domingo, 27 de dezembro de 2015

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Impossível não comentar o incêndio ocorrido no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, sei que esse assunto tomou as redes sociais nos últimos dias e todos que conheço se manifestaram das mais diversas formas e conteúdos. Mas, como disse antes, seria impossível para mim não ficar incrédulo diante das primeiras notícias que chegaram via WhatsApp e depois por e-mail, à noite eu vasculhei os canais de TV atrás de mais detalhes, a Globo News até reprisou um especial feito sobre o museu. Confesso que fiquei boquiaberto e me emocionei muito diante das imagens do fogo consumindo o prédio histórico, o acervo tecnológico e a linda exposição que homenageava Luis da Câmara Cascudo, grande historiador, jornalista e antropólogo que dedicou grande parte da sua vida a estudar o folclore e a cultura brasileira. A pá de cal veio com a notícia da morte do bombeiro civil Ronaldo Pereira que voltou ao prédio após retirar os funcionários para tentar combater as chamas, teve uma parada cardíaca e não sobreviveu.

Voltei imediatamente no tempo e lembrei quando fui ver a exposição Grande Sertão Veredas em homenagem ao mestre João Guimarães Rosa, evento que abria o museu para a população. Lembrei do circuito com as frases nos tijolos, os toneis com os espelhos e os pergaminhos que ficavam no teto e quando puxávamos uma fita ele descia para que pudéssemos ler trechos da obra. Lembrei perfeitamente que amarguei três meses de curiosidade para esperar passar a multidão de curiosos que faziam filas de dobrar quarteirões e dediquei um dia inteiro para o museu, fiquei seis horas lá dentro para correr os andares, ler tudo e esconder as lágrimas de emoção por presenciar um projeto tão bacana, moderno e inédito. Antes de voltar a morar em Salvador eu visitei o museu uma segunda vez e dediquei horas só na linha do tempo da língua portuguesa e para assistir todos os vídeos que passavam simultaneamente naquele corredor imenso de telões.

No fim da noite ainda assisti no Jornal da Globo o governador Geraldo Alkmin anunciando que irá reconstruir o museu, que irá buscar parceiros para traze-lo de volta à cidade de São Paulo e ao mundo. Eu pensei com meus botões: tomara que sim, tomara que não seja uma bravata política para aproveitar os holofotes e acalmar os corações amargurados como o meu. E nesse momento fui novamente jogado no túnel do tempo de lembranças quando, em 2008, todas as câmeras de TV alardeavam o incêndio do Teatro Cultura Artística, na mesma São Paulo. Era tristíssima a visão do prédio oco, lugar que assisti inúmeras peças de teatro e vários concertos, e ao mesmo tempo era espantosa a visão do painel Alegoria das Artes, assinado por Di Cavalcanti, que era a fachada do teatro e continuava lá, com pequenas avarias, mas imponente, seguro, como um ato divino de resistência cênica.

Sete anos já se passaram e o teatro ainda não foi reconstruído. Acompanho pelo site da Sociedade de Cultura Artística as poucas notícias publicadas sobre o andamento dos processos. Em 2011 fiquei muito feliz quando houve a conclusão da restauração do painel do Di Cavalcanti, e em junho de 2015 eles publicaram que haviam conseguido o alvará de execução da obra, último documento que faltava para o início da reconstrução. O projeto é lindo, veja a foto abaixo. Será que conseguirei assistir a um concerto ou uma peça de teatro que seja nas novas instalações? Será que estarei vivo para ir novamente ao Museu da Língua Portuguesa?

Fachada do Teatro Cultura Artística antes do incêndio.


Fachada do futuro Teatro Cultura Artística que está no site da Sociedade de Cultura Artística.


Como hoje é o último post de 2015, também seria impossível encerrar sem os meus votos de esperança para o ano novo que se iniciará nos próximos dias, esperança no ser humano e na humanidade. Esperança, essa será minha palavra em 2016.

Um comentário:

  1. Realmente muito triste. Só esperança mesmo é o que nos resta.

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