter que gastar muito. É o caso do livro de contos Pequenas Criaturas do maravilhoso Rubem Fonseca (1925), é um livro ótimo, de leitura rápida e prazerosa, que capta muito do estilo do autor, com foco nos detalhes, nas pequenas grandezas do cotidiano e seus atores anônimos. Entre os trinta contos curtos, a história de um aposentado que precisa escolher entre uma cadeira de rodas e uma dentadura, de um garoto coagido pela namorada a fazer uma tatuagem com o nome dela no pênis e de uma mulher que descobre que as esmolas não conseguem mais aplacar sua consciência culpada.
É um livro para ler no verão, e traz toda a experiência do Rubem como romancista, roteirista de cinema, cronista, acostumado a manter o olhar sempre atento na busca constante por personagens e situações. Seus contos são por vezes bem perturbadores, com personagens amargos, outros compassivos, alguns céticos e também apaixonados, como se toda ação humana estivesse a expor a força e as fragilidades da vida.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Spaghetti Lilás
Data: 04/03/2012

domingo, 27 de novembro de 2011

O ANALISTA DE BAGÉ


A exemplo do que já havia feito com o detetive ED Mort, que também já foi motivo de post aqui no blog em outubro de 2010, Luis Fernando Veríssimo (1936) comprova o talento e a sua impressionante vertente ficcionista ao criar O Analista de Bagé, uma boa combinação da rude sinceridade e franqueza do homem do interior gaúcho com a sofisticação da análise freudiana.
O Analista de Bagé é um personagem de humor cuja publicação se iniciou em 1981, ganhando, além da literatura, versões em quadrinhos, uma página da revista Playboy entre 1983 e 1992, e uma adaptação para o teatro. Publicado originalmente em forma de crônica, e editado em diversos jornais do país, as histórias de O Analista de Bagé retratam o estereótipo da personalidade típica dos “bageenses”, pelo menos assim é que o próprio autor revela o personagem logo na primeira crônica.
Com histórias curtas e ótimas para ler em qualquer lugar, você irá gostar muito desse personagem que teve uma infância normal para os padrões gaúchos, ele mesmo revela que aprendeu tudo que sabe no galpão, e o que não aprendeu no galpão aprendeu atrás do galpão. Psicanalista de linha ortodoxa e palavras marcantes, ilustradas pelas sábias metáforas do universo popular do Rio Grande do Sul, o próprio personagem se diz “mais ortodoxo que pomada Minancora”, apesar de usar algumas técnicas consideradas bastante heterodoxas, como por exemplo: ‘a técnica do joelhaço’. Essa técnica está baseada no princípio da dor maior, isto é, quando o paciente começa a se queixar de suas dores subjetivas, o analista aplica-lhe o joelhaço. Aplicado no local correto oferece ao sujeito a vivência de uma dor tão mais intensa que faz com que se esqueça de dores consideradas pelo Analista como “dores menores”.
Você seria capaz de experimentar?
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Passeo Itaigara
Data: 26/02/2012

sábado, 12 de novembro de 2011

TARDE DEMAIS PARA CHORAR... CEDO DEMAIS PARA MORRER


Sei que posso parecer repetitivo, mas não canso de dizer que gosto muito de histórias e o que mais procuro nos livros são as histórias, sejam elas alegres, tristes, aventureiras, transformadoras, enriquecedoras, empobrecidas, simplórias... Todas, absolutamente todas, me interessam. Acho que também já disse por aqui que não sou muito chegado aos livros de auto-ajuda, ou aqueles que tem a receita certa para tudo: ser líder, ser mãe, ser empresário, ter um namorado(a), ou seja lá o que for, definitivamente receitas não me interessam, com exceção, claro, de receitas culinárias, aí sim, acredito que livros ensinam realmente a cozinhar, ou a ter aquela noção da alquimia dos alimentos.
Mas o que o parágrafo anterior tem a ver com o livro? Simplesmente tudo. Tarde Demais para Chorar... Cedo Demais para Morrer é um projeto da escritora Edith Pendleton (1952), especialista em redação científica, que escreveu durante muitos anos uma coluna no jornal Nashville Banner e na revista World do National Geographic Magazine. O projeto foi inspirado por um grupo de adolescentes que participou do Congresso Nacional dos Candlelighters, uma associação de apoio formada em 1976, e seus comentários forneceram as primeiras transcrições para a idéia de um livro que, longe de ser uma obra datada, ou daquelas que fornecem receitas, é uma obra cheia de histórias.
Estamos em 1980, ano do lançamento desse livro que tem a coragem de falar, bem às claras, de um assunto considerado secreto, e até maldito: ter câncer. São depoimentos de 35 jovens que tiveram ou tem câncer e o livro registra as experiências e o que pensam essas pessoas. Alguns apenas relatam o que lhes aconteceu no pós diagnóstico, outros usam os exemplos de suas vidas e dão conselhos sobre etapas do processo e sobre a esperança.
O certo é que ter câncer, em qualquer idade, imprime o assunto em cada pensamento e traz consigo um curso rápido de amadurecimento, é capaz de devastar prioridades e modificar radicalmente a vida. Lê-lo fará com que se tenha uma visão renovada, não só da doença em si, mas do próprio valor da vida.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco do Brasil - Ag. Passeo Itaigara
Data: 26/02/2012

domingo, 6 de novembro de 2011

BOCA DE LUAR


Será que vamos conseguir que o dia 31 de outubro no Brasil seja comemorado o Dia D? E nesse caso não estou me referindo ao fatídico Dia D em que as tropas dos aliados ocidentais desembarcam na França dando início a fim da II Guerra Mundial, a pior e maior guerra travada até então. Refiro-me à iniciativa do Instituto Moreira Salles em propor que este dia seja dedicado à poesia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).
Li no Blog do Roberto Camargo (http://robertinhocamargo.blogspot.com) um post muito bacana sobre o assunto intitulado ‘Dia D, de Drummond’ e isso me inspirou ainda mais. Assim como o Roberto eu compartilho da idéia de termos um momento do dia para a poesia, ou a obra poética como preferem alguns. Perde-se tanto tempo com coisas bobas e um minuto do seu dia, composto de 1.440, poderia ser dedicado aos poetas renomados e também a aqueles ainda desconhecidos, e aí aposto todos os meus livros do Mário Quintana como seu dia seria bem melhor.
Para fugir um pouco do Drummond poeta, decidi abandonar uma coletânea de crônicas intitulada Boca de Luar. Em 1984, ele escreveu sua última crônica para o Jornal do Brasil, atividade que manteve durante décadas, e nesse mesmo ano organizou o livro com alguns textos que publicou desde que passou a escrever para o jornal. Segundo o próprio Drummond, o critério foi reunir o que ele considerou como “obras não perecíveis”.
Como todo livro que reúne textos diversos algumas histórias agradam e outras nem tanto, algumas perdem a tonalidade ou a atualidade, mas algumas permanecem como se fossem maracujás, podem enrugar, mas o cheiro continua. Eu amo a história velhinha que pede ajuda... Não vou contar aqui pra te deixar bem curioso.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: G2 - Salvador Shopping
Data: 26/02/2012

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A FILHA PRÓDIGA


Não é novidade no blog e já escrevi muito sobre continuações, ou sequências como as editoras gostam de nomear. Então aproveito para abandonar uma continuação que, na minha modestíssima opinião, é excelente. Curiosamente eu comecei a ler no dia seguinte ao término de Caim & Abel. Não tenho idéia se o Jeffrey Archer o escreveu por força da editora, ou por causa do sucesso do livro anterior, mas exatos três anos depois do lançamento de Caim & Abel ele nos brinda com A Filha Pródiga. Poderia ser ruim, mas não o é, poderia ser repetitivo, mas isso passa ao longe, e poderia ser enfadonho, mais do mesmo, mas Jeffrey nos brinda com ótimas surpresas.
No primeiro livro os protagonistas são Abel e William, dois magnatas poderosos, e a história de seus filhos Florentyna e Richard, respectivamente, é recortada pelas vidas dos pais e tem mais destaque no momento em que se apaixonam, casam e são deserdados.
A Filha Pródiga narra a trajetória obstinada Florentyna Rosnovski, garota decidida, rica, bonita, inteligente, que traça desde muito cedo um plano ambicioso para sua vida, o de tornar-se a primeira mulher a chegar à Presidência dos Estados Unidos. O livro também é uma saga e vai de 1934 até o ano de 1995 numa ritmada sucessão de episódios em que conhecemos o temperamento rebelde da garota que nem a governanta inglesa nem as professoras conseguem dominar. O ápice da rebeldia vem quando ela aceita o pedido de casamento do filho do maior inimigo do deu pai e é a partir daí que vemos a determinação dessa mulher para conquistar o seu destino.
Um mérito importante tenho que conceder ao autor, o ano era de 1982 e o livro descortina e descreve de maneira muito convincente e clara os meandros da política contemporânea e o quanto uma mulher pode ser subestimada.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Louge Salvador Shopping - 1. Piso
Data: 26/02/2012

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CAIM & ABEL


Abel Rosnovski, polonês, filho ilegítimo, nasce numa floresta em Slonim e sua mãe morre no parto. É adotado por uma família pobre e criado junto com outros seis irmãos. Sobrevive às dificuldades da infância e aos horrores da Primeira Guerra Mundial. Imigra para os Estados Unidos onde faz fortuna e torna-se proprietário de uma poderosa cadeia de hotéis.
William Kane, americano, de uma tradicional família de banqueiros de Boston, é formado para comandar um império financeiro. Herda a fortuna do pai e assume a presidência do banco, luta com todas as armas para transformá-lo em uma das mais importantes instituições financeiras do mundo.

Acha que falei tudo? Que nada, ainda falta muito.
Ao longo de 65 anos, tendo como pano de fundo um panorama histórico das transformações da sociedade, dos costumes e da política do século XX, Kane e Abel crescem, casam, tem filhos, experimentam fracassos, vitórias, passam por dramas pessoas e profissionais e, após uma sucessão de acontecimentos engenhosamente encadeados por Jeffrey Archer, os dois homens encontram-se finalmente para se transformarem em obcecados inimigos, cada qual decidido a destruir o outro e assim preservar suas conquistas.
Você já leu uma saga? Dessas que narram uma vida inteira? Não? Então se prepare para essa tarefa. O livro que vou abandonar é resultado da aguçada observação da realidade e da intensa pesquisa histórica do autor. Existe uma lenda de que Jeffrey Archer chegou a escrever dezoito versões do livro antes de entregar os originais aos editores. E não deve ter sido uma tarefa fácil, afinal são 575 páginas escritas com um estilo ágil, direto e cheio de reviravoltas. Jeffrey pode ter levado um tampão para escrever, mas eu não consegui largar o livro e o devorei em três dias.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 2 - Salvador Shopping
Data: 22/01/2012

domingo, 16 de outubro de 2011

DIÁRIO DE UM LADRÃO


Se Jean Genet (1910-1986) estivesse vivo seria um ótimo blogueiro. Aposto minha edição de Memórias de Adriano que seu blog seria mais famoso que o da Bruna Surfistinha, e Diário de um Ladrão seria um livro mais comentado do que o pobre O Doce Veneno do Escorpião. Embora eu compartilhe da opinião de que cada época é diferente e produziu suas obras dentro dos recursos disponíveis, e por isso mesmo importantíssimos como retrato, ou relato, e a partir daí temos a história, fico por vezes a pensar em autores já falecidos vivenciando os recursos atuais e com as devidas liberdades disponíveis dos dias de hoje.
Esse é o caso de Jean Genet, cuja contracapa do livro o enquadra como “ladrão, homossexual e prostituto”. Três alcunhas carregadas de emoção, preconceito e violência. Já eu prefiro o epíteto de escritor, poeta e dramaturgo, e por esse mote você já percebe que Jean Genet não foi uma unanimidade, muito pelo contrário, era controverso e polêmico. Com tantos adjetivos você também já sabe que terá de ser como São Tomé, ler suas obras para tirar suas próprias conclusões.
Diário de um Ladrão é um mix de autobiografia com livro de memórias, adicionadas aqui e acolá várias pitadas de devaneio do próprio autor, passagens que você não sabe se são verdadeiras ou se são versões do autor para os fatos ocorridos. Genet narra suas andanças por vários países da Europa, seus encontros e amores com os mais variados tipos de marginais e, ao conferir uma dimensão quase heróica à criminalidade, ele se transforma numa espécie de ‘santo às avessas’, ou como preferem alguns, um ‘anjo do mal’. Suas cenas são descritas com crueza e violência, embaladas por cenários de extrema pobreza e conduzidos por caminhos tortuosos de amor e sexo bruto.
Jean-Paul Sartre, muito amigo de Genet, afirmou que Diário de um Ladrão deve ser lido como um livro poético, assim como O Balcão, As Criadas e Nossa Senhora das Flores. Ler essa obra requer um olhar diferente, sem pré julgamento, com a alma aberta para tentar compreender uma época, um conceito, um modo de vida, um exemplo a ser seguido... Ou não.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento Perini - Graça
Data: 18/12/2011

domingo, 9 de outubro de 2011

MACUNAÍMA


Na sexta-feira passada ao sair do trabalho passei no shopping aqui perto de casa e por curiosidade, juro que não pretendia comprar nada, entrei na livraria. Bem, a curiosidade se refletiu em duas compras; a primeira foi o livro de memórias do Ricardo Amaral chamado Vaudeveille que comecei a ler ontem e estou aproveitando a leitura para malhar bíceps uma vez que o livro é um tijolão de 500 páginas. Mas o que isso tem a ver com o blog? Calma.
A segunda compra foi ao acaso, passando pela estante cujo tema era ‘Clássicos’ fiquei a pensar nos títulos que eles consideraram como tal. Eu sempre me empolgo com aquelas listas sobre os 100, ou os 1000 livros que você deve ler antes de morrer e em geral me sinto um obtuso porque vejo que não li nem metade do recomendado, mas eu sigo em frente lendo o que me cai às mãos sem seguir uma regra ou uma lista publicada sabe-se lá com que critério. Mas o que isso tem a ver com o blog? Calma.
A estante estava realmente cheia de clássicos: Guerra e Paz, Édipo Rei, Decamerão, O Pequeno Príncipe, Os Três Mosqueteiros, Crime e Castigo, O Velho e o Mar, 1984, A Peste, Os Lusíadas, Ensaio Sobre a Cegueira, A Hora da Estrela, Os Sertões, O Tempo e o Vento... etc., e Macunaíma. Este último me chamou à atenção.
Já falei aqui sobre o Mário de Andrade, post Contos Novos em 20/08/2011, mas confesso que não resisti e comprei o livro só para abandoná-lo, fato inédito até aqui uma vez que abandono meus próprios livros, lidos, relidos, e por vezes cheios de anotações. Acontece que o meu Macunaíma é de novembro de 1981, com várias anotações depois que vi o filme, e este vou deixar para a posteridade. O que me chamou à atenção na época e chama até hoje é que Macunaíma é um anti-herói, um herói sem nenhum caráter, safado, mentiroso, traidor, além de extremamente preguiçoso. O livro é voltado para uma ótica cômica, critica o romantismo, utiliza-se dos mitos indígenas, das lendas, provérbios do povo brasileiro e registra alguns aspectos do folclore do país até então pouco conhecidos, lembrando que foi escrito em 1928. É uma obra surrealista, onde se encontram aspectos ilógicos e fantasiosos. Apresenta críticas implícitas à miscigenação étnica (raças) e religiosa (catolicismo, paganismo, candomblé) e uma crítica maior à linguagem culta já vista no Brasil.
Macunaíma está na minha memória como um dos clássicos da literatura brasileira, vale à pena aventurar-se.

PS: Na edição que comprei para abandonar há um capítulo extra intitulado “Para Entender Macunaíma” que traz um panorama sobre a escrita do livro e fatos que marcaram a vida do escritor Mário de Andrade fazendo com que o leitor atual identifique as vertentes modernistas que marcaram a época.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sala de Arte - Cinema da UFBA
Data: 18/12/2011

domingo, 25 de setembro de 2011

DE BAR EM BAR


A escolha desse livro é proposital, ainda estou pensando muito sobre as relações humanas. A primavera já chegou e os jornais, telejornais, internet, revistas, foram invadidos pelas flores, abelhas voando, casais de namorados, e por aquele ar de amor que a primavera traz e o verão consolida. Se no post anterior eu falei sobre a história de um homem mais velho na busca pelo amor agora publico outro lado, uma mulher jovem de vinte e oito anos que é assassinada exatamente por causa da mesma busca.
Ao ler num jornal a descrição de um brutal assassinato que ocorrera em Nova York na noite de Natal de 1973, Judith Rossner (1935-2995) teve a idéia de construir um romance baseado naquele fato real. Primeiro procurou seu editor e vendeu-lhe a idéia, depois passou meses pesquisando os arquivos dos jornais e percorrendo os bares de Nova York. O resultado foi a publicação de "De Bar em Bar", no original com o título de Looking for Mr. Goodbar, que resultou um dos maiores fenômenos editoriais dos anos 70. A história de uma mulher solitária que anda pelos bares em busca de homens para sair do seu estado de depressão e isolamento, e que morre tragicamente. O livro vendeu dois milhões de exemplares e foi adaptado para o cinema com relativo sucesso. ”De bar em bar” aborda com inteligência a situação das mulheres descasadas numa cidade grande.
A trajetória de Theresa Dunn, professora dedicada que trabalha numa escola para crianças surdas durante o dia e que à noite abandona a imagem de moça bem comportada buscando em bares de Nova York uma companhia para noites solitárias. Uma mulher que foi muito reprimida sexualmente e procura o prazer nos braços de homens desconhecidos é encontrada morta em seu apartamento, uma história de solidão e violência desencadeada sem nenhuma razão aparente. O livro foi escrito em 1975, passados 36 anos desde a sua primeira edição parece que li a notícia no jornal de ontem.
Todos buscam relacionamentos mas ainda não encontramos uma fórmula de amor ideal, estamos cada vez mais expostos na TV e nas redes sociais nos tornamos mini celebridades, já temos remédios que proporcionam a sensação de felicidade, estamos cada vez mais conectados para ter a sensação de que estamos em todos os lugares e que não perdemos nada do que acontece, fotografamos nossas vidas e a expomos, do prato na mesa ao pôr do sol... Temos tudo isso e ainda estamos sós. Ficção?
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio esterno - Sala de Arte - Cinema da UFBA
Data: 18/12/2011

sábado, 17 de setembro de 2011

UM AMOR


Não sei se inspirado na primavera que começa na próxima semana, ou talvez sugestionado por uma peça de teatro que assisti ontem chamada Alugo Minha Língua, com um ótimo texto de Gil Vicente Tavares e uma direção precisa de Fernando Guerreiro, mas o fato é que amanheci com essa sensação de falta de amor, ou desamor, ou será solidão de amor? Isso me inspirou a procurar um livro específico dentre os muitos que tenho para abandonar chamado “Um Amor”. Assim como a primavera traz a temporada do acasalamento, a peça que assisti ontem falava sobre a banalização do erotismo em contrapartida das relações humanas, Dino Buzzati (1906 – 1972) conta a história da solidão, do desamor, da dor do amor, ou tudo junto como no Caldeirão do Huck.
Antonio Dorigo, personagem principal, um arquiteto cinqüentão já realizado profissionalmente, conhece a jovem prostituta Laide, que lhe desperta um interesse fora do normal. Em pouco tempo, ele é seduzido pelas histórias mirabolantes da moça, e sua curiosidade inicial se transforma numa paixão avassaladora. Obcecado por todos os detalhes da vida de Laide, Dorigo se envolve num mundo de mentiras e mistérios no qual vai se perder como nunca imaginou ser possível. É a solidão em que vive, e que finge ignorar, que o leva a interessar-se por ela, de querer um pouco mais daquela mulher tão ambígua que lhe concede intimidade com hora marcada. Em outras palavras, ele sente a necessidade de conhecer alguém além de um corpo, a necessidade de partilhar seus sentimentos e se entregar a um amor.
Mas, pensando bem, Um Amor é também a história de um processo de saturação, pois, a partir de certo momento Dorigo se dá conta de uma vida emocional marcada pelo vazio profundo, pela falta de um relacionamento significativo que lhe suprisse as carências mais fortes, ignoradas até a aparição de Laide quando se impõem com toda força. Ela o fará sofrer, e ao se ver sofrendo ele se impõe o auto controle, caminho confortável que trilhou por toda a vida e neste momento sente-se aliviado, mas a tristeza é impiedosa, ele sabe que voltou a ser novamente só, querer controlar o amor é impossível e por isso vai perde-lo, e ao perder o amor perderá também a possibilidade de superar a solidão.
Dino Buzzati escreveu Um Amor quando já era um homem maduro, e o romance tem algo de inspiração autobiográfica. Buzzati também se apaixonou por uma mulher muito mais jovem, Almerina Antoniazzi, com quem viria a se casar em 1966.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Sala de Arte - Cinema da UFBA
Data: 18/12/2011

domingo, 11 de setembro de 2011

A FOGUEIRA DAS VAIDADES


Já escrevi aqui algumas vezes que um bom livro pode tornar-se um péssimo filme e vice versa. Definitivamente a primeira opção acima é o caso de A Fogueira das Vaidades, mesmo contando com Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith e o genial Morgan Freeman no elenco, e uma produção caprichada, a direção de Brian De Palma não salvou um roteiro chato. E o que nos restou? A Fogueira das Vaidades recebeu cinco indicações ao Framboesa de Ouro, nas categorias Pior Filme, Pior Diretor, Pior Atriz, Pior Atriz Coadjuvante e, claro, Pior Roteiro.
Tom Wolfe teve a infelicidade de ver seu exelente livro de mais de 600 páginas decupado, cortado, aviltado, e a excelente história narrada de uma forma brilhante foi execrada pela crítica.
Mas do que trata essa obra? Wolfe nos apresenta Sherman McCoy, jovem executivo de 38 anos, morador da ilha de Manhattan, rico, por vezes divertido, que curte a vida, a bela casa, carros de luxo e mulheres. Ao voltar com sua amante do aeroporto ele se perde na auto estrada errando o caminho que o levaria de volta a Manhattan e atropela um jovem negro debaixo de um viaduto no Bronx, a quem precipitadamente julgou ser um assaltante. Flagrado por um reporter, Sherman vê sua vida de yuppie bem sucedido transofrmar-se num jogo de poder, um cabo de força entre a extrema riqueza e a extrema pobreza, margeados por convenções muito particulares de quem se julga superior e acaba tendo sua presunção exposta. A partir daí Sherman McCoy também se transforma em vítima da sua própria presunção, da polícia, da justiça, da politicagem, da mídia, da família, do dinheiro e por aí vai.
O livro é uma corrosiva sátira sobre o poder dos ricos e dos políticos, e como esse poder é utilizado para abafar os podres em suas vidas pessoais, o retrato de uma Nova York dos idos anos 80.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento da Associação Atlética da Bahia
Data: 11/12/2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

SODOMA E GOMORRA


Se alguém te pergunta “Você já leu Proust?” você disfarça e muda de assunto, tem uma paralisia facial e acaba no hospital, prova que é um erudito e começa a falar do gênio literário nascido no século 19, ou simplesmente diz “Não li”.
Pois é, a grande maioria da população acha que Marcel Proust (1871-1922) é para poucos, um escritor de livros complicados e muito rebuscados para simples mortais, deixando assim uma obra maravilhosa esquecida, largada nas bibliotecas ou frequentando as estantes dos cenários de novela. Afinal, ter Prost na estante da muita moral.
Mas o que tem essa obra que assusta tanto? Acho que sei, ou melhor, tenho minhas desconfianças. Não é uma obra de leitura fácil, mas também não é ininteligível, é uma escrita rebuscada, mas isso se deve ao aspecto balzaquiano e romanesco e isso é porque foi uma obra trabalhada e retrabalhada. O livro que vou abandonar é o quarto volume da série “Em Busca do Tempo Perdido” que foi publicada entre 1913 e 1927, mesmo depois da morte do autor, foi escrita grande parte durante a Primeira Guerra, com as editoras fechadas, dando a oportunidade para Proust poder aprofundar a estrutura do romance e todas as suas complexidades.
Em relação à temática, o livro traz até nós a profundidade e a sensibilidade de Marcel Proust que, assim como Virginia Wolf e Clarice Lispector, faz do seu romance Sodoma e Gomorra um desbravamento da alma e nós, que nos julgamos tão perfeitos e insubstituíveis, ficamos reduzidos à metade diante de revelações avassaladoras. E como se estivesse a advertir o leitor do que está por vir ele abre o primeiro capítulo do livro com a epígrafe: “Primeira aparição dos homens-mulheres, descendentes daqueles habitantes de Sodoma que foram poupados pelo fogo do Céu.”
Então... Vai aventurar-se?
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio externo do COT - Canela
Data: 27/11/2011

sábado, 20 de agosto de 2011

CONTOS NOVOS


Quando pensamos em Mário de Andrade (1893-1945) logo nos remetemos à idéia do modernista que fez parte do Grupo dos Cinco: Mário de Andrade, Osvald de Andrade, Menotti Del Picchia, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, que organizaram e participaram da famosa Semana de Arte Moderna de 1922. Ou, para os iniciados em literatura, pensamos também em dois livros ‘Amar, Verbo Intransitivo’ e ‘Macunaíma’, os mais famosos dentre uma obra vasta e muito rica.
Como sempre, na minha modestíssima opinião, acho pouco. Mário foi um poeta, romancista, historiador, crítico de arte, fotógrafo, pianista, professor, musicólogo e pioneiro no campo da etnomusicologia brasileira (segundo o dicionário Houaiss quer dizer “1. Estudo das formas e atividades musicológicas de todas as culturas”). Um trabalhador incansável pela arte, música e cultura no Brasil.
O livro que pretendo abandonar chama-se Contos Novos e foi publicado em 1947, dois anos após o falecimento do autor. Nele vamos achar nove contos do total de doze que o autor pretendia publicar, segundo anotação manuscrita do próprio Mário e transcrita pela Livraria Martins Editora. É uma safra que ele não teve tempo suficiente de maturar e concluir, e trata-se da elaboração de um processo artesanal que compreendia ter várias versões do mesmo texto, alguns revistos e revisados por até dezoito anos, como é o caso de ‘Frederico Paciência’ cuja gestação ocorreu entre 1924 e 1942, também segundo anotações do autor.
Alguns logo dirão, dezoito anos não é muito tempo para um conto com treze páginas? Penso que não, colocando uma lupa no legado de Mário de Andrade nenhum tempo é curto quando se trata da qualidade de uma obra.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem G1 - Salvador Shopping - Entrada escada rolante
Data: 06/11/2011

sábado, 13 de agosto de 2011

HANNIBAL


É possível escrever a continuação de um livro de sucesso? Quando um livro vende muito e deixa o escritor rico, bem rico, pode ter uma continuação que também alcance o mesmo patamar? O livro em questão seria O Silêncio dos Inocentes, que na verdade poucos leram, mas que muitos, e quando digo muitos, quero dizer milhões, sabem a história por causa do filme homônimo que foi agraciado com cinco prêmios no Oscar em 1992 (Melhor Filme, Diretor – Jonathan Demme, Ator – Anthony Hopkins, Atriz – Jodie Foster e Roteiro Adaptado – Ted Tally e Thomas Harris).
J R Rowling com a sua epopéia do menino bruxo Harry Potter pode dizer que sim, é fácil ter uma continuação, aliás, sete continuações. Agatha Christie também diria que sim, recordista, publicou mais de quarenta continuações da série escrita para os mistérios do detetive Hercule Poirot e Stephenie Meyer também, afinal ainda desfruta o sucesso da sua saga para os vampiros em Crepúsculo, Lua Nova, etc...
Quando Thomas Harris escreveu O Silêncio dos Inocentes não previu o sucesso que a obra iria alcançar, mas a continuação Hannibal, que pretendo abandonar, foi concebida no rastro do sucesso do personagem Hannibal Lecter, mesmo com o hiato de onze anos após o lançamento do primeiro. É lógico que a obra também foi adaptada para o cinema e outras mídias, com menos sucesso porque não era mais novidade, e carregou o ‘fardo’ de ser uma continuação. Nisso tudo quem mais penou foi o pobre do livro que por sinal é muito bom e muito rico, bem melhor como estilo literário que o primeiro e com uma responsabilidade enorme por ter que contar o que seu antecessor não contou.
E para apimentar a história o personagem Hannibal Lecter não é apenas o caçador, ele se transformará em caça, perseguido por uma de suas poucas vítimas que conseguiu sobreviver. Dr. Lecter está com o rosto transformado por cirurgias plásticas, com dinheiro em caixa e um cargo importante em Florença, abordado por uma de suas vítimas que investe em uma mórbida vingança. A parceria com a agente Starling fará com que Dr. Lecter escape dos policiais e de um assassino tão louco, inteligente e perverso quanto ele?
É ler e conferir.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge em frente a Lojas Americanas
Data: 06/11/2011

domingo, 31 de julho de 2011

QUEM MATOU PALOMINO MOLERO?


Quase dez anos depois de o Brasil inteiro comentar e tentar descobrir quem matou Salomão Hayala, personagem da novela de Janete Clair intitulada O Astro, o peruano Mario Vargas Llosa publicava seu décimo livro. Uma obra diferente das outras até então lançadas com relativo sucesso no seu país de origem.
No Peru, por volta dos anos cinquenta, um soldado da aeronáutica é brutalmente torturado, assassinado, e depois pendurado numa árvore. Dois policiais, o Tenente Silva e o soldado Lituma, investigam o crime. A maestria na escrita de Mario Vargas Llosa confere a narrativa uma tensão alucinante e obsessiva, a tensão estabelecida deve-se ao alto grau de veracidade minuciosamente realista, alternada com uma atmosfera fantasmagórica como num pesadelo. Crime passional? Vingança de marido enganado? Negócios escusos? Os antecedentes são desvendados ao longo da trama, mas a intriga nos mantém atentos e interessados até o desfecho final.
Em 1987 eu li e reli o livro que pretendo abandonar, é uma obra surpreendente, não apenas pelo suspense na trama, mas pela maneira com que o autor revela as minúcias do inesperado final. Desde a novela O Rebu, 1974, passando por Água viva (1980), A Próxima Vítima (1995), Celebridade (2003), Paraíso Tropical (2007) e a inesquecível Vale Tudo (1988) o recurso do “quem matou” é fator preponderante para alavancar audiência e despertar o interesse público.
Quem Matou Palomino Molero não é a principal obra do autor, temos aí ‘A Casa Verde’, ‘Pantaleão e as Visitadoras’ e a mais recente ‘Travessuras da Menina Má’, mas sem dúvida é um livro por assim dizer... Curioso.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Associação Atlética da Bahia
Data: 16/10/2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O GATO SOU EU


“O Gato Sou Eu. Todos tem o direito de sonhar, e cada um o de ser dono de seu sonho.”

“Mas quem é o gato afinal? O psicanalista, tão atencioso em sua análise, ou o cliente que lhe conta seu sonho? Entre um e outro, o gato firma-se como símbolo da liberdade incondicional de sonhar.”

O primeiro parágrafo acima está na capa do livro. O segundo está na orelha. Na minha modestíssima opinião ambos refletem exemplarmente o olhar, a técnica e o estilo de um autor maravilhoso. Fernando Sabino (1923-2004).

Fernando Sabino é um desses autores que lemos sem pressa, examinando suas palavras e em deleite com a graça e a simplicidade dos seus textos. Este livro é recheado de crônicas e histórias engraçadas, às vezes comoventes, ora pitorescas, capazes de arrancar ótimas risadas ou mesmo olhos mareados pela ternura dos textos. Reza a lenda que muitos deles são verídicos, fruto das histórias vividas pelo próprio Fernando por este mundo afora.
Fernando já escrevia desde os quatorze anos, ao dezoito conseguiu publicar seu primeiro livro de contos intitulado Os Grilos Não Cantam Mais, chamou a atenção para o seu nome em 1944 com a novela A Marca. Com a publicação de O Encontro Marcado, seu primeiro romance, abre um caminho novo em sua carreira na literatura nacional. Obras como O Homem Nú, A Mulher do Vizinho e posteriormente, O Grande Mentecapto, contribuíram para que Fernando Sabino conquistasse a notoriedade nacional sendo aclamado pela crítica e pelo público.
É um autor simples, com uma obra rebuscada. Popular, mas elitizado pelos críticos. Não tem uma obra imensa como Jorge Amado ou Paulo Coelho, mas são exemplares de um legado grandioso. Experimente, você vai ficar fã.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Delicatessem Perini - Graça
Data: 15/10/2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

ASFALTO SELVAGEM I


Este é o meu post de número 50. Como o número é bem significativo resolvi escrever sobre uma história que virou livro depois de publicada em capítulos no jornal, e de um autor que, apesar de ter nascido em Pernambuco, foi no Rio de Janeiro que obteve a fama de “obsceno” e “anjo pornográfico” por escrever sobre amores passionais, traições, e retratar o sexo nas tradicionais famílias cariocas.

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”

Nelson Rodrigues (1912/1980) foi repórter policial, cronista esportivo, romancista, teatrólogo, mas, principalmente, um observador do cotidiano e crítico da sociedade carioca da primeira metade do século XX.
O livro Asfalto Selvagem I compila a primeira fase da saga de Engraçadinha - Seus Amores e Seus Pecados, que vai dos doze aos dezoito anos, em sua edição definitiva. A história arrebatou milhares de leitores ao ser publicada na forma de capítulos, entre 1959 e 1960, no jornal Última Hora. Engraçadinha é uma garota que catalisa paixões precoces e como tem a exata noção do fascínio que exerce sobre homens e mulheres, não se detém em manipulá-los ao seu bel prazer.
A obra foi adaptada para o cinema em 1981, dirigido por Haroldo Marinho Barbosa, rendeu a Lucélia Santos o prêmio de Melhor Atriz no festival de cinema de Brasília pela interpretação despudorada de Engraçadinha. Isso causaria uma saia justa na posterior adaptação da obra para a TV em 1995, uma vez que Alessandra Negrini foi convidada para viver Engraçadinha na primeira fase, e farpas rolaram na divulgação do nome de Cláudia Raia para a segunda fase. Tive o prazer de assistir as duas versões, mas o que realmente fica é o texto primoroso de Nelson, as atuações são licenças poéticas e elas que se descabelem para saber quem foi a melhor.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Corredor A - 2º Piso
Data: 28/08/2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O COLECIONADOR


Deixando um pouco de lado as ‘leituras tortas’, hoje me dedico a escrever sobre um livro que gosto muito; O Colecionador. Sua intrincada história com toques de thriller psicológico e um lado que acho muito interessante, o delinear dos personagens. É incrível como John Fowles (1926/2005) consegue dividir tão bem a personalidade dos personagens a partir do desenrolar dos acontecimentos e depois das páginas dos seus respectivos diários.
O livro narra a história de Frederick Clegg, um homem tímido que trabalha como balconista em uma Prefeitura. Os amigos o ridicularizam, principalmente seu hábito de colecionar borboletas, quando o destino resolve fazê-lo ganhador de um prêmio da loteria e, subitamente, Clegg torna-se dono de uma grande fortuna. Ele então passa a ter uma única ambição: sequestrar Miranda, uma bela estudante de arte, objeto de um contemplativo e sôfrego amor platônico. A trama maior se desenvolve a partir do momento em que a leva para o casarão que adquirira para este fim, ele tem a seu favor apenas a superioridade da força e a determinação mórbida de manter sua “peça” junto a si, e defronta-se com a vitalidade e inteligência de Miranda que, com sua superioridade de caráter, cultura e magnanimidade, confunde e ofusca o medíocre sequestrador.
Na minha modestíssima opinião John Flowes possui uma excelente coerência de estilo literário que caracteriza muito bem seus personagens. A linguagem de Clegg nos diários reflete sua personalidade disforme, opaca, enquanto o estilo de Miranda é ágil, culto, cheio de vitalidade. Este livro foi escrito em 1963, o ano em que nasci, e seu grande sucesso fez com que John abandonasse o magistério e fosse viver somente de suas produções literárias. Em 1966 ele publicou ‘A Mulher do Tenente Francês’, que, assim como O Colecionador, tornou-se um best seller e também foi adaptado para o cinema, só que com mais sucesso. Também pudera, com Meryl Streep no papel principal já era de se esperar.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge 1º Piso
Data: 28/08/2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

EU E O GOVERNADOR


Falei no post anterior sobre leituras “tortas” e não me contive em continuar com mais um exemplar dessa época de ouro. Vasculhei os livros que tenho para abandonar e encontrei um ótimo. Eu e o Governador.
A escritora chama-se Adelaide Carraro. Não que o livro seja ruim, uma história é sempre uma história e eu já disse aqui que gosto muito disso, mas há quem não goste, não leia, e até faça o sinal da cruz ao ouvir o nome da autora. Na época era um livro ‘proibido’, primeiro por ter relatos quase pornográficos e segundo porque foi escrito na primeira pessoa, como um diário da jovem que, ex-tuberculosa, apenas queria um emprego público para si e melhores condições para outros ex-tuberculosos e se envolveu num turbilhão de sexo, drogas and rock and roll político.
O Governador de quem se trata o livro, apesar de nunca ter sido nomeado pela autora, era o Janio Quadros. Quando o livro foi publicado o Janio não era mais nem Presidente, já tinha renunciado, e mesmo assim foi um livro ‘bomba’.
Em 1977 Adelaide Carraro já era uma escritora super publicada, tinha 23 livros escritos em apenas 12 anos de carreira, uma média de dois por ano, amargava cinco processos pelos mais diversos motivos, foi presa dezoito vezes e já tinha vendido dois milhões de exemplares dos seus livros e ainda escreveria outros tantos. Junto com Cassandra Rios, outro fenômeno de vendas nos anos 60/70, só seriam batidas muitos anos depois pelo Paulo Coelho, cujos livros, longe dos relatos pornográficos do mundinho político, falavam de magos e bruxas.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Garagem 2
Data: 28/08/2011

sábado, 18 de junho de 2011

AMOR É SÓ UMA PALAVRA


Não é o melhor livro do J M Simmel, dizem por aí que “Por Quantos Ainda Vamos Chorar”, título horrível, é a sua melhor obra, outros acham que “Nem só de Caviar Vive o Homem”, outro título duvidoso, é o mais divertido. O livro que ora abandono é “Amor é só uma Palavra”, mais um título esquisito para a coleção, narra a história de um grande amor vivido por dois jovens da primeira geração do pós-guerra. Oliver Mansfeld, um rapaz de 21 anos, bem-nascido e com um belo futuro pela frente, e Verena Lord, mais velha que Oliver, casada e dividida entre o amor jovial e a vida boa proporcionada pelo marido.
Johannes Mario Simmel é filho de judeus, formou-se em química e atuou na área até 1945 quando os laboratórios vienenses foram destruídos durante os conflitos da Segunda Guerra Mundial. Desertou do exército, foi preso pelos russos e enviado para trabalhar como tradutor nos EUA. Foi jornalista e trabalhou em importantes revistas austríacas. Abandonou o jornalismo e dedicou-se a escrever livros, com um novo romance em média a cada dois anos, livros estes que muitos desdenham por tratar-se de um universo meio Dallas de ser. Para quem não se lembra do seriado televisivo, Dallas tinha um enredo recheado de ‘voltas por cima’, com fartas doses de poder, sexo e cobiça. E Simmel ainda situava tudo isso no pós guerra.
Confesso que minha humilde opinião se baseia em leituras tortas de mais de 20 anos atrás, e para ser bem franco, acho que não estaria numa lista de prioridades atuais. Mas ressalto que J M Simmel vendeu mais de 73 milhões de exemplares dos seus livros em todo o mundo, foi muito bem aceito pela crítica e público da época. Morreu aos 84 anos esquecido pela mesma crítica e público que, hoje, espera ardentemente pelo próximo livro do Dan Brown (O Código Da Vinci) ou da Stephenie Meyer (Crepúsculo), coisas da vida.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Barra - Estacionamento G2 - Sul
Data: 09/07/2011

domingo, 5 de junho de 2011

DEPOIS DO FUNERAL


Faz um tempo que não escrevo aqui, ando tão atarefado com os diversos trabalhos em que meto o meu bedelho que não tem sobrado tempo para os livros, por isso vou continuar neste mês de junho a homenagem às mulheres iniciada em maio.
Hoje escolhi Agatha Christie (1890-1976), grande dama britânica, autora de mais de oitenta livros com mais de quatro bilhões de cópias vendidas, reza a lenda que, à sua época, era superada em vendas somente pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare, especializou-se no chamado ‘romance policial’ e fez do detetive Hercule Poirot sua maior criação.
O livro que vou abandonar não está nas listas dos mais famosos, mas é um dos que mais gosto, ao lado de O Caso dos Dez Negrinhos e Assassinato no Expresso do Oriente, Depois do Funeral tem uma trama bem intrigante, daquelas intrincadas em que um parágrafo mal lido pode te deixar sem entender o final.
A história, escrita em 1953, começa depois do funeral do rico industrial Richard Abernethie, quando sua irmã Cora, que sempre teve por hábito fazer comentários impertinentes, insinua que Richard foi assassinado. No dia seguinte Cora é encontrada morta. O assassino está entre os convidados do funeral de Richard e Hercule Poirot é chamado para descobrir sua identidade, já que ninguém ali presente tem um álibi perfeito.
Agatha nunca gostou do resultado de suas obras adaptadas para o cinema, com apenas uma exceção para Testemunha de Acusação, dirigido por Billy Wilder. Mas o teatro, ao contrário, trouxe-lhe grandes alegrias, exemplo para A Ratoeira, que foi encenada por mais de vinte anos.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento G1-J - Salvador Shopping
Data: 05/07/2011

domingo, 15 de maio de 2011

UMA MULHER QUE FAZ


Um dia estava passeando pela FNAC em São Paulo, coisa que gostava muito de fazer quando morei por lá principalmente depois da inauguração da filial da Av. Paulista que era pertíssimo da minha casa, dava pra ir a pé, e me deparei com uma parede de livros, dessas que a editora paga para a livraria arrumar e assim divulgar o lançamento, estratégia de venda muito comum no varejo, e o livro do momento era Uma Mulher Que Faz, a autora: Lucimara Parisi.
Todo mundo à época sabia quem era Lucimara Parisi, diretora do Domingão do Faustão, uma das criadoras do histórico programa Perdidos na Noite, amiga de famosos, figurinha fácil das revistas de celebridade, mas escritora... Eu não conhecia essa vertente, embora soubesse que ela era jornalista. Não resisti e comprei o livro.
A obra é uma autobiografia com ares de livro de auto-ajuda, que definitivamente não é a minha praia, e uma pitada de revista Caras, já que o livro é recheado de fotos, muitas fotos. Mas tem um dado aí de que eu gosto muito, “histórias”, quem já leu alguma coisa nesse blog sabe que eu gosto muito de histórias, ‘causos’, relatos, e isso move minha curiosidade de leitor.
Na minha modestíssima opinião o livro está longe de ser uma obra prima da literatura, um livro imperdível, mas a vida contada pela própria Lucimara, romanceada ou não, aumentada, inventada, verídica, vale a pena pelo inusitado ou por mera curiosidade. Ela conta sua trajetória pessoal e profissional: do curso de datilografia ao trabalho como figurante na TV Paulista, de dubladora na TV Tupi a produtora de esportes na Rádio Nacional, até a chegada à Globo junto com o Fausto Silva. São histórias engraçadas e peculiares sobre os bastidores de um programa de TV, do encontro com pessoas famosas, dessas que fazem a social numa festa entre amigos e que nos faz gargalhar entre um gole e outro de bebida.
Duvido que um dia Lucimara Parisi seja convidada a disputar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, acho inclusive que isso não deve passar pela sua cabeça, mas que o livro me deu algumas horas de descontração lá isso deu.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Laboratório SOL - Brotas
Data: 01/07/2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

RETRATOS DE UM CASAMENTO


Encerrei o mês de abril com um livro sobre homens, mais especificamente sobre o universo masculino, seja ele visto e/ou revisto por homens ou mulheres, e dedicarei este mês de maio aos livros com histórias femininas uma vez que é foi homologado pelo imaginário popular como mês das mulheres, mães e noivas. Claro que pode parecer óbvio ter o assunto ‘mulher’ justamente no mês de maio, mas não me incomodo em parecer tradicional mesmo que por vezes, nós, blogueiros, tenhamos o fardo de ser sempre modernos, antenados, fora dos padrões. Ufa! Isso cansa.
O livro que escolhi para começar é Retratos de um Casamento, escrito sob a alcunha de autobiografia, quando se lê percebe-se que aí existem três versões: a de Vita Sackville-West, mulher forte e determinada a romper paradigmas, principalmente nos quesitos amor e sexualidade, a do seu marido Harold Nicolson, homem apaixonado pela esposa e que também não se furta à suas aventuras extraconjugais, e, por fim, a de um dos filhos do casal, Nigel Nicolson, intitulado co-autor da obra e responsável por reunir os escritos da mãe após a sua morte em 1962, trabalho nada fácil para a época.
Nos escritos de Vita, extraídos do seu diário, ou autobiografia, como ela mesma descrevia, há relatos do dia a dia e também passagens íntimas de sua vida, pensamentos e elucubrações sobre sua ardente paixão pela rebelde Violet Trefusis, suas emoções, inseguranças e desejos são tratados de maneira confessional. As aventuras amorosas não só com Violet, mas também com a escritora Virginia Woolf, fizeram-na magoar profundamente seu marido Harold e até abandonar os filhos Nigel e Bem, mesmo que por um curto período.
Nigel descreve o casamento dos pais de forma singular e ajuda-nos a entender em que contexto se fixa a natureza moderna e liberal das opiniões e comportamentos de Vita e Harold nos primeiros anos do século XX, do forte amor que os unia e que se tornou, à medida que os anos foram avançando, o porto seguro a que ambos regressavam após as aventuras, ela com mulheres fortes em relacionamentos abertamente públicos, ele com jovens rapazes e de maneira mais discreta.
O livro, publicado em 1973, e lançado no Brasil em 1976, contém fotos do casal, cartas, bilhetes, é o resgate de um tempo. Prova de que qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar... como bem escreveu Caetano Veloso para a música Paula e Bebeto.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento do Cinema - Shopping Iguatemi
Data: 25/06/2011

domingo, 24 de abril de 2011

MACHO MASCULINO HOMEM


“Os homens são um desastre. São péssimos amantes e espalham o contrário”, diz um poeta. “O homem está feito barata tonta. Tomou umas esguichadas de Rodiazol e não sabe para onde vai”, diz um cartunista. “Ele está cada vez menos homem”, diz um ator. Menos numerosos que as mulheres, os homens, no entanto, morrem muito mais, de mais doenças e muito mais moços. São profundamente inseguros, julgam-se bem informados sobre o sexo, mas não progrediram nada em relação a seus pais e, como eles, crêem em mitos que só os afastam do conhecimento de si mesmos e de seus problemas. Pior ainda: em geral, ao contrário das mulheres, que organizaram-se para defender seus direitos e debater suas questões, sequer se dão conta de seus problemas.”
O texto acima é de Geraldo Mayrink, foi publicado na revista Afinal, em 1985, logo depois da realização do Simpósio do Homem. Mas poderia perfeitamente ter sido publicado ontem, em qualquer jornal, revista, ou lido num programa de televisão. Vinte e seis anos depois, e isso é quase uma vida, a discussão em torno do homem é atualíssima e o tema reflete, por incrível que pareça, o que pensamos hoje. O homem já não é mais aquele? O livro é conduzido por especialistas da época, em diversas áreas, dentre eles estão; Dr. José Ângelo Gaiarsa, Moacir Costa, Valéria Petri, Fernando Gabeira, Rose Nogueira e Regina Fourneaut Monteiro, e compõe aspectos múltiplos da crise do homem e do machismo.
Os novos tempos, as modificações no comportamento da mulher, a nova moral sexual, o questionamento da autoridade patriarcal, tudo ataca a posição do homem, seja na literatura, no cinema, TV, teatro, música, e é muito interessante perceber que algo mudou nesses vinte e seis anos, mas a mudança é, comparativamente, significativa em algumas áreas, e irrelevante na maioria delas. Vale conferir e tirar suas próprias conclusões.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento G1 - J - Salvador Shopping
Data: 25/06/2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A QUEDA PARA O ALTO


Muitos leitores podem confundir esse livro como biográfico, não o vejo assim, eu penso nessa obra como um ato confesso, ou o relato de uma vida conturbada e curta, muito curta. Sandra Mara Herzer, que posteriormente viria a adotar o nome de Anderson Herzer, cujo apelido Bigode consta na lista dos internos da antiga FEBEM, é o(a) nosso(a) autor(a).
Para entender um pouco sobre a obra posso dizer que Sandra/Anderson foi um poeta, escritor, uma obra publicada que posteriormente serviu de argumento para o filme Vera do diretor Sergio Toledo com Ana Beatriz Nogueira no papel principal. Uma infância complicada; o pai morreu assassinado quando ela tinha três anos, a mãe, prostituta, morreu antes de Sandra completar oito anos. Criada por tios nunca foi compreendida em seu mais íntimo conflito, o de “identidade de gênero”, sensível a ponto de escrever belos poemas e rebelde a ponto de assumir-se homossexual e depois transexual, adotando o nome de Anderson, envolvia-se em brigas na escola, bebia muito e atirou-se fundo nas drogas.
A essa altura já interna da FEBEM Sandra está cada dia mais masculina, é quando corta o cabelo, joga fora todas as roupas “de mulherzinha” e assume a identidade de Anderson. É descoberto e apoiado pelo então senador Eduardo Suplicy, sensibilizado com sua história e a qualidade de seus poemas, levou-o para trabalhar em seu gabinete dando-lhe a oportunidade de uma vida fora dos muros da instituição e apoio na publicação do livro A Queda Para o Alto.
O livro foi escrito com a simplicidade de um jovem cheio de energia, não há divagações ou a procura dos porquês do comportamento humano, sejam de natureza social ou sexual. As conclusões são nossas; dos leitores, pais, profissionais de educação e daqueles que tem o poder público de transformação.
Sandra/Anderson não quis esperar o lançamento de seu livro, deixou-o como um recado. Aos 20 anos se jogou do viaduto da Av. 23 de Maio em São Paulo, recebeu os primeiros socorros ainda com vida, mas não resistiu aos graves ferimentos.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento Perini - Graça
Data: 24/06/2011

domingo, 17 de abril de 2011

UM ANO


Exatos 17 de abril de 2010 publiquei o primeiro post deste blog.
Um ano depois contabilizo em números 41 resenhas, ou post, para quem prefere uma linguagem de internet, 25 seguidores e mais de 1.000 visitas. Isso sem contar os comentários publicados, os e-mails recebidos, os elogios, e críticas, porque nada é perfeito para todo mundo, feitos pessoalmente por amigos e pessoas que não conhecia, mas que vieram falar comigo quando descobriram que eu era o autor.
Números à parte, ter um blog e eternizá-lo no mundo virtual foi um sonho que acalentei durante um bom tempo, exercitar a escrita e compartilhar experiências é um processo, quase uma terapia de regressão, afinal, lembrar das histórias, buscar dados sobre a obra, o autor, e, principalmente, rememorar fatos e acontecimentos que marcaram minha vida durante a leitura daquele livro comentado, trouxe ótimas lembranças.
Entretanto, na vida sempre há um ‘entretanto’, abandonar livros não é uma tarefa fácil. Das 41 resenhas que escrevi, até hoje abandonei efetivamente 33 livros. Confesso que a timidez me atrapalha, o coração dispara e as mãos tremem no momento crucial de um abandono. Às vezes me sinto um terrorista, um homem bomba prestes a explodir. Tomei quatro cafés e comi cinco pães de queijo até achar um bom momento para abandonar um livro numa loja do Fran’s Café, tomei três sorvetes no McDonald’s até sair sorrateiramente da lanchonete com o coração disparado e logo depois ser interpelado no estacionamento pela solícita garçonete que me trouxe o livro de volta porque ela achou que eu tinha esquecido, rodei quilômetros pela cidade até achar um ponto de ônibus vazio para deixar um livro sobre o banco, andei por quase duas horas dentro Espaço Unibanco de Cinema até perceber o momento exato para deixar o livro em local visível e sair sem ser abordado por uma pessoa que imediatamente te devolve o livro dizendo “Olha! Você deixou na mesa lá dentro”. Bendita cidadania. Isso quando estou sozinho, porque já coloquei pessoas próximas “pagando o mico” comigo, como na vez que minha mãe me ajudou distraindo o garçom enquanto eu deixava o livro numa mesa do restaurante Spaguetti Lilás, e na vez em que minha amiga Isabel Vasques, em São Paulo, foi ameaçada por uma senhora ao abandonar um livro no ônibus e teve que ouvir “Leve seu lixo com você, não deixe aqui para dar trabalho aos outros”.
Entretanto, já disse que na vida sempre há um ‘entretanto’? Continuo sentindo um enorme prazer em ler e agora me aventurando também na escrita, meu amigo Ricardo Linhares disse uma vez que escrever, assim como ler, é ato diário, deve tornar-se hábito para que o façamos bem, e esse hábito eu não quero perder até o fim da vida. Agradeço aqui ao Paulo Ricardo, que esteve ao meu lado quando criei e nomeei o blog, ao Roberto Camargo, pela inspiração de sempre, e a todos os leitores amigos e amigos leitores. Vamos em frente.
Para quem, como eu era, tem vergonha de escrever algo público, pode utilizar-se do e-mail abandonandolivros@gmail.com para mandar uma mensagem, um comentário, uma crítica, um oi, uma cutucada ou uma lufada de vento.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A ARTE DE AMAR


Confesso que não gosto de livros que nos ensina a viver, na minha modestíssima opinião, a vida é única e para cada ser humano ela vem de forma diferente, portanto, a meu ver, receitas de bolo para agir dessa ou daquela maneira, pensar dessa ou daquela forma, comigo não cola, acho chato e não perco meu tempo.
Em 2000, logo depois da emblemática virada do ano, digo emblemática porque quando eu era pequeno pensava que os anos 2000 não chegariam nunca, fui a um evento na Livraria Martins Fontes em São Paulo e ganhei o livro que agora abandono. É um livro que fala sobre amor, o título assusta, eu então, que passava na época por uma fase de desamor e desacreditado do tema, levei quase um ano com ele na estante até que um dia resolvi ler algo sobre quem o escreveu. Descobri que Erich Fromm é Dr. Erich Fromm (1900-1980), psicanalista, filósofo e sociólogo. Fiquei curioso para saber o que um alemão pensava sobre o amor em 1956, ano da publicação do ensaio, e engatei a leitura página por página, tópico por tópico.
O livro explora as maneiras pelas quais essa extraordinária emoção pode alterar todo o curso de nossa vida. A maioria das pessoas não consegue desenvolver sua capacidade de amar no único nível que realmente importa - um amor constituído por maturidade, autoconhecimento e coragem. O aprendizado do amor, como o de todas as outras artes, exige prática e concentração. E, mais do que qualquer outra arte, exige insight e compreensão. E há a abordagem sob todos os seus aspectos, não apenas o amor romântico, tão cercado de conceitos, literatura, filmes, músicas e publicidade contemporânea, mas também o amor dos pais pelos filhos, entre irmãos, o amor erótico, o amor-próprio e o amor por Deus, ou o seu Deus, ou a forma de energia que nos impregna quando estamos em estado de graça, ou cogitamos compreender o Universo.
Não é livro para chorar ou para deprimir, é livro para se perceber humano e achar o seu ponto de vista.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Quartel de Amaralina
Data: 24/06/2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

O CHEFÃO

A edição do livro que tenho é de 1981, embora o original tenha sido lançado em 1969, isso para vocês terem uma idéia do sucesso alcançado pelo livro, que também foi adaptado para o cinema e ainda rendeu boas continuações lançadas posteriormente também em livro, feito raro até para os dias de hoje.
O autor, Mario Puzo (1920-1999), já havia escrito vários romances que, apesar de bem recebidos pela crítica, passaram despercebidos pelo público. Até que recebeu uma proposta irrecusável; cinco mil dólares de adiantamento para escrever um livro sobre um assunto que ouvira falar nos tempos de jornalista, a Máfia. O resultado foi The Godfather e uma vida nova para Puzo, alçado imediatamente para a categoria de celebridade literária.
O chefão é D. Vito Corleone e a história transcorre no período de 1945-1955 com lembranças e reminiscências da infância do personagem principal que datam de 1901. Centrada na ascensão do imigrante pobre até transformar-se no poderoso líder de uma das famílias mafiosas que partilhavam o poder no submundo de Nova York. Para quem já viu o filme o livro complementa e muito o entendimento da intrincada família Corleone, pode-se compreender mais sobre o processo de hierarquia e o porque da violência ser o fator preponderante na briga pelos melhores negócios. Contrariando indicações anteriores hoje eu recomendo que se veja o filme primeiro antes de ler O Chefão, ter em mente a imagem do Marlon Brando, em uma atuação impecável que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator em 1973, pode tornar mais aprazível a degustação de tanto sangue. Em alguns momentos você tem a impressão de que o livro vai pingar em você tamanha a crueldade das descrições.
Mas vale a pena, acredite, é um clássico.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Rua da Fonte do Boi - Rio Vermelho
Data: 24/06/2011

domingo, 20 de março de 2011

O VERÃO E AS MULHERES


O verão acabou ontem, dia de muita chuva em Salvador, e eu, que estive possuído por uma gripe pós carnaval, e ainda amargo alguns resquícios da maldita, fiquei sem escrever por alguns dias. Na verdade a gripe me deixou sem inspiração. Mas eis que, neste primeiro dia de outono surge um lindo dia de sol, com aquela brisa marinha que só os moradores de Salvador conseguem desfrutar, e isso me animou. Finais de semana ensolarados me deixam bem mais feliz.
Lembro que comecei o verão indicando um livro do Rubem Fonseca, 200 Crônicas Escolhidas, e pretendo termina-lo com a indicação de mais um livro desse autor fantástico. Não sei se por causa da gripe, cujo mau humor me assolou nos últimos 10 dias, a falta de concentração fez com que eu me refugiasse em leituras mais rápidas.
Em O Verão e as Mulheres Rubem Braga seleciona suas crônicas publicadas entre 1953 e 1955 no jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro e em outros periódicos. Na verdade, este livro é a quarta edição de A Cidade e a Roça. Em 1985 o autor, como ele mesmo revela em nota no livro, tem a coragem de mudar o título, que, segundo ele, “era muito ruim”, alem de lembrar muito As Cidades e as Serras de Eça de Queiroz. Rubem disse ao editor que não agüentava mais aquele título frio que em má hora escolhera. De resto nada foi mudado.
No livro contamos com a presença de Joaquina, a “que fazia olhos azuis”, e algumas crônicas que já foram transcritas em um sem número de antologias escolares e livros de leitura como: O Cajueiro e Homem no Mar. Outras são cortes na intimidade da vida brasileira como O Homem dos Burros, Caçada de Paca, Buchada de Carneiro, O Lavrador e Recado ao Senhor 903. São páginas de lirismo e humor completamente diferentes do que lemos atualmente, basta um pouco de sensibilidade para apreciar.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Em frente a Biblioteca Juracy Magalhães Jr. - Rio Vermelho
Data: 24/06/2011

domingo, 6 de março de 2011

O GRANDE GATSBY


Hoje é domingo de Carnaval e para quem imagina que eu, leitor assíduo de qualquer coisa que me caia às mãos, sou uma pessoa introspectiva que vive cercada de livros desprezando veementemente as festas mais populares é porque não me conhece direito. Sou folião assíduo do Carnaval, esteja eu onde estiver, e quem mora em Salvador, mais precisamente no bairro da Barra onde atualmente resido, sabe que é impossível fugir da festa momesca que invade a cidade.
Pensando nisso busquei entre os livros que pretendo abandonar essa obra primorosa de Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940) intitulada O Grande Gatsby. O livro é uma festa, na Long Island dos anos 20 do século XX vivia-se o sonho americano, havia belos jovens, mulheres exóticas, muito álcool, jazz, elegância, glamour e, pairando sobre tudo isso, a certeza de que a vida seria uma festa sem fim. Como se vivessem numa constante recusa da maturidade, a incapacidade de envelhecer e uma obstinação: a de continuarem todos jovens e ricos para sempre.
O livro foi lançado em 1925, segundo uma enquete feita pela prestigiosa série ‘Modern Library’, foi considerado o segundo melhor romance da língua portuguesa da década de 20, perdendo para Ulisses de James Joice que abandonarei em breve. Narrada por Nick Carraway, assíduo convidado das festas de Gatsby, conta o lado glamouroso do ricaço que um dia amou a bela e mimada Daisy Buchanan, mas a perdeu para um rapaz endinheirado. Só que agora Gatsby ficou misteriosamente muito rico e está disposto a arriscar tudo para tê-la de volta, esse é o motivo de, na intimidade, ser um homem infeliz.
Filmado em 1974 com um Robert Redford no papel de Jay Gatsby no auge de sua beleza e carisma, e Mia Farrow transbordando beleza e fragilidade sob a direção de Jack Clayton, O Grande Gatsby faturou o Oscar de Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora, um primor.
Esse é um livro que merece ser lido no embalo das cantoras de jazz. Eu recomendo.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 2 - Shopping Barra
Data: 21/05/2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

TUBARÃO


O que acontece quando um tubarão abandona seu habitat e mata uma mulher que cai no mar para um mergulho noturno numa cidade balneária? O que acontece se os políticos do lugar abafam o caso para evitar uma fuga em massa dos veranistas que sustentam a cidade? O que acontece quando esse mesmo tubarão volta a atacar num domingo de sol numa praia cheia de crianças e adolescentes? O que acontece quando um xerife, um velho marinheiro e um pescador high tech decidem caçar o tubarão embarcados numa velha traineira?
Nos dias de hoje eu diria; absolutamente nada, porque esse argumento estaria mais indicado para um documentário do National Geographic que poderia ser esquecido no meio da programação. Mas estávamos em 1974 e a resposta é: um best seller que vendeu mais de oito milhões de livros, que foi adaptado para o cinema pelo próprio autor, Peter Benchley (1940-2005), cujo filme foi dirigido pelo Steven Spielberg um ano depois do lançamento do livro, e que em poucas semanas arrecadou mais de cento e vinte milhões de dólares. Nos dois anos seguintes em que esteve na mídia somou mais de duzentos e sessenta milhões de dólares em arrecadação de todos os tipos de tranqueiras que um filme arrasa quarteirão pode lançar, inclusive mais algumas dezenas de edições do livro.
Mesmo sem ler uma linha sequer do livro várias gerações sabem exatamente seu começo, meio e fim, tendo como base o filme. Entretanto posso afirmar que o livro tem um outro final que foi ignorado na adaptação pelo próprio autor para dar um lado mais humano ao filme.
Assim como Peter Benchley, que ficou conhecido como autor de um livro só, uma vez que suas outras obras não emplacaram, a continuação do filme: Tubarão II, III e IV não deram em nada e amargaram fracassos de bilheteria. O próprio Steven Spielberg fez uma sátira de si mesmo no filme De Volta Para o Futuro II, o personagem Marty McFly está em 2015 e é engolido por uma animação do lançamento do filme Tubarão XXXIV, Agora é Pessoal.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 1 - Shopping Barra
Data: 21/05/2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ESCOLHA O SEU SONHO


Estava aqui parado, vendo a tela em branco do computador, com um livro da Cecília Meireles ao lado, e me perguntei... Quem hoje em dia lê Cecília Meireles? Digo, espontaneamente. Quem hoje em dia chegaria até uma livraria para comprar um livro da Cecília Meireles? Não vale trabalho escolar do segundo grau. Autores como Cecília, Drummond, Machado de Assis, Clarice, estão relegados às prateleiras das bibliotecas ou aos trabalhos escolares. Nos dias de hoje que imperam as aventuras do bruxo Harry Potter, que por sinal li todos, ou a saga Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer, que ainda não li, mas já comprei e estão todos na fila, que adolescente se interessaria pelas poesias e crônicas de Cecília Meireles?
Modismos à parte, afinal na literatura também há os livros da ‘estação’, e isso é normal, sempre existirão os professores de literatura e os livros indicados para o vestibular que aguçarão a curiosidade das pessoas sobre esses autores, assim por dizer, “antigos”.
No livro que abandono dessa escritora maravilhosa, poetiza, pintora, professora e excelente jornalista, estão reunidas crônicas extraídas dos programas; Quadrante, apresentado pela rádio do Ministério da Educação e Cultura - MEC, e Vozes da Cidade, apresentado na rádio Roquette Pinto. São crônicas leves e ótimas para ler na praia como já escrevi aqui no blog, com um prefácio do não menos importante Carlos Drummond de Andrade que nos diz: “Nestas páginas, Cecília Meireles vê o mundo como ele é, e corrige-o para como deveria ser. Não o corrige pela violência, mas pela poesia.”
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Perini - Pituba
Data: 15/05/2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

COM LICENÇA, EU VOU À LUTA


Em fevereiro de 1983 o escritor, jornalista e sociólogo Herbert Daniel escreveu no prefácio do livro Com Licença, Eu Vou à Luta, o seguinte texto: “É preciso coragem para lê-lo – com toda parcialidade. É preciso abandonar toda adulteração para redimensionar a vida inteira, criança total, para que não haja direitos menores, nem abandonadas menores liberdades.” Ele estava certo ao recomendar a leitura para crianças, adolescentes, pais e educadores.
Eliane Maciel tinha quinze anos quando procurou um advogado pela primeira vez. Estava recorrendo a justiça para deixar de ser subjugada pelos pais como se fosse um uma prisioneira. Como será o estado psicológico de uma garota que chega ao ponto de pedir ajuda à justiça para se libertar da própria família? Elaine seria então julgada como se tivesse cometido um “crime”. E qual seria ele? Afrontar, com sua vontade de viver, um mundo estruturado para garantir a onipotência dos “maiores de idade”. Afinal, é ilegal ser “menor”?
O sociólogo Herbert Daniel estava surpreso com o processo de guerra civil estabelecido dento daquela família de classe média moradora da Baixada Fluminense, aprisionando-os em meio às farpas de violência, miséria, e o medo de perder as frágeis seguranças materiais e as deturpadas obrigações morais.
O livro é um soco no estômago, por isso a recomendação da parcialidade, e, embora já tenha se passado 28 anos desde o seu lançamento, é indubitavelmente atual. Eliane hoje é uma jornalista, já escreveu vários livros voltados ao público infanto-juvenil e tem cinco filhos. Sinal de que feridas saram e as cicatrizes podem não durar para sempre.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Frans Café - Pituba
Data: 15/05/2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O NOME DA ROSA


Este livro virou febre no início dos anos 80 (Séc. XX) quando foi lançado na Itália, aqui no Brasil por volta de 1983 todos os intelectuais e “antenados” da época gabavam-se da leitura, muitos sem jamais terem vencido as quase 600 páginas (562 na edição que abandono). Os que não concluíram a leitura foram salvos em 1986 quando assistiram ao filme homônimo ao livro.
Umberto Eco (1932) ambientou seu romance em um mosteiro na Itália medieval. A morte de sete monges, um por dia em circunstâncias insólitas, com requintes de crueldade, por vezes erotismo, e até um pouco de humor negro, é a base para desvendar os conflitos no seio dos movimentos heréticos do Séc. XIV, as violências sexuais, a luta contra a mistificação, o poder e a demagogia da igreja. O autor, que além de escritor, é filósofo, semiólogo, linguista, e bibliófilo italiano, nos propõe uma reflexão já na escolha do título de seu livro “O Nome da Rosa” que nos remete ao nominalismo... “que é entre o que parece ser o nome da ‘rosa’ como nome, em si um conceito, portanto um nome universal e, dessa forma, eterno, imutável, imortal, e de sua contraposição a ‘rosa’, flor de existência única na realidade, mas passageira, mortal e transitória.”
No enredo, Frei Guilherme de Baskerville é designado para investigar uma suspeita de heresia em um mosteiro franciscano mas tem sua missão interrompida, ou iniciada a meu ver, pelo acontecimento dos excêntricos assassinatos. Esse é o mote da divulgação do livro que, quando virou filme, contou com uma excelente atuação de Sean Connery se desvencilhando de vez do fantasma do espião 007, e um Christian Slater em começo de carreira no papel de Adso de Melk, o fiel escudeiro do Frei Guilherme. Dizem por aí que o nome Adso foi uma homenagem fonética de Eco a ‘Watson’, fiel acompanhante de Sherlock Holmes, detetive de quem é fã.
Demorei para ler esse livro, e não vi o filme até que o concluí. Confesso que reli duas vezes até entender a dinâmica do mosteiro, acompanhar no mapa as idas e vindas dos personagens e me fascinar com a Biblioteca. Esta sim, no meu entender, o personagem principal, o viés da história, a causadora de todos os acontecimentos, e, principalmente, as justificativas e razões lançadas pelo autor para as mortes. Um dado importante no livro me chamou à reflexão; o fato de a cultura, sabedoria e conhecimento serem um privilégio de apenas alguns poucos, e por essa razão, ter o poder de manipular os damais em função de outros interesses que não a descoberta da verdade, e o mais relevante: a dúvida lançada se a instituição ‘Igreja’ possa ter ou não destruído uma grande parte da nossa herança cultural, pela simples razão de ser incômoda para a religião e fé católicas, e sobretudo, para a manutenção dos seus privilégios e condição social, econômica e política. Dan Brown viria a lançar essa mesma dúvida 20 anos depois com Anjos e Demônios e O Código Da Vinci, mais aí já é outra história.
É ler e tirar suas próprias conclusões.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Reitor Miguel Calmon - Ponto de ônibus - Escola de Medicina da UFBA
Data: 23/04/2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

O QUARTO FECHADO


“O leitor que pega esse livro não o largará antes do final”, assim prometia o release da Editora Nova Fronteira ao lançar em 1984 'O Quarto Fechado', sétimo livro publicado de Lya Luft (1938). Mas uma coisa eu posso opinar, tem que ter perseverança para ler estes escritos. Lya não é uma escritora “fácil” e, O Quarto Fechado, não é o tipo de livro que se lê na praça de alimentação de um shopping durante o almoço. Este livro exigirá dedicação, tempo e maturidade para absorver o que se lê.
A trama mostra um casal separado que se reencontra ao lado do caixão de seu filho morto, cada um vai rever a sua vida e o que os conduziu a aquela trágica situação. Lya Luft aborda novamente um tema recorrente em sua literatura: as relações humanas, sobretudo familiares, e mais especificamente a morte, um dos temas mais questionados pelo homem e pouco explorado pelos escritores. Neste livro ela se torna personagem central, tema do qual não se pode fugir, porém todos procuram negar, e é tratada de maneira densa, misteriosa e por vezes poética. O leitor assiste em flashback o sofrimento de um adolescente suicida e sua irmã gêmea, um ser repulsivo trancado num quarto, e outros personagens que retratam as inquietudes do ser humano. Loucura, amores frustrados, fatalidade, segredos, omissão, culpa, ternura, desencontros e delicadeza fazem com que o leitor por vezes sinta-se retratado, tocado, compreendido, cumplice. Somos nós esses personagens, estamos aí, expostos, frágeis, corajosos, lutando por abrir caminho, por enxergar a noite.
Por ter traduzido para o português obras de Virginia Wolf alguns críticos teimam em afirmar a influência da escritora londrina na obra de Lya. Também muito comparada a Clarice Lispector, pela sensibilidade feminina, e aí leia-se feminina e não feminista, como se somente uma escritora brasileira pudesse dissertar sobre os sentimentos humanos, Lya rebate; “Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento.”
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus - UFBA - Pavilhão de aulas do Canela - Av. Reitor Miguel Calmon
Data: 27/03/2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A ESTRELA SOBE


Nascido Eddy Dias da Cruz (1907-1973) construiu sua carreira literária com o pseudônimo de Marques Rebelo, e, segundo o próprio, usar pseudônimo não deixaria sofrimentos na família caso fosse perseguido ou preso por causa da campanha que se criou contra os modernistas logo após a fatídica Semana de Arte Moderna em 1922.
Em A Estrela Sobe, o autor demonstra ser um observador atento e apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro. Leniza Máier, a personagem central do romance, luta desesperadamente para ser uma cantora de rádio. A partir desse argumento, com dissertações, diálogos (sim, é um livro com diálogos), e notas de rodapé repletas de ironia que muitas vezes revela um pouco de crueldade necessária face ao desejo sem freios de Leniza, tornando-nos quase íntimos, ou porque não dizer cúmplices dela.
Marques Rebelo constrói um painel lírico de um Rio de Janeiro na segunda metade da década de trinta cujos hábitos cortesãos relutam em ceder espaço para a praticidade de uma metrópole que já se dizia ‘moderna’. E é nesse cenário que conheceremos a trajetória da personagem principal, desde a infância até o final que não é um final, como diz o autor; “Não a abandonei, mas, como romancista, perdi-a. Fico, porém, quantas vezes, pensando nessa pobre alma tão fraca e miserável como a minha. Tremo: que será dela, no inevitável balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado de suas vaidades”.
Em 1974 Bruno Barreto dirigiu Betty Faria no papel de Leniza Máier no filme adaptado do livro. Destaque no prêmio APCA de 1975 de melhor roteiro.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Hospital da Bahia
Data: 09/04/2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE UM ATOR PORNÔ


Em função do meu trabalho, durante os anos que vivi em São Paulo, tive a oportunidade de conhecer uma quantidade muito grande de pessoas, e por causa de um projeto chamado Quinta No Cinema, no qual a Embratel comprava todos os ingressos de uma sessão de cinema e sorteava entre os funcionários interessados, frequentei muito o Espaço Unibanco de Cinema do Shopping Frei Caneca. Acompanhei esse projeto por quase dois anos e já conhecia todos por lá; os gerentes (de diferentes turnos), os relações públicas, os bilheteiros, as pessoas da limpeza e da cafeteria.
Nos dias do evento chegava cedo ao shopping e ia direto para a cafeteria comer uma quiche de alho-poró, um pão de queijo e um café com leite grande, ritual sagrado para quem saiu do trabalho às pressas e foi direto ao evento sem direito a jantar. Foi então que conheci o Sergio Clemente, autor desse livro que ora abandono. Sergio era balconista da cafeteira, um cara inteligente, articulado, sensível e até um pouco tímido. Ele me presenteou com um livro de sua autoria e pediu que escrevesse uma resenha no site da Livraria Cultura para ajudar na divulgação da sua obra.
Dias se passaram eu tive que ir até Porto Alegre ministrar um treinamento, bem naquela fase dos aeroportos em estado de caos completo, os vôos atrasavam até dez horas sem que nada pudesse ser feito a não ser esperar. Me vi numa sala de espera apinhada de pessoas e para passar o tempo eu tinha o material de trabalho e o livro Memórias Póstumas de um Ator Pornô, não demorei muito a decidir pelo livro e com isso me desliguei completamente do aeroporto.
O livro é uma homenagem burlesca ao Machado de Assis e sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escrito na primeira pessoa pelo personagem principal Hator P.P.P. que morre em 1988 em pleno trabalho, num set de filmagem gravando seu vigésimo sétimo filme pornô. A partir daí Hator nos conta da sua infância, sua mãe, suas vizinhas, suas colegas de escola e como se tornaria o maior ator pornô do Brasil. Confesso a vocês que dei boas risadas e até fiquei chateado quando anunciaram o meu vôo. Acomodei-me rapidamente no avião e voltei a me deliciar com as aventuras de Hator P.P.P.
Lição aprendida: não subestime um jovem escritor, esteja ele onde estiver, num balcão de cafeteria ou na Bienal do Livro.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus - UFBA - Pavilhão de aulas do Canela - Av. Reitor Miguel Calmon
Data: 09/04/2011