domingo, 5 de julho de 2015

INFÂNCIA DOS MORTOS


Engana-se quem acha que o livro Infância dos Mortos, escrito pelo José Louzeiro (1932), é a mesma coisa que o filme Pixote, dirigido pelo Hector Babenco, que arrebatou inúmeros prêmios nos idos anos 80 do século passado. Essa confusão nasceu porque o livro serviu de argumento para o filme e a editora, ávida por vendas, passou a incluir o subtítulo Pixote nas edições posteriores ao filme. (veja a foto ilustrativa do livro)

Nas duas obras, a literária e a cinematográfica, a história é baseada em um grupo de meninos que abandonaram suas famílias para viver nas ruas sem estudo ou perspectiva de vida, e suas infâncias serão marcadas pela violência, drogas e crimes. O grupo é nômade, os garotos vivem pelas ruas sem saber onde vão dormir ou o que vão comer, são usados pelos traficantes e violentados pela sociedade que só os enxerga quando eles lhes roubam os pertences. Em um dado momento até pensam em mudar de vida, mas a realidade é dura e a lei da rua ensina que para ser forte e respeitado tem que se tornar conhecido no mundo do crime.

Os quatro meninos: Dito, Fumaça, Manguito e Pixote se conhecem nas ruas e são unidos pela lei da sobrevivência. Diferente do filme que usa o Pixote como foco de atenção por ser o menor deles, tem apenas nove anos de idade quando foge para as ruas, o personagem principal do livro é Dito, o mais velho. É ele quem dita às regras no grupo, quem decide o golpe que será aplicado, quem transita entre os traficantes, quem entra de verdade em confronto com a polícia e decide quem deve matar ou morrer. Por ser o mais forte é também o protetor dos outros, e em muitas ocasiões do livro percebemos ser o mais sensato, vai acompanhando as histórias de todos até se ver sozinho, lutando para sobreviver.

José Louzeiro é o primeiro escritor nacional a enveredar-se pelo gênero literário chamado de romance-reportagem, criado pelo Truman Capote quando escreveu A Sague Frio em 1965. Apesar de Pixote ter apenas uma pequena participação no livro, a reverberação do personagem transposto para as telas de cinema marcaria para sempre a carreira de Marília Pêra, lembrada até hoje pela atuação excepcional, e a vida do garoto Fernando da Silva Ramos, o Pixote, que não conseguiu seguir com a carreira de ator, entrou para o mundo do crime e acabou morto pela polícia em 1987. Posteriormente a esposa de Fernando, Cida Venâncio, lançaria o livro Pixote Nunca Mais, que deu origem ao filme Quem Matou Pixote? dirigido por José Joffily. Mas isso já é uma outra história.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça N. S. da Luz - Pituba
Data: 15/08/2015

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