domingo, 29 de dezembro de 2013

CHIC


Estou na frente do computador vasculhando minha lista de livros em busca de algo especial. Tarefa difícil uma vez que todos os livros que li de alguma forma são especiais. Alguns serão lidos uma única vez, mas há outros que já reli umas dez vezes e ainda não me dei por satisfeito. Estou escrevendo o último post do ano de 2013 por isso procuro algo diferente e, de certa forma, inusitado. Desisto da consulta pela lista, é que tenho catalogado tudo que já li, e vou para a estante olhar os livros, esse processo me acalma e tira da minha frente o branco da tela do computador.

Me chamou a atenção um livro fora do padrão comum de tamanho e quando o vejo de perfil percebo que é o livro da Gloria Kalil, CHIC – Um Guia Prático de Moda e Estilo. Lembro quando comprei esse livro que todo mundo comentava, era quase um best seller, guardadas as devidas licenças poéticas que ouso cometer aqui no blog. Não sou muito chegado a guias, só os de viagem e olhe lá, mas moda e estilo é um assunto que também me interessa. Afinal, quem não quer estar na moda e ainda por cima ter estilo?

Acho a Gloria Kalil uma mulher com muito estilo, chic sem ser pretenciosa, elegante por natureza e com um enorme carisma para comunicação. Ela fala e você escuta, ouve, assimila, compreende e sabiamente faz uma adaptação do que ela disse para o seu cotidiano. Foi assim que li esse livro, entendendo o ponto de vista da autora e fazendo uma triagem do que serve para mim. Foi através dele que aprendi a arrumar uma mala só com o necessário, recentemente consegui passar cinco dias em Buenos Aires com tudo que precisava em apenas uma mochila, fui a lugares diversificados e não passei aperto com a célebre frase: “Com que roupa eu vou?” Ela me deu dicas excelentes que levo para a vida toda. Ao longo das 250 páginas tem muita informação de moda, etiqueta, cidadania e estilo de vida.

Chic é um livro interessante e genérico, a Gloria escreveu outros mais temáticos como Chic Homem, Alô Chics! e Chic(érrimo). Se você os ler com serenidade saberá encontrar o seu estilo pessoal e entender aquelas regrinhas básicas que são universais, desenvolver uma consciência de moda, autoestima e personalidade para o dia a dia, fugindo da padronização que a indústria nos imprime.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Restaurante Foccacia
Data: 13/02/2014

domingo, 22 de dezembro de 2013

O PASTOR


Já escrevi aqui no blog que o Natal não é o meu feriado favorito, as comemorações viraram uma espécie de “obrigação” e o presente deixou de ser um momento de descontração e alegria para tornar-se uma distribuição infinita de sacolas de grife, porque se não for de grife a cara de decepção do presenteado é certa. Entretanto, como sempre acho que tudo na vida vale a pena, o Natal é a época dos panetones, eu adoro panetone, e também da programação especial na TV que tem um ‘q’ de igual variado, se é que isso é possível.

Na literatura temos poucas obras com o tema natalino que realmente valem a pena e eu fui buscar no fundo da minha estante uma fábula de Natal, intitulada O Pastor. Publicado em 1982 esse conto, ou fábula, foi escrito por Frederick Forsyth (1938), ele mesmo, o autor de O Dia do Chacal, O Dossiê Odessa, Cães de Guerra e O Quarto Protocolo, só para citar meus preferidos. Frederick é um autor de livros thrillers, se é que essa categoria existe, e sua formação e atuação como jornalista na BBC, Daily Express e revista TIME, contribuíram muito para torna-lo um expert em livros de ação com conteúdos históricos reais.

O Pastor é um livro diferente no contexto de sua obra, é um conto, ou uma fábula, como eu gosto mais de chama-lo. E é da experiência do autor como piloto de aviões que surge a ideia para essa obra comovente e quase lúdica.

Conheceremos a história de um jovem piloto da Royal Air Force (RAF) que recebe uma licença para comemorar o Natal com a família no Reino Unido. Com um luar belíssimo no céu noturno e gélido da Alemanha ele decola sozinho em seu avião de caça para sobrevoar a Holanda em direção ao Mar do Norte. Uma pane na aeronave muda o rumo da tranquila viagem, ele está perdido no nevoeiro e o avião começa a perder altitude, o rádio não funciona e o radar, assim como a agulha da bússola, gira sem controle. O jovem piloto sabe que morrerá em poucos minutos. Quando tudo parecia perdido e o combustível já se esgotava nos tanques, apareceu uma ajuda inesperada.

Coisas que só acontecem na noite de Natal.

Cidade do abandono: Salvador/BA - Rio de Janeiro/RJ
Local: Voo 6211 - Avianca - Bolsa da poltrona 17K
Data: 12/02/2014

domingo, 15 de dezembro de 2013

TREM NOTURNO PARA LISBOA


Esta é uma época muito propícia para pensar nos amigos e embora eu tente fazer isso durante todo o ano, quando chega o mês de dezembro e somos tragados pelas mensagens de “amor, paz, amizade”, distribuídas gratuitamente pela TV, rádio, jornal, redes sociais, fica quase impossível não se envolver. E quando digo “quase impossível” é porque recentemente li um post chamado “Saudade de Mim” no Blog do Roberto Camargo, e parei para pensar na qualidade da minha amizade com o Roberto e o quanto hoje em dia nos isolamos de nós mesmos tentando ficar antenados e plugados vinte e quatro horas por dia com a humanidade.

Ele é um amigo herdado dos tempos que eu morava em São Paulo. Isso porque Roberto era amigo do Ricardo Castro, e quando este voltou a morar em Salvador nós nos aproximamos muito, ele é gaúcho e eu baiano, ambos chegados à pauliceia e com pouquíssimos amigos. Nesses quase dezessete anos de amizade tivemos altos e baixos, concordamos e divergimos em vários aspectos, mas nunca sem perder a ternura e o carinho que sentimos um pelo outro. Agradeço sempre o legado cultural que o Roberto traz para minha vida, de Corine Rae à diva Stacey Kent, do grupo Terça Insana à Bertold Brecht passando pela sua maior intérprete no Brasil, Cida Moreira, dos encontros em sua casa regados a bebidas e conversas variadas, música e boa comida. Isso sem falar nos livros, muitos livros.

Pegando o foco sobre o quanto uma pessoa pode transformar a vida de outra, lembrei-me de um livro que o Roberto me emprestou quando estive em sua casa pela última vez, Trem Noturno Para Lisboa, escrito por Peter Bieri (1944) sob o pseudônimo de Pascal Mercier. No livro somos contemplados por duas histórias, na primeira pessoa pelo professor de línguas clássicas, Raimund Gregorius, cuja vida seguia uma rotina de invisibilidade até o encontro com uma mulher portuguesa no caminho para a escola. Desse encontro Gregorius toma uma atitude inusitada, levanta-se no meio de uma aula e sai da sala assustado com a súbita consciência de que a vida se esvai. Na busca pela incógnita mulher ele vai parar na sua livraria preferida e numa sucessão de estranhos fatos daquela manhã lhe cai às mãos um raro exemplar de um livro escrito pelo médico, poeta e pensador português Amadeu de Prado.

A partir desse momento seremos tragados pelas duas histórias, Gregorius e Prado, e uma infinidade de reflexões sobre solidão, finitude, morte, amizade, amor e lealdade. No fim na leitura fiquei com a sensação de que fugir de uma rotina opressora nem sempre é fácil, assim como conhecer pessoas, compreender suas vidas, e saber o que cada um acrescenta para o conhecimento de nós mesmos.

O exemplar desse livro que o Roberto me emprestou está aqui em casa, com todos os grifos feitos por ele, comprei outro somente para abandonar e nele tomei a liberdade de acrescentar os grifos do Roberto e os meus. Boa leitura para você que o encontrar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Varanda do Restaurante Rama - Barra
Data: 18/01/2014

domingo, 8 de dezembro de 2013

O VERÃO ANTES DA QUEDA


Estou há dias pensando em como escrever sobre Doris Lessing (1919-2013), sua morte recente em 17 de novembro fez com que minha memória, que já não é tão boa, ficasse remoendo fatos e acontecimentos. O fato é que li pouco a obra dessa autora e estava relutante em abandonar um dos poucos livros que tenho dela. Mas não posso me furtar ao compromisso assumido aqui no blog e a leitura que fiz de artigos sobre Doris durante esses dias só reforçou a urgência em homenageá-la.

O Verão Antes da Queda não é um livro feminista, publicado em 1973 com o título original de The Summer Before the Dark conta a história de Kate Brown. Principal personagem do livro, Kate é uma mulher de 45 anos, charmosa, competente e muito inteligente. O marido se ausenta durante uma temporada de verão e os filhos já adultos do casal não moram mais em casa. Coincidentemente às novas perspectivas profissionais que se abrem para Kate, ela conhece e apaixona-se por um homem bem mais novo. Um futuro totalmente novo estava lhe acenando, realizações materiais e sentimentais a tentavam, o jovem amante acabaria por fazê-la confrontar-se com o passado trazendo a tona coisas que ela pensou ter esquecido.

Relendo hoje esse livro e comparando-o aos mais diversos tons de cinza, e a toda literatura erótica que veio no seu rastro, percebo a força das palavras de Doris numa época que as feministas mais ferrenhas taxavam e categorizavam tudo que viam pela frente. É um bom livro, complexo e lindamente escrito, com excelentes perfis dos personagens que nele circulam e um bom final de efeito comovente.

Doris Lessing ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2007 e sofreu uma enxurrada de críticas; Harold Bloom, crítico literário, definiu a decisão como “politicamente correta” e disse: “Ainda que a senhora Lessing no começo de sua carreira tenha tido algumas qualidades admiráveis, penso que seu trabalho nos últimos anos é um tijolo”. Outro crítico, Marcel Reich-Rannicki, considerou o Nobel como uma “decisão decepcionante” e declarou na feira do livro de Frankfurt: “A língua inglesa tem escritores mais importantes e mais significativos como John Updike e Philip Roth”. Também Umberto Eco admitiu certa surpresa na premiação e declarou: “É estranho que um autor de língua inglesa venha a ganhar o prêmio tão pouco tempo depois de Harold Pinter”.

Passados um ano da premiação Doris Lessing disse num programa de rádio que o fato de ter recebido o prêmio redundou num “maldito desastre”. Isso porque a demanda da mídia com pedidos constantes de entrevistas e fotos lhe tirou toda a energia para escrever uma linha que fosse nos últimos tempos.

Ela era assim.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ - Salvador/BA
Local: Voo 2534 - Azul - Bolsa da poltrona 12D
Data: 16/01/2014

domingo, 1 de dezembro de 2013

CLEO E DANIEL


Vou logo avisando, Cleo e Daniel não é um livro de leitura fácil. E logo emendo para te deixar sem folego, é um excelente livro para fazer você pensar na vida. Ótima opção para épocas de fim de ano, quando o ano novo se aproxima e somos invadidos por reflexões e listas de promessas para os próximos 365 dias.

A história de um psicanalista meio frustrado, Dr. Flugeman, e dois jovens, Cleo e Daniel, concebidos no período que chamamos de baby-boom, logo após o término da Segunda Guerra Mundial antes da propagação dos anticoncepcionais e do sexo avulso. O Roberto Freire (1927-2008) enfatiza os excessos do médico na esteira dos problemas do casal de adolescentes que se conhece na antessala do seu consultório. Cleo foi levada para recuperar-se psicologicamente de um aborto imposto pela mãe, socialite paulistana, as consultas são um oásis entre as festinhas privê regadas a álcool e barbitúricos. Daniel, rebelde sem causa em constante conflito com os pais, aceita ir às consultas na esperança de conseguir receitas para comprar os comprimidos que se viciou em outro tratamento.

O livro foi publicado em 1966 e ainda hoje é um retrato da adolescência que não está preparada para lidar com os próprios problemas. É a geração do exagero, desesperada para sentir alguma coisa e saber o que o futuro lhes reserva. A ansiedade para que tudo aconteça rápido é impulsionada pelo álcool, drogas, experimentação do sexo e conflitos paternos constantes. O médico exerce nos jovens o poder do homem mais velho permissivo e sem julgamentos, tratando-os como cobaias para suas próprias frustrações.

Sem dúvida um livro para fazer pensar no que ainda está por vir.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Gaveta do armário - Apto. 1022
Data: 16/01/2014

domingo, 24 de novembro de 2013

O CASO DOS DEZ NEGRINHOS



Na página 26 da edição do livro que vou abandonar você lerá o seguinte poema:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no foro, a tomar ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.
Quadro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no zoo. E depois?
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não sobrou nenhum.

A partir daí o leitor, que já sabe o que vai acontecer, se deliciará com uma obra policialesca fascinante de Agatha Christie (1890-1976). Um dos raros livros que a escritora não utiliza-se do seu mais famoso personagem, o detetive Hercule Poirot, para desvendar a trama.

O argumento é de uma simplicidade quase infantil, e por isso mesmo genial, não à toa reza a lenda que é o livro mais vendido da autora com mais de cem milhões de cópias vendidas. São dez pessoas numa ilha, oito chegam de barco, foram convidados pelo misterioso casal que tem as mesmas iniciais U. N. Owen, lá encontram um casal de empregados que informa a todos um pequeno atraso na chegada de seus anfitriões.

Após o jantar uma voz vinda do gramofone faz acusações contra os dez, oito convidados e o casal de empregados, todas elas envolvendo a morte de alguém. O casal de empregados é acuado, mas revelam não conhecer seus patrões. O mar agitado impede que o barco, única locomoção que pode leva-los de volta ao continente, atraque no cais. Durante o fim de semana todos serão assassinados e cada morte segue precisamente o que diz o poema emoldurado em todos os quartos.

Você será capaz de desvendar esse mistério?

Cidade do abandono: Rio de Janeiro
Local: Praça da Candelária
Data: 15/01/2014

domingo, 17 de novembro de 2013

GIOVANNI


Num determinado momento da peça Escândalo – A Comédia da Mulher Só, monólogo interpretado pela atriz Cristiane Mendonça, a personagem pede ao público presente que comemore o amor e, ao invés de aplausos, ela pede que os casais se beijem e diz, “não importa se é homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem ou beijo de amigo, aqui não há lugar para preconceitos, aqui é um lugar para o amor”. Então, sob uma luz azul que reflete na plateia e três mil micro lâmpadas espalhadas pelo cenário, ela canta um pequeno pot-pourri de músicas românticas. No meio do público um casal de meninas negras beija-se ardorosamente ao som de “Olhe aqui, preste a atenção, essa é a nossa canção...” (Luiz Ayrão) e eu, na cabine de luz, fiquei emocionado com a demonstração pública de amor.

Saí do teatro feliz pelo trabalho realizado e pelo momento que vivi. Já em casa lembrei-me do James Baldwin (1924-1987) grande autor, negro e homossexual, que lutou muito pelos direitos civis no início da década de 1960. Nascido de família extensa e muito pobre, numa entrevista sobre sua infância ele diz: “Minha mãe se entregava ao exasperante e misterioso exercício de ter filhos. Nascidos, eu os ninava com uma mão e segurava um livro com a outra. Dessa maneira, li realmente tudo que me caiu nas mãos, com exceção da Bíblia, talvez porque era o único livro que me diziam que lesse.” Aos dezoito anos foi trabalhar numa fábrica de armas e lá aprendeu o que ser negro significava: “ser ignorado e ficar simplesmente à mercê dos reflexos que a cor da pele de um homem provocava nos demais”. Abandonou o emprego e em 1952 conseguiu publicar uma série de polêmicos ensaios sobre discriminação racial e homossexual nos Estados Unidos.

O livro Giovanni, publicado em 1956, é um dos seus mais famosos escritos, conta a história de David, um americano que está em Paris e enquanto aguarda Hella, sua namorada, decide ir até a Espanha. Lá conhece Giovanni que era empregado de um bar. É um encontro de almas. De volta a Paris após a chagada de Hella, David separa-se de Giovanni e pede Hella em casamento. Giovanni, louco pela perda de David envolve-se num homicídio e é condenado à morte. Ao saber do ocorrido David não consegue mais negar o amor que existe entre os dois.

Nos tempos de hoje, que inventaram até um dia específico para comemorações pela Consciência Negra, nada melhor para ativar essa consciência do que um beijo caloroso, carinhoso, amoroso, e em público. Afinal, o que temos a esconder? James escreveu: “O amor é passível de crises e dúvidas, mas nunca objeto de culpa ou anormalidade”.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Restaurante Rio Brasa
Data: 15/01/2014

domingo, 10 de novembro de 2013

NOSSA SENHORA DAS OITO


16 de novembro de 1983 para mim é uma data emblemática, é o dia que Janete Clair faleceu. No próximo sábado completa-se trinta anos do ocorrido. Há uma geração inteira que infelizmente não sabe quem foi Janete Clair e aqui humildemente informo; foi a maior novelista do Brasil.

Lembro perfeitamente do meu avô José Arlindo, homem rústico do interior da Bahia, fazendeiro alfabetizado e fã ardoroso de livros sobre a história do Brasil, ele gostava de ler enciclopédias, no encerramento de um capítulo da novela Irmãos Coragem quando o Coronel Pedro Barros ameaça incendiar a cidade de Coroado, levantou do sofá indignado e disse: “Daria uma das minhas fazendas para passar a história toda até o fim. Agora!”.

Esse era o impacto que as tramas de Janete exerciam sobre o público, não importava a classe social ou o nível de escolaridade, ela foi capaz de trazer os homens para o sofá numa época que novela era coisa de mulher, além de quebrar o tabu para aqueles que torciam o nariz e diziam que novela era coisa de empregada doméstica quer não tinha o que fazer. Até hoje o país inteiro rende-se às novelas e graças a Janete não mais sentimos vergonha de afirmar que somos noveleiros. O capítulo 152 em que Simone é desmascarada por Cristiano na novela Selva de Pedra rendeu cem por cento de audiência, um feito que jamais será alcançado novamente.

Com o intuito de enfatizar seu passamento, em 2003 o jornalista Mauro Ferreira, com a colaboração de Cleodon Coelho, lançou um livro que é um mix de reportagem e pesquisa sobre a obra dessa grande escritora, para mim uma obra emocionante porque além de trazer uma pequena biografia de Janete e os dados técnicos dos atores e personagens novela a novela, apresenta a sinopse de cada uma e nos brinda com vários capítulos sobre notas de bastidores e curiosidades acontecidas durante as gravações que eles carinhosamente chamam de ‘Intervalo’.

Ao ler esse livro você vai deleitar-se recordando, ou conhecendo, as novelas que realmente fizeram a história da TV no Brasil, minhas favoritas são: Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Fogo Sobre Terra, Pecado Capital, Duas Vidas, O Astro, Pai Herói e Sétimo Sentido.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Metrô Cinelândia
Data: 15/01/2014

domingo, 3 de novembro de 2013

O LOBO DA ESTEPE


Recentemente escrevi aqui no blog que ando esquecendo as coisas, depois relatei que em momentos inusitados chegam até mim memórias dispersas sobre fatos e pessoas sem que eu às tenha chamado ou estava querendo lembrar. Percebi que essas memórias esparsas vêm em profusão quando há o silêncio em volta, seja porque o CD acabou de tocar e eu não troquei, ou não há barulho lá fora porque as janelas com vidros antirruídos me protegem dos sons do mundo. O fato é que estou gostando quando isso acontece. Depois que virei um cinquentão andei resgatando aqui no blog autores como Marguerite Yourcenar, Machado de Assis e até Dostoiévski, obras que marcaram minha vida de alguma forma e então me lembrei de Hermann Hesse (1877-1962) cujos livros eu devorei na juventude, em especial O Lobo da Estepe, que por coincidência ou não, ele escreveu quando tinha cinquenta anos.

No livro conheceremos o também cinquentão Harry Haller. Muitos alegam ser uma espécie de alterego do Herman Hesse, hipótese surgida pela aliteração entre os nomes do personagem e do autor, H.H., e a idade de ambos. Na minha mais humilde opinião são três livros dentro de um só, embora todos tratem do mesmo personagem. O primeiro é o Prefácio do Editor, uma visão do Harry feita pelo sobrinho da dona da pensão. Depois temos o capítulo Anotações de Harry Haller com o subtítulo ‘Só para loucos’ quando o próprio Harry toma as rédeas da sua vida. Aqui o veremos antibelicista, ecológico e pacifista, mas não totalmente despido de traços racistas e em vários momentos até preconceituoso. Nessa fase seremos levados pelo Teatro Mágico até o realismo fantástico e conheceremos o terceiro livro; o Tratado do Lobo da Estepe, uma análise psicológica sobre a personalidade do nosso personagem e não há como não nos identificarmos em várias passagens.

Harry acredita que sua integridade depende da vida solitária que leva em meio às palavras de Goethe e as partituras de Mozart, um intelectual tentando equilibrar-se entre o abismo dos problemas sociais e os individuais, sua  personalidade torna-se cada vez mais ambivalente e por fim estilhaçada.

Antes de concluir esse post coloquei a frase “lobo da estepe” no Google e apareceram muitas definições, claro que a maioria delas ligadas ao livro, exceto uma que me chamou a atenção “o lobo da estepe, ao contrário dos demais lobos, é aquele que caça solitário, e não em matilha”. Essa definição cabe como uma luva no personagem de Hermann Hesse já que ele começa a história como um sujeito avesso à sociedade e aos relacionamentos interpessoais.

Acredito que, bem lá no fundo, todos nós temos um pouco da personalidade do lobo, seja de que raça for. Boa leitura.

Cidade do abandono: Salvador/BA - Rio de Janeiro/RJ
Local: Voo 4207 - Azul - Bolsa da poltrona 12D
Data: 14/01/2014

domingo, 27 de outubro de 2013

DOSTOIÉVSKI – PROSA POESIA


Você já leu alguma coisa de Dostoiévski?

Começo esse post com a pergunta por que, em geral, as pessoas se assustam muito com a literatura russa. A meu ver é uma injustiça com os grandes pensadores russos. Acredito que você, se não leu, pelo menos já ouviu falar dos livros Crime e Castigou ou Os Irmãos Karamazov. Para aqueles que não os leram peço encarecidamente que o façam o mais rápido possível, tenho plena certeza de que pelo menos um deles consta em todas as listas dos dez livros que você deve ler antes de morrer, e você não quer chegar ao Juízo Final com essa falha no currículo literário, ou quer?

Brincadeiras à parte Dostoiévski (1821-1881) é um gênio esquecido nas prateleiras das livrarias e aqui humildemente proponho um resgate da sua obra usando o livro do Boris Schnaiderman. Ele traz o foco principal para o conto 'O Senhor Prokhartchin' escrito por Dostoiévski quando ele tinha apenas vinte e cinco anos. Trata-se de uma tradução direta do russo e tem como prioridade a maior fidelidade possível ao texto e ao estilo do autor. O livro traz também uma análise desse conto, que já foi subestimado e tratado como obra imatura, mas que é revalorizado no livro por seu caráter premonitório e de ruptura. Quando o li pude perceber exatamente que Dostoiévski já estava ali, mesmo jovem, ele já existia como pensador.

Agradeço muito ao Marcelo Affini, amigo querido de São Paulo que em 1996 abriu meus olhos para essa obra fascinante e que infelizmente perdi o contato depois que ele foi morar fora do país. Espero que ele leia esse post e saiba que vou dividir o livro que me deu com alguém que não conheço. Conversávamos muito sobre o poder de influência da boa literatura na formação do ser humano e quando eu estava amadurecendo a ideia de criar esse blog em vários momentos pensei em suas palavras.

Marcelo, esse post é em sua homenagem.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem - Salvador Shopping
Data: 29/12/2013

domingo, 20 de outubro de 2013

DOM CASMURRO / O ALIENISTA


Afinal, Bentinho foi ou não traído por Capitu?

Se Capitu fosse a personagem principal da novela das 21 horas da Rede Globo nos dias de hoje, com certeza o assunto estaria no topo dos mais comentados das redes sociais.

Entretanto a história dos dois foi escrita em 1899 pelo fabuloso Machado de Assis (1839-1908) e até hoje rende teses de mestrado em literatura realista. Mas cabe lembrar ao leitor desse blog que todo o romance é narrado por Bentinho, ele decide contar a história desde a infância para tentar entender o que há em sua vida além do suposto adultério de sua mulher. No fundo ele só quer saber se ela sempre foi como ela a via depois do casamento, falsa e dissimulada, e enquanto Bentinho narra seus amores corre o risco de manipular nossas opiniões a seu favor pois vai dando pistas de que ela poderia mesmo tê-lo traído e ter tido um filho com o melhor amigo dele.

Fique você bem esperto porque é a voz dele, um homem rico e advogado bem sucedido, que você ouve. Capitu não está mais lá, no seu "julgamento", para se defender. Ela já havia morrido. E ele precisa entender o que houve com o amor e o casamento. É um livro fascinante, eu já li duas vezes, na primeira tive certeza de que Capitu o havia traído porque Bentinho era um chato mimado. Na segunda vez tive certeza de que ela não o traiu, era correta demais e o amava muito, mesmo que, a meu ver, ele não a merecesse.

O que mais me atrai na obra de Machado de Assis é que ele, além de genial, é muito bem humorado. Neto de escravos alforriados foi criado no morro do Livramento, Rio de Janeiro, ajudando a família como podia e não frequentou regularmente a escola. Sua instrução veio por conta própria por causa do interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Foi graças à leitura que se tornou um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos.

A edição que será abandonada possui dois livros em um, além de Dom Casmurro você vai levar também O Alienista e uma pequena biografia do autor para ajudar a apaixonar-se de vez por Machado de Assis.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus - Cinema de Arte - UFBA
Data: 15/12/2013

domingo, 13 de outubro de 2013

A OBRA EM NEGRO


Hoje quero falar de um livro que para mim é um clássico. Digo isso porque foi escrito por uma das minhas autoras preferidas, Marguerite Yourcenar (1903-1987). Até hoje me sinto impactado pelas suas palavras, em especial escritas no livro Memórias de Adriano, e me pergunto sempre: que mulher era essa? Lembrando que a publicação de Memórias de Adriano ocorreu em 1951 e contava com uma estrutura literária, digamos, incomum, não só para a época como é até hoje.

Não menos importante, já que Memórias de Adriano faz parte da lista de livros que irei recomendar incansavelmente a leitura mas nunca conseguirei abandonar o meu exemplar velhinho e cheio de anotações, A Obra em Negro é um livro importantíssimo para aquelas pessoas que gostam de histórias sobre jornadas que modificam uma vida. Muito antes do fenômeno Paulo Coelho e da febre dos livros de autoajuda, Marguerite nos brindou com a história de Zênon.

Alquimista, médico e filósofo, Zênon está em busca da Grande Obra, aquela que todos chamam de ‘Pedra Filosofal’, para quem não conhece a história ela seria, segundo os alquimistas, a pedra que teria o poder de transformar qualquer metal em ouro. Longe de parecer apenas uma caça ao tesouro, a investigação alquímica empreendida por Zênon confunde-se com a obscura busca de si mesmo em meio a guerras, pestes, heresias e execuções ocorridas durante um período particularmente conturbado da história europeia do século XVI.

Diz a lenda que Marguerite Yourcenar, numa carta endereçada ao seu editor Gaston Gillimard em 1968 confessava-se apreensiva: “Pensei escrever as Memórias de Adriano para dez pessoas, e enganei-me. Creio neste momento terminar A Obra ao Negro para dez pessoas e é muito possível que não me engane.” Ela mais uma vez voltou a enganar-se, em apenas dois meses o novo livro esgotou duas edições vendendo mais de quarenta mil exemplares.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Gaveta da Cômoda - Apto: 1828
Data: 23/10/2013

domingo, 6 de outubro de 2013

FURACÃO ELIS


Depois que completei cinquenta anos ando remexendo muito em minhas memórias, mas fiquem tranquilos porque não tenho a pretensão de escrever um livro, os desabafos escritos aqui no blog já são suficientes para avivar o que vivi em priscas eras, como diria meu amigo Ricardo Linhares. Quando digo que ando remexendo a memória é porque em alguns momentos de solidão e silêncio, aqueles momentos em que estou lendo ou escrevendo e de repente lembro um fato antigo, uma situação ou uma pessoa, que muitas vezes não tem nada a ver com o que estava fazendo e aí congelo por alguns minutos deixando a lembrança fluir.

Num desses momentos de devaneio lembrei o show Essa Mulher que assisti no Teatro Castro Alves, e não por acaso a música que tocava no laptop era a mesma, na voz inesquecível de Elis Regina. Lembrei imediatamente do vestido, da orquídea no cabelo, da luz, e do silêncio da platéia, lembrei exatamente da sensação da época; a de que Elis cantava só para mim.

Parei o que estava fazendo e fui pegar o livro Furacão Elis. Publicado em 1985, pouco mais de três anos após a morte da cantora, pela jornalista Regina Echeverria (1951) o livro é quase uma reportagem, um quebra cabeça escrito em doze capítulos que recontam a infância e adolescência em Porto Alegre, os caminhos para chegar ao sucesso como cantora e a sua morte em São Paulo, com base em depoimentos de familiares e amigos e também de entrevistas e matérias publicadas sobre Elis. Não é um livro somente para fãs da cantora, é uma obra de revelações que serve para entender, ou tentar entender, a personalidade forte e o tino musical de uma pessoa tão complexa que viveu apenas por trinta e seis anos.

Na edição que pretendo abandonar há um capítulo especial com a cronologia da vida de Elis, e outro com a discografia, que não é completa, mas já é suficiente para se ter uma dimensão da sua obra. Aproveite o link abaixo e escute Essa Mulher na voz de Elis, música composta por Joyce e Ana Terra com arranjo de Cesar Camargo Mariano, e veja nas entrelinhas da letra um pouco da mulher Elis Regina Carvalho Costa.


Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Restaurante Filet e Folhas - Rua do Rosário
Data: 23/10/2013

domingo, 29 de setembro de 2013

OS ESTUPRADORES


Quando ganhei esse livro em 1993 me assustei com o título ‘Os Estupradores’ e na capa havia uma foto de uma mulher nua tomando banho com o blindex meio embaçado numa inspiração grotesca da cena do filme Psicose de Alfred Hitchcock. Na edição não havia sinopse e eu ainda não tinha internet em casa para pesquisar a respeito. O que salvou o livro do ostracismo da minha estante foi o fato de já ter lido outras obras do autor, Harold Robbins (1916-1997), como por exemplo: Ninguém é de Ninguém, Os Herdeiros e Os Sonhos Morrem Primeiro.

Pensei: Por que será que a editora Record traduziu o título original The Piranhas, que já é estranho, para uma coisa tão bizarra?

Os temas mais constantes nas obras de Hobbins são: ambição, poder, dinheiro, crime organizado e sexo, em todas as suas variantes, aliados à descrição de lugares fantásticos e os personagens ricos, muito ricos.

O livro conta a história de Jed Stevens, um homem rico, astuto, sedutor, cobiçado por muitas mulheres, sua carreira e fortuna vem do show business, aviação e transações milionárias em Wall Street, sem esquecer, é claro, da ligação familiar com a Máfia cujo tio é um poderoso chefão. Em determinado momento Jed é chamado pelo tio e tem que decidir entre o império que construiu e aquele a quem deve “lealdade familiar”.

O livro até empolga em vários momentos e revela-se uma boa distração, mas a resposta sobre o porquê do título eu não encontrei até hoje.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Banco traseiro do taxi Aeroporto Galeão
Data: 21/10/2013

domingo, 22 de setembro de 2013

O HOMEM QUE MATOU GETÚLIO VARGAS


Jô Soares (1938) tem uma capacidade única de contar histórias e misturar fatos e versões, muitas vezes o fato é tão mais engraçado que fica parecendo uma versão humorística. Três anos depois do lançamento do seu até então livro mais popular, O Xangô de Baker Street, Jô aventura-se mais uma vez pela história do Brasil e traça uma obra mais calorosa, bem pesquisada e, claro, mais engraçada. Não se entusiasmem os leitores de que este é um livro do tipo stand up comedy com uma piada a cada parágrafo, longe disso, a piada está nas entrelinhas e vai exigir do leitor um mínimo de cultura sobre a história do Brasil para entender.

Reza a lenda que Jô leu mais de oitenta livros sobre Getúlio Vargas e a história do Brasil na época, além disso, contou com colaboradores de luxo como Rubem Fonseca, Fernando Morais e Hilton Marques para quem mandava os manuscritos em primeira mão aguardando uma análise dos amigos. Dizem que muitas vezes seguiu sugestões preciosas do Rubem Fonseca para tirar do texto piadas excessivas, e com isso ganhou muito no humor indireto através das situações patéticas vividas pelo protagonista.

O complexo personagem Dimitri Borja Korozec, filho de pai sérvio e mãe brasileira, é obcecado por Getúlio Vargas. O livro é quase uma biografia desse homem que tem como profissão ser assassino de líderes políticos, embora tenha uma propensão natural para a catástrofe. Dimitri é sempre o homem certo na hora errada com uma espantosa dificuldade de cumprir metas a que se propõe. Com uma marca de nascença extremamente visível por possuir seis dedos em cada mão sua pontaria não é nada prodigiosa, basta mirar no alvo que ele mesmo se torna a vítima.

O leitor passeia pelas desventuras desse assassino trapalhão desfrutando de passagens verídicas, ou não, muito interessantes da história europeia e brasileira.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão - Praça em frente ao Rei do Mate
Data: 21/10/2013

domingo, 15 de setembro de 2013

CANTO DOS MALDITOS


Eu não acredito em coincidências assim como não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.  O fato é que há duas semanas estava conversando com um amigo sobre o filme Carandiru e intitulei a participação do Rodrigo Santoro no filme como ‘erro de casting’, parodiando outra amiga, a atriz Ilana Kaplan. E aí nos lembramos do filme Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodanzky, onde o ator vive um momento espetacular de atuação.

Essa semana a tosca novela Viver à Vida (Globo) mostrou a personagem Paloma internada numa clínica psiquiátrica, adjetivada como ‘radical e ultrapassada’, contra a sua vontade e com o discurso dos pais de que “é para o seu bem”. Isso imediatamente me remeteu ao livro que deu origem ao filme chamado Canto dos Malditos, escrito sob forma de denúncia biográfica, se é que existe essa categoria, por Austregésilo Carrano Bueno (1957-2008). É biografia porque o autor foi paciente de vários hospitais psiquiátricos e conta sua história de forma comovente e muito realista. É denúncia porque revela aos olhos do grande público os maus tratos físicos e psicológicos infringidos aos pacientes com altas doses de sedativos, péssimas condições de higiene e sessões de eletrochoque.

O ano é 1974, no auge da repressão militar em que os cabeludos, roqueiros e usuários de drogas eram rotulados como bandidos. O pai de Austry, apelido do autor, encontra em sua jaqueta um cigarro de maconha. Aconselhado por um amigo policial, interna o filho desajustado no Hospital Psiquiátrico Bom Retiro iniciando aí a experiência que marcaria Austry para sempre.

Austregésilo pesquisou durante nove anos toda a barbárie que sofreu, publicou esse livro, filiou-se ao Movimento da Luta Antimanicomial, moveu a primeira ação indenizatória por erro médico psiquiátrico no Brasil, perdeu a ação e foi condenado a pagar sessenta mil reais aos médicos e hospitais onde esteve internado, foi homenageado em 2003 pelo Ministério da Saúde pela sua luta contra os antiquados manicômios brasileiros.

Lição de vida que custou caro ao protagonista.

Cidade do abandono: Salvador\BA
Local: Ponto de ônibus - Praça da Igreja N S da Vitória
Data: 06\10\2013

domingo, 8 de setembro de 2013

RICARDO AMARAL APRESENTA: VAUDEVILLE


É fato, ultimamente ando esquecendo as coisas. Às vezes durante uma conversa quero citar um livro, um filme ou um ator e o nome não vem. Apesar de ter uma memória fotográfica excelente sou capaz de descrever a capa de um livro sem, contudo, lembrar o nome dele. A mesma coisa com o nome de um ator, ou atriz, sou capaz de dizer a novela, o personagem, mas o nome me foge, depois de certo tempo o título ou o nome aparece na memória como se fosse mágica. Várias vezes, ao escrever aqui no blog, recorro ao Google para avivar minha memória e escrever corretamente o nome de algum autor cujo livro eu sei que li. Será que nossa memória está ficando preguiçosa por saber que basta um clique e teremos a resposta no computador, celular, tablet, ou seja lá o que estiver ligado na rede?

Embora a consulta seja fácil não confio 100% do que está escrito na rede, até porque a internet é como um papel em branco, aceita qualquer coisa. Por isso continuo consultando dicionários e checando em várias fontes quando pesquiso um dado qualquer. E não perco a mania de fazer anotações na minha agenda sobre fatos, pessoas, livros, filmes, peças de teatro, sou um colecionador de programas de peças de teatro, óperas, dança, shows... Sim, tenho vários programas de shows, quando ainda se fazia esse tipo de coisa. Acho que vem daí meu gosto por livros de memórias. Não pelo lado fofoqueiro para saber a vida de famosos, e sim pela história que vivi junto ou que desejo conhecer. Quando li Noites Tropicais do Nelson Motta, O Circo Eletrônico do Daniel Filho, O Livro do Boni e vários outros, me emocionei em passagens porque em muitos momentos eu estava lá. É incrível dizer isso: “Eu estava lá”, ou dizer “Eu assisti isso”, eu fui um participante daquele momento, eu estava na plateia.

O fato aconteceu novamente ao ler o livro do Ricardo Amaral (1941) que se chama Ricardo Amaral apresenta: Vaudeville. São quase 500 páginas com 55 tópicos que li em apenas cinco dias tamanho o prazer em desfrutar de memórias tão entusiasmadas e tão bem escritas. Tem gente que passa a vida vivendo e tem gente que vive a vida, o Ricardo Amaral está definitivamente no segundo grupo. É uma obra para ler, aprender e se divertir com as mais diversas vertentes; do colunista ao empresário e produtor, uma lição.

Mas será que é tudo verdade? Logo na introdução ele revela:

“Juro que meu testemunho é o mais límpido produto da absoluta imprecisão. A mistura de um esforço de memória com a natural invenção involuntária que tenho praticado provavelmente no cotidiano. Os fatos que aqui conto, prometo, são verdadeiros, mas não consigo afirmar se realmente aconteceram, embora tenham sido buscados em minha memória consolidada. Na realidade, tenho dúvidas, por duas razões básicas. É um suceder de fatos muito intensos, e o leitor terá o direito de duvidar. E, principalmente, porque tenho ouvido e lido tantas versões de histórias por mim vividas, de tal maneira deturpadas, que começo a duvidar das minhas próprias!”

Para mim é uma biografia muito franca, e não exerci meu direito de duvidar.

Cidade do abandono: Salvador\BA
Local: Doces Sonhos - Corredor da Vitória
Data: 06\10\2013

domingo, 1 de setembro de 2013

ONZE MINUTOS


O escritor Paulo Coelho (1947) desperta sentimentos ambíguos nos leitores, alguns são fãs ardorosos enquanto outros são críticos ferozes, o fato é que Paulo segue produzindo livros que se tornam best sellers pela quantidade de vendas e nem sempre pela qualidade do que está escrito. Mas quem sou eu para julgar, apenas sigo lendo e me dou o direito de gostar ou não.

Em Onze Minutos o autor aventura-se pelo tema sexo e conta a história de Maria, o livro começa em tom farsesco com a frase “Era uma vez uma prostituta chamada Maria”, de cara tenta conquistar a cumplicidade do leitor explicando a frase que tem o cunho das histórias infantis com o “Era uma vez...” e em seguida coloca a adequação “prostituta”, que nada tem de infantil, e justifica... “Como posso escrever um livro com esta aparente contradição inicial? Mas, enfim, como a cada instante de nossas vidas teremos um pé no conto de fadas e o outro no abismo, vamos manter este início.”

O leitor então conhecerá Maria, uma jovem decepcionada com o amor aventurando-se no mundo desconhecido das relações sexuais como se fosse um conto de fadas, entre aspas, moderno. E nada mais clichê do que a história de uma mulher que amarga um sofrimento e encontra na relação com um homem algumas respostas para perguntas muito profundas na busca de si mesma.

Tenho amigos que leram o livro e embarcaram perfeitamente no tal conto de fadas. Eu sou canceriano com sol em câncer, ascendente peixes e lua novamente em câncer, e para os que entendem dessa conjunção astrológica sabem que ela poderia fazer de mim um romântico incurável. Entretanto confesso que meu lado peixes me deixa muito cético em relação a histórias mal contadas.

Essa é apenas uma opinião. A leitura, assim como a música, o teatro, a dança, a pintura, as artes em geral, tem o dom de poder tocar as pessoas de diferentes formas, e aí escrevo parodiando os clichês de Paulo Coelho, o que seria do rosa se todos só gostassem do azul?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Escada G1 Sul
Data: 06/10/2013

domingo, 25 de agosto de 2013

LIVRO DE HISTÓRIAS


Cumprindo outra promessa que fiz, decidi vasculhar minha estante para abandonar um livro de contos. Mas como não queira um livro qualquer fui buscar na obra de João Ubaldo Ribeiro (1941) um livro quase esquecido que nem consta em algumas cronologias escritas por aí sobre o autor.

É uma obra bem divertida com 15 contos, ou histórias como o João Ubaldo gosta de referir-se, na qual podemos decidir a ordem de leitura sem que isso venha a prejudicar o entendimento uma vez que não há relação entre elas, a não ser, claro, o estilo arrebatador e único do autor que vocês já conferiram aqui em dois post: A Casa dos Budas Ditosos e Sargento Getúlio.

A obra que pretendo abandonar está na versão original publicada em 1981 na edição com capa dura do Círculo do Livro. Dez anos depois ganhou uma nova edição com o título “Já Podeis da Pátria Filhos e Outras Histórias” que inclui mais dois contos “Patrocinando Arte” e “O Estouro da Boiada”.

Em todas as histórias somos inebriados pelo poder narrativo do autor e tocados pelo despojamento, magia e a profundidade dos personagens. Nas linhas escritas desfilam venturas e desventuras, cômicas e tragicômicas, sem encobrir a sabedoria e a coragem com que o povo da ilha de Itaparica e do sertão baiano enfrenta os desafios e as dores da vida.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge Loja Granado
Data: 06/10/2013

domingo, 18 de agosto de 2013

FORTALEZA DIGITAL


Já escrevi aqui no blog, post O Código Da Vinci, janeiro/2013, que acho o Dan Brown (1964) um gênio. Recentemente quando li no jornal sobre a denúncia de que o governo americano vigia nossa privacidade cibernética e telefônica imediatamente lembrei-me do primeiro livro do autor chamado Fortaleza Digital, lançado em 1998, que trata exatamente do assunto. Seria Dan Brown também um visionário?

Brincadeiras à parte, essa semana fiquei boquiaberto ao ler no jornal Correio, dia 17/08, que a NSA, Agência de Segurança Nacional dos EUA, excedeu sua autoridade legal e violou leis de privacidade monitorando ligações e e-mails sem autorização. Na quinta feira, dia 15/08, já tinha lido no mesmo jornal que o Google admitiu não possuir uma “expectativa razoável” de que as mensagens do Gmail sejam totalmente confidenciais.

O livro do Dan Brown conta uma aventura dentro da agora famosa NSA vivida pela criptógrafa Susan Fletcher, funcionária do governo e seu noivo, o professor civil David Becker, convocados pelo vice-diretor da instituição para desvendar o mistério do algoritmo de encriptação inquebrantável chamado Fortaleza Digital. Criado por um ex-funcionário com o intuito de vingar-se dos EUA, o algoritmo é um sistema que devolve aos cidadãos do mundo a privacidade de suas mensagens, mesmo aquelas que estão criptografadas. Com um discurso americanizado de trabalhar para a paz mundial a NSA detém o poder de vigiar tudo e todos através de um computador superpotente chamado de TRANSLTR, que decodifica mensagens e intercepta ligações, com a intenção de interromper planos de terroristas e ditadores em guerra que ameaçam a segurança do planeta. Com a divulgação do Fortaleza Digital o tal TRANSLTR que custou bilhões de dólares teria a mesma função que tem hoje um CP 500, ou seja, sucata.

Embora seja o primeiro livro do autor, ele já tem o estilo que o consagraria em O Código Da Vinci; capítulos curtos, raciocínio rápido, ritmo alucinante, capacidade de converter assuntos complexos em fácil entendimento para qualquer leigo e roteiros que deixam uma dúvida no ar... Será mesmo tudo ficção?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Caixa Cultural - Rua Carlos Gomes
Data: 28/09/2013

domingo, 11 de agosto de 2013

CONFIE EM MIM



Pedi esse livro de presente de Natal em 2010, aqui em casa é assim, os mais próximos ligam para saber que livro quero de presente para não correr o risco de me dar livros que já li. Embora goste muito de presentear pessoas confesso que não gosto de receber presente, tanto que ignoro quase que completamente a data do meu aniversário, eliminando assim uma das datas em que as pessoas se sentem quase que na obrigação de te comprar alguma coisa. A outra data é o Natal e essa é impossível de ignorar, a não ser que você vá morar na ilha de LOST.

O título que pedi na época estava numa lista de livros recomendados pela editora Sextante, apesar de nunca ter lido nada do autor Harlan Coben (1962) foi o subtítulo da obra que me chamou a atenção: “Até onde você iria por amor à sua família?”. O livro amargou quase um ano na estante junto a outros ainda não lidos até que um dia o peguei. Durante o fim de semana não consegui larga-lo, quando acabei foi como se tivesse tomado uma paulada. Então consegui compreender o que o Dan Brown escreveu sobre o autor: “Harlan Coben é mestre em prender a atenção do leitor e criar histórias surpreendentes. Ele vai seduzir você na primeira página apenas para chocá-lo na última.”.

A história começa quando os pais de Adam decidem instalar um programa de monitoração no computador do filho, o garoto estava cada vez mais distante e arredio depois do suicídio de seu melhor amigo. Já estavam quase desistindo do monitoramento quando uma mensagem muda completamente o rumo dos acontecimentos. E é exatamente nesse ponto que a mãe do garoto morto acha uma foto que pode dar outra conotação ao acontecido. Interpelado sobre o fato Adam desaparece misteriosamente. O autor vai nos conduzir por caminhos intrincados e muito bem escritos e nos torna cúmplices de histórias paralelas sem que isso venha a prejudicar a trama principal, até porque tudo estará relacionado no final.

O autor nos leva a pensar sobre o que é invasão de privacidade e o que faríamos para defender nossos filhos, qual é o limite entre confiar e intervir. Tire você mesmo suas próprias conclusões.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Laboratório LEME - Brotas
Data: 24/08/2013

sábado, 3 de agosto de 2013

ANTOLOGIA POÉTICA DE FERNANDO PESSOA


Há um poeta em mim que Deus me disse...

Recentemente os leitores do blog testemunharam uma das minhas muitas fragilidades, a de não conseguir abandonar livros de poesia. Não que eu seja um leitor costumaz de poemas, até gostaria de lê-los com mais frequência, mas os livros que tenho são importantes para minha formação como ser humano e leitor, carregam uma carga emotiva bem forte. Todas as vezes que olhava a estante e pensava neles sentia que ainda não estava preparado para abandona-los.

Hoje eu acordei e pensei, porque não? Já abandonei livros que foram tão importantes na minha formação, posso citar vários: O Amor nos Tempos do Cólera, Diário de um Ladrão, Um Sopro de Vida, Feliz Ano Velho, O Caçador de Pipas,  Meu Pé de Laranja Lima, e tantos outros. Fui buscar um livro curto que ganhei do meu amigo Walter em dezembro de 1986, não tem toda a obra, mas é um começo para gostar de ler Fernando Pessoa (1888-1935). A antologia poética tem muito a ver com quem a organizou, no livro em questão a introdução e a seleção dos poemas foram feitas por Walmir Ayala (1933-1991) que além de romancista, teatrólogo, crítico de arte, foi também poeta e, em parceria com Manuel Bandeira, organizou a série Antologia dos Poetas Brasileiros – Fase Moderna, para a editora Ediouro.

Na edição que pretendo abandonar tem uma introdução muito bacana com uma biografia sintetizada do Fernando Pessoa incluindo no final do livro uma cronologia da vida do poeta. A seleção dos poemas abrange as obras que o Fernando Pessoa assinou como ele mesmo e também por seus heterônimos Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Diferentemente dos pseudônimos os heterônimos tem personalidade poética própria, identidades falsas que tem manifestações diferentes do autor original. Um quarto heterônimo de grande importância na obra de Fernando Pessoa é Bernardo Soares a quem ele concedeu a autoria do Livro do Desassossego.

A frase que abre o post é do poeta e faz parte do livro, assim como os trechos abaixo. É para acalentar a alma.

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
                                Fernando Pessoa

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
                         Ricardo Reis

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Ap 1002 - Gaveta do armário
Data: 16/08/2013

domingo, 28 de julho de 2013

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES


Esse livro é, até hoje, a última obra publicada por Gabriel Garcia Márquez (1927). Cheio de referências feitas pelo autor ao longo da narrativa foi muito comparado pelos críticos com obras de outros autores. Gabriel nos brinda com uma história de amor entre uma pessoa bem mais velha por outra muito mais nova sem entrar na seara perigosa da pedofilia, tráfico de pessoas ou da exploração de menores, é um livro sobre a velhice.

Para muitos o autor bebe na fonte de obras como Lolita de Vladmir Nabokov, A Casa das Belas Adormecidas de Yasunari Kawabata, citada logo na epígrafe, ou até Morte em Veneza de Thomas Mann. Mas é em A Bela Adormecida de Charles Perrault, também citada em um momento crucial do livro, que o autor se envereda para a construção dos personagens e conta a história de amor entre um ancião e uma jovem.

Já na página dezesseis o autor nos mostra o pensamento do homem velho em relação ao amor quando diz: “Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo.”. Nesse ponto percebemos que o mote do livro fica extremamente controverso. A princípio o ancião, prestes a completar noventa anos, decide presentear-se com uma noite de amor com uma adolescente virgem. Faz contatos com a dona do bordel que frequentou a vida toda para que lhe providencie o luxo comemorativo e inicia os preparativos para a grande noite. Ao encontra-la dormindo sente ternura e pena, ao deitar-se a seu lado sente uma fisgada de carinho e aflição, ao despertar no dia seguinte tem a visão da menina na luz conciliadora do amanhecer ainda dona absoluta de sua virgindade, ao sair sente o peso dos seus noventa anos e começa a pensar em quantas noites ainda faltam para morrer.

Inevitavelmente o amor havia se instalado em sua vida. E agora?

Este é o post de número 150 do blog com resenha de livros que foram ou serão abandonados para que outros desfrutem gratuitamente do prazer de ler. É quase uma biblioteca. Conheço pessoas que passaram a vida inteira sem ler nem a metade disso. Eu acho uma pena, perderam a oportunidade de enriquecer sua existência. Continuarei abandonando livros por aí, disseminando conhecimento adquirido e abrindo espaço para o novo, seja na estante ou na vida.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Restaurante
Data: 15/08/2013

domingo, 21 de julho de 2013

UM BONDE CHAMADO DESEJO


“Eu sempre dependi da bondade dos estranhos.”

Se você colocar essa frase no Google aparecerá mais ou menos mil e quinhentos resultados, ela está inserida na peça de teatro A Streetcar Named Desire, ou Um Bonde Chamado Desejo como ficou conhecida no Brasil, escrita por Tennessee Williams (1911-1983) é até hoje cultuada e encenada mundo afora.

Publicada em 1947 foi aclamada no ano seguinte com o Prêmio Pulitzer de drama, a montagem teatral contava com o novato Marlon Brando no papel de Stanley Kowalski. No cinema deu o Oscar de Melhor Atriz para Vivien Leigh em 1952 e consagrou definitivamente Marlon Brando, que repetiu o papel do teatro nas mãos do diretor Elia Kazan, que também dirigiu a versão do teatro, o filme recebeu onze indicações.

A história de Branche DuBois é o retrato de uma dama decadente que esconde um passado negro com crises nervosas e atitudes que beiram a loucura. É uma bela mulher que vai morar na casa da irmã por não ter mais para onde ir. Culpando seu estado nervoso para justificar o afastamento do trabalho como professora de inglês, quando na verdade a causa foi um relacionamento com um estudante de dezessete anos, um breve casamento desfeito pela descoberta da homossexualidade do marido e seu consequente suicídio, Blanche vive num mundo de fantasias e ilusões que se misturam à sua atual realidade.

Os conflitos gerados pelo confronto entre o mundo rude e viril do cunhado Stanley e a sensibilidade e o refinamento de Blanche geram uma tensão constante na família em ruinas. Ele é rude e grosseiro, domina Stella com seu comportamento prepotente calcado em dominação e sexo que causa em Blanche ao mesmo tempo inveja e repulsa.

Temos então uma base perfeita para boas atuações, situações surpreendentes com doses de humor e melancolia.

Blanche DuBois, quem já leu sobre ela, a assistiu no teatro ou no cinema, jamais a esqueceu.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Rathi Restaurante - Rua Buenos Aires - Saara
Data: 15/08/2013

domingo, 14 de julho de 2013

DE GÊNIO E LOUCO TODO MUNDO TEM UM POUCO


Quem me conhece mais a fundo sabe e quem é leitor assíduo do blog também sabe. Não sou muito chegado a livros de psicologia ou livros de autoajuda. Não tenho a menor paciência para livros que não contam histórias, ou aqueles que as usam falsamente para nos encher de parábolas e pensamentos filosóficos. É uma questão de gosto literário, e nada tenho contra quem os lê ou escreve. Apenas não me convence as “receitas” para ser feliz, se você quer contar sua vida então escreva uma biografia, use-a para mostrar ao mundo como você é ou como viveu determinada situação. Mas não me venha com a ideia de que eu tenho que fazer igual porque isso não me interessa.

Há dois anos hospedei aqui em casa um amigo de São Paulo, Eduardo Prata, e ele acabou esquecendo aqui quando foi embora o livro que pretendo abandonar: De Gênio e Louco Todo Mundo Tem Um Pouco. O título não me atraiu nem um pouco, mas ao investigar o autor Augusto Cury (1958), tomei um susto com a quantidade de títulos e a quantidade de exemplares vendidos, mais de dezoito milhões. Está escrito em qualquer pesquisa feita no Google que ele é um dos autores com o maior número de títulos entre os mais vendidos da atualidade. Fiquei tão espantado que me predispus a ler a obra.

Os personagens Bartolomeu (o Boquinha) e Barnabé (o Prefeito), segundo apurei, já estavam presentes nos livros Vendedor de Sonhos – O Chamado e Vendedor de Sonhos e a Revolução dos Anônimos, nesse livro ganham status de personagens principais com uma comicidade planejada e um drama com ares de revolução, equilibrando nas histórias/aventuras um pouco de filosofia, e um mix de psicologia e sociologia voltadas basicamente para os mais jovens.

A ideia do autor é provocar o debate sobre questões como violência urbana e exclusão social. Para saber se ele consegue esse feito você terá que ler o livro. Nesse caso, minha modestíssima opinião ficará só para mim.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Taxi Aeroporto - Av. Presidente Vargas - Bolso do banco traseiro
Data: 15/08/2013

domingo, 7 de julho de 2013

AS AREIAS DO TEMPO


Ainda atendendo aos pedidos de amigos em férias que querem um livro para ler além de uma tarde chuvosa, mas que tenha história suficiente para segurar o pensamento na leitura por alguns dias, olhei para a estante e fui imediatamente para a prateleira das obras do Sidney Sheldon (1917-2007). O mais aclamado autor de best-sellers do mundo. Suas obras continuam vendendo e antigos manuscritos estão sendo publicados mesmo após a sua morte.

Esse livro não é incluído pelos críticos nas listas dos melhores de Sheldon, mas está entre os meus escolhidos juntamente com O Outro Lado da Meia Noite, Se Houver Amanhã, O Reverso da Medalha e Um Capricho dos Deuses. As Areias do Tempo é cheio de reviravoltas, amores impossíveis, política, traições e buscas por histórias do passado.

Ambientado na Espanha ainda dilacerada pela Guerra Civil, a história se passa logo após a morte do ditador Francisco Franco quando o idealista e carismático líder do movimento separatista Jaime Miró liberta da cadeia dois companheiros condenados à morte e é perseguido pela polícia e pelo exército.

Desconfiado que os fugitivos estivessem escondidos num convento cisterciense o coronel Ramón Aroca decide invadi-lo. As freiras dessa ordem, uma das mais severas do mundo, obrigadas ao silencio total e à reclusão absoluta, são expulsas do ambiente seguro do convento, brutalizadas e levadas para Madrid onde são presas. Mas quatro delas conseguem escapar: Irmã Teresa, Irmã Lucia, Irmã Graciela e Irmã Megan.

Começa então uma aventura inesquecível que combina ação constante, suspense, as descobertas se sucedendo a todo instante num ritmo vertiginoso e fascinante que só Sidney Sheldon consegue imprimir.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão
Data: 15/08/2013

domingo, 30 de junho de 2013

NOVAS COMÉDIAS DA VIDA PRIVADA


Essa semana fui interpelado por um dos meus seguidores que me acusou de não gostar de contos, crônicas, e poemas, privilegiando sempre o romance ao escolher os livros que vou abandonar. Fazendo um retrospecto dos posts desse blog percebi que a cobrança é mais do que justa. A questão é que tenho muito ciúme dos livros de poemas que estão na estante e confessei ao meu interlocutor que ainda não estou preparado para desapegar-me dos meus livros do Mário Quintana, Manuel Bandeira, Castro Alves, Fernando Pessoa.

Sentindo-me culpado fui atrás de algo muito querido que pudesse compensar, abri alguns exemplares de livros e escolhi um bem especial do Luis Fernando Verissimo (1936), Novas Comédias da Vida Privada. Editado pela primeira vez em 1996 é uma coletânea que faz parte da vasta obra do Verissimo e reúne 123 crônicas, ainda bem atuais, que já haviam sido publicadas anteriormente no jornal Zero Hora ou no Jornal do Brasil.

É um livro de crônicas que gosto bastante, daqueles que volta e meia abro aleatoriamente numa página e deixo que o acaso me dê de presente uma história curta, cotidiana, às vezes engraçada, por vezes patética, mas que dá asas ao pensamento. Livro ideal para levar sempre na mochila e aproveitar o tempo ocioso dentro do ônibus, metrô, na fila do banco ou na antessala do consultório médico.

É melhor ler crônicas do Verissimo do que ler aquela revista ‘Caras’ de três semanas atrás.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Aeroporto Dep. Luiz Eduardo Magalhães
Data: 15/08/2013

sábado, 22 de junho de 2013

SARGENTO GETÚLIO


Curiosamente após a publicação do post sobre o livro As Brumas de Avalon e vários amigos terem me ligado fazendo gozação sobre o fato de que era muito livro para tão curtas férias, me vi quase na obrigação de ir para o extremo oposto e abandonar um livro que fosse curto, isto é, menos de cem páginas. Fui procurar na estante um livro que fosse memorável e ao mesmo tempo rápido de ler, com uma história fascinante e que pudesse ser devorado numa tarde.

Achei que a tarefa fosse difícil, mas assim que peguei a escada e me propus a vasculhar a estante me deparei com um livro que preenche todos (ou quase) os requisitos propostos: é brilhante, é fininho, é memorável, é fascinante, é muito bem escrito, só não cumpri com a parte que escrevi acima sobre ter menos de cem páginas porque a edição que possuo tem cento e quinze. Quinze a mais ou quinze a menos, o livro é Sargento Getúlio do mestre baiano João Ubaldo Ribeiro (1941).

O livro, publicado em 1971, é quase um monólogo. Conta a história de Getúlio Santos Bezerra, sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe, incumbido de levar um prisioneiro de Paulo Afonso/BA até a cidade de Aracaju/SE. Durante o caminho ele recebe a ordem de abortar a missão, mas como não a ouve do seu mandante decide ignorar a contra ordem e seguir adiante. É a partir daí que conheceremos o verdadeiro Getúlio, não o matador profissional alçado a sargento da Polícia, e sim um típico herói às avessas forjado nas tradições épicas e nos poemas humanistas. Durante a leitura há um momento em que Getúlio persegue São Jorge pelos descampados do sertão nordestino, é quando o veremos fragilizado e grandiloquente ao mesmo tempo, um episódio marcante da saga.

Além do livro tenho lembranças de dois momentos dessa história: no cinema em 1993 com a fenomenal interpretação de Lima Duarte que arrebatou os prêmios de Melhor Ator no festival de cinema de Gramado e no festival de cinema de Havana. E mais recentemente assisti no teatro uma versão protagonizada pelo talentosíssimo ator baiano Carlos Betão, sob a direção de Gil Vicente Tavares, que me fez chorar em vários momentos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Viva Gula do Shopping Passeo Itaigara
Data: 20/07/2013

domingo, 16 de junho de 2013

AS BRUMAS DE AVALON


Estamos em junho, época de São João, férias escolares aqui no Nordeste, mês de muita chuva, e com as temperaturas mais baixas não é possível ir à praia ou fazer atividades ao ar livre. É uma boa época para o escurinho do cinema, idas ao teatro e aos concertos de inverno, aquele café da tarde com pão de queijo quentinho e atracar-se a um bom livro. Nessa mesma época, há exatos 25 anos, eu começava a ler pela primeira vez um livro em volumes. Não estou colocando nessa conta os livros do Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo porque não há uma ordem na leitura para compreensão da história, muito menos os volumes escritos pela Agatha Christie que cheguei a devorar quase um por dia. Nesses tempos de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, a saga Crepúsculo e os tons de cinza, temos que dar um bom crédito para As Brumas de Avalon.

São quatro volumes que devem ser lidos na ordem abaixo para que haja uma compreensão da história. Lidos em sequencia, cada livro completa o outro e você irá compreender melhor a lenda do Rei Artur, contada a partir das vidas, visões, e da percepção das mulheres que nela tiveram um papel crucial. O universo ‘arturiano’ de Avalon e Camelot com todas as suas paixões e aventuras é revelado pelas suas heroínas: a Rainha Guinevere, mulher de Artur, que no livro tem o nome de Gwenhwyfar, por Igraine, mãe de Artur, por Viviane, a Senhora do Lago e grande sacerdotisa de Avalon e principalmente pela irmã de Artur, Morgana, também conhecida como Fada Morgana, que nessa épica versão da lenda possui um papel importantíssimo tanto na coroação como na destituição de Artur.

As Brumas de Avalon ficou três meses na lista dos best-sellers do jornal The New York Times e elevou Marion Zimmer Bradley (1930-1999) ao status de escritora de prestígio e uma das mais lidas no mundo.

Preparados para viajar no tempo e ler uma história sobre reis, rainhas, fadas, feiticeiras, amores, traições, batalhas, glórias, os feitos heroicos de Gawaine e seus Companheiros da Távola Redonda, a sabedoria de Merim, a ambição fatal de Mordred e o lento, mas irreversível, declínio de Avalon?

É só começar.

As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia
As Brumas de Avalon – A Grande Rainha
As Brumas de Avalon – O Gamo-Rei
As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore

OBS: Quando eu fizer o abandono deixarei os quatro livros juntos e peço a quem os achar que não os separe na hora de abandona-los novamente.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça em frente ao Shopping Passeo Itaigara
Data: 20/07/2013

domingo, 9 de junho de 2013

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA

Com a proximidade do dia dos namorados andei pensando muito em um livro cuja história representasse um amor incondicional, definitivo, desses que você tem certeza só acontecem nos livros, filmes ou novelas, sem jamais pensar que pudesse acontecer na vida real. Dito isso fui direto à estante e peguei O Amor nos Tempos do Cólera, do grande Gabriel Garcia Márquez (1927), autor que já citei aqui no post Cem Anos de Solidão.

Se você é como eu, gosta de folhear um livro antes de ler, terá a mesma impressão: como pode um livro de amor ter pouquíssimos diálogos entre os amantes? O estilo “realismo fantástico” do Gabriel Garcia Márquez permite que a história de uma vida, ou várias delas, se cruzem com a simples narração dos sentimentos, pensamentos, ações, sem que haja sequer uma dúvida sobre a veracidade do que se lê.

A história de amor entre Florentino Ariza e Fermina Daza transcorre sem quase nenhum contato físico por mais de cinco décadas, enfrenta o inicial temor pela rejeição, a conquista definitiva através de cartas de amor cada vez mais eloquentes, o pedido de casamento mesmo sem nenhum contato, a resposta ao pedido só veio quatro meses depois, a tia alcoviteira que facilitava o vai e vem das cartas, a descoberta do romance, e das cartas, pelo pai de Fermina, a separação imposta pela família, o primeiro olhar e a emoção de conhecer o homem que a chamava de Deusa Coroada em tantas cartas de amor.

Florentino Ariza vive uma vida, Fermina Daza vive outra, embalados por sentimentos diversos, lembravam-se um do outro, mas deixavam seus corações abertos. É possível estar apaixonado por várias pessoas e por todas sentir a mesma dor, essa dor que vem desde aquele primeiro e único amor verdadeiro. O autor nos diz isso com seu jeito bem peculiar na página 334, “O coração tem mais quartos que uma pensão de putas.”.

Quatrocentas e vinte e nove páginas retratam cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites até que Florentino diz a Fermina:

- Toda a vida.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Itaú de Cinema - Sala: 4 - Praça Castro Alves
Data: 10/07/2013

domingo, 2 de junho de 2013

GIANE – VIDA, ARTE E LUTA

Foi em 2000 quando ouvi falar pela primeira vez de Reynaldo Gianecchini, entrava no ar a novela Laços de Família na Rede Globo e o modelo/ator ficaria conhecido nacionalmente. Foi o par romântico de Helena, vivida por Vera Fischer, e mais tarde se envolveria com a filha dela, Camila, interpretada pela Carolina Dieckmann. O então jovem modelo/ator foi imediatamente comparado ao Ricardo Macchi, o eterno Cigano Igor, criticado, fuzilado, serviu de chacota para todos os programas humorísticos da época, mas também foi amado e idolatrado por muitas fãs. Da novela restou a lembrança de Deborah Seco como a garota maluquinha Íris e a famosa cena da personagem Camila raspando a cabeça.

Foi em 2004 quando ouvi falar pela primeira vez do Guilherme Fiuza (1965) ao ler uma biografia intitulada Meu Nome Não é Johnny, que acabou transformada em filme nas mãos do Mauro Lima. Gostei muito do livro, Fiuza tem um estilo rápido e novelesco de contar a história do playboyzinho João Guilherme Estrella que só sabia curtir a vida e acabou preso por tráfico de drogas.

Foi em 2005 que Reynaldo Gianecchini obteve sua redenção artística encarnando o mecânico Paschoal na novela Belíssima. Vivendo um personagem tosco e grosseiro formou par romântico com a personagem Safira, interpretada pela Claudia Raia. As cenas fogosas e hilárias dos personagens conquistaram público e crítica, que finalmente se rendeu ao rostinho bonito que a Globo tanto apostou.

Foi em 2010 que comprei mais um livro do Fiuza, Bussunda – A Vida do Casseta. Passei a gostar mais do autor, é um livro definitivo sobre o Bussunda reconstituindo o nascimento do Casseta & Planeta, a fase de escritor do TV Pirata, os tempos de vacas magras e outros de vacas bem gordas. O estilo do Fiuza é incomparável.

Foi em 2011 que assisti à entrevista do Giane para a Patrícia Poeta no Fantástico. De cabeça raspada e visivelmente emocionado relatou que custou a acreditar que tinha câncer. Mas que estava ali para encorajar a todos os que sofriam do mesmo mal. Era o rapaz jovem e bonito mostrando a todos que tinha uma doença grave, que podia morrer e que não é perfeito.

Foi em 2012 que li a biografia Giane – Vida, Arte e Luta. Confesso que, a princípio, comprei o livro somente porque foi o Fiuza quem o escreveu. Achei que a vida o Giane não valia a pena e mordi a língua. Flagrei-me rindo em alguns capítulos e emocionado em outros. O estilo novelesco do Fiuza me conquistou para sempre. Não sei como consegue escrever tendo como companhia a Narcisa Tamborindeguy, deve ser difícil concentrar-se com uma pessoa ao lado gritando “ai que absurdo”, “ai que loucura”, “ai que badalo”... Assim como Reynaldo Gianecchini, Guilherme Fiuza também não é perfeito.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Itaú de Cinema - Sala: 2 - Praça Castro Alves
Data: 10/07/2013