sábado, 29 de dezembro de 2012

LEITE DERRAMADO


Não é novidade que o cantor/compositor Chico Buarque (1944) escreva livros, desde 1974 lançou-se como escritor com Fazenda Modelo. De lá pra cá Chico amadureceu o viés literário e vieram obras como Estorvo, 1991, Benjamim, 1995, e o excelente Budapeste, 2003. Sua obra musical é inquestionável e recentemente ele mesmo surpreendeu-se em saber que mesmo sendo inquestionável não agrada a cem por cento das pessoas.

Em 2009 Chico lançou Leite Derramado e vários críticos e blogueiros questionaram o livro como uma obra ‘menor’. Algumas críticas foram contundentes, outras buscaram valorizar sua música em detrimento da literatura, e várias me fizeram até rir, como a que achava absurdo um livro contar uma saga familiar em apenas 195 páginas. O crítico acha que o autor tem uma história rasa por causa da quantidade de páginas que o livro possui.

Eulálio conta sua história num leito de hospital, é um velho moribundo, fala para quem quiser ouvir e conta em um tom que pode ser realístico, de delírio ou sonho a história de sua família, ou linhagem com ele mesmo se expressa. Desde os ancestrais portugueses, passando pelo tempo do império, a primeira república, até chegar ao tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Tudo para demonstrar a derrocada social e econômica em que vive aproveitando-se da história do Brasil dos últimos dois séculos como pano de fundo.

Talvez o que mais estranhem os críticos seja mesmo a linguagem que Chico impõe. Na minha mais humilde opinião o livro é como um vídeo clip, um filme, um curta metragem. Que se lê rápido e sente saudade, sente curiosidade para saber o que mais aconteceu, mais detalhes dos fatos, mais histórias. Foi assim comigo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Supermercado Bompreço - Centenário
Data: 23/02/2013

domingo, 23 de dezembro de 2012

O LIVRO DO BONI


Quando a editora Casa da Palavra finalmente lançou em 2011 ‘O Livro do Boni’, e essa notável figura chamada José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (1935) percorreu todos os programas televisivos de entrevistas, falou com jornais de todo o Brasil, viajou por muitas capitais para tardes/noites de autógrafos e o livro sumiu das livrarias em virtude da grande procura, eu fiz cara feia e até achei, na minha total ignorância, que não valia apena tanto estardalhaço.

Entretanto, por uma feliz intervenção do destino, acabei por ganhar de presente um exemplar no Natal daquele mesmo ano. Tenho um pacto com minha tia Liane, que é também minha madrinha de batismo e emprestadora oficial de livros desde priscas eras, de só presentear livros um ao outro seja no aniversário, Natal ou a qualquer tempo por um simples gesto de carinho. Numa das muitas viagens que fiz esse ano levei o livro comigo por dois motivos: primeiro porque era grosso e eu morro de medo de terminar um livro em pleno voou, e segundo porque os capítulos são curtos e eu gosto de obedecer ao critério do autor e não faço paradas abruptas na leitura de um capítulo.

A essa altura eu já tinha vencido o mau humor inicial do excesso de mídia sobre a obra e pude, sem preconceitos, deliciar-me com uma história real contada com muito humor, sobre uma personalidade tão rica, profissional e inteligente. O menino precoce que se apaixonou pelo rádio, descobre seu dom para a publicidade e esta o leva naturalmente para a televisão numa época em que tudo era novo e experimental, nada mais desafiador para a personalidade do biografado.

Com o passar das páginas percebi que o Boni fez parte da minha vida, e de maneira muito significativa para o bom e para o discernimento de dizer “não gostei”. Chacrinha, Dercy, Janete Clair, os festivais da canção, Regina e Couco, Tarcísio e Glória, Chico Anysio, Jô Soares, as novelas, as minisséries, Glória Pires, Fagundes, Tony, Malu, o plim plim e até a Globeleza. Pode chutar o balde quem não passou por isso...

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Perini Barra
Data: 13/02/2013

sábado, 15 de dezembro de 2012

O CANTO DA SEREIA


Nelson Motta (1944) todos conhecem, jornalista, compositor, produtor musical e artístico, escreveu alguns livros, aqui mesmo já registrei uma obra sua sobre a vida do Tim Maia, mas há também Nova York é Aqui, Confissões de um Torcedor e o excelente Noites Tropicais. Agora aventura-se a escrever ficção e seu livro de estreia é O Canto da Sereia – Um Noir Baiano. Nelson é aficionado por música, arte e costumaz devorador de livros policiais, então sua primeira obra de ficção não poderia deixar de ser sobre esse universo, e para apimentar mais a história tudo se passa em Salvador no último dia de carnaval.

Tudo gira em torno do assassinato de Sereia, uma jovem rica, loira, estrela do axé, mulher exuberante e cobiçada. Sereia leva um tiro enquanto cantava em cima de um trio elétrico em plena avenida numa terça feira gorda de carnaval e a partir daí surge Agostinho Matoso, mais conhecido como Augustão, com toda sua baianidade aflorada para desvendar o mistério. Ele não poupa ninguém, os produtores de Sereia, a empresária, o chefe político local e até a mãe de santo mais poderosa da Bahia, todos serão alvo de investigação e terão suas vidas vasculhadas pelo detetive, capaz de cometer algumas irresponsabilidades para atingir seus objetivos já que não vive sem sexo, camisas floridas, aquela cerveja gelada, Miles Davis, Jorge Bem Jor, ensaios do Olodum e um baseado para ajudar a matutar e decifrar o crime que paralisou o Brasil.

Os direitos dessa obra foram vendidos para a Globo e em janeiro teremos uma micro série adaptada do livro para a tela da TV, portanto o tempo urge para a leitura desse romance policial engraçado com ares de final de novela quando todos se perguntam: Quem matou?

É um livro divertido, leitura descompromissada ideal para essa época de verão, praia, férias. Puro entretenimento.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Camarote Daniela Mercury
Data: 10/02/2013

domingo, 9 de dezembro de 2012

A CASA DOS BUDAS DITOSOS



Quando assisti ao espetáculo A Casa do Budas Ditosos, com a brilhante atuação da Fernanda Torres, além de me surpreender com a desenvoltura da atriz que controlava uma plateia de quase mil pessoas sozinha no palco, descobri lendo o programa da peça que o texto recheado de sexo e sarcasmo era do João Ubaldo Ribeiro (1941) e faz parte de uma série sobre os sete pecados capitais intitulada ‘Plenos Pecados’ capitaneada pela editora Objetiva que reuniu vários nomes da literatura brasileira e deu-lhes um “pecado” como tema para desenvolver uma obra.

Ficou óbvio para mim após assistir a peça que o texto de A Casa dos Budas Ditosos representava a luxuria. O livro revela a história de CLB, iniciais do nome de uma hoje senhora de 68 anos nascida da Bahia, mas residente no Rio de Janeiro, que viveu todos os prazeres, fantasias e infinitas possibilidades do sexo sem qualquer julgamento, moralidade ou resquícios de culpa. É um relato em forma de memórias de uma mulher intensa, livre e vivida. No teatro há momentos em que se pode ver a plateia corada, com gargalhadas estridentes e por várias vezes com o riso envergonhado, enrubescido. Sexo é assunto bom, rende conversa, mas também é tabu, não se confessa assim tão abertamente tudo que se faz. Ao ler em casa, solitariamente, você exercita desejos inconfessáveis da sua libido, mas também se pergunta como é possível tamanha liberdade sem nenhuma culpa, e que preço há de se pagar por tanto prazer.

O próprio João Ubaldo abre o livro informando aos leitores que recebeu os originais do texto num envelope entregue na portaria do seu prédio autorizando-o a publicar como se fosse seu, e assim o assina como um corretor e organizador da transcrição recebida isentando-se da culpa por escrever tamanha libertinagem e deixando o leitor sem nunca saber se o relato dessa senhora é verídico ou tudo não passa de uma brincadeira do autor.

É um livro curto, 163 páginas com letras grandes, ótimo para começar uma brincadeira com um grupo de amigos, ou ficantes, mais liberais. Cada um lê um capítulo dando a interpretação que quiser, aposto minha biblioteca inteira que o clima vai esquentar.

Para quem quiser ler os outros da série aqui vai:
O Vôo da Rainha – Soberba – Tomás Eloy Martínez
O Clube dos Anjos – Gula – Luis Fernando Verissimo
Xadez, Truco e Outras Guerras – Ira – José Roberto Torero
Mal Secreto – Inveja – Zuenir Ventura
Canoas e Marolas – Preguiça – João Gilberto Noll
Terapia – Avareza – Ariel Dorfman

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Porto do Mar
Data: 09/02/2013

sábado, 1 de dezembro de 2012

AS ESGANADAS


Faz muito tempo, muito tempo mesmo, o ano era 1985 e eu lia pela primeira vez um livro de contos piadistas escrito pelo então ator da Globo Jô Soares (1938). O livro era despretensioso e chamava-se ‘O Astronauta sem Regime’, uma galhofa do autor com o seu próprio peso. A editora L&PM faturou muito com a obra que vendeu mais que banana na feira.

Passados 27 anos Jô Soares saiu e voltou para a Globo, aparece como ator em breves e raras oportunidades, possui um talk show de sucesso e já escreveu sete livros, cinco deles em carreira solo. Na minha mais humilde opinião acho que o Jô tem uma carreira irregular como escritor, os livros alternam-se entre ótimos, bons e ruins.

Sua mais recente obra, As Esganadas, que pretendo abandonar, segue a mesma linha editorial que o autor consegue fazer muito bem, livros policialescos que misturam fatos da história real com a fictícia inventividade do autor. Nesse livro Jô consegue a proeza de revelar o assassino logo nos primeiros capítulos, inclusive suas motivações psicológicas, ou psicanalíticas como preferem alguns, sem que isso nos faça perder o interesse pela leitura. A descrição primorosa das vítimas nos faz cúmplices, as trapalhadas da polícia nos faz rir, e por fim vibrar com as deduções de Tobias Esteves, inspetor português que ajuda o delegado Noronha a desmascarar o autor dos crimes.

O prefácio escrito por Luis Fernando Veríssimo nos dá uma excelente dica: “Jô é um grande fazedor de tipos. Sabe como poucos construir um personagem, defini-lo com um detalhe e dar-lhe vida com graça e inteligência... Toda a ficção do Jô é feita de grandes personagens envolvidos em grandes tramas.”

Eu concordo... Mas só de vez em quando.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Shiro
Data: 03/02/2013

domingo, 25 de novembro de 2012

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS


Apesar de lançado em 2006 só recentemente encontrei tempo para ler este livro tão instigante. Ele repousou serenamente na estante por quase dois anos até que foi escolhido. Me arrependo por não tê-lo lido antes, um livro riquíssimo que trata justamente sobre a forma que uma menina, Liesel Meminger, transforma sua vida e seu jeito de pensar através dos livros que roubava. Sim, ela roubava livros. E foram justamente os livros roubados que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, o gosto por rouba-los gerou a sede de conhecimento e deu-lhe um propósito na vida.

A instigante história de Liesel nos é contata pela Morte, a própria, ceifadora de almas, impressionada com a garota e sua trajetória na Alemanha nazista. É uma narração com tamanha sensibilidade, simplicidade e suavidade capaz de esmiuçar os diferentes sentimentos humanos, sejam eles bons ou maus. Durante o período entre 1939 e 1943 Liesel encontrará a morte três vezes e sairá viva das três ocasiões surpreendendo a própria Morte.

O autor, Markus Zusak (1975) cresceu ouvindo histórias a respeito da época nazista, sobre os bombardeios de Munique e os judeus marchando pela pequena cidade alemã de sua mãe. Em entrevista recente ele disse que sempre soube que essa era a história que queria contar.

E consegue de uma forma tão requintada que, aos 30 anos, já se firmou como um dos mais inovadores e poéticos romancistas dos dias de hoje.

Mas que não se engane o leitor achando que será mais um livro sobre nazistas versus judeus, a Morte logo nos alerta: “Eis um pequeno fato, você vai morrer”.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pereira Café - Shopping Barra
Data: 03/02/2013

sábado, 17 de novembro de 2012

É TUDO TÃO SIMPLES


Em 1992 quando Danuza Leão (1933) publicou uma coletânea de textos intitulado Na Sala com Danuza, sobre a reinvenção das regras de etiqueta, descobrimos uma nova faceta da consultora para personagens ricos nas novelas da Globo. Ela nos presenteava com um lado prático das arcaicas regras de etiqueta. Mais tarde, em 2005, Danuza publica uma obra prima intitulada Quase Tudo e nele encontramos outra Danuza, uma mulher completamente diferente daquela que conhecíamos das colunas sociais, festas e badalações.

De lá pra cá muita coisa se passou, Danuza virou escritora de sucesso com livros sobre maneirismos e experiências em viagens pelo mundo afora. Gosto muito da maioria dos seus livros e principalmente da sua coluna no jornal. Acho sua visão muito providencial e compartilho com algumas de suas ideias.

O livro que pretendo abandonar foi lançado em 2011 e chama-se É Tudo Tão Simples. Na minha mais humilde opinião acho que Danuza já escreveu coisas melhores. Esse, me parece, é mais uma coletânea de coisas já escritas e foi publicado por pressão da editora. Tem coisas engraçadas, capítulos divertidos, coisas para pensar e coisas para deletar. Há momentos em que a acho bem louca com pitadas de alguma sanidade, afinal o ‘simples’ da autora nem de longe se pode considerar como ‘simples’ para os demais mortais. São lojinhas em Paris, em Londres, lugarzinhos em Paris e restaurantes em Paris. Não desmerecendo a cidade luz, mas achei tudo com certo ar de exagero. Ela nos informa que simplificou a vida ao vender o carro, a prataria, mudando para um apartamento menor, mas nem pensar em abdicar de pequenos luxos como ter uma banheira, algumas latinhas de caviar e das viagens na primeira classe, sempre determinando um certo desconforto pelos lugares turísticos do mundo e às pessoas em geral. É muito engraçada a dúvida da autora em doar ou não roupas velhas, será um pecado doar aquela camisa Saint Laurent que você não usa há anos para a faxineira? Olha que problema!

Pode-se e deve-se ler este livro com humor, afinal regras de comportamento devem ser encaradas sempre com bom humor, sabendo o que deve aproveitar para si e que é delírio da autora. Eu acho puro entretenimento.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Cantina Volpi - Ondina
Data: 06/01/2013

domingo, 11 de novembro de 2012

A CULPA É DAS ESTRELAS


Hoje começo uma série sobre livros contemporâneos, não que ache que livros possam envelhecer, longe de mim cometer aqui tal injúria, mas acredito que cabe a palavra substituindo um possível verbete para recém lançados. São obras que de alguma forma retratam os pensamentos deste século que está só começando. Decidi abandonar alguns livros que comprei recentemente e gostei muito, e quem sabe convencer alguém a abrir e ler a primeira página.

Começo então por uma obra cujo título é “A Culpa é das Estrelas” de um escritor chamado John Green (1977) que, confesso, não sabia da existência. Tomei conhecimento desse livro através de uma bem escrita resenha feita pelo Bruno Meier para a revista Veja. Fiquei curioso por causa da resenha e ao ler o livro fiquei emocionado, comovido, influenciado, e porque não dizer, culpado por praguejar contra a vida e os pequenos problemas que nela enfrento.

A história é contada em primeira pessoa por Hazel Grace, ela tem 13 anos e está diagnosticada com um câncer de tireoide em estágio avançado sem chance de cura. Debilitada e um pouco deprimida ela é obrigada pela mãe a frequentar um grupo de apoio a adolescentes na mesma situação, lá conhece Augustos Waters, ex-jogador de basquete da escola que teve de amputar uma perna por causa de um osteossarcoma. Engana-se o leitor em pensar que é um livro mórbido ou deprimente sobre adolescentes que tem uma doença grave, contrariando a imagem consagrada da vitalidade e energia da idade, ou que o texto resvala na auto piedade, ou o livro é mais um best seller de auto ajuda. Nas mãos do John Green o livro flui e, acredite, você irá se comover e, é lógico, pensar, mas também vai rir e vibrar com esse casal e isso pode faze-lo mudar o jeito de encarar as coisas miúdas da vida, pode rolar um pouco de melancolia mas tenha certeza que isso lhe fará bem.

Copiei aqui um trecho da resenha escrita pelo Bruno Meier que diz “A melancolia, porém, se desvanece diante desse encontro tão intenso de dois adolescentes que descobrem que é mais fácil encarar o fim iminente quando não se está mais sozinho nos instantes que o antecedem.”.

É um grande livro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Museu Náutico da Bahia - Farol da Barra
Data: 05/01/2013

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O CRIME DO PADRE AMARO

Andei muito atarefado nesses últimos dias, e a convocação para trabalhar como mesário nas últimas eleições fez com que não escrevesse no blog na última semana de outubro. Isso me deu um tempo para pensar e fuçar minha estante atrás de livros que serão abandonados em breve. Não por acaso lembrei-me de um livro que foi citado recentemente em duas novelas diferentes na Globo. Em Gabriela, a menina Malvina compra o livro e conta com a cumplicidade do livreiro João Fugêncio, é um escândalo quando seus pais descobrem que livro sua filha está lendo. Já em Lado a Lado o livro foi novamente citado pela personagem de D. Eulália, pseudo beata bem safadinha que, em conluio com o padre Olegário, tenta expurgar da sociedade os livros considerados pornográficos, mas os lê avidamente escondida de todos.

O livro tão citado é O Crime do Padre Amaro, uma obra prima que marca o surgimento do Realismo em Portugal é de longe a obra mais polêmica do grande Eça de Queirós (1845-1900), isso porque o autor se utiliza da irreverência, sarcasmo e ironia para criticar o clero e a sociedade burguesa da época na sua falsa moral. O livro conta a história do padre Amaro, pároco sem a menor vocação que se deixa abater pela tentação da carne, e peca contra a castidade ao conhecer a jovem Amélia. Vivem uma história de amor proibida e passam a ter encontros secretos até que Amélia descobre-se grávida. O padre se vê numa emboscada ao tentar arranjar-lhe um casamento para tentar encobrir o que se tornaria um escândalo.

O exemplo mais curioso da obra de Eça é que ela permanece viva e atualíssima, o livro foi escrito em 1875, século 19, mas, tomada a devida licença poética, tem um frescor que poderia ter sido lançado na última bienal do livro. Em 2002 Gael Garcia Bernal encarnou o personagem no cinema sob a direção de Carlos Carrera, e foi indicado ao Oscar e Melhor Filme Estrangeiro.

Deixe-se embriagar por Eça de Queirós, aproveite para emendar a leitura com O Primo Basílio e depois um grande clássico: Os Maias. Aposto minha estante inteira que você não vai se arrepender.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Iguatemi - Sala 11 - UCI
Data: 29/12/2012

domingo, 21 de outubro de 2012

EM NOME DO DESEJO


Houve uma fase em minha vida que eu lia tudo que me caia às mãos, e quando digo tudo, quero realmente dizer T-U-D-O. De quadrinhos do Tio Patinhas aos romances açucarados Bianca e Sabrina, de clássicos da literatura que faziam parte do calendário escolar aos livros ditos proibidos para menores, livros emprestados da biblioteca e também aqueles surrupiados de minha tia Liane. Mas engana-se o leitor desse blog se pensar que eu era um nerd solitário com um livro nas mãos dentro de um quarto, isso nunca. Fui garoto de rua que passava férias no interior e quando mudamos para um prédio de apartamentos descia para brincar no playground, com direito a turma, várias amizades e algumas inimizades. Também não era o sabichão da turma, o famoso "CDF", sempre fui um aluno médio, com boas notas em português (claro), história, geografia, e notas suficientes para passar de ano em matemática, ciências, etc.

Para encerrar a série de livros que li ainda jovem escolhi “Em Nome do Desejo” do João Silvério Trevisan (1944). Era um livro proibido, tinha acabado de ser lançado e já era rechaçado pela então ditadura militar em nome da moral e da família. É claro que tudo que era proibido eu logo queria saber. Na minha mais humilde opinião, eu recomendaria a leitura para jovens com mais de 15 anos. Acho o livro muito comovente e esclarecedor a respeito da diversidade do amor.

Com meus 20 anos, recém completados em 1983, cheio de testosterona e curiosidade, fiquei perturbado ao ler o verbete: “Denso e trágico, mas sem perder o humor e a leveza, o livro do jornalista e escritor João Silvério Trevisan conta a história de amor entre os seminaristas Abel e Tiquinho, jovens divididos entre a mortificação da carne e a exaltação da alma, presos entre as glórias do divino e a ebulição dos hormônios da adolescência. Um romance sobre o despertar do sexo”.

É uma obra de aparente simplicidade, entretanto o autor consegue enredar muitos detalhes e vários fios da diversidade amorosa entre adolescentes. A anatomia do amor de uma paixão carnal e a cultura que ao mesmo tempo o promove, mas também o torna objeto de punição.

É ler e tirar suas próprias conclusões.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Aeroporto Luis Eduardo Magalhães - Praça Alimentação
Data: 18/12/2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O PEQUENO PRÍNCIPE


Quando tinha 8 anos ganhei de presente da minha madrinha o livro O Pequeno Príncipe. Eu era carinhosamente chamado de príncipe porque, segundo ela, era o afilhado mais educado... Perceba que disse “segundo ela”, não me achava assim tão educado, mas confesso que diante da sua figura tão impoluta eu caprichava um pouco. Li o livro e achei bacana. Aos 12 eu o achei no meio de outros livros e num domingo de chuva decidi ler novamente, lembro-me de ter descoberto algumas coisas novas que antes não havia percebido, é que na primeira leitura o que mais me impressionou foram as gravuras.

Alguns anos depois comprei uma edição bem bacana no Círculo do Livro, de capa dura e papel couche com brilho. É a versão que guardo até hoje e a que pretendo abandonar. Adquiri o hábito de reler esse singelo livro de cinco em cinco anos, pode apostar que a cada leitura descubro coisas novas, percebo intenções que não havia notado ou frases que grifei com um novo sentido.

Por vezes me sinto mais maduro e por outras acho que retrocedi. Tenho plena consciência de que a essa altura do campeonato o livro pode soar cafona, nos anos 70 era o famoso livro das Misses, todas juravam que tinham um exemplar sobre a cabeceira. Mas o fato é que frases como as que você vai ler aqui estão em nosso inconsciente coletivo, mesmo que você nunca tenha lido o livro.

“Os homens não tem mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não tem mais amigos.”

“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.”

“O essencial é invisível aos olhos.”

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

É um clássico. Já vendeu mais de 50 milhões de exemplares, em mais de 400 edições e foi traduzido para uma centena de idiomas e dialetos. O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) conta a história do principezinho originário do asteroide B612, traçada de forma delicada e criativa. Pode parecer simples, mas engana-se o leitor que não perceber os personagens plenos de simbolismos. O pequeno planeta do tamanho de uma casa com seus três vulcões, a flor de grande beleza, o geógrafo, a serpente, a raposa, o adulto solitário, todos nos ajudam a compreender a grande viagem do Pequeno Príncipe.

À primeira vista, um livro para crianças. Mas na definição do autor “um livro urgentíssimo para adultos”. Isso talvez explique a extraordinária sobrevivência literária da obra.

Cidade do abandono: Campinas/SP
Local: Aeroporto Viracopos
Data: 18/12/2012

domingo, 30 de setembro de 2012

CAÇADAS DE PEDRINHO


Ontem eu fui comprar um livro que pretendia reler e depois abandonar. É a segunda vez que faço isso. O motivo: a coluna do jornalista Hagamenon Brito no jornal Correio de sexta-feira, dia 28/9/12. Na coluna o jornalista escreve sobre o filme TED e faz uma menção ao politicamente correto. Daí cita uma ação que o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA) move contra o livro ‘Caçadas de Pedrinho’ por considera-lo racista. Antes, a professora Nilma Lino Gomes já havia emitido um parecer aprovado por unanimidade pelo Conselho Nacional de Educação – CNE a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial.

Eu li esse livro quando tinha 13 anos, e ontem reli as 72 páginas com meus já passados 49 anos. Ainda acho a obra do Monteiro Lobato (1882-1948) genial, e o que fica pra mim são as lições de coragem, perseverança, amor aos animais e principalmente o lado aventureiro de Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde. Convenhamos que o livro, escrito em 1933, tem uma linguagem diferente da que usamos hoje e em vários momentos soa engraçado por trazer a tona  coisas que já não existem mais. Confesso que voltei aos 13 anos nas quase duas horas de leitura e ri muito com as tiradas da Emília e os medos dos moradores do Sítio do Pica Pau Amarelo.

São 72 páginas de puro deleite. Pedrinho, mais uma vez em férias, organiza uma caçada para capturar uma onça-pintada que estava ameaçando os moradores do Sítio. A expedição, formada por Narizinho, Emília, Rabicó, Visconde de Sabugosa e o Saci, parte para a mata fechada do Capoeirão dos Tucanos e lá veem de perto vários mitos do folclore brasileiro, como a Porca dos Sete Leitões, a Cuca e o Boitatá. Todos se metem em muita confusão e por lá conhecem um rinoceronte que se refugiara na mata após fugir do circo. Animal pacatíssimo, do qual Emília logo tomou conta dando-lhe o nome de Quindim e depois o levou para morar no Sítio.

Dos 12 aos 14 anos eu li toda a obra de Monteiro Lobato, assisti na TV a primeira versão do Sítio do Pica Pau Amarelo assim como não perdia Vila Sésamo. Fez parte da minha formação. Assim como Pedrinho, aprendi a buscar as respostas para os meus “porquês” e tomar minhas próprias decisões.

Proibir o acesso, censurar, discriminar, vetar, segregar, é muito chato. Na minha mais humilde opinião cada ser humano tem que decidir por si, e quando se trata de cultura, educação, todos os lados da moeda devem ser claros e cada qual que escolha o seu. Crianças não nascem racistas, os conceitos são aprendidos com os pais, se os pais forem racistas os filhos terão uma probabilidade muito grande de também ser, mesmo que nenhum dos dois tenha lido sequer uma linha de Caçadas de Pedrinho.

Cidade do abandono: Atibaia/SP
Local: Itauá Ressort - Louge Recepção
Data: 17/12/2012

domingo, 23 de setembro de 2012

DIÁRIO DE UMA JOVEM - ANNE FRANK


Uma leitura “quase” obrigatória para a minha geração, eu tinha 17 anos quando li pela primeira vez a história de Anne Frank. Assombrosamente haviam-se passado 33 anos da sua primeira edição, e como todos já sabem trata-se do diário que uma garota escreveu dos 13 aos 15 anos.

A família Frank era formada por Otto e Edith, e as filhas Margot e Anne. Viviam na Alemanha quando Hitler assumiu o poder. Temerosos pela sua segurança face a política antissemita fugiram para a Holanda onde durante algum tempo viveram normalmente. Durante a ocupação da Holanda pelos nazistas os Frank não viram alternativa senão fugir novamente. Por falta de outros refúgios resolveram ficar em Amsterdam escondidos na parte abandonada de um prédio de escritórios. Anne tinha então 13 anos.

Reuniu-se aos Frank o casal Van Dann, com seu filho Peter, e mais tarde um dentista chamado Dussel. Os amigos de fora forneciam comida, roupas, livros, e o grupo permaneceu no esconderijo durante dois anos até que a Gestapo os descobriu.

Anne era uma criança que amadureceu numa espécie de porão. Extraordinariamente inteligente, arguta e com uma notável percepção, escrevia um diário com suas observações peculiares, engraçadas e comoventes. Criou um mundo só dela no qual viviam as outras sete pessoas, face a face com a fome, a sempre presente ameaça de descoberta, o sentimento de alheamento ao mundo exterior e, acima de tudo, o tédio. Esse o maior vilão, o deflagrador dos desentendimentos mesquinhos e pequenas crueldades dos seres humanos quando expostos à reclusão e confinamento num espaço tão pequeno e tão cheio de medos.

O interessante de tudo isso é que Anne era uma garota com os anseios iguais às de hoje, guardadas as devidas proporções tecnológicas, e me pergunto como um livro escrito por uma garota de 13 anos, despretensiosamente, elaborado sem a mínima preocupação literária, pode tornar-se uma obra tão requisitada, lida, representada e filmada.

Quantos romancistas, ficcionistas, poetas, não dariam tudo para ter escrito um livro como esse?

Cidade do abandono: Campinas/SP
Local: Sonotel Monrealle - Francisco Glicerio, 1444 - Ap: 47
Data: 17/12/2012

domingo, 16 de setembro de 2012

MAR MORTO


Eu tinha 15 anos quando li Mar Morto pela primeira vez. Tenho até hoje a edição de número 42, surrupiada da biblioteca do colégio Dois de Julho, emprestada pela condescendente bibliotecária que agora me foge o nome. Era obra proibida para menores por ter, segundo os padres que administravam o colégio, linguagem pornográfica. Lia avidamente nos intervalos das aulas um livro secreto com a capa forrada em papel de presente. Na verdade, exceto algumas passagens, digamos, eróticas, o livro é uma aula sobre o candomblé e os costumes do cais do porto da época.

É o quinto livro da extensa obra de Jorge Amado (1912-2001), que usa o romance entre Guma e Lívia como pano de fundo para "as histórias da beira do cais da Bahia", como diz o escritor na primeira frase que abre o livro, histórias dos mestres de saveiro que tem o destino traçado por muitas gerações; o dos homens que saem para o mar e que um dia serão levados por Iemanjá.

As tradições, ou “leis do mar”, ensinadas pelo Seu Francisco ao jovem e destemido sobrinho Guma vão desde o remendo das redes, a lida com as faces da lua e como domar as tormentas em alto mar. Mostra também o poder do candomblé e as crenças nos orixás, a veneração por Iemanjá – a deusa do mar – sentida pelos pescadores de todo o recôncavo.

Na minha humilde opinião é uma obra ímpar, escrita por um Jorge com 24 anos de idade e que vai marcar sua trajetória de consciência política. A inclusão dos personagens da professora Dulce e do médico Rodrigo, não por acaso dois forasteiros, é definitiva para despertar a consciência do povo do cais contra o marasmo e a opressão.

Quando escreveu Mar Morto Jorge Amado era um jovem visionário, politizado e artista. Ainda não tinha a real dimensão da sua obra nem o alcance que ela teria. Neste ano de 2012, se vivo estivesse, Jorge completaria 100 anos. Fica aqui o registro da minha simples homenagem a uma obra extraordinária e infinita.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão
Data: 13/11/2012

sábado, 8 de setembro de 2012

FERNÃO CAPELO GAIVOTA


Quando eu era adolescente tinha certeza de tudo, vivia a famosa certeza da juventude; radical, impetuosa, agressiva, quando achamos que já sabemos de tudo sobre tudo e que nossa opinião sobre determinado assunto jamais mudará. Não quero que você, amigo leitor do blog, confunda essa impetuosidade com falta de conformismo. Entre a birra de bater o pé para uma determinada opinião e a quebra de paradigmas para conceitos pré determinados na busca por novas formas de ver e opinar sobre as mesmas coisas, há uma diferença enorme que passa pelo frescor e a vontade de ver sob novos ângulos.

Nessa época, aos 16 anos, no auge da minha impetuosidade e impaciência para o que chamava de “velho”, li a história de Fernão Capelo Gaivota, livro publicado em 1970 por Richard Bach (1936). Confesso que naquele momento não entendi tudo e achei até esquisita a história de uma gaivota despertar nas pessoas tamanha motivação para mudar suas vidas.

O autor usa uma gaivota como personagem principal num texto bem lúdico. Ex-piloto da Força Aérea, Richard Bach pautou praticamente todos os seus livros no ar, desde suas primeiras histórias sobre voar em aeronaves até suas últimas onde o voo é uma complexa metáfora filosófica. Escolheu a gaivota porque, diferente dos outros pássaros, esta não se preocupa apenas em conseguir comida. A gaivota vive também em função da beleza de seu próprio voo, algumas voam alto, outras fazem mergulhos e acrobacias, um tema perfeito para usar como metáfora sobre acreditar nos próprios sonhos e buscar o que se quer, mesmo quando tudo parece conspirar contra. O livro é uma aventura sobre a liberdade e o perdão. Para quem crê nisso Fernão Capelo Gaivota será uma história com sentido. Para quem não acredita será apenas um livro infantil sobre uma gaivota que pensa e vai além dos seus próprios limites.

Até hoje, beirando os 50, releio esse livro vez por outra e ainda encontro ideias e conceitos novos, como se o livro estivesse em plena transformação. Como já aprendi que palavras escritas estão ‘mortas’, as mudanças de conceitos estão no olhar de quem as lê, de acordo com o estado de espírito e forma de encarar a vida.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Windsor Guanabara
Data: 13/11/2012

domingo, 2 de setembro de 2012

O MEU PÉ DE LARANJA LIMA


Recentemente fui até uma grande livraria e sentei para ler algumas orelhas de livros que amigos tinham me indicado e outros que peguei ao acaso. Calhou de haver uma poltrona vazia justamente ao lado da sessão de livros juvenis. A princípio pensei que o barulho fosse me incomodar, mas acabei por esquecer os meus livros e fiquei absorto observando os adolescentes e suas aquisições do dia. Vi de tudo um pouco, da Galinha Pintadinha para os menores variando de Harry Potter à saga dos vampiros para outros, algumas meninas com o horrível ‘100% Justin Bieber’ e o pavoroso ‘100 Dicas Para Conquistar Um Vampiro’, além de um menino com o trash ‘100 Coisas Mais Nojentas do Planeta’. Confesso que adoro listas e fiquei curioso com o conteúdo os dois últimos livros que citei.

Acabei por não comprar nada e no caminho de casa tentei fazer uma retrospectiva sobre o que eu lia quando tinha 12 ou 13 anos. Ao consultar meus arquivos constatei uma agradável surpresa. Isso me deu a ideia para uma nova série: Livros que eu li ainda criança/adolescente.

O primeiro não poderia deixar de ser ‘O Meu Pé de Laranja Lima’ do fabuloso José Mauro de Vasconcelos (1920-1984). A obra foi escrita em 1968 e eu li quando tinha 12 anos por causa de um trabalho escolar. Escrevendo agora esse post tenho a exata memória dos fins de tarde, de banho tomado, aconchegado na “cadeira do papai”, completamente envolvido nas aventuras de Zezé. Assim como Monteiro Lobato, José Mauro tinha a capacidade de nos transportar para mundos fantásticos, mas sem perder a exata noção de realidade.

Zezé vivia numa família grande e como sua mãe trabalhava fora cada filho era responsável por cuidar do irmão menor. Sua mentora era Glória (Godóia) para quem ele refugiava-se sempre que suas traquinagens acabavam em brigas e confusões. Ao mudar de casa em função das dificuldades financeiras cada um pegou para si uma arvore do quintal sobrando para Zezé o pequeno pé de laranja lima. A princípio ele desdenhou da sobra, mas depois passou a considerar o arbusto como seu melhor amigo, para onde corria quando queria desabafar ou amenizar a carência de afeto. Zezé inventa para si um mundo de fantasia em que o grande confidente é "Minguinho" o pé de laranja lima. A vida estava lhe ensinando tudo cedo demais, e Zezé descobre a dor e a saudade, assim como a ternura e o carinho no afeto do solitário português Manuel Valadares, o Portuga, como o menino o chama.

O livro foi adaptado e virou novela na extinta TV Tupi em 1970, depois houve mais duas versões na TV Bandeirantes, em 1980 e 1998, isso sem falar que também em 1970 foi adaptado para o cinema com direção de Aurélio Teixeira. Recentemente li uma declaração do autor que diz:

“Meu pé de laranja lima foi escrito em apenas doze dias. Porém estava dentro de mim há anos, há vinte anos."

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão
Data: 12/11/2012

sábado, 25 de agosto de 2012

MINHA FAMA DE MAU


Por vezes pensamos na vida de artistas com uma intensa curiosidade, principalmente sobre o lado menos artístico e mais pessoal, como se o fato de “ser artista” elevasse a pessoa para um patamar diferente, quando eu era criança pensava que artista sempre comia melão com presunto todos os dias no café da manhã.

Ao ler a biografia Minha Fama de Mau do Erasmo Carlos (1941) consolidei minha opinião sobre a vida de alguns artistas cujas carreiras, construídas desde o final dos anos sessenta, ainda eram desnutridas da glamorização, foram carreiras desprovidas de globalização, redes sociais, efeitos midiáticos e assessores de imprensa, mas, por outro lado, repletas do mais puro e verdadeiro talento, simples assim.

Erasmo Carlos propõe-se a contar histórias, suas memórias, da infância humilde de menino criado pela mãe numa casa de cômodos à consagração como ídolo do rock, histórias de superação das dificuldades financeiras e preconceitos até consagrar-se, junto ao amigo Roberto Carlos, como porta-voz sentimental de milhões de pessoas. Um dos primeiros popstars brasileiros, assim como os Beatles, ele tinha fã clube histérico, garotas se rasgando por um beijo e dinheiro para comprar tido que quisesse.

Memórias simples de garoto sonhador, jovem entusiasta, até tornar-se o para sempre Tremendão. As namoradas, o casamento, a família, os filhos, o showbiz, os amigos, as composições, as muitas aventuras nos bastidores dos shows e as histórias sobre as canções que embalaram muitos romances.

Não é uma biografia bombástica, não há nada de escandaloso, muito pelo contrário, Erasmo mostra-se um cara doce, engraçado e generoso, um artista humano que não tem vergonha da sua história. É um livro simples, sem sobressaltos, mas irá emocionar principalmente aqueles que viveram nas décadas de 70 e 80 do século passado e acompanharam sua trajetória.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Aeroporto Luis Eduardo Magalhães
Data: 12/11/2012

domingo, 12 de agosto de 2012

RICKY MARTIN - EU


Quando o fenômeno Menudo chegou ao Brasil eu já era grandinho demais para me deixar seduzir pelos quatro mexicanos que as meninas idolatravam e os garotos imitavam. Mas não posso negar que a música colou em meus ouvidos de tanto que foi repetida. Mais tarde, noveleiro que sou, fui contagiado pela música de abertura da novela Salsa e Merengue, que se chamava Maria e era interpretada por Ricky Martin, o já bem crescido ex-integrante do grupo.

Um clipe aqui, outro acolá, na minha fase MTV, assisti às interpretações de um homem sedutor, macho alfa, garanhão, bonitão, corpão, dentes impecáveis e cara de menino sapeca. Alguns questionavam sua sexualidade como também o faziam com vários outros atores/cantores bonitões e de sucesso, mas confesso que não tenho paciência para esse tipo de especulação. Ao publicar uma carta aberta em sua página na internet em março de 2010, Ricky Martin (1971) “surpreende” o mundo afirmando sua homossexualidade e dizendo-se enfim livre.

No mesmo ano lançaria o livro EU que conta em primeira pessoa como tudo começou em sua carreira; desde criança como modelo e cantor na igreja, as tentativas para ingressar no grupo Menudo, a decisão da carreira solo, o sucesso mundial que demorou mas enfim aconteceu e, claro, o que mais interessa ao público cativo das revistas de celebridades: os amores e o sexo.

O livro, na minha humilde opinião, começa bem morno e até chato, mas há uma redenção, acredito que ele foi se soltando à medida que foi escrevendo e relembrando os fatos. O próprio diz: “Escrever este livro me permitiu explorar os diferentes caminhos e experiências que me levaram a ser quem sou hoje. Precisei amarrar pontas que sempre estiveram soltas, reacender memórias que já tinham sido apagadas de minha mente. Aceitar fazer isso não foi fácil, mas, assim que comecei, iniciou-se uma cura espiritual incrível.”.

Se você é gay e pretende ler o livro, verás que o processo de “sair do armário” é complexo, doloroso em alguns pontos, mas viver na verdade não tem preço.

Se você não é gay e pretende ler o livro verás que preconceitos derrubam e aprisionam não só quem é discriminado, mas também quem o discrimina.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Chez Bernard
Data: 11/11/2012

domingo, 5 de agosto de 2012

LIV ULLMANN SEM FALSIDADES


Já falei muito aqui no blog, adoro histórias, e quando se trata de histórias verídicas, histórias de vida, eu me perco no tempo e só consigo parar quando chego à última página. Mas não é com qualquer história que sigo me aventurando, nos tempos das redes sociais que a biografia é escrita diariamente através de postagens e fotos de pratos de comida feitas pelo Instagran, um mínimo de critério se faz necessário para conseguir ler coisas interessantes.

É justamente nesse mote que apresento a vocês ‘Liv Ullmann Sem Falsidades’. Escrito por David E. Outerbridge e traduzido pelo Roberto de Cleto este livro é composto por uma série de entrevistas que a atriz Liv Ullmann concedeu ao autor durante a temporada na Broadway da peça ‘Ana Christie’ de Eugene O’Neill. Segundo o autor uma entrevista “sem falsidades” porque penetra no próprio ser da atriz que nos oferece os segredos de sua arte, a forma como é capaz de encontrar a essência de cada personagem, e isso, por sua vez, leva finalmente à revelação da sinceridade de uma interpretação.

O autor disse em uma entrevista quando perguntado por que dar tanto espaço para uma atriz até então tão pouco conhecida nos Estados Unidos: “Talvez existam duas respostas: Uma delas só pode ser compreendida vendo-a atuar, pois o texto de uma peça ou de um filme e a interpretação que a ele é dada pertencem ao momento e à plateia. O momento passa tão rapidamente quanto uma respiração. A segunda tem a ver com a face que transmite a emoção das palavras. Esse livro é a respeito dessa face e da persona que está por trás. É uma composição de uma atriz que, extraordinariamente, entra em cada novo papel em sua forma essencial.”

No Brasil o texto foi apresentado a Roberto de Cleto pelo ator/diretor André Valli, que era fanático por Liv Ullmann. O Roberto achou que podiam ser úteis aos seus alunos da Escola de Teatro da Uni-Rio quando fossem estudar o método Stanislavski de preparação do ator e resolve fazer a tradução. Para Roberto o livro pode ser de grande utilidade para todos que se interessam pelo teatro como profissão, como apreciadores, e até por aqueles que querem saber sobre as colocações humanas de uma personalidade que é uma atriz.

O livro que vou abandonar tem um prefácio lindo e emocionado escrito por Marília Pera e uma dedicatória do amigo Agê Habib que me presenteou o livro, que diz: “Os atores impressionam o público não quando estão furiosos, mas sim quando representam bem a fúria.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge em frente a Livraria Cultura
Data: 11/11/2012

domingo, 29 de julho de 2012

MINHA VIDA


Lá vou eu de novo falar em histórias... É fato, mas isso é o meu grande motivador para a leitura desde a adolescência. Hoje volto um pouco ao passado já que personalidades biografadas que tiveram uma contribuição com o comportamento dito moderno não morrem jamais, e os livros, assim como outras mídias, tem função importante para que não ocorra esse esquecimento.

Dito isso apresento a vocês o livro Minha Vida cuja personagem biografada é Isadora Duncan (1877-1927). Considerada a pioneira da dança moderna por usar as técnicas do balé clássico para movimentos mais soltos, inspirados no vento, nas plantas, com os cabelos soltos e sem sapatos. Algo totalmente impensado para os clássicos da época. Também na vida privada Isadora não era muito convencional, casou-se três vezes e reza a lenda que só consentiu com os casórios porque sabia que podia separar-se caso necessário, e assim o fez com os três maridos.

No livro que pretendo abandonar há uma indicação de que a biografia foi muito planejada mas só foi concluída no verão de 1927 e Isadora faleceu sem ter feito a última leitura do manuscrito, por isso tudo que foi publicado não foi corrigido ou suprimido.

Isadora Duncan morreu de uma forma inusitada. Em Nice, ao passear com um amigo num carro de corrida, a echarpe que a princípio esvoaçava ao vento prendeu-se na roda traseira do carro. Sem que houvesse tempo de pedir por socorro ou mesmo fazer um simples gesto ela foi estrangulada com tal violência que, acredita-se, sua morte foi quase instantânea.

Uma fatalidade interrompe aos 50 anos uma vida riquíssima, e deixa um legado que jamais será esquecido.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge em frente a Etna
Data: 11/11/2012

sábado, 21 de julho de 2012

VALE TUDO - TIM MAIA


“Sou preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofências e deficiências capilares.” Assim se autodefinia Tim Maia (1942-1998) e quem nos conta isso é Nelson Motta (1944), a partir de uma imensa pesquisa e de uma intensa convivência, uma história de som, fúria, muita fúria, amores, chifres, brigas, muitas brigas, drogas, bebidas, shows maravilhosos, muitos shows maravilhosos, vários não realizados, amigos, dinheiro e gargalhadas, muitas gargalhadas.

Uma biografia deliciosa de ler, pontuada em ordem cronológica desde o nascimento e também através do peso adquirido pelo artista ao longo da sua existência. É muito interessante a forma com que o Nelson Motta nos conduz ao mundo de Tim Maia, desde a infância, a vida com os pais, a ida aos Estados Unidos que seria um marco para o seu som, a volta ao Brasil, os programas da Jovem Guarda, o sucesso, a independência financeira, a independência das gravadoras, a preocupação com a administração do dinheiro, as festas regadas a mulheres, bebidas e drogas, muitas drogas.

Era incrível a capacidade do Tim de se autodestruir, alias, acho que isso é o mal dos gênios, ou daquelas pessoas especiais em suas áreas de atuação. Será que a vida breve faz com que esses ídolos/ícones sejam cultuados para sempre? Impossível que várias gerações não estejam marcadas de alguma forma com a música do Tim, sua voz potente e seu fabuloso sentido rítmico. A minha teve o privilégio de ter sido embalada por grandes sucessos e eu particularmente tive a oportunidade de assistir ao Tim em algumas fases, aqui em Salvador no antigo Troféu Caymmi e em São Paulo em vários momentos. Azul da Cor do Mar, Sossego, Chocolate, Gostava Tanto de Você, Primavera, Você, Não Quero Dinheiro, Me Dê Motivo, O Descobridor dos Sete Mares, Vou Pedir Pra Você Voltar, Não Vou Ficar, Do Leme ao Pontal, W Brasil, me fizeram dançar, cantar e ser feliz, muito feliz.

“Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!”
Tim Maia

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: MAM - Museu de Arte Moderna
Data: 29/09/2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O MONSTRO DE OLHOS AZUIS


Continuando a série de livros sobre biografias hoje vou escrever sobre um tipo muito comum de livros, verdadeiros caça níqueis literários; a biografia de famosos. Muito comum na Inglaterra e em Hollywood, existem biografias de famosos de tudo quanto é tipo: por fases da vida, biografias autorizadas, não autorizadas, póstumas, mas ao contrário daqui onde alguns biografados conseguem na justiça o embargo da obra, lá isso não é possível. Só para vocês terem uma ideia, há mais de 40 biografias da Lady Dy, a cantora Adele já lançou a primeira e por aqui até o cantor/ator Fiuk já “escreveu” a sua, para o delírio das fãs.

Longe de ser uma obra relevante, apesar de muito bem escrita, Monstro de Olhos Azuis é uma biografia parcial da atriz Tonia Carrero (1922), escrita pela própria como enfatizam os editores o livro revela uma fase bem romântica da vida entre a infância e a adolescência. Uma reconstituição minuciosa dos fatos, pessoas, acontecimentos, sentimentos, da solidão de uma menina, suas alegrias e decepções, escritas com uma narrativa pungente e por vezes emocionada.

Os fofoqueiros de plantão deram com a cara na porta, não há detalhes picantes, nem abusos, ou sofrimentos exacerbados, é uma infância de outros tempos, afinal Tonia nasceu na década de 20 do século passado e era outro tipo de criação e vivências. Os cheiros da casa da avó, a Bá que ajudou na sua criação e todos os irmãos, o primeiro amor, as comidas, as festas, etc.

Eu recomendo a leitura, como se você estivesse vendo um filme antigo, uma reconstituição de época, ou simplesmente como uma forma de conhecer melhor a base que sedimentou a personalidade da atriz, uma das damas do teatro brasileiro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Em frente a Lojas Americanas
Data: 30/09/2012

sábado, 7 de julho de 2012

UMA VIDA INVENTADA


Minha memória diz que eu lembro da Maitê Proença (1958) da novela As Três Marias, que atuava junto com a Glória Pires e a Nádia Lippi. Mas para mim foi em Guerra dos Sexos que ela despontou como uma mulher forte, bonita e desejada pelas revistas masculinas. Eu gosto muito da fase GNT, diga-se Saia Justa, em que a atriz se torna persona e põe pra fora na TV opiniões e conceitos que já havia começado a escrever para uma seleta plateia que comprava a revista Época entre 2003/2004.

Este não é o primeiro livro da atriz/escritora, mas é o primeiro que fala de si de um jeito tão especial. Misturando literatura e vida real, verdades cruas e um pouco de imaginação, como num jogo de esconde esconde, embora para o leitor seja fácil perceber quando é realidade e quando é ficção. Não pense em dramas e tragédias de uma vida amargurada, foi sofrida, penosa, mas de um jeito engrandecedor. Tem o devido peso nas revelações mais fortes, e até surpreendentes, mas no todo é uma narrativa divertida, bem humorada e irônica com casos surpreendentes entremeados com a história quase ficcional de uma menina que quer desbravar o mundo.

Maitê diz: “Não sei o que faço aqui. Com quem estou falando? Por que essas revelações? Isso de passar a vida interpretando textos de outras criaturas vai abafando a própria voz. (...) Talvez esteja tentando construir uma ponte mais sólida entre mim e as pessoas porque preciso me comunicar para sair do isolamento onde me enfiei para me proteger, ora... da solidão. Escrevo contra a solidão. E quando eu derramar aqui toda a intimidade, com a lista exposta a minha frente nessa associação livre, talvez a vida se revele dando algum sentido à caminhada.”

Para muitos o nome de uma atriz da Globo na capa de um livro significa o mesmo que “não compre”, mas na minha humilde opinião vale a pena conhecer as personagens reais encenadas pela atriz e reinventadas pela escritora, o livro vale o que se paga por ele, se duvidar, você ainda sai no lucro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Municipal - Rua Chile
Data: 09/09/2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

SÓ AS MÃES SÃO FELIZES


Hoje começo uma nova série de livros que pretendo abandonar e que será sobre biografias. Confesso que estou empolgado porque gosto imensamente de biografias, sejam elas autorizadas ou não e principalmente quando o biografado tem, ou teve, uma vida rica, não exatamente de dinheiro, mas de valores e experiências.

Para começar com todo gás vou me desfazer de um livro importantíssimo na minha vida: ‘Só as Mães são Felizes’. Em um depoimento dado à escritora/jornalista Regina Echeverria num tom quase confessional, Lucinha Araujo, mãe do Cazuza, relata fatos da vida de seu único filho morto em 1990 em consequência da AIDS.

Todo mundo conhece o Cazuza e já sabe que ele está morto, mas, ao ler o primeiro capítulo cujo título é “O Inevitável” é impossível não se emocionar. Como mãe, Lucinha consegue chegar aos nossos corações de forma ímpar. É o relato de uma mãe que conta como foram os últimos momentos do filho, contrariando a ordem natural das coisas, os mais novos enterram os mais velhos e a vida segue o curso.

Aqui confesso que demorei para conseguir ler esse livro. Primeiro por ser sobre o Cazuza, que tive a oportunidade de assistir em vários dos seus shows, tanto no Barão Vermelho quanto em carreira solo e nunca vou me esquecer da última vez que o vi cantando, já bem debilitado pela doença que o corroia. Segundo porque suas músicas embalaram importantes momentos da minha vida e isso não muda com a sua morte. Depois de ler três vezes o primeiro capítulo e não conseguir continuar a leitura do livro tamanha a emoção, na quarta vez que tentei fui direto para o segundo capítulo e só quando acabei voltei a ler o primeiro capítulo novamente. E mesmo agora, escrevendo esse post, estou emocionado só de lembrar.

Tem gente que vive 100 anos e tem uma existência morna, Cazuza viveu 32 em quase total ebulição, isso me fascina. Lendo essa visão maternal da sua existência consigo imaginar que nada acontece por acaso. O talento é nato e isso ninguém tira de você.

“Homem que é homem volta atrás, mas não se arrepende de nada.”
Cazuza

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Itau de Cinema
Data: 09/09/2012

sábado, 23 de junho de 2012

O DESLUMBRAMENTO


Quando vivia em Salvador, antes de mudar para São Paulo, morava num apartamento grande que tinha até quarto para empregados, e como eu não tinha empregados para dormir em casa usava o local para guardar coisas. Sou canceriano e gosto de colecionar, guardar, ter. Neste quarto invariavelmente tinha muitos livros, revistas, jornais, fitas de vídeo, coisas que eu jurava ser um arquivo pessoal para consultas. Quando fui morar em São Paulo deixei várias caixas na garagem da casa da minha tia Liane para vir buscar depois. Mas o apartamento de São Paulo não era tão grande e nunca consegui levar as coisas para lá. Quando voltei a morar em Salvador fui intimado a levar as caixas e dar um destino ao seu conteúdo. É o que tenho feito ultimamente, abro as caixas, revisito o passado, presenteio amigos com relíquias que guardei e doei muita coisa para reciclagem. A cooperativa de papel ficou bem feliz quando cheguei com o carro cheio, mais de setenta quilos.

Mas porque abri esse post com uma preleção sobre o passado? Tenho uma mania de grifar textos, seja de livro, jornal ou revista, e quando estava separando as coisas me deparei com inúmeros recortes de revista e jornais grifados com lápis ou caneta. Uma revista Veja de 17/7/1985 me chamou a atenção, era uma entrevista com a escritora Marguerite Duras e o grifo que eu fiz estava sob a seguinte frase: “diante de um bom escritor, a gente nunca sabe aonde ele quer nos levar...”.

Já falei de Marguerite Duras (1914-1996) aqui no blog, post ‘A Dor’ de 28/11/2010, e acho-a perfeita para esta série de livros que nos levam a pensar. Então cheguei a O Deslumbramento, reli em uma tarde de sábado porque o livro é curto, apenas 145 páginas, e novamente me pus a pensar. Por que temos a necessidade de viver uma história duas ou mais vezes? Uma quando efetivamente a vivemos e outras quando contamos aos amigos, escrevemos sobre ela, ou sonhamos com ela tempos depois. E porque damos à segunda vez mais importância que a primeira? Damos mais importância ao sonho, ao relato, do que a hora da vivência. Ficou complexo?

No livro temos a história da adolescente Lol Stein que perde o noivo Michael para uma desconhecida no baile do Cassino Municipal de T. Beach. Até aí nada de novo, exceto pela cena melodramática e quase patética que a autora descreve e que necessita que seja assim para criar um romance instigante na minha humilde opinião.

“Quando Michael Richardson se voltou para Lol e a tirou para dançar pela última vez na vida deles... Ele se tornara diferente. Todos podiam percebê-lo... Lol olhava-o, olhava-o mudar. A mulher estava só. Michael dirigiu-se para ela com emoção tão intensa que se ficava com medo só de pensar que ele pudesse ser rejeitado. Também Lol, em suspense, esperou. A mulher não recusou. Terminada a primeira dança, Michael se aproximara de Lol como de costume. Depois, ao fim da dança seguinte, não mais tinha ido reencontrar Lol... De olhos baixos, os dois passaram diante dela. Lol seguiu-os com os olhos pelos jardins. Quando não mais os viu, caiu no chão, desmaiada.”

Dez anos se passam desde a cena interrompida e que agora volta. Lol está casada, tem três filhos, é uma mulher alegre e tranquila até que precisa voltar a morar em T. Beath. Certa tarde passa em frente a sua casa uma mulher que lhe pareceu familiar. Depois desse dia ela sonha com o baile, seu desequilíbrio e a imutável sucessão de dias que se seguiram.

Eu fico a pensar... Lol precisa mesmo viver duas vezes a mesma cena?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Rocca Forneria
Data: 07/09/2012

sábado, 16 de junho de 2012

LAÇOS DE FAMÍLIA


Às vezes o texto de Clarice Lispector (1920-1977) costuma ter uma ilusória facilidade pelo seu vocabulário simples e as imagens de animais, plantas e objetos domésticos em situações da vida cotidiana e ainda por cima envolvidos numa espécie de frequência de intenso lirismo. Mas que o leitor não se engane, em poucas linhas você será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade a vida das pessoas.

É desse modo que o leitor entra em contato com a experiência de Laura com as rosas e o impacto de Ana ao ver o cego no Jardim Botânico, ou a peregrinação de uma galinha no domingo de uma família com fome. Pequenos detalhes deflagram o mundo e quebra fronteiras falsamente estáveis em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parecia marcado pela ameaça de nada acontecer.

Nesta coletânea de contos as personagens debatem-se, sejam quais forem, e os laços que os unem são, em sua maioria, elos familiares que são mesmo tempo de afeto e de aprisionamento.

Clarice tem o dom de fazer você pensar, seja pelo lado irônico com que trata as relações humanas ou pelo lado introspectivo das mesmas. Mas outra vez o digo: que não se engane o leitor achando que lerá um texto por demais filosófico ou chato. Muito pelo contrário, na minha humilde opinião Clarice tem humor, é estratégica, é reveladora, e quando você menos espera estará a pensar no que leu e fatalmente será afetado pelo seu texto.

Experimente!

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão
Data: 22/08/2012

sábado, 9 de junho de 2012

ILUSÕES


Quem já leu Fernão Capelo Gaivota com certeza já ouviu falar de Richard Bach (1936), seu livro mais famoso e pelo qual amargaria pelo resto da vida o peso de não conseguir escrever algo melhor, ou em tese, que fosse tão surpreendente quanto, e faria com que outros bons livros do mesmo autor fossem desprestigiados pelo grande público.

É o caso de Ilusões, livro que pretendo abandonar e que faz parte dessa série de livros que nos leva a pensar. Para o autor esse livro faz parte do processo de Fernão, livro que contava a história de uma gaivota que decide que voar não deve ser apenas uma forma para a ave se movimentar. A história desenrola-se sobre o fascínio de Fernão pelas acrobacias que pode realizar durante o voo e em como isso transtorna o grupo de gaivotas do seu clã. É uma história sobre liberdade e aprendizagem.

Ilusões é quase uma continuação de Fernão, escrito sete anos depois é uma história leve, mística, quase uma aventura entre dois homens que se encontram nos campos do meio oeste americano onde cada um deles está fazendo o que realmente deseja fazer. As ideias por trás das palavras são ideias simples, que funcionam na vida cotidiana: descobrir aquilo que mais desejamos fazer e fazê-lo, aconteça o que acontecer. E ao tomar essa decisão arcar com todos os ‘senões’, os ‘talvez’ e os ‘e se’ que tornarão tudo muito mais difícil, mas se é o que queremos da vida, ela será mais feliz.

Este livro há de significar coisas diversas para pessoas diferentes. Para uns apenas uma história de milagres ou uma história sobre dois vagabundos, para outros quem sabe um livro sobre a realidade ou a assustadora aparência que a realidade tem. Nos tempos atuais em que ‘ter’ é melhor que ‘ser’, em que as redes sociais mostram pessoas felizes 24 horas por dia a ponto de publicar a foto de um prato de comida... É um livro que se constitui num desafio e que até pode contribuir para modificar sua vida.

Mas isso só acontece se você estiver disposto a isso.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Av. Presidente Vargas - Centro
Data: 22/08/2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

PERDAS & GANHOS


Não é a primeira vez que vou escrever sobre Lya Luft e espero falar dela ainda muitas e muitas vezes nesse blog já que Lya possui uma obra vasta, muito rica na minha humilde opinião, que me fascina e ao mesmo tempo dá uma chacoalhada no meu cotidiano. Isso me deu uma ideia para começar a nova série de livros que pretendo abandonar; livros que nos levem a pensar. Não me canso de repetir aqui que gosto de histórias, e isso não se traduz simplesmente em aventuras ou biografias, eu gosto da forma como os autores às contam. Alguns livros nos trazem apenas entretenimento, outros juntam a isso uma boa dose de informações sobre os mais variados assuntos, e poucos ainda conseguem juntar neste caldeirão um toque de filosofia e experiências de vida.

Esse é o caso de Lya Luft (1938). Perdas & Ganhos é o seu 17º livro, é nele que Lya leva a escrita para o lado pessoal e busca dar um testemunho sobre suas experiências e o amadurecimento. Um livro que convoca o leitor para ser seu amigo imaginário, cúmplice de reflexões sobre a infância, a solidão da morte, o valor da vida e à transcendência de tudo. E por mais pretensioso que possa parecer é assim que escrevo para o blog. Imaginando quem está lendo, em como irá reagir aos meus pitacos literários, e se terá humor para entender minhas reflexões. Você, meu ilustre leitor, é o meu amigo imaginário e a quem dedico meu tempo.

Lya disse numa entrevista sobre o livro: “O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento, um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. Nesse curso entendi que a vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos”. Tratar assuntos tão complexos como ternura, amor, amizade, compaixão, ética, morte, delicadeza, não é fácil, mas também não é uma tarefa inglória. Gosto de Lya porque ela nos traz o pensar e sempre nos lembra de que somos responsáveis e ao mesmo tempo inocentes em relação ao que acontece em nossas vidas, somos autores e também vítimas das nossas escolhas e omissões.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 06/07/2012

domingo, 27 de maio de 2012

INSTINTO SELVAGEM


Uma cruzada de pernas em frente aos homens que a interrogam e ela, displicentemente, deixa-os perceber que não está usando calcinha. Esse detalhe, que dura exatos dois segundos, faz com que a cena entre para os anais do cinema mundial.

O filme chama-se Instinto Selvagem e eu comprei o livro achando que este teria inspirado o filme, mas foi o contrário. O roteiro cinematográfico inspirou o romance escrito por Richard Osborne e exatamente por isso faço aqui uma recomendação: quem viu o filme não leia o livro e quem se dispuser ler o livro, é melhor que não veja o filme. As obras não se completam. Geralmente o livro traz outras nuances e desenvolve mais o intelecto dos personagens, tem o poder de descrever com mais detalhes o perfil de cada um que talvez na tela grande do cinema passe despercebido, mas não é isso que acontece. Richard Osborne basicamente se limita a transcrever o roteiro escrito por Joe Eszterhas para o filme.

O enredo é: Johnny Boz, antiga estrela de rock e proprietário de um clube noturno em São Francisco é encontrado morto na sua cama. O caso é entregue ao detetive Nick Curran, no cinema interpretado por Michael Douglas, que tem um passado de alcoolismo e consumo de drogas, embora já esteja recuperado. A principal suspeita é Catherine Tramell, romancista que mantinha uma relação há algum tempo com Boz. A psiquiatra da polícia, Beth Gardner, ex-namorada de Nick, é convidada a participar nas investigações depois de se descobrir que o homicídio de Boz foi copiado diretamente de um dos romances de Catherine. Nick acaba por se envolver com Catherine e todos parecem ser suspeitos. É um thriller povoado de paixão, prazer, sexo e assassinatos.

Reza a lenda que a cruzada de pernas não estava no roteiro base, mas o diretor Paul Verhoeven propôs que a atriz levasse ao extremo o briefing do personagem. A atriz em questão é Sharon Stone, que aceitou o desafio de viver a rica, atraente e manipuladora Catherine Tramell e se tornou a protagonista da cena que permeia o imaginário coletivo desde 1992.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: G2 - Salvador Shopping
Data: 03/06/2012

sábado, 19 de maio de 2012

GOTA D'ÁGUA


Não resisto à obra de Chico Buarque, então decidi abandonar um clássico, nascido clássico, inspirado no clássico e com muitas clássicas interpretações, se me permitem.

Eu era criança quando vi Fernanda Montenegro interpretando Medéia no extinto programa Caso Especial que a Globo transmitia. A tragédia clássica de Eurípedes adaptada de forma muito bem sucedida para a TV marcou esse personagem em minha memória.

A partir dessa adaptação para a TV (1973), feita por Oduvaldo Viana Filho, Chico Buarque e Paulo Pontes transformam a história num musical (1975), estrelado por nada mais, nada menos, que Bibi Ferreira. O personagem Joana (Medéia) marcaria para sempre a carreira da atriz/cantora/diretora que até hoje, com quase 90 anos, ainda interpreta a música tema em seus shows.

A Medéia do clássico de Eurípedes se transforma em Joana no clássico Gota D’Água, mulher madura, sofrida, moradora de um conjunto habitacional, submetida pelos autores a uma injeção da nossa realidade urbana. Medéia é um clássico sobre reis, feitiços e vinganças, Gota D´Água é uma história sobre pobres, macumbeiros, personagens bem construídos para uma realidade que é nossa, e por extensão, de todos aqueles que sofrem na carne as contradições e as injustiças sociais.

Escrito em versos o texto transforma o nobre em vulgar, toda a pompa da tragédia grega é substituída pelo comum, a linguagem, mesmo em versos é quase chula, reis e príncipes dão lugar às pessoas do povo, os deuses da mitologia dão lugar às divindades do candomblé e Joana, Jasão e Creonte cumprem a sua saga.

“Pode ser a gota d’água, pode ser a gota d’água...” cantam os versos e você se arrepia. De novo, um clássico.



Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Museu Rodin
Data: 02/06/2012

domingo, 13 de maio de 2012

ÓPERA DO MALANDRO


Faz muito tempo que a peça/musical Ópera do Malandro permeia minha vida. Primeiro foi a trilha sonora que fez um sucesso estrondoso e teve vida própria independente do conteúdo e do conhecimento do texto. Gal Costa e sua interpretação impecável de Folhetim, ou Zizi Possi com Pedaço de Mim, e não posso esquecer de As Frenéticas cantando Ai, Se Eles Me Pegam Agora, marcaram época na MPB e nas carreiras das cantoras em si. Depois o filme, que assisti em 1986 e até hoje permanece gravada em minha memória a cena entre Elba Ramalho e Cláudia Ohana cantando O Meu Amor como se fossem dois galos de briga.

Anos depois assisti minha primeira versão teatral, com direção de Gabriel Vilela, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, uma montagem farsesca e pendendo para a comédia com vários amigos em cena. Mais tarde assistiria a uma nova versão com Alexandre Schumacher no papel de Max Overseas consagrado pela crítica e público.

Escrita em 1978 a peça se passa na década de 1940, tendo como pano de fundo a legalidade do jogo, a prostituição e o contrabando. Um cafetão de nome Duran, que se passa por um grande comerciante, sua mulher Vitória, uma cafetina que vivia da exploração das suas meninas, sua filha Teresinha, apaixonada por Max Overseas, que, por sua vez, vivia de golpes e conchavos com o chefe de polícia, são personagens inesquecíveis. Em especial o travesti Geni, maltratado por todos até que o comandante do zepelim resolve bombardear a cidade, mudando de ideia com a condição de ter uma noite de amor com o travesti. É um momento importante na peça e a música Geni e o Zepelim é a trilha perfeita para a cena.

Cabe uma grande ressalva para a genialidade de Chico Buarque na composição das letras e músicas, que estarão em meu inconsciente para sempre. Na edição que pretendo abandonar contém todas as letras das músicas em seus respectivos momentos de cena.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Barra - Praça de alimentação
Data: 02/06/2012

domingo, 6 de maio de 2012

AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT


Continuando a série de livros que foram gerados em outras vertentes, mas que também mereceram uma publicação impressa, hoje vou escrever sobre uma obra fantástica de um autor que também é diretor, ator, dramaturgo, e encenador para teatro, televisão e cinema: Rainer Werner Fassbinder (1945 – 1982). Considerado o mais produtivo dos diretores do Novo Cinema Alemão, Fassbinder tinha personalidade forte e imprimiu isso em sua intensa participação na vida cultural alemã.
Embora lançado originalmente como filme em 1972, foi no teatro em 1982 que assisti pela primeira vez As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant. Com interpretações memoráveis de Fernanda Montenegro (Petra), Renata Sorrah (Karina, o amor de Petra) e Juliana Carneiro da Cunha (Marlene, a fiel escudeira). E cabe aqui ressaltar a direção segura de Sérgio Brito na montagem. Fernanda consegue magistralmente encarnar o espírito que Fassbinder imprime às mulheres em suas obras.
No seu trabalho predominaram as temáticas relativas à situação dos “deslocados” na sociedade alemã, a condição humana de amar e não ser correspondido, a entrega, a trapaça, o vale tudo do amor, tema fundamental de As Lágrimas..., o texto reflete o estado dos seres humanos, independente de sexo, raça ou lugar. A solidão, o medo, o desespero, a angústia, uma busca pela própria identidade e o amor são assuntos recorrentes para Fassbinder. Em suas obras sempre haverá um lugar essencial para a mulher, figura que servirá para propagar as diversas formas de emancipação feminina. Podemos conferir isso através de três heroínas que protagonizam sua trilogia da Alemanha Ocidental: Maria Braun, interpretada por Hanna Schygulla em "O Casamento de Maria Braun" (1979), Lola, vivida por Barbara Sukowa em "Lola" (1981) e Veronika Voss, interpretada por Rosel Zech em "O Desespero de Veronika Voss"(1982).
Nunca em minha vida vou esquecer a cena: É o aniversário de Petra, Karina não aparece e não liga, Petra está com a mãe, a filha, e Sidônia, uma amiga. Elas discutem e num acesso de fúria e degradação Petra destrói tudo que foi montado para o chá, literalmente. A cena protagonizada por Fernanda Montenegro é tão visceral, tão real, que a plateia reage num misto de emoção e medo. Alguns choram, outros seguram firme a mão de seus acompanhantes. Em cena todos vão embora deixando Petra sozinha. Marlene a ampara e Petra, finalmente, a enxerga como pessoa.

- Senta aqui... Me fala da tua vida. (cai o pano)

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Em frente ao hotel Atlantic Towers - Ondina
Data: 26/05/2012

domingo, 29 de abril de 2012

EU SEI QUE VOU TE AMAR


O ano era 1984, eu tinha 21 anos e achava que já sabia tudo. Tinha a prepotência dos jovens e, naquela época, era nos livros, no teatro e no cinema que se buscava referências para a vida. A Internet ainda era um sonho para cientistas e não tínhamos a facilidade de hoje para a difusão de informações. Foi exatamente nesse ano que assisti ao filme Eu Sei Que Vou Te Amar, com roteiro e direção de Arnaldo Jabor (1940), e confesso que esse filme derrubou minha prepotência; primeiro porque eu não entendi o filme, era moderno demais, inovador demais para a minha cabeça ‘chapliniana’, segundo porque o texto era por demais direto e cruel e isso me incomodou.
Dois anos depois eu entro numa livraria e dou de cara com o livro, na capa a foto do cartaz do filme, o mediano Thales Pan Chacon e a jovem talentosa Fernanda Torres. Imediatamente comprei e o li em duas horas, depois reli, e reli. A descoberta de que eu ainda não entendia muito daquele jogo de palavras instigante do jovem casal foi a pá de cal no que havia restado da minha prepotência.
Eles estão recém separados após seis anos de casamento e marcam um reencontro depois de três meses sem se ver. O filme basicamente se passa na nova casa dele, uma mansão projetada por Oscar Niemeyer. Um início tímido com diálogos entrecortados e contidos, como se fosse o primeiro encontro de namorados, vai aos poucos dando lugar a um tsunami de emoções traduzidas em palavras de alto poder destrutivo e catalisador. Extravasam sentimentos e ressentimentos, ofensas, mágoas, enumeram dores e traições até chegarem a um estado de delírio, como se estivessem na beira de um abismo, realidade e sonho, amor e desamor.
Para mim, que não mais vejo o filme mas que de vez em quando releio o livro, ficaram os gestos, o casal, a casa, a modernidade, a contemporaneidade e a beleza dos diálogos de amor.

“ – Ouve!!! Se não, morre... Eu me apaixonei por outro homem porque você não me emocionava mais.” (pág 107)

“ – Será que nunca mais vou te esquecer? Será que nunca mais vou olhar para um espelho sem ver você refletida? Será que nunca mais vai chover sem eu ver a chuva molhando teu rosto?” (pág 109)

É isso.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Barra - Lounge em frente às Lojas Americanas
Data: 26/05/2012

domingo, 22 de abril de 2012

PÉROLA

Depois da euforia por completar dois anos de escritas no blog estou de volta ao exercício de abandonar livros por aí e aproveito para inaugurar uma nova série. E desta vez farei o caminho inverso. Sempre considerei como personagem principal ‘o livro’, que, às vezes, devido ao sucesso acaba adaptado para outras praias, ou outras mídias como os modernos gostam de dizer. Desta vez trarei uma série de resenhas sobre livros que nasceram de outras vertentes, mas que foram imortalizar-se nas páginas seguras de uma edição literária.
Pérola é uma obra prima do grande Mauro Rasi (1949-2003), nasceu texto para o teatro e teve sua primeira temporada iniciada no Teatro Leblon dia 24 de março de 1995. Vera Holtz, Sergio Mamberti, Emilio de Mello formam o trio principal: Mãe, Pai e Filho, retirados do núcleo familiar do autor e retratados de forma teatral, sensível, delirante, despertando no expectador a forma de partilhar pequenos sentimentos, aqueles que nos chegam individualmente. Essa família de Bauru no interior de São Paulo se traduz em qualquer família, de qualquer cidade, com suas emoções corriqueiras, conversas na cozinha, sonhos de status traduzidos na construção de uma piscina no quintal para reencarnar a Ester Williams interiorana das telas do cinema.
Quando assisti ao espetáculo na sua temporada paulistana o que mais ouvi depois do final grandiloquente foi a frase; “igualzinho a minha família”. Prova do sucesso da peça, prova da qualidade do texto de Mauro e da direção tão acertada que ele fez do próprio texto. Mauro Rasi tinha a consciência e a vivência dos fatos, ele sempre afirmava que “saí de Bauru, mas Bauru nunca saiu de mim”.
A peça ficou cinco anos em cartaz e viajou pelas principais cidades, eu tive a sorte de assistir duas vezes, ri muito com as peripécias e Pérola e me emocionei junto com ela a cada conquista. Família é assim, em qualquer lugar, em qualquer endereço, briga, faz as pazes, comemora, chora e segue cheia de histórias. Vale a pena o resgate do texto, até mesmo para quem não sentou na cadeira do teatro e esperou pelo terceiro sinal.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Associação Atlética da Bahia
Data: 06/05/2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

ANO DOIS


Dois anos de blog. Estou emocionado ao escrever e espero chegar ao fim sem parecer piegas. Relendo o post de Um Ano, publicado no dia 17 de abril de 2011, me dei conta de quanto crescemos, não só em número de post escritos, até hoje 86 resenhas, 4.500 visitas, um aumento expressivo já que em 2011 eu estava comemorando 1.000 visitantes, e achando isso o máximo. Além do número de seguidores visíveis que pulou de 25 para 41.

Durante esse tempo ouvi os mais diversos comentários sobre o blog. Recentemente um amigo, Lelo Filho, me fez a seguinte pergunta: Você está se desfazendo da sua biblioteca? Ao responder a ele percebi que essa é a pergunta mais frequente, e o ‘desfazer-se’ tem um peso grande na opinião que as pessoas tem sobre o blog. Uns dizem que sou maluco, outros acham que estou praticando o desapego, e a grande maioria não entende a motivação, que, na verdade, é muito simples - ao abandonar livros estou abrindo espaço. Na décima vez que respondi isso eu percebi o quanto é importante abrir espaços na vida, seja para novos livros, novos amigos, discos, lugares e, principalmente, novas maneiras de encarar a vida e o que ela nos oferece.

Abrir espaço para novos livros e fazer circular aqueles que já li é compartilhar conhecimento com alguém que não espera por isso. É essa a lição que aprendi. Quando abandonei o livro ‘A Última Música’ na balaustrada da praia da Pituba, atravessei a rua e pela primeira vez fiquei dentro do carro esperando para ver o que acontecia. Depois de várias pessoas passarem pelo livro ignorando-o completamente, um casal veio andando devagar, ela olhou o livro e comentou algo com ele, que olhou para os lados e não achou o provável dono, ela se antecipou e pegou o livro, olhou a capa e imediatamente abraçou o livro. Não sei se pela capa, que contém a foto do casal de atores do filme, ou se pelo exemplar em si. Ele tomou o livro da mão dela e colocou de novo no lugar, eu não consegui saber o eles conversavam, ela foi lá e pegou o livro novamente, desta vez o abriu e deu de cara com o texto explicativo do blog, leu, sorriu e mostrou a ele, que também o leu. Ela sorriu, ele também, ela abraçou o livro, deu a mão para ele e os dois continuaram a caminhada. Eu, dentro do carro, chorei de emoção.

Achei que ela fosse escrever um comentário no blog, esperei por dias a fio mas depois percebi que mais importante que um comentário, ou uma visita ao blog, foi o fato de ter proporcionado ao casal aquele momento único, seja lá porque o motivo. Quando vejo na televisão ou no jornal uma reportagem ou foto de um jurista, ou médico, professor, político, eles sempre fazem a entrevista/foto na frente de uma estante, isso vale também para aqueles que querem projetar certa erudição, ou mais confiança em quem o assiste ou lê. Sempre penso se aquela pessoa realmente leu todos aqueles livros, ou foi o arquiteto/decorador que entrou numa livraria ou sebo e montou essa estante na casa do cliente. Sinto realmente uma pena enorme porque acho que qualquer livro merece ser lido, pelo menos uma vez.

Momento agradecimento, não pode faltar, então: agradeço aos meus amigos fiéis, leitores visíveis ou não, aqueles que comentam o blog e mandam sugestões por e-mail. Continuo aqui, enquanto houver livros para ler e eu tiver inspiração para escrever. Obrigado, de verdade.

Na foto: Um cupcake delicioso dos amigos do blog Meu Vilarejo.