domingo, 27 de dezembro de 2015

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Impossível não comentar o incêndio ocorrido no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, sei que esse assunto tomou as redes sociais nos últimos dias e todos que conheço se manifestaram das mais diversas formas e conteúdos. Mas, como disse antes, seria impossível para mim não ficar incrédulo diante das primeiras notícias que chegaram via WhatsApp e depois por e-mail, à noite eu vasculhei os canais de TV atrás de mais detalhes, a Globo News até reprisou um especial feito sobre o museu. Confesso que fiquei boquiaberto e me emocionei muito diante das imagens do fogo consumindo o prédio histórico, o acervo tecnológico e a linda exposição que homenageava Luis da Câmara Cascudo, grande historiador, jornalista e antropólogo que dedicou grande parte da sua vida a estudar o folclore e a cultura brasileira. A pá de cal veio com a notícia da morte do bombeiro civil Ronaldo Pereira que voltou ao prédio após retirar os funcionários para tentar combater as chamas, teve uma parada cardíaca e não sobreviveu.

Voltei imediatamente no tempo e lembrei quando fui ver a exposição Grande Sertão Veredas em homenagem ao mestre João Guimarães Rosa, evento que abria o museu para a população. Lembrei do circuito com as frases nos tijolos, os toneis com os espelhos e os pergaminhos que ficavam no teto e quando puxávamos uma fita ele descia para que pudéssemos ler trechos da obra. Lembrei perfeitamente que amarguei três meses de curiosidade para esperar passar a multidão de curiosos que faziam filas de dobrar quarteirões e dediquei um dia inteiro para o museu, fiquei seis horas lá dentro para correr os andares, ler tudo e esconder as lágrimas de emoção por presenciar um projeto tão bacana, moderno e inédito. Antes de voltar a morar em Salvador eu visitei o museu uma segunda vez e dediquei horas só na linha do tempo da língua portuguesa e para assistir todos os vídeos que passavam simultaneamente naquele corredor imenso de telões.

No fim da noite ainda assisti no Jornal da Globo o governador Geraldo Alkmin anunciando que irá reconstruir o museu, que irá buscar parceiros para traze-lo de volta à cidade de São Paulo e ao mundo. Eu pensei com meus botões: tomara que sim, tomara que não seja uma bravata política para aproveitar os holofotes e acalmar os corações amargurados como o meu. E nesse momento fui novamente jogado no túnel do tempo de lembranças quando, em 2008, todas as câmeras de TV alardeavam o incêndio do Teatro Cultura Artística, na mesma São Paulo. Era tristíssima a visão do prédio oco, lugar que assisti inúmeras peças de teatro e vários concertos, e ao mesmo tempo era espantosa a visão do painel Alegoria das Artes, assinado por Di Cavalcanti, que era a fachada do teatro e continuava lá, com pequenas avarias, mas imponente, seguro, como um ato divino de resistência cênica.

Sete anos já se passaram e o teatro ainda não foi reconstruído. Acompanho pelo site da Sociedade de Cultura Artística as poucas notícias publicadas sobre o andamento dos processos. Em 2011 fiquei muito feliz quando houve a conclusão da restauração do painel do Di Cavalcanti, e em junho de 2015 eles publicaram que haviam conseguido o alvará de execução da obra, último documento que faltava para o início da reconstrução. O projeto é lindo, veja a foto abaixo. Será que conseguirei assistir a um concerto ou uma peça de teatro que seja nas novas instalações? Será que estarei vivo para ir novamente ao Museu da Língua Portuguesa?

Fachada do Teatro Cultura Artística antes do incêndio.


Fachada do futuro Teatro Cultura Artística que está no site da Sociedade de Cultura Artística.


Como hoje é o último post de 2015, também seria impossível encerrar sem os meus votos de esperança para o ano novo que se iniciará nos próximos dias, esperança no ser humano e na humanidade. Esperança, essa será minha palavra em 2016.

domingo, 20 de dezembro de 2015

O MENINO DO PIJAMA LISTRADO


O Menino do Pijama Listrado estava bombando em todas as listas de mais vendidos, seus direitos haviam sido negociados e uma adaptação para o cinema já estava em produção. Na época não dei importância, por experiência sei que livros muito procurados custam mais caro e passados alguns meses o preço acaba caindo. Mas o fato de já estar cogitado para virar filme fez com que quebrasse a regra e levasse o meu para casa. Ele amargou alguns meses na parte da estante que tem o título de “Um dia vou ler”.

O filme foi lançado sem que eu tivesse tempo de ler o livro e por isso não foi assistir. Tempos depois eu li uma matéria que falava sobre a cidade de Dublin, na Irlanda, ter sido nomeada pela UNESCO como ‘Cidade da Literatura’, um reconhecimento por sua contribuição com o universo literário. Autores consagrados como James Joyce, Oscar Wilde, Bram Stoker, Samuel Beckett e George Bernard Shaw são irlandeses, assim como uma nova safra como Marian Keves, Cecelia Ahern e John Boyle. Uma luz acendeu acima da minha cabeça igual às histórias em quadrinhos quando o professor Pardal tinha uma ideia, lembrei do livro, do filme, e do autor John Boyle (1971) e pensei, é chegada a hora de ler a história do menino de pijama.

Devorei o livro em três dias e fiquei arrependido de não ter lido antes. Ainda não vi o filme, acho que não quero ver o que foi adaptado para o cinema. É uma linda história sobre a amizade e a inocência de dois garotos separados por uma cerca elétrica e pelo antissemitismo. Bruno é filho de militar alemão, tem oito anos e vê sua vida transformar-se em tédio quando o pai é transferido para uma nova casa que fica numa região isolada e sem ninguém para brincar. Da janela do quarto ele vê uma cerca de arame e além dela muitas pessoas trajando uma roupa listada que ele pensou ser um pijama. Em uma das suas incursões solitárias pelos arredores da casa conhece Shmuel, um garoto que também tem oito anos e vive do outro lado da cerca. Shmuel lhe conta como vivem por lá e daí nasce uma amizade que levará Bruno a fazer tráfico de comida e desconfiar do emprego de seu pai. Certo dia Shmuel pede ajuda a Bruno, este cava um buraco e passa para o outro lado da cerca, veste um pijama listrado e embrenha-se com o amigo pelo acampamento.

John Boyle afirmou numa entrevista que nunca tinha ido a um campo em Auschwitz, e que escreveu a primeira versão do livro em dois dias e meio. Rebate algumas críticas quanto à verdade histórica do livro dizendo que é apenas uma fábula e por isso não tem compromisso com a realidade. Verdade ou não, a obra foi traduzida para mais de quarenta línguas e vendeu mais de cinco milhões de exemplares.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça de Alimentação - Ceasa Rio Vermelho
Data: 30/01/2016

domingo, 13 de dezembro de 2015

O COMPADRE DE OGUM


Tenho um respeito imenso pelo Jorge Amado (1912-2001). Desde a primeira vez que li Mar Morto, aos 15 anos e escondido da minha mãe porque na época era considerado livro obsceno para menores, não parei mais de ler até que completei toda a obra. É claro que por ser baiano tenho essa intimidade com o universo de Jorge, conheço bem as ladeiras, as praias, os terreiros e as comidas, e também é lógico que consigo ver seus personagens com uma proximidade tão grande que beira o realismo. Jorge sempre disse nas entrevistas que buscava inspiração nas ruas e seus tipos eram corriqueiros.

Eu li O Compadre de Ogum no final dos anos 1980, apesar de publicado em 1964 o livro teve pouca repercussão por causa da ditadura militar estabelecida no Brasil. Embora faça parte de um período muito fértil do autor, que começou em 1958 com a publicação de Gabriela, Cravo e Canela, é uma fase que Jorge deixa um pouco de lado os livros de cunho político-social e envereda pelo realismo fantástico começando a entrelaçar o cristianismo com o candomblé.

É esse o grande mote do livro. Quando Benedita, prostituta cobiçada pela boemia de Salvador, reaparece com um filho nos braços e o entrega a Massu dizendo que é dele, o negro se vê numa saia justa para encontrar um padrinho de batismo para o garoto já que a cerimônia deve acontecer antes que complete um ano. Todos os bêbados, jogadores, prostitutas, mães e filhas de santo se mobilizam para ajudar Massu, que era muito querido, a fazer a festa do batizado. Mas quem escolher diante de tantos pretendentes a padrinho? Para não chatear ninguém resolve consultar os orixás para obter a resposta quando recebe a revelação de que o próprio Ogum quer ser o padrinho do menino. Mas como fazer para que a divindade compareça na igreja no dia da festa e o padre permita que o “cavalo” entre na “casa de Deus”.

O final dessa história é pra lá de irreverente e bem ao estilo Jorge Amado. Seu bom humor extrapola as convenções do sincretismo fazendo-nos gargalhar com o inusitado das situações.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Mariposa - Apipema
Data: 30/01/2016

domingo, 6 de dezembro de 2015

FALA SÉRIO, MÃE!


Uma mania me persegue desde garoto quando descobri os gibis, na época chamávamos de revistinha em quadrinhos, que é me colocar no lugar de quem escreve a história. Isso me acompanha até hoje, daí porque me considero bastante condescendente com os escritores. Se você for um leitor assíduo do blog já percebeu as poucas críticas que faço e mesmo quando não gosto do livro nunca consigo ser veemente ou cruel. Sempre penso na pessoa que sentou na frente da máquina de escrever, ou computador, pensou num argumento e colocou sua ideia no papel. Depois conseguiu convencer uma editora a publica-lo, o que não é tarefa das mais fáceis, e depois divulga-lo, outra tarefa quase hercúlea, para que as livrarias deem um destaque na estante da frente e os clientes possam encontrar a sua obra. Se o livro será bom ou não vai depender da opinião dos leitores, essa é muito relativa e vai variar de pessoa para pessoa.

Há anos também dedico meu tempo a ler autores brasileiros: os clássicos como Artur de Azevedo, Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Jorge Amado, etc, os já consagrados como Paulo Coelho, Nelson Motta, Jô Soares, Guilherme Fiuza, etc, e também a nova geração. E é nessa classe que chamo de ‘nova geração’ que está Thalita Rebouças (1974), o primeiro e único livro que li da série foi o que a consagrou e vendeu milhares de exemplares: Fala Sério, Mãe! Ela foi bastante esperta para abocanhar um nicho de leitores adolescentes muito carentes de histórias que envolvam o seu universo no Brasil. Em 2003, quando o livro foi lançado, vivíamos o auge da saga Harry Potter no quinto livro da série e Thalita aproveitou bem o segmento nacional que estava vazio.

Contar histórias sobre mãe e filha a partir da gravidez com os depoimentos de Angela Cristina, mãe de primeira viagem, assustada e temerosa, esperando sua filha Maria de Lourdes, vivendo situações engraçadas e que muitas vezes parecem irreais de tão verossímeis e depois entregar o protagonismo do livro para a filha os 12 anos, que a essa altura já é uma típica adolescente cheia de questionamentos e certezas absolutas que duram 24 horas, que paga todos os micos da mãe superprotetora, já se autodenomina apenas Malu e nos contará sua trajetória até os 21 anos foi uma ideia um tanto audaciosa.

Talvez porque já fosse “velho” quando li o livro, achei Angela uma mãe divertida e muito identificável, e Malu é um porre, garota chata e muito estúpida com a mãe. A segunda metade do livro é apenas risível e carimbou em mim um efeito desapontador para finais de livros.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Loja Pãozinho Delícia - Porto da Barra
Data: 23/01/2016

domingo, 29 de novembro de 2015

NADA DURA PARA SEMPRE


Na semana passada escrevi sobre Harlan Coben e fiz uma pequena comparação com Sidney Sheldon (1917-2007). Recebi três e-mails de fãs do Harlan que discordaram veementemente da minha opinião. Gostaria de lembrar aos que escreveram que comecei o post anterior dizendo que era a minha mais modesta opinião e não pretendo que todos concordem comigo, quem sou eu para ser uma unanimidade. Respeito quem tem opiniões contrárias assim como gosto que respeitem a minha. Não me considero um mentor, pastor, ou divindade para selar o destino de alguém com meus escritos. Escrevo o que acho e não obrigo ninguém a ler o blog.


Só para colocar mais lenha nessa lareira hoje vou escrever sobre um dos livros de Sheldon que mais se aproxima do estilo que o Harlan Coben escreve. São três histórias quase independentes que dariam ótimos livros se aprimoradas, as protagonistas Paige Taylor, Betty Lou Taff e Kat Hunter se conhecem na faculdade e, apesar de personalidades bem diferentes, dividem o mesmo apartamento quando vão trabalhar no hospital público Embarcadero na cidade de São Francisco.

Paige Taylor tem uma infância tranquila, nutre uma paixão por um amigo desde pequena e sofre quando ele se casa com outra. Passa um bom tempo com o coração amargurado quando se vê envolvida numa acusação de assassinato de um paciente por causa da sua herança. Nós sabemos que ela realmente o matou, mas é inocente da acusação imputada porque o médico que a acusou o fez por vingança de amor não correspondido. Conseguirá ela safar-se desse julgamento?

Betty Lou Taff, ou Honey Taff, sempre se sentiu inferior às suas irmãs na escola porque era a menos popular. Desde então usa o corpo como moeda de troca para todos os seus propósitos. Não tem vocação para médica e se formou por pressão familiar seduzindo professores e quem mais pudesse ajuda-la a concluir o curso. Foi seduzindo o diretor que conseguiu uma vaga no Embarcadero, mas comete erros graves e põe em risco todo o hospital. Apaixona-se perdidamente por um paciente, mas comete um erro ao fazer nele uma transfusão com sangue soropositivo.

Kate Hunter era molestada pelo padrasto desde os treze anos mas sua mãe não acreditava nos seus relatos. Foge de casa quanto fica grávida e abriga-se com uma tia que lhe consegue um aborto. Apesar de bonita não consegue relacionar-se com os homens que a cortejam e vira motivo de uma aposta entre dois médicos. Por cinco mil dólares Ken Mallory aposta que a levará para a cama em um mês. Kate descobre a aposta e resolve zombar dele mas acaba apaixonada por Ken e entrega-se a ele para surpresa de muitos. Ken vê seus planos de casar-se com uma milionária quando Kate lhe diz que está grávida. Desesperado ele a dopa e simula um aborto feito pela própria Kate causando-lhe a morte. O que ele não contava é que sua colega de apartamento Paige Taylor não acredita na versão apurada pela Polícia e começa a investigar o caso por conta própria.

Nada Dura Para Sempre foi publicado em 1994 e contém todos os ingredientes de um best-seller: suspense, trama bem elaborada, sexo, amor, dinheiro, temas polêmicos, muita ação e finais imprevisíveis. Mais um da grife Sidney Sheldon.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento do Ceasa Rio Vermelho
Data: 23/01/2016

domingo, 22 de novembro de 2015

SEIS ANOS DEPOIS


Na minha mais modesta opinião Harlan Coben (1962) é o novo Sidney Sheldon. Claro que não estou colocando os dois no mesmo balaio, como se o primeiro fosse cópia do segundo, mas sinto essa proximidade principalmente no estilo frenético das historias contadas e na facilidade que ambos possuem de prender o leitor a cada final de capítulo. Tarefa que não é das mais fáceis quando percebo que as pessoas torcem o bico para livros com mais de 150 páginas ou capítulos com mais de três. Hoje em dia estamos fadados aos 140 caracteres do Twitter ou os textos de três linhas do Facebook, e se não tiver foto o post pode passar completamente despercebido. Estamos na era da imagem e a escrita está praticamente resumida às mensagens cifradas do WhatsApp e a obrigatória redação do ENEM.

Sidney Sheldon foi um escritor cujas histórias giravam em torno de grandes fortunas. Seus personagens, a grande maioria mulheres, eram pessoas comuns que trabalham como loucos e conseguem construir fortunas inimagináveis. Ou então são perseguidos por milionários, ou multimilionários, que em algum momento tornaram-se seus desafetos. Na sua escrita viajaremos por países exóticos, transitaremos por palácios, barcos, hotéis de luxo e haverá sempre o sexo para apimentar as tramas. Harlan Coben tem um estilo vertiginoso, seus personagens são pessoas comuns que vivem em casas simples e geralmente não há grandes fortunas envolvidas. Nos livros que já li até hoje o argumento principal são os sentimentos entre as pessoas. Sua trama tem tudo para ser a mais realista possível, mas seus personagens vivenciam histórias que beiram o inacreditável e a cada final de capítulo você é praticamente empurrado para ler o próximo.

É assim que a trama de Seis Anos Depois vai te envolver de tal forma que deixar o livro antes do final será quase impossível. Jake Fisher estava com dificuldade para escrever sua dissertação de mestrado e foi encaminhado pelo seu mentor para um sítio que funcionava como um retiro. Lá ele conhece Natalie Avery e juntos vivem os melhores meses de suas vidas. Estavam perdidamente apaixonados quando Natalie rompe com tudo e se casa dias depois com Todd, que ela disse ser um antigo namorado. Jake vai até a capela e testemunha o amor de sua vida casar-se com outro. No final da cerimônia Natalie vai até Jake e lhe faz prometer que a deixaria em paz. Amargurado e infeliz Jake faz a promessa e dedica-se exclusivamente à sua carreira de professor universitário até que, seis anos depois, lê por acaso no obituário da universidade a notícia da morte de um ex-aluno, Todd Sanderson. Uma luz se acende e aqueles seis anos parecem ser um fardo pesado demais, ele decide ir reencontrar Natalie no enterro de Todd quando descobre que o casamento deles nunca aconteceu de verdade, foi uma encenação.

Aposto como você já está curioso, eu também ficaria com um argumento desses. Principalmente se você também ler o seguinte parágrafo que está na contracapa do livro: “Agora ele está decidido a ir atrás dela, esteja onde estiver, mas não imagina os perigos que envolvem procurar uma pessoa que não quer ser encontrada.” Acreditem, eu li o livro, e os perigos são muitos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Orla da Pituba, em frente à Perini
Data: 16/01/2016

domingo, 15 de novembro de 2015

UM HOMEM CHAMADO MARIA


Eduardo Prata, grande amigo dos tempos que morei em São Paulo, tinha o costume de me dar livros de presente. Não precisava de uma data especial como Natal ou aniversário, quando saíamos juntos para ir ao teatro ou ao cinema ele sempre tinha um livro no carro e dizia: Peguei pra você. O Edu não é um leitor assíduo, dois livros por ano no máximo, mas algumas obras importantes que li como O Caçador de Pipas e A Menina que Roubava Livros foram presentes dele. Um Homem Chamado Maria foi um desses muitos livros, mas, ao contrário de outros que li imediatamente, esse amargou alguns anos na prateleira dos “espera que um dia vou te ler”.

Desde o imbróglio com o livro ‘Roberto Carlos em Detalhes’ ando aficionado por biografias e às tenho lido com certa constância. No início de 2015 estava procurando um livro para ler na praia e Um Homem Chamado Maria caiu como uma luva, tem a letra grande e apenas 185 páginas recheadas com muitas fotografias. Ao ler a orelha tomei conhecimento que o autor Joaquim Ferreira dos Santos (1951) tinha escrito uma versão menor para a coleção intitulada Perfis do Rio com o título de Noites de Copacabana. Depois percebeu que a história de Antônio Maria de Araújo Morais merecia algo maior e foi revisar a obra, aumentando-a em alguns capítulos.

E se você está se perguntando ‘Quem é esse Antônio Maria?’ eu vou logo lhe dizendo que foi um excelente cronista, um radialista e jornalista de mão cheia, e se você tem mais de quarenta anos com certeza já cantarolou a música: “Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém me chama de meu amor...”, grande sucesso composto pelo Antônio em parceira com Fernando Lobo cuja letra foi inicialmente escrita como “Ninguém me chama de Bauledelaire” ao invés de ‘meu amor’, uma de suas muitas composições. Figura icônica das noites do Rio de Janeiro juntamente com Vinícius de Morais, Rubem Braga, Di Cavalcanti e Dorival Caymmi, Antônio era muito brigão e boêmio, vivia se metendo em confusões e saia delas com muita conversa. Aliás, papo era o seu grande trunfo e fazia dele um grande sedutor, por ser negro e gordo ele se achava feio e dizia: “Preciso de duas horas de papo para que as mulheres se esqueçam da minha cara.” Foi justamente numa dessas conversas que ganhou o amor de Danuza Leão, personagem fundamental sua vida e que mereceu um capítulo especial na biografia revisada.

Antônio Maria faleceu em 15 de outubro de 1964 depois de um infarto fulminante em plena rua de Copacabana, seu casamento com Danuza havia terminado há pouco mais de seis meses e ele andava muito triste. No livro está escrito que os amigos Joel Silveira, Walter Clark, Paulo Soledade e Fernando Lobo tinham quase certeza de que Antônio, compositor de Ninguém Me Ama, morreu em forma de samba-canção. De amor. Depois de terminar o livro essa certeza também chegou até mim.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da praça em frente a Paróquia N. S. da Luz
Data: 10/01/2016

domingo, 8 de novembro de 2015

DO AMOR, ENSAIO DE ENIGMA


“O ‘tu’ é a oportunidade concreta de realizar a parte ‘nós’ sem perda da parte ‘eu’.” (pg 24)

Dizem por aí que a primavera é a estação das flores e eu particularmente acho que é a estação do amor, seja esse amor da forma que for. A primavera antecede o verão, e como vivo num balneário, cidade praieira, cidade de sol e mar, vejo que as duas estações se completam. É muito comum por aqui dizer... Quando o verão chegar... Essa é para o verão... É o meu projeto verão... E a primavera estabelece esse start para quando o verão chegar. Andei pensando em alguns casais de amigos que estão juntos há bastante tempo e percebo esse recomeço quando chega a primavera, um certo brilho no olhar com a proximidade do verão, e então caiu a ficha sobre esse sentimento tão maltratado, subjugado, enlatado, classificado, banalizado, que é o amor.

“Uma das percepções mais difíceis é a da dimensão do amor do outro por nós, numa medida em que nem ele próprio percebe. É preciso aprender a se relacionar com essa dimensão oculta, para não ficarmos infelizes com as respostas que não vierem, com os silêncios que substituírem conversas, com as ausências e egoísmos que nos rejeitarem.” (pg 100)

Pensando nisso fui buscar um livro que li em 1984 quando vivia meus vinte e poucos anos e era um romântico exacerbado. Do Amor, Ensaio de Enigma foi escrito e fundamentado pelo saudoso Artur da Távola (1936-2008) nas fases que estava sem mandato a cumprir. Artur era exímio pensador e admirador da música clássica, especialmente Vivaldi. Na minha mais humilde opinião seus melhores textos vão até 1996 quando ainda tinha tempo para dedicar-se a uma obra e expandir suas fundamentações para diversos ângulos. No fundo eu acredito que Artur da Távola era um ensaísta, um cronista, de mão cheia. E esse livro que em breve vou abandonar foi um marco na minha existência romântica.

Hoje, passados mais de trinta anos que li seus escritos pela primeira vez, consigo examinar a dimensão de suas palavras que estão sublinhadas na edição que possuo e entende-las no seu complexo significado.

“O amor maduro não é menor em intensidade. Ele é apenas quase silencioso. Não é menor em extensão. É mais definido, colorido, poetizado. Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento. Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.” (pg 117)

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento - Subsolo - Shopping Barra
Data: 10/01/2016

domingo, 1 de novembro de 2015

MUITO MAIS QUE 5INCO MINUTOS


Não sou o que se pode chamar de “pessoa antenada”, mas leio jornais, converso com outras pessoas e recebo e-mails, muitos e-mails. Não é todo dia que minha aba ‘principal’ tem mensagens, mas a aba ‘promoções’ sempre tem pelo menos dez mensagens querendo me vender alguma coisa; de livro a CD, de smartphones a pílulas para ereção. Compro livros e CDs pela internet e eles acham que posso me interessar por TVs de última geração, viagens em transatlânticos e furadeiras de impacto. Não posso maldizer os algoritmos que me selecionam para essas mensagens porque umas até que são úteis e acabo comprando alguma coisa, por exemplo: comprei o CD de Stacey Kent e recebi uma mensagem: “Se você comprou isso é provável que goste disso.”, então eles me indicaram o CD de Madeleine Peyroux, que eu pesquisei, gostei e acabei comprando. A música suave do CD Half The Perfect World embala agora esses escritos.

Ao contrario dos seus mais de seis milhões de seguidores eu não tinha a menor ideia de quem era Kéfera Buchmann (1993) até ler uma matéria sobre a Bienal do Livro no Rio de Janeiro que comentava a necessidade de reforçar a segurança por causa dos milhares de jovens que circulavam no pavilhão da bienal para vê-la. Seu livro recém-lançado, Muito Mais Que 5inco Minutos, estava no topo das vendas. Nessas horas eu me pergunto... Quem é essa pessoa? Os tais algoritmos não me avisaram da sua existência. Então vou até o Google e numa pesquisa rápida que durou 22 segundos aparecem 446 mil referências ao nome Kéfera. Fui até a livraria no shopping e lá estava o livro, numa pirâmide enorme logo na entrada. Comprei.

Li as 144 páginas numa tarde. Livro de fácil leitura com expressões corriqueiras que ouço por aí, voltado para o que vou chamar de “mundo Kéfera”. É uma autobiografia com ares de livro de autoajuda, misturado com o que eu acho que sejam crônicas do cotidiano de uma garota que sofreu bullying, soube ser forte quando foi necessário, o primeiro beijo, a escola, as roupas da moda, etc... É um livro sobre o ‘antes da fama’, uma espécie de ‘quem sou eu e onde tudo começou’, que pode ser interessante para alguns e para outros nem tanto. Eu estou no segundo grupo, #prontofalei, sem medo de ter adquirido mais de seis milhões de inimigos, afinal, opinião todo mundo tem a sua e eu me reservo no direito de ter a minha.

E com isso não estou desdenhando da autora, assisti alguns vídeos no canal 5inco Minutos e gosto do seu trabalho como atriz. As notícias pipocam nos jornais sobre os benefícios que essa turma está fazendo para literatura, que muitos jovens estão com livros nas mãos pela primeira vez e isso pode se tornar um hábito, desenvolver a curiosidade para outros autores. Eu cá tenho minhas dúvidas, acho isso papo furado de editor para vender, mas no fundo fico na torcida. Se eu comecei na literatura pelos gibis do Tio Patinhas e já li Guerra e Paz, de Tolstoi, quem começa por Muito Mais Que 5inco Minutos pode um dia chegar a ler, pelo menos, O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da pracinha no Porto da Barra em frente ao Instituo Mauá
Data: 03/01/2016

domingo, 25 de outubro de 2015

DANCE DANCE DANCE


Um dia recebi uma mensagem do meu amigo gaúcho-paulistano Roberto Camargo que dizia: “Estou devorando Dance Dance Dance do Haruki Murakami”. Roberto é um desbravador de cultura e graças às suas indicações conheci cantoras como Stacey Kent e Melody Gardot, li Trem Noturno para Lisboa e A Elegância do Ouriço, que já comentei aqui no blog. Nossa sintonia vem desde os tempos da Terça Insana, às vezes o Roberto lia pra mim os textos que escrevia para o seu Mestre de Cerimônias e ficávamos horas e horas às gargalhadas reescrevendo o texto. Guardo com todo carinho o Troféu Terça Insana de Humor - 2003, pelo trabalho de coautoria, e tenho muito orgulho em ver meu nome citado nos agradecimentos nos dois dvds que a Terça lançou. Era divertido esse convívio quando morei em São Paulo e mantivemos nossa amizade intacta mesmo depois que mudei para Salvador.

É claro que comprei imediatamente o livro do Haruki Murakami (1929), mas, ao contrário do Roberto, levei quase um mês para lê-lo na íntegra. Murakami tem os dois pés no realismo fantástico kafkiano, nos seus escritos tudo é referência: comida, roupas, casas, bebidas e principalmente as músicas. Seu personagem principal é um escritor freelance de artigos para revistas, principalmente gastronômicas, que se auto define um ‘limpa-neve cultural’. O protagonista tenta achar uma antiga namorada chamada Kiki que sumiu quando ambos estavam hospedados no Hotel do Golfinho. Nessa busca por Kiki ele se envolverá com uma garota clarividente e sua excêntrica família, um ator canastrão, garotas de programa, revisitará um personagem do livro anterior, o Homem Carneiro, e, por fim, conhecerá o amor verdadeiro. A partir daí vivenciará a ansiedade da possível perda desse amor para a efemeridade da vida.

Murakami não é econômico e seu personagem narrador não se furta em descrever tudo que vê. Como são as pessoas e o que elas vestem, relata suas refeições, o que bebe, lê e ouve. E foi aí que o livro me pegou porque sou fascinado por descrições. Quando alguém me conta uma história fico questionando para saber como estavam vestidos, como era o ambiente, o que comeram e por aí vai. Para mim isso é essencial para que eu possa ouvir a história e fotografar a cena na minha cabeça. Nesse momento as citações musicais, que são muitas, assim como bebe em demasia e gosta de cozinhar sua própria refeição, o protagonista ouve música o tempo todo e nos diz exatamente o que está ouvindo. Em vários momentos fui procurar na internet a música citada para ouvir enquanto lia. Agora que você já tem certeza que sou louco eu te devolvo a constatação, quem não o é, mesmo que secretamente?

Dance Dance Dance não é um livro fácil, vai exigir uma boa dose de dedicação para vencer as 492 páginas. Mesmo sendo um universo totalmente japonês você se sentirá inserido num contexto universal. Pense globalmente e escreva localmente é um estilo muito utilizado em nossa literatura contemporânea. Afinal, um Maserati conversível, um casaco Adidas, um Dunkin Donut’s e a música do Talking Heads serão exatamente os mesmos em qualquer lugar do mundo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Solar Café - Palacete das Artes
Data: 02/01/2016

domingo, 18 de outubro de 2015

TUDO QUE EU QUERIA TE DIZER


Conheci a autora Martha Medeiros (1981) através do teatro. Lília Cabral arrastava multidões ao teatro para assisti-la em Divã e eu fui um desses espectadores que torceram pela libertação de Mercedes. Mas tarde fui arrebatado pela atuação de Ana Beatriz Nogueira na peça Tudo Que Eu Queria Te Dizer. Quando descobri que as duas peças eram adaptações de livros da mesma autora comecei a ler suas obras publicadas: poesia, crônica e romance. Mas confesso que não gosto de tudo, prefiro as crônicas, acho que Martha é boa nisso e nesses sucintos textos consegue extrair a essência e a emoção da vida.

O livro Tudo Que Eu Queria Te Dizer me pegou logo de cara, talvez porque sou do tempo das cartas escritas à mão, envelopadas, seladas e enviadas pelo correio. Levaria uns três dias para que o destinatário lesse minhas palavras, dependendo do endereço esse prazo poderia ser estendido para mais de uma semana. O cuidado que eu tinha em comprar o papel colorido, a caneta de tinta nanquim, de fazer colagens com recortes de revista, expressavam meu carinho para com o outro. Também não sei se o livro me abocanhou pelo tema, coisas que gostaríamos de dizer e não temos coragem de fazê-lo pessoalmente, mas precisamos dizer e a carta é a forma de revelar o sentimento sem estar necessariamente ao lado de quem queremos falar. Expressar-se é difícil, e falar de sentimentos olho no olho é mais difícil ainda, dizer ‘eu te amo’ ou ‘me perdoe’ para alguns é quase impossível, mas, ao escrever essas palavras podemos mudar o rumo de nossas vidas.

O livro é exatamente sobre isso, cartas. São pessoas que escrevem para desabafar, matar as saudades, pedir perdão, exorcizar sentimentos e prazeres encobertos. Parecem cartas reais já que trazem os sentimentos comuns das pessoas e nisso Martha é uma mestra, ela sabe como emocionar de forma simples e direta. Seus personagens trazem essa verdade de quem precisa dar uma virada, por isso são cartas reveladoras, de despedida, que passam uma situação a limpo. A amante enviando uma carta para a esposa traída, o jovem que escreve para a mãe do amigo que ele matou num acidente, a esposa que ganha a vida como prostituta, a viúva que descreve a saudade daquele que se foi, como observadora atenta do cotidiano Martha consegue colocar um pouco de nós mesmos em cada texto.

Mas não se engane o leitor, nem só de dramas vive o mundo e as cartas também soam engraçadas. Como a da mulher que escreve para seu demônio interior por querer livrar-se do “coisa-ruim” que ela sente existir e a atormenta. Bem divertido é ler a resposta do “coisa-ruim” para ela.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio do Museu Palacete das Artes
Data: 02/01/2016

domingo, 11 de outubro de 2015

O ESTRANGEIRO


Quando li O Estrangeiro pela primeira vez eu tinha vinte anos, era um ávido leitor por obras que mostrassem o caminho para o sentido da vida, e na época Albert Camus (1913-1960) já era considerado um autor controvertido, revoltado, existencialista, comunista e até um pouco reacionário. Confesso que sua obra me pareceu confusa, desprovida de sentimentos, e ao mesmo tempo muito visceral. Contraditória a percepção dos sentimentos por um jovem de vinte anos em 1983. Quando já tinha mais de quarenta anos reli a obra e percebi como é fantástica a sua narrativa e o quanto Mersault, o anti-herói de O Estrangeiro, personifica a busca pelo existencial, jogando fora o sentimentalismo e as tradições para ser ele mesmo, o ser sozinho.

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.’  Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

Esse é o primeiro parágrafo do livro, o protagonista recebe um comunicado sobre o falecimento de sua mãe, viaja para o enterro e durante a cerimônia não consegue expressar nenhuma emoção. O livro prossegue com os fatos seguintes de sua vida, ele conhece um dos vizinhos de nome Raymond e o ajuda a livrar-se de uma de suas amantes árabes. Ambos se encontram com o irmão da mulher “o árabe” e após uma briga Raymond é ferido. Meusault volta à praia e atira no árabe. Durante seu julgamento a acusação concentra-se no fato de Meusault não ter conseguido chorar no velório da mãe, acusando-o de ser incapaz de sentir remorsos e por isso deve ser condenado à morte para prevenir que mate outras pessoas e também para tornar-se um exemplo. Nas linhas finais Meursault reconhece sua insignificância perante a indiferença do universo em relação a ele, e deseja sentir-se menos só.

Estamos falando de uma obra escrita em 1942, mais de setenta anos depois de sua publicação ela consegue nos instigar e questionar. Até hoje é discutida por acadêmicos, assim como outros livros do autor: A Peste e A Queda, e as peças de teatro Calígula e Estado de Sítio.

E aqui faço outra confissão, vou precisar ler novamente esse livro quando estiver mais velho. Se der tempo de ler, e tomara que sim, já que tantos livros ainda esperam na estante por um pouco da minha atenção.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mezanino da G1 - Shopping Barra
Data: 02/01/2016

domingo, 4 de outubro de 2015

MORTE NO NILO


Em sua autobiografia Agatha Christie (1890-1976) nos conta que sua mãe, Clara, era uma mulher muito tímida que vivia à sombra do marido Frederick, um rico empresário que estava sempre viajando. Seus irmãos mais velhos tiveram uma educação formal, mas a caçula Agatha foi educada precocemente pela mãe que lia muitos livros para a filha, o que era uma distração para ambas. Entre seus autores preferidos estavam Charles Dickens, Alexandre Dumas e Jane Austen, tanto Aghata quanto Madge, sua irmã mais velha, adoravam histórias de detetives, não à toa a futura escritora leu a primeira história de Sherlock Holmes aos oito anos de idade e na mesma época passou a ler também as obras de Edgar Allan Poe.

Aos dezessete anos, após ler O Mistério do Quarto Amarelo de Gaston Leroux, Agatha diz para sua irmã que poderia escrever uma história de detetive e óbvio que a irmã duvidou. Agatha confessa que foi aí que a semente foi plantada, ela havia sido desafiada e atingida pela determinação de escrever histórias policiais. Em 56 anos de carreira publicou mais de 80 livros, fora as peças para o teatro e as adaptações cinematográficas e televisivas protagonizadas pelo detetive Hercule Poirot, seu personagem famoso pelo bordão do uso das ‘células cinzentas’, e Miss Marple, a solteirona que gostava de observar a natureza humana e assim conseguia desvendar os mistérios mais obscuros.

O livro Morte no Nilo foi publicado em 1937, conta a história de Linnet Ridgeway, jovem herdeira e inteligente que não pensou duas vezes ao roubar o noivo de sua melhor amiga e casar-se com ele. Mas talvez Linnet tivesse ido longe demais. Viajando em lua de mel num cruzeiro pelo rio Nilo é assassinada com um tiro na cabeça. O detetive Hercule Poirot, que por acaso também estava no navio gozando de merecidas férias, entra em ação para desvendar mais esse mistério e começa a montar um verdadeiro quebra-cabeças. Seria também por acaso que neste mesmo navio estavam viajando uma série de antagonistas interessados na fortuna de Linnet e em provocar sua infelicidade?

No post da semana passada falei sobre George Simenon, outro grande autor de livros policiais, mas não o compare com Agatha Christie, são estilos completamente diferentes que só enriquecem a nós, seus leitores.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento Perini - Graça
Data: 20/12/2015

domingo, 27 de setembro de 2015

MEU AMIGO MAIGRET


Era fevereiro do ano de 2010 quando resolvi criar um blog sobre literatura e fiz previamente uma seleção dos livros que pretendia escrever. Eu tinha acabado de mudar para um novo apartamento e percebi que na nova moradia não caberiam todos os livros que um dia embarquei de Salvador para São Paulo e agora, quase treze anos depois, fazia o caminho inverso com um volume muito maior. Como não queria simplesmente doar, ou vender para um sebo, a ideia de escrever sobre eles e depois abandonar pela cidade tomou forma e estamos aqui.

O quarto livro que abandonei foi A Velha Senhora cujo autor Georges Simenon (1903-1989) eu conheci de forma bem inusitada. Já contei essa história no post em questão mas vou repeti-la. Estava assistindo um capítulo da novela Brilhante (Globo – 1982) quando a personagem Chica Newman, interpretada pela Fernanda Montenegro, chique, refinada, rica e a vilã da história, está lendo um livro quando seu motorista Carlos, interpretado pelo Cláudio Marzo, entra na sala para avisa-la de alguma coisa e, percebendo o livro, comenta que também gosta do autor. Chica então elogia seu refinamento literário e a cena acaba com um olhar de admiração da patroa pelo motorista, não à toa havia uma química entre os dois que acabam juntos no último capítulo após a redenção da personagem e para espanto de muitos.

Curioso, fui atrás da obra de Simenon e li A Velha Senhora. Até hoje, volta e meia, leio um de seus mais de cem títulos escritos para o comissário Maigret quando quero dar um tempo na literatura contemporânea. Alternar esses tempos me enriquece profundamente. Meu Amigo Maigret foi escrito em 1949, mais de meio século depois a obra está intacta e Jules Maigret continua sendo meu anti-herói favorito. Antes de ser policial ele é uma pessoa comum, não há genialidade nos casos que desvenda, não há comportamentos excêntricos ou hábitos diferentes que o marcariam, não há golpes de mestre e nenhum raciocínio dedutivo espetacular, ele é um ser humano que busca compreender o que há de melhor e pior nos seus semelhantes investigados. O mérito da escrita de Simenon é que a obra não é concentrada o tempo todo na figura do comissário, deslocando a atenção para o contexto que está inserido.

Nesse livro o comissário depara-se com um crime que envolve antigos conhecidos seus, um homem e uma mulher, ex-marginais que ele ajudou no passado. Só que dessa vez a polícia vai designar um membro da Scotland Yard, Mr. Pyke, para acompanha-lo e conhecer seus métodos. Maigret vive uma saia justa porque não possui método algum de trabalho, como traduzir em teoria o que se passa no interior de um homem que nunca sabe como vai iniciar uma investigação. Como dizer ao colega que não é a polícia, nem o crime ou a solução deste, que o motiva e o impulsiona.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - 2o. andar
Data: 29/11/2015

domingo, 20 de setembro de 2015

LEILA DINIZ


Sou apenas Leila Diniz, qual é o problema?

Em março desse ano Leila Diniz completaria setenta anos. Eu tinha nove anos quando Leila morreu aos vinte e sete num acidente de avião na Índia. Pelo que me lembro da época já que as lembranças são bem poucas, não dei muita importância ao fato. Afinal eu era uma criança e a imagem daquela mulher grávida mostrando a barriga na praia me pareceu uma coisa normal e corriqueira. Mal sabia eu que isso foi um escândalo na época.

A gravidez é um negócio maravilhoso. Dá uma sensação de absoluto; a gente fica completa. Acho que o negócio máximo de ser fêmea é estar prenhe. É um negócio muito forte que o homem não entende. Eu tenho muita pena do homem que não pode ficar grávido.”

Descobri muitos anos depois que Leila era uma mulher como poucas. Libertária, gostava de viver de verdade e pautava seu dia pelo sol. Foi musa de Ipanema e madrinha da sua famosa banda no carnaval, também foi Rainha das Vedetes e Grávida do Ano, atriz, dona de loja, júri no programa Flávio Cavalcanti, foi perseguida pela repressão, censurada, suas falas eram mantras de uma geração que havia queimado o sutiã.

Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo.

Em 1984 quando li o volume da série Encanto Radical com sua sucinta biografia fiquei encantado e apaixonado por Leila, ela tinha conquistado o que muitos até hoje querem: fama, beleza não planejada, alegria de viver, ela tinha uma sinceridade contagiante, uma honestidade que beirava a ingenuidade e viveu sua curta vida com poucos artifícios. Foi invejada.

Não tenho preconceitos. Não faço sequer regimes.

Com exceção de Todas as Mulheres do Mundo, filme de Domingos de Oliveira que marcou sua carreira e elevou Leila ao patamar de ‘diva’, suas participações como atriz na TV ou no cinema foram mornas, Leila era uma persona e não uma personagem. Ao ler esse livro escrito pela Cláudia Cavalcanti sinto não ter vivido sua época, é como ter saudade de algo que você não viveu, mas consegue compreender sua essência.

Nem de amores eu morreria porque eu gosto mesmo é de viver de amores.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada do Teatro Gamboa Nova
Data: 24/10/2015

domingo, 13 de setembro de 2015

MOFOLÂNDIA


Gosto de dicionários, tenho muitos e de todos os tipos, gosto de consulta-los porque não confio cem por cento nos dicionários virtuais. Internet é papel em branco e aceita qualquer coisa, quando vira papel impresso tem outra conotação e ninguém em sã consciência imprime algo sem revisar ou verificar suas fontes. Tenho Aurélios em diversas edições, Houaiss, algumas versões do dicionário baianês, um dicionário só de termos de moda e outro de termos médicos, dicionários de bolso, de idiomas, e muitos almanaques. Também gosto muito de almanaques.

Não sabe o que é um Almanaque? Segundo o Houaiss “é um folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades, etc. Edição especial, mais volumosa, de revistas, de publicação esporádica ou periódica”. É uma boa definição para Mofolândia – O Almanaque dos anos 40, 50, 60, 70, 80, 90, compilado por Antonio Carlos Cabrera, que pretendo abandonar.

Se você gosta de um pouco de nostalgia então este é o almanaque certo, traz a relação dos programas de TV, seriados, desenhos, músicas, brinquedos, celebridades, novelas e tudo que embalou as décadas de 40 a 90 do século passado, com citações e curiosidades, fotos, ilustrações e muito humor. Como diria Cissa Guimarães quando o Vídeo Show era bom de assistir; “direto do túnel do tempo”, frase que já fazia uma alusão ao seriado Túnel do Tempo exibido pela Globo.

Mofolândia é fruto do site homônimo que abriga infinitas curiosidades, virou almanaque em 2005 e é uma delícia de leitura para os que viveram a época, como eu, e fonte de consulta para aqueles que não sabem como éramos ingênuos. Época que as meninas brincavam com Susi e os meninos com Falcon. Que ficávamos com medo cada vez que o Robô gritava “Perigo Will Robinson!” no seriado Perdidos no Espaço. Que muitos pediam uma Grapette e não uma Coca para acompanhar o misto quente. Que assistíamos Telecatch, o MMA dos anos 70 sem suor ou sangue e o lutador era obrigado a usar uma fantasia. Época que já tinha Topo Gigio, muito antes do Louro José. Que Boa Noite Cinderela era só um quadro do programa Silvio Santos que exibia as histórias das meninas que queriam ser a Cinderela da noite, a mais pobre sempre vencia e ganhava uma montanha de prêmios. Que estar na moda era usar uma bolsa a tiracolo e isso valia para homens e mulheres, assim como usar a famosa grife Hang Tem. Uma época que Os Trapalhões era um programa infantil de muito sucesso e tinha um personagem que vivia bêbado, eles faziam todas as piadas possíveis denegrindo gays, negros e nordestinos, e nós, ignorantes, riamos muito disso tudo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da capela N. S. do Resgate - Cabula
Data: 10/10/2015

domingo, 6 de setembro de 2015

UM DIA


Nunca tinha ouvido falar em David Nicholls (1966) até ler uma matéria no jornal sobre seu quarto livro, Nós. Nessa entrevista ele falava do retumbante sucesso de Um Dia, seu terceiro livro, lançado em 2009 e adaptado para o cinema em 2011 com Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis principais. Imediatamente fiz um retrospecto de onde eu estava em 2009 e em 2011 respectivamente para não ter sequer percebido o livro e principalmente o filme, porque gosto imensamente da Anne Hathaway. Depois de pensar um pouco e descobrir que eu não estava em Marte, me recolhi à insignificância do meu ser e entendi que não consigo saber 100% de tudo que acontece no mundo. Mas é possível correr atrás do prejuízo e então tratei de comprar o livro e saber que história é essa.

Um Dia parece, a princípio, ser um livro bobinho sobre o amor de dois jovens que, exatamente por serem jovens, não conseguem expressar o que sentem um pelo outro. Ela, Emma, mais centrada, preocupada com a sobrevivência, cheia de planos para o futuro, dispara uma pergunta para ele no primeiro dia que se conhecem e passam, sem sexo, a noite juntos: Como você acha que estará quando estiver com 40 anos? Ele, Dexter, mais indeciso, sem problemas financeiros, paradoxalmente seguro com todas as mulheres do mundo, mas, completamente inseguro ao lado de Emma, não sabe que resposta dar.

Nesta noite de 15 de julho de 1988, Em e Dex se conhecem na festa de formatura após passar todo o curso sabendo da existência um do outro sem se aproximar. Esse dia é a marca do livro. Data que definirá cada capítulo ao longo dos próximos vinte anos, quando ambos estarão na faixa dos quarenta, saberemos ano a ano como eles estão vivendo. O autor consegue a proeza de alternar no mesmo capítulo a visão de Emma, os sentimentos de Dexter e as descrições dos fatos pelo narrador onipresente sem que fique confuso. Sabemos exatamente os sentimentos de cada um, o que estão fazendo e o que não fizeram. Tantas coisas não ditas, atitudes não tomadas e outras pessoas envolvidas traçam a vida de dois jovens amigos... Não, é mais que isso, namorados... Também não, nunca foram oficialmente, melhores amigos... Talvez seja a descrição mais acertada, ou quem sabe... Feitos um para o outro. Você acredita nisso?

O fato é que me emocionei no final, sou um panaca que gosta de comédias românticas, canceriano incurável, e me peguei fazendo um retrospecto. Um dia escolhido nos últimos dez anos, lembrando o que estava fazendo e o que deixei de fazer, quem era importante, quem deixou de ser, e quem continua fazendo parte da minha insignificante existência. Vai tentar?

Agora que já li o livro, vou ver o filme.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da Praça N. S. da Luz - Pituba
Data: 03/10/2015

domingo, 30 de agosto de 2015

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS


Fico cada vez mais feliz e ao mesmo tempo muito intrigado em saber como uma obra que foi escrita há 150 anos continue despertando os mais diversos interesses midiáticos. Eu particularmente gosto muito das obras cuja alcunha de “Clássico” surge assim que pronunciamos seu título. Mas não fico vivendo só do passado, tenho um olho que vê lá atrás e outro que vê o agora, e assim vou levando a vida com o máximo de referências que consigo. Antes de escrever esse post coloquei o título Alice no País das Maravilhas do Google e apareceram 430 mil verbetes em 0,34 segundos de pesquisa, sem contar o que aparece no final com o título de ‘Obras Relacionadas’, no Wikipédia foi igual, vários subtítulos e as chamadas “desambiguações”.

Seu autor, Lewis Carroll, pseudônimo utilizado por Charles Lutwidge Dodson (1832-1898), estava passeando num barco com sua amiga Alice Liddell, esta com 10 anos de idade, quando começou a inventar uma história para entreter a criança. Alice gostou tanto do que ouvia que pediu a Charles que escrevesse aquela história maluca. Assim nasce Alice’s Adventures Underground. Um ano depois ele refaz o manuscrito original, aumentando a história, e em 1865 publica pela primeira vez a história de Alice no País das Maravilhas, na nova versão incluiu dois personagens que se tornariam emblemáticos: o gato e o chapeleiro.

Conheci a história de Alice ainda criança através de uma coleção de discos de vinil coloridos, colocava-se na vitrola e as histórias eram narradas. Muito tempo depois ganhei uma coleção de livros em formato pocket lançados pela editora L&PM e lá estava Alice. O interessante desse livro é que dependendo da versão e da idade que você lê a obra, sua percepção sobre a história da menina Alice, que cai num buraco quando perseguia um coelho falante e se vê num mundo cheio de aventuras e desventuras, pode mudar radicalmente.

Em 2010, quando Tim Burton nos apresentou sua versão cinematográfica de Alice, coloridíssima e cheia de efeitos que só o cinema pode proporcionar, reli a obra na versão original e me apaixonei novamente por Alice, garota destemida e cheia de atitude. Só tenho medo que essa onda conservadora e politicamente correta venha por suas mãos nefastas sobre o texto como já andaram fazendo com a obra de Monteiro Lobato. Seria tristíssimo se a Rainha de Copas não pudesse mais gritar “Cortem-lhe a cabeça!”.

OBS: Na foto acima está a capa do primeiro exemplar publicado em 1865, no meio a capa do livro versão pocket que vou abandonar, e por último a versão pra lá de colorida que comprei para minha sobrinha-neta.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sorveteria A Cubana - Praça Municipal
Data: 26/09/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

O PRIMO BASÍLIO


Hoje acordei pensando num assunto que é recorrente entre meus amigos quando descobrem que sou um consumidor voraz de livros e escritor desse blog; como convencer alguém a ler uma obra já esmiuçada pela mídia e adaptada para outras artes? Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que não sou pastor da Igreja Livreira, se é que esse lugar existe, e não fico por aí pregando e enchendo o saco dos amigos para que eles leiam, leiam e leiam. Em segundo lugar quero deixar claro que não fico fazendo citações de livros em conversas informais, ou formais, com a pretensão de ser/parecer erudito ou culto. E por último, deixo claríssimo que não procuro convencer ninguém a nada, não sou o tipo de pessoa que quer ver no outro seu espelho.

Quando esse assunto vem à tona eu sempre tinha uma resposta pronta: ‘o livro é sempre melhor que o filme, a peça, a novela, etc.’ Mas depois de alguns exemplos como O Diabo Veste Prada, Budapeste, A Culpa é das Estrelas, Ensaio Sobre a Cegueira e outros, cujas versões cinematográficas ficaram melhores ou tão boas quanto o livro, eu parei de dizer isso. Hoje eu tenho outra resposta: Cada obra tem um impacto diferente nas pessoas, para alguns o livro é mais detalhista, para outros basta o filme ou a minissérie, o que importa é o conhecimento que essa experiência vai te trazer.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo quando assisti a minissérie O Primo Basílio em 1988. Não sei se foi o impacto da trama escrita por Gilberto Braga e Leonor Bassères, baseada no romance de Eça de Queirós (1845-1900), se foi o quarteto principal de atores cuja formação era Tony Ramos, Giulia Gam, Marcos Paulo e Marília Pêra, ou se foi a excelente reconstituição de época, cenário e figurinos sob a direção geral de Daniel Filho. O fato é que, no dia que ia ao ar o último capítulo eu comprei o livro, começava ali minha incursão pela obra o Eça de Queirós, que em algumas publicações aparece como Eça de Queiroz, quem puder explicar isso manda uma mensagem.

A obra, cuja primeira edição foi publicada em 1878, é atualíssima quando a vemos pelo prisma da vilania, da luta de classes, do subir a qualquer preço, e do preço que se paga pela traição. Não estou julgando Luísa por viver seu grande amor pelo primo Basílio durante as longas temporadas de tédio por causa das viagens constantes do seu marido Jorge, cidadão pacato, cumpridor das leis e inquestionavelmente apaixonado pela esposa. Não julgo Basílio, apesar da evidente dubiedade de caráter já estabelecida na primeira descrição do autor, e não julgo Juliana, a empregada vil, que rouba os sonhos românticos da sua patroa pelo simples fato de nunca ter sido amada.

Não vou recomendar a leitura do livro, não vou recomendar ver a minissérie que foi lançada recentemente em dvd, e nunca recomendarei ver o filme, apesar da boa atuação de Glória Pires no papel de Juliana. Assim como na música, algumas interpretações na TV ou no cinema são definitivas, não é possível cantar Atrás da Porta como Elis o fazia e, na minha mais humilde opinião, a Juliana que Eça de Queirós imaginou era a Marília Pêra.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Praça Castro Alves
Data: 26/09/2015

domingo, 16 de agosto de 2015

QUEM AMA, EDUCA!


Alçado erroneamente à categoria de “livro de autoajuda” a obra do renomado médico Içami Tiba (1941-2015) deve ter sofrido de algum preconceito por parte de muitos leitores. Eu devo confessar que fazia parte dessa turma. Como já escrevi várias vezes aqui no blog parafraseando uma amiga querida Agnes Zuliani, “livro de autoajuda serve para quem o escreve, para quem lê é, no máximo, livro de ajuda”. Eu quebrei essa barreira depois que assisti uma de suas palestras quando ainda morava em São Paulo, fui designado pela empresa que trabalhava a organizar um seminário sobre educação em suas diversas vertentes e então fui convidado para assistir uma palestra do autor do livro que estava virando um best seller nacional, o livro chamava-se Quem Ama, Educa!

Confesso que fui com certo mau humor, mas também confesso que após quinze minutos de iniciada a palestra eu já tinha me rendido ao jeito simples, tranquilo e direto de falar do Dr. Içami Tiba. Como médico psiquiatra e psicodramatista ele tinha a capacidade de falar verdades de maneira tão calma e consistente que era quase impossível não querer leva-lo para casa. Sua Teoria da Integração Relacional criada para facilitar o entendimento entre pais, filhos e educadores, em forma de psicodrama, mudou o entendimento da palavra ‘educação’ nesse mundo digital de relações frugais e culto à forma de nunca dizer não aos filhos. A teoria do Dr. Içami é baseada numa palavra que ele mesmo inventou “adultescência”, em que a maior parte dos problemas psíquicos dos adolescentes é atribuída ao comportamento de seus pais, que agem eles próprios de forma infantil almejando a juventude eterna e não percebendo que isso faz com que seus filhos percam a referência do adulto como exemplo de vida.

Não tenho filhos, não me considero exemplo para qualquer ser humano, mas tenho a percepção do que acontece ao meu redor e vejo casais escravos dos filhos, que não tem mais vida própria e tudo que fazem é em função dos pequenos, criaram meninos mimados, cheios de vícios e que mandam nos pais sem pulso e sem argumento. Vejo também pais que disputam o amor dos filhos como se fosse uma competição, perguntar ao filho de cinco anos; “de quem você gosta mais, do papai ou da mamãe?” é dar uma responsabilidade de opinião a uma criança à qual ela não tem noção nem discernimento para corresponder.

E assim lá vamos nós rumo ao futuro, na minha mais humilde opinião Quem Ama, Educa! não é um livro essencial, mas esclarece alguns pontos e nos leva a pensar. Se você puder adquira a versão mais nova cujo título ganhou um adendo ‘Formando cidadãos éticos’ e vamos torcer para que o futuro seja mais ético.

OBS: O Dr. Içami faleceu recentemente, isso me incentivou a escrever esse post e fazer uma singela homenagem ao grande palestrante e pensador, um ser humano essencial.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Barra - Balcão em frente à Perini
Data: 19/09/2015

domingo, 9 de agosto de 2015

O CÉU ESTÁ CAINDO


“O melhor livro de Sidney Sheldon dos últimos anos...” Esse texto está escrito na contracapa do livro. Será que dá apara acreditar? Claro que não dirão alguns, outros que sim, como sou um leitor de orelhas e contracapas, acostumado aos textos eloquentes feitos pelas editoras para ‘vender’ livros, tenho certa desconfiança quando essa apresentação não está assinada. O Céu Está Caindo foi lançado em 2000, se comparado aos escritos de Sidney Sheldon (1917-2007) nos dez anos anteriores teremos quatro livros quase infantis e três livros cujas receitas e tramas pouco se modificaram. O grande escritor de best sellers como O Outro Lado da Meia Noite e Se Houver Amanhã já podia se dar ao luxo de publicar mais do mesmo sem que seus fãs ficassem abalados, entretanto não conquistava novos leitores. No caso, o texto da contracapa não estava de todo errado.

A obra começa contando a vida corrida de Dana Evans, uma bela mulher, forte, decidida, boa jornalista cujo faro aguçado vê uma oportunidade investigativa quando o último descendente da família Winthrop é assassinado durante um suposto assalto na sua residência. Dana fica intrigada com o que foi roubado, obras de arte de menor valor se comparadas a outras existentes na casa, e começa uma pesquisa sobre o último ano da família que era famosa no mundo inteiro por sua caridade e glamour. Todos estavam mortos em incêndios, acidentes de carro e esqui, ela viaja para a França, Itália, Moscou e vai até o Alasca à procura do elo que ligará essas mortes e descobre uma intriga de proporções inacreditáveis que põe em risco além sua vida, e a das pessoas que ama, todos que habitam o planeta.

Será que ‘vendi’ bem o livro a você, leitor do blog? Após a leitura dos dois parágrafos acima você já estará curioso para ler o livro? Vou contar mais algumas coisas para aguçar mais sua coriosidade. Mesmo envolvida com toda a investigação o autor faz questão de colocar Dana em situações prosaicas do dia a dia com o intuito de torna-la mais verossímil, a luta pela adoção de Kemal, o amor pelo Jeff e a forçada convivência com a ex-mulher dele, os bastidores às vezes nada glamourosos de um programa de TV e o namorado da sua mãe.

O Céu Está Caindo possui 347 páginas na edição que vou abandonar, a partir da página 154 eu já não conseguia mais parar de ler e quanto mais avançava a história ficava mais misteriosa e reviravoltas aconteciam me deixando sem coragem de parar ao final de cada capítulo. Pensava comigo: só mais um, e essa frase se repetia até consumir o livro todo. Agora está em suas mãos nobre leitor, ler o não ler, a questão é toda sua.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Galeria da Biblioteca Pública - Barris
Data: 16/09/2015

domingo, 2 de agosto de 2015

DEIXE A NEVE CAIR


Faltava só um livro do John Green (1977) para concluir toda a obra publicada. Me propus a ler todos os livros desse autor que ganhou minha estima, por incrível que pareça com seu último livro publicado, o famoso A Culpa é das Estrelas. Deixe a Neve Cair foi o último e o li vorazmente em dois dias vivenciando uma montanha russa de sentimentos. Primeiro a curiosidade por ser um livro escrito por três autores cujas obras versam para a juventude, além do John esse livro leva a assinatura de Maureen Johnson (1973) e Lauren Myracle (1969). Em segundo lugar veio a irritação pelo excesso de vezes que os autores pronunciam nomes de lanchonetes e cafeterias cujas franquias estão instaladas pelo mundo e esses lugares, na conotação dos autores, não importando que tipo de alimento venda, estabelecem-se como único local bacana para encontrar os amigos. Fico a pensar se eles ganharam algum dinheiro para citar seus nomes tantas vezes.

Quem me conhece sabe que sou um cara perseverante e não desisto fácil das coisas que me cutucam a curiosidade. Me atraquei ao livro e o devorei, no sentido figurado, mesmo com as centenas de milhares de vezes que se fala em comida nas 335 páginas do livro, o que me deixou em diversos momentos louco para comer uma batata rosti ou me empanturrar de muffins de mirtilo.

Mas não posso negar que adorei o fato de as três histórias, entrelaçadas de uma maneira bem bacana, tenham convergido para o mesmo final, beijos de amor. Tudo começa com a nevasca que cai durante a noite de Natal e faz atolar um trem perto da cidade de Gracetown, as três histórias acontecem mais ou menos ao mesmo tempo e afetarão a vida de alguns adolescentes em diferentes estágios. A sintonia dos autores, cada um à sua maneira e com seu estilo próprio de narrativa e humor, convergem para um final quase previsível de tão romântico sem, contudo, perder o impacto da narrativa.

Não sou muito chegado ao Natal e a pseudo pieguice de anjos e sinos que tocam, entretanto sou um canceriano com boas doses de romantismo embutidas atrás da minha face sínica. Deixe a Neve Cair é um livro de Natal, não necessariamente feito para se ler no Natal, embora o espírito natalino ajude muito a você se entregar para a história.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio do ICBA - Goethe Institut
Data: 17/09/2015

domingo, 26 de julho de 2015

RICARDO III


Confesso aqui aos meus leitores que passei muito tempo sem conseguir ler William Shakespeare (1564-1616). Sua intrincada verborragia e maneirismos dificultam o entendimento da obra que já foi traduzida por inúmeros profissionais, algumas de forma bem tosca, excluído passagens e reduzindo o número de páginas para tornar a leitura mais “fácil”. Só esqueceram de avisar o autor do corte na sua obra, até porque ele já tinha morrido. E quem lhes deu esse direito, quem autorizou a exclusão de passagens de um livro durante a tradução do mesmo? Como não sei ler em inglês para aventurar-me nos escritos originais, a obra desse autor tão celebrado ficava sempre para mais tarde, até que descobri o teatro.

Então cabe outra confissão aos meus leitores, foi o teatro que me ajudou a entender e me aproximou desse legado. Primeiro um Romeu e Julieta montado pelo Grupo Galpão que assisti na década de noventa do século passado no Teatro Castro Alves. Depois tive a oportunidade de assistir ao saudoso Raul Cortez interpretando Rei Lear quando já morava em São Paulo, lugar onde também iria assistir uma montagem de Ricardo III com Marco Ricca no papel principal e posteriormente uma excelente encenação de Hamlet, cuja interpretação visceral de Wagner Moura dividiu opiniões.

Guardo lembranças marcantes de todas essas montagens, em especial de Ricardo III cuja tradução e adaptação da obra foram feitas pelo Jô Soares, e na saída do teatro eu comprei o livro com o texto da peça na versão encenada. Após a leitura dessa versão feita para o teatro fiquei tão fascinado pelo personagem exagerado na sua feiura e maldade pessoal, carregado de ressentimentos e ódios à flor da pele, que faria de tudo para ocupar o lugar de Rei, fui buscar o livro, com a tradução de Ana Amélia Carneiro de Mendonça, para beber mais na fonte do autor, celebre pelos seus famosos duelos verbais.

William Shakespeare continuará a ser lido, encenado, filmado, para todo o sempre. Suas obras são imortais e vão passar por inúmeras gerações. Muitas vezes a leitura não será por si capaz de nos dar imaginação suficiente para sua imediata e completa visualização ou compreensão, por isso, talvez, será necessário que usemos os diretores de teatro e cinema como ponte para chegar ao deleite de suas palavras. Mas não se engane, serão visões dos diretores que você estará assistindo, a sua compreensão íntima só virá quando você fechar a última página da leitura de um livro bem traduzido.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Palacete das Artes - Museu - Banco lateral do jardim
Data: 29/08/2015

domingo, 19 de julho de 2015

A MENINA DO FIM DA RUA


Em 1988 assisti Jodie Foster em atuação brilhante no filme ‘Acusados’ que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz. Mais tarde, em 1991, ela ganharia outro Oscar pelo filme ‘O Silêncio dos Inocentes’. Quando morei em São Paulo pude assistir uma mostra de filmes da atriz que incluía um filme de desempenho marcante, quando ela tinha apenas 14 anos, chamado ‘The Little Girl Who Lives Down The Lane’, que no Brasil foi traduzido para A Menina do Fim da Rua. Na minha modestíssima opinião o filme é ruim, mas tinha ali o talento inegável da atriz que interpretava o personagem principal. Foi nessa época que me lembrei do livro publicado pela editora Abril, na série Grandes Sucessos, que estava na estante aguardando pela leitura há bastante tempo.

Resgatado da condição de “um dia vou ler” o livro escrito por Laird Koening (1927) foi uma agradável surpresa. Apesar de seu autor ser também o responsável pelo roteiro do filme, o livro é muito mais interessante e rico em detalhes que sustentam a personalidade de Rynn Jacobs, a garota que supostamente mora com o pai na casa do fim da rua. É claro que há na obra, livro e filme, uma inspiração óbvia em Psicose do gênio Alfred Hitchcock.

Rynn é uma garota que esconde a história dos seus pais e tenta seguir uma vida normal. Se não fosse a curiosidade dos vizinhos, principalmente a Sra. Hallet, o segredo do porão nunca seria desvendado. Rynn conhece o jovem Mario num situação de pânico e ele torna-se seu principal aliado contra a desconfiança do diretor da escola que insiste em conhecer o pai da garota e as investidas de Frank, filho da Sra. Hallet, que a intimida por favores sexuais após descobrir seu passado.

A Menina do Fim da Rua não é um livro essencial, e, que eu saiba, jamais esteve nas listas de livros que você deve ler antes de morrer. Entretanto é uma obra bem construída que garante uma boa dose de suspense até as últimas linhas.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco na praça em frente ao Porto da Barra
Data: 29/08/2015

domingo, 12 de julho de 2015

MORTE SÚBITA


O que fazer após o estrondoso sucesso de Harry Potter? Escrever mais sobre o universo Harry Potter? J. R. Rowling (1965) bem que tentou escrever livros correlacionados ao mundo do menino bruxo, mas ainda estava no meio da saga e essas publicações passaram quase que despercebidas na linha editorial, afinal, o que os fãs queriam saber era como Harry derrotaria do temido Lord Voldemort. Após a conclusão da saga e os direitos vendidos instantaneamente para o cinema, a autora bem que tentou continuar a escrever sobre assuntos que giravam em torno da escola de Hogwarts lançando através do site capítulos com explicações e mais detalhes sobre o Ministério da Magia ou o Quadribol, obteve relativo sucesso mas nada que fosse espetacular.

Ao publicar Morte Súbita a intenção era enveredar pela literatura para adultos, mas foi recebida com descrédito pela crítica e o público não “comprou” a obra. Escrevi a palavra entre aspas porque quero imprimir um duplo sentido, o do verbo comprar propriamente dito e a compra com significado de acreditar no talento da autora. Nesse sentido me incluo na massa manobrada por críticas e resenhas publicadas pelos ditos especialistas. Entretanto sou um curioso nato no que diz respeito às coisas e ter opinião própria sobre tudo faz parte da minha personalidade desde que ouvi a música Metamorfose Ambulante do Raul Seixas.

Para ler Morte Súbita você tem que perseverar, a edição que pretendo abandonar possui 652 páginas. Confesso que já tinha lido mais de 300 e ainda estava meio perdido com a história, os personagens e os diversos núcleos que envolviam a cidade de Pagford. Tudo girava em torno da vaga aberta no conselho da cidade após a morte do professor Barry Fairbrother. A aparência idílica do vilarejo esconde uma guerra de ricos contra pobres, filhos com os pais, esposas com os maridos e moradores de bairros nobres contra a periferia. Barry nasceu na periferia e venceu graças aos estudos na escola de Pagford, desejava isso para todas as crianças e era ferrenho lutador pela expansão dos direitos a todos. Os moradores tradicionalistas esbravejam e culpam a periferia pelas drogas, a prostituição, e o dinheiro dos impostos de Pagford revertidos para clínicas de reabilitação e ajuda financeira aos ‘desocupados’.

Não nego que sou fã da saga Harry Potter, acho que a criação daquele universo tão rico em detalhes e sofisticada trama só poderia vir de uma cabeça privilegiada. A autora J. R. Rowling continua com essa verve, ela constrói outra cidade, dá vida a um número considerável de personagens, cria uma trama que se torna instigante com o avançar das páginas, com humor e revelações inesperadas, tudo no ponto certo para a construção da personalidade de cada personagem, todos, sem exceção, sempre cheios de ambivalências. Agora estou curioso para saber se você vai “comprar” meu depoimento.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus do Porto da Barra
Data: 29/08/2015

domingo, 5 de julho de 2015

INFÂNCIA DOS MORTOS


Engana-se quem acha que o livro Infância dos Mortos, escrito pelo José Louzeiro (1932), é a mesma coisa que o filme Pixote, dirigido pelo Hector Babenco, que arrebatou inúmeros prêmios nos idos anos 80 do século passado. Essa confusão nasceu porque o livro serviu de argumento para o filme e a editora, ávida por vendas, passou a incluir o subtítulo Pixote nas edições posteriores ao filme. (veja a foto ilustrativa do livro)

Nas duas obras, a literária e a cinematográfica, a história é baseada em um grupo de meninos que abandonaram suas famílias para viver nas ruas sem estudo ou perspectiva de vida, e suas infâncias serão marcadas pela violência, drogas e crimes. O grupo é nômade, os garotos vivem pelas ruas sem saber onde vão dormir ou o que vão comer, são usados pelos traficantes e violentados pela sociedade que só os enxerga quando eles lhes roubam os pertences. Em um dado momento até pensam em mudar de vida, mas a realidade é dura e a lei da rua ensina que para ser forte e respeitado tem que se tornar conhecido no mundo do crime.

Os quatro meninos: Dito, Fumaça, Manguito e Pixote se conhecem nas ruas e são unidos pela lei da sobrevivência. Diferente do filme que usa o Pixote como foco de atenção por ser o menor deles, tem apenas nove anos de idade quando foge para as ruas, o personagem principal do livro é Dito, o mais velho. É ele quem dita às regras no grupo, quem decide o golpe que será aplicado, quem transita entre os traficantes, quem entra de verdade em confronto com a polícia e decide quem deve matar ou morrer. Por ser o mais forte é também o protetor dos outros, e em muitas ocasiões do livro percebemos ser o mais sensato, vai acompanhando as histórias de todos até se ver sozinho, lutando para sobreviver.

José Louzeiro é o primeiro escritor nacional a enveredar-se pelo gênero literário chamado de romance-reportagem, criado pelo Truman Capote quando escreveu A Sague Frio em 1965. Apesar de Pixote ter apenas uma pequena participação no livro, a reverberação do personagem transposto para as telas de cinema marcaria para sempre a carreira de Marília Pêra, lembrada até hoje pela atuação excepcional, e a vida do garoto Fernando da Silva Ramos, o Pixote, que não conseguiu seguir com a carreira de ator, entrou para o mundo do crime e acabou morto pela polícia em 1987. Posteriormente a esposa de Fernando, Cida Venâncio, lançaria o livro Pixote Nunca Mais, que deu origem ao filme Quem Matou Pixote? dirigido por José Joffily. Mas isso já é uma outra história.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça N. S. da Luz - Pituba
Data: 15/08/2015

domingo, 28 de junho de 2015

PIER PAOLO PASOLINI


Se você estava vivo na década de oitenta do século passado, e tinha algum interesse por literatura, então deve conhecer uma série da editora Brasiliense chamada Encanto Radical. Publicados até hoje, embora não seja possível adquirir edições antigas no site, os livros possuem tamanho/formato chamado “de bolso” e trazem biografias de personalidades diversas escritas de forma sucinta, com linguagem despretensiosa, geralmente assinada por professores, mestres ou doutores. Uma publicação ideal para quem quer ter uma noção dos fatos marcantes da vida e principais obras do biografado.

Tenho curiosidade sobre Pier Paolo Pasolini (1922-1975) desde que li Teorema, obra que também assisti em filme. Posteriormente vi outro filme dirigido por ele chamado Salò baseado no livro Os 120 dias de Sodoma, escrito pelo Marquês de Sade, que me deixou abismado, catatônico, e até hoje não sei se gosto ou não do filme. Mas lembro perfeitamente que uma garota vomitou no cinema, três filas à frente da minha, durante a famosa cena de coprofagia, não à toa até hoje o filme causa controversas e é banido em diversos países.

Coube ao Luiz Nazário (1957), doutor em História Social pela USP e excelente crítico de cinema, contar a história de Pier Paolo Pasolini, professor, poeta, novelista e cineasta, cuja mente nunca foi muito fácil de entender. Personalidade controversa e pensador obstinado, ele deixou um legado de livros, ensaios, filmes e peças de teatro, se a obra é boa ou ruim caberá a cada um julgar, afinal, estamos vivendo na era dos julgamentos. No pequeno livro há uma boa cronologia do biografado e uma excelente indicação bibliográfica para aqueles que querem se aprofundar.

Na pagina 32 encontramos o seguinte texto do Luiz Nazário:

“Pasolini considerava a recusa um gesto essencial dos santos, dos eremitas e, também, dos intelectuais. Os homens pouco numerosos que fizeram história foram os homens que disseram não. Para funcionar, a recusa deve ser grande e não pequena, total e não sobre tal ou tal ponto, “absurda” e não de bom senso. Quem recusa engaja toda a existência: numa palavra, lança seu corpo na luta.”

Agora é hora de pensar...

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente ao colégio Módulo
Data: 15/08/2015