domingo, 28 de fevereiro de 2016

TARJA PRETA


Quando morava em São Paulo gostava de passear pela Fnac que fica localizada no bairro de Pinheiros, num desses passeios me deparei com um livro que tinha um título inusitado e uma lista de autores. Ir à livraria era um programa perfeito para um final de tarde de sábado, três andares de pura diversão e um café no térreo para começar a folhear e ler os livros comprados. Então, com um café Machiatto, meu preferido, uma cesta de pão de queijo, um strüdel de maçã, e meu exemplar recém adquirido de Tarja Preta às mãos, devorei tudo, inclusive o primeiro conto intitulado Frontal com Fanta de autoria do Jorge Furtado, os demais eu li ainda no mesmo fim de semana porque o livro tem apenas 176 páginas.

O livro é composto por sete contos, escritos por sete autores diferentes: Jorge Furtado, citado acima, Pedro Bial, Adriana Falcão, Jorge Mautner, Luiz Ruffato, Márcia Denser e Isa Pessôa, com um elo em comum: medicamentos controlados, mais conhecidos como ‘tarja preta’, aqueles que o farmacêutico retém a receita médica e são vendidos com o controle do CPF do paciente. Mas, longe de qualquer apologia, os contos são bem distintos e preservam as características dos seus autores, nem todos são bons já vou logo adiantando, mas nada de usar isso como desculpa para não ler o livro.

Pedro Bial (1958) conta uma história cujo protagonista deu o nome dos remédios preferidos para seus jogadores do time de futebol de botões. Adriana Falcão (1960), muito boa, escreve a história de uma serial killer que toma remédios e tem conversas hilárias com seu próprio cérebro. O Luiz Ruffato (1961) lança mão de uma crônica denúncia quando conta a história da mulher que vai ao hospital com um histórico de traições e violência doméstica sofridas por causa do marido alcóolatra e sai de lá com um “remedinho” para autoestima. Jorge Mautner (1941) vai para a terapia quando conta a história de um casal em busca de uma felicidade sempre constante e plena que desaba numa viagem quase lisérgica dos personagens.

Recentemente fui assistir ao filme Boa Sorte da cineasta Carolina Jabor, protagonizado por uma surpreendente Deborah Secco, quando li nos créditos que o roteiro do filme foi inspirado no conto do Jorge Furtado (1959) que mencionei no primeiro parágrafo. Que me perdoem os demais autores de Tarja Preta, mas o conto Frontal com Fanta é o melhor. Isso na minha mais humilde opinião de leitor leigo que nunca tomou um tarja preta na vida. Pelo menos até hoje.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Centenário - Ponto de ônibus
Data: 02/04/2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

GAROTA EXEMPLAR


No início de 2015 saiu a lista dos filmes que estavam indicados ao Oscar 2015 e dentre as indicações para Melhor Atriz estava Rosamund Pike pelo filme Garota Exemplar. Numa reportagem sobre o filme descobri que seu roteiro fora adaptado do livro homônimo pela própria autora. Confesso que isso aguçou minha curiosidade pela obra que eu já havia visto nos sites de livrarias. Como não houve indicação do filme para a categoria Melhor Roteiro Adaptado e a Rosamund Pike não ganhou o Oscar, decidi que só assistiria ao filme depois de ler o livro que a essa altura já estava na casa dos seis milhões de exemplares.

Comprei o livro meses depois numa liquidação e foi uma grande surpresa face aos comentários pouco elogiosos que ouvi sobre o filme, e que, acreditem, ainda não assisti. Gosto de me render a boas histórias e a autora Gillian Flynn (1971) faz do seu livro um best seller daqueles que você esquece de comer, dormir, e leva o livro até para o chuveiro. A história de Amy e Nick narrada ora por um e ora por outro, em capítulos alternados, conseguiu a proeza de me prender desde o início, a partir da página cinquenta eu já estava entregue e à medida que lia me envolvia mais e mais.

Amy é a garota exemplar, foi feita de objeto pelos pais psicólogos que publicaram livros contanto sua vida e expuseram sua infância e adolescência para uma multidão de aficionados que compravam os livros da série. Amy cresceu e o público perdeu o interesse pelos livros que seus pais escreviam. Nick nasceu minutos antes de sua irmã gêmea Margo e foi mimado, paparicado e embalado pela sua família. Amy e Nick se conhecem, casam-se e vivem suas vidas até que a recessão lhes tira o emprego e a mãe de Nick é diagnosticada com câncer. Nick usa essa desculpa como mote para sair de Nova York e voltar a morar em North Carthage, Missouri, sua cidade natal, o casamento estava desintegrando. No dia do aniversário de cinco anos de casados, bodas de madeira, Amy desaparece e várias evidências apontam Nick como culpado. Mas será que ele assassinou Amy, a garota exemplar? O pior é que ele é um babaca, mente para a polícia, esconde fatos, e só ajuda a incriminar-se ainda mais.

Mas engana-se o leitor que pensar tratar-se de mais um livro de crime e castigo, é muito mais que isso, Amy e Nick são duas mentes doentes em diferentes níveis, precisam um do outro para sentirem-se motivados e atormentados, cada um cumprindo seu papel na frente das câmeras de TV. Por diversas vezes parei de ler completamente estupefato pelo que se revelavam os capítulos. Hoje vivo num mix de emoções: tenho medo da autora, penso nela como uma desequilibrada mental e acho que seu marido devia repensar a relação, mas também estou ansioso para ler seu próximo livro. No fim das contas talvez o louco aqui seja eu.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente à Sala de Arte - Cinema da Ufba
Data: 26/03/2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O BANGALÔ


Numa fase de minha vida que já relatei aqui no blog eu lia qualquer coisa, e quando escrevo as palavras ‘qualquer coisa’ não o faço no sentido pejorativo. Não eram os grandes clássicos, mas livros populares vendidos nas bancas de revista cujo preço eu podia pagar, estou me referindo à série de livros Júlia, Sabrina e Bianca cujas histórias de amor rocambolescas, passadas em castelos, ilhas ou paisagens paradisíacas, variavam sempre entre uma mulher pobre que se apaixonava por um homem rico ou vice versa.

Apesar de achar as narrativas por vezes muito pobres eu gostava de imaginar os autores debruçados em suas máquinas de escrever, único recurso da época ainda sem computadores, transpondo para o papel uma quantidade sem fim de romances ambientados em lugares exóticos, com passagens sofridas e o amor vencendo nos finais. Nesses livros a autoria das histórias não aparecia com o destaque merecido e posso até apostar que eram todos pseudônimos. Eu, canceriano que sou, gosto de um bom romance, mas acima de tudo gosto de uma história bem contada.

É como vejo a escritora Sarah Jio (1978) e seus livros. O Bangalô, que irei abandonar, faz parte de uma evolução das histórias contadas nas séries Júlia, Sabrina e Bianca. Já na capa a editora providencia um verbete que diz “Quanto tempo você está disposto a esperar por sua felicidade?” Agora é só começar a ler a primeira das 314 páginas para deparar-se com um segredo, uma carta recebida que trará recordações mais de cinquenta anos depois de vividas. Uma senhora, Anne, conta para sua neta, Jennifer, o que aconteceu em sua vida quando tinha apenas 21 anos, ia casar-se com um homem bom, tinha a segurança da família em Seattle, mas resolve seguir os passos da melhor amiga Kitty e alistar-se como enfermeira voluntária para a base aliada situada na ilha de Bora Bora durante a Segunda Guerra Mundial.

Chegando à ilha ela vai conhecer uma realidade dura e inóspita durante o período de guerra, mas também conhecerá Westry, um soldado que despertará em Anne sentimentos ainda não vividos dentro de um bangalô escondido numa praia deserta. Idas e vindas, tarefas da guerra, mal entendidos, segredos, traições e o assassinato de uma nativa serão explicados mais de cinquenta anos depois. Os românticos de plantão irão suspirar ao final.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mezanino restaurante Raízes - Shopping Barra
Data: 26/03/2016

domingo, 7 de fevereiro de 2016

GREY


Faz algum tempo que estou aqui parado sem saber o que escrever sobre o livro citado no título deste post e isso é raro de acontecer. Não tenho pretensão de ser a nova Mãe Dináh ou tão famoso quanto Walter Mercado, mas escrevi aqui no blog em junho de 2014, no post ‘Cinquenta Tons de Liberdade’ que era bem provável que a escritora E. L. James (1963) ainda abocanhasse uns trocados lançando a versão de Cristian Grey para a saga Cinquenta Tons, no último livro havia um capítulo inteiro com a versão dele para o primeiro encontro com Anastacia Steele. E não é que dois anos depois lá está ele nas livrarias com todo o alarde que a editora pôde pagar para o lançamento.

É óbvio que ninguém me obrigou a ler o livro, muito menos a compra-lo, mas quem me conhece sabe que eu não ia resistir à curiosidade de ler o que ainda poderia render da história de amor e fantasias BDSM soft sob a perspectiva de Christian Gray. Nos três livros da série li sobre todas as inseguranças, questionamentos e devaneios românticos de Anastacia, o Christian aparecia nos diálogos, e-mails, SMS, e nas ações que ambos faziam juntos. Nesse novo volume eu li sobre todas as inseguranças, questionamentos e devaneios antirromânticos que o Christian viveu nos momentos que não estavam juntos e Anastacia tem voz somente nos e-mails, mensagens de SMS e nos diálogos copiados do primeiro livro.

Pelo menos para mim esse livro serviu para mostrar o quanto Grey é doente, uma alma atormentada, prepotente disfarçado e bom moço com suas ações para abrandar a fome mundial ou a ajuda que proporciona aos poucos eleitos do seu séquito de empregados. Mesmo vestindo essa capa sedutora de luxos e benesses que o dinheiro pode comprar Grey se mostra extremamente machista, possessivo, subjugando a mulher como objeto de prazer sexual.  Na minha mais modesta opinião nem seu passado obscuro justifica esses atos. Fantasias sexuais todos nós temos, é uma forma de amainar o entediante “sexo baunilha”, mas imprimir dor na pessoa amada e sentir prazer com isso deve ser passível de tratamento.

Acredito que E. L. James trabalhou muito para escrever esse volume e a ideia é boa, contar a mesma história sob a ótica de outro personagem, ser fiel à primeira obra e ainda por cima buscar o ineditismo dos acontecimentos. Confesso que por breves momentos dei algumas risadas com a nova versão, principalmente na relação de Christian com seus fiéis empregados e o comportamento deles face ao atendimento inquestionável dos seus desejos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Passeio Público - banco próximo à entrada do Teatro Vila Velha
Data: 25/03/2016

domingo, 31 de janeiro de 2016

AS ESPIÃS DO DIA D


Fico tão feliz quando leio um bom livro que às vezes me pego sabotando a leitura para que o livro não acabe e ao mesmo tempo quero ler rápido para saber como vai terminar a história. Parece contraditório e realmente o é, sou acometido por uma ansiedade boa e fecho o livro nas horas mais impactantes para, em seguida, abrir novamente e seguir devorando as palavras com os olhos. A leitura de As Espiãs do Dia D aconteceu exatamente como expliquei acima. Ganhei de presente no ano passado e como leio imediatamente a orelha de qualquer livro que me caia às mãos, o tema Segunda Guerra Mundial me pareceu déjà vu com outra obra do Ken Follett (1949), O Buraco da Agulha, que li nos anos 1980.

Por isso o livro acabou ficando na estante por uns bons meses até que tia Liane me ligou pedindo emprestado algo para ler, ela sempre faz isso e deixa a escolha sob meu critério. Como já sei que gosta dos romances e de preferência com personagens femininos fortes, bastou olhar a estante para escolher As Espiãs, mas fiquei impressionado quando ela me devolveu, quatro dias depois, dizendo que não conseguiu parar de ler. Minha curiosidade foi despertada e eu coloquei o livro no primeiro lugar da fila. Não me arrependi.

Ken Follett conquistou seus fãs com um estilo absolutamente avassalador de escrever, a grande maioria de suas obras possui a temática da guerra, com doses de espionagem e um pouco de romance para apimentar a história que, quase sempre, usa fatos históricos como pano de fundo. É às vésperas do Dia D que os destinos de Felicity Clairet, ou Flick como todos a chamam, e Dieter Frank se cruzam. Ela é Major da Executiva de Operações Especiais do exército britânico, uma mulher lutadora, bonita, bem treinada, capaz de pensar rápido e escapar quase ilesa do perigo iminente nas operações de resistência face à fúria expansionista do Terceiro Reich. Dieter é General do Exército Alemão, extremamente sagaz e exímio torturador de soldados inimigos, não se furta a torturar também civis se perceber que pode tirar proveito disso para o bem de Hitler e da Alemanha. Flick e Dieter travarão uma luta de inteligência e perspicácia que vai culminar num final de tirar o fôlego.

O que mais admiro na escrita de Ken Follett é que, mesmo usando fatos históricos como ambientação da obra e todos já sabendo como esses fatos aconteceram, a narrativa é tão interessante quanto se fosse cem por cento inventada.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escada lateral do casarão do Museu Palacete das Artes
Data: 25/03/2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

DESAPARECIDO PARA SEMPRE


Quando gosto de um autor quero que todo mundo o leia, e como não sou um déspota a palavra ‘quero’ que escrevi antes fica, no máximo, com o contexto de recomendo. Por isso abandono os livros, é uma forma de compartilhar e levar para algum desconhecido o gostinho pela literatura e quem sabe fazê-lo despertar para outros livros. Quando gosto de um autor fico com aquela ansiedade boa para ler toda a sua obra, foi assim com a Marguerite Yourcenar, Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado, Sidney Sheldon, Nelson Motta, Dan Brown, John Green, dentre outros, e agora está acontecendo com o Harlan Coben (1962).

Esse foi o quarto livro que li do autor e por coincidência também é o quarto livro da sua fase ‘independente’. Harlan escreveu os livros Play Dead e Miracle Cure, que eu saiba ainda não lançados no Brasil, antes de se dedicar à série de livros de suspense com o personagem Myron Bolitar, seria uma espécie de Hercule Poirot se eu o estivesse comparando com a autora Agatha Christie. Foi um hiato de dez anos dedicados a essa série até o retorno aos independentes com o ótimo Não Conte a Ninguém, já comentado aqui no blog.

Desaparecido para Sempre é a história de dois irmãos, Will e Ken, este último desaparecido e dado como morto desde que fugiu da cena do assassinato da jovem Julie Miller, ex-namorada de Will. A história começa onze anos depois, Will refez a vida, trabalha numa instituição que retira jovens das ruas e está apaixonado por Sheila Rogers, uma voluntária da instituição. Tudo muda quando, antes de falecer, a mãe deles revela a Will que seu irmão está vivo. No dia seguinte Sheila desaparece e logo depois é encontrada às margens de uma estrada, foi assassinada com requintes de tortura. Amigos de infância, gângsteres, matadores profissionais e até o FBI estão atrás de Will, todos supõem que ele é o elo de ligação para tudo que está acontecendo.

Não sei se este é o melhor livro do Harlan Coben, tive que vencer as cem primeiras páginas para começar a ler compulsivamente, mas não posso deixar de reconhecer que é uma grande história, cheia de reviravoltas, com vilões verossímeis apesar de quase caricatos, um final inesperado e muito bem amarrado. Ainda assim é um desses livros que você lê e se esquece de almoçar, recomeça à tarde e quando percebe já está escuro, e se vai ler antes de dormir não pensa que no dia seguinte vai ter que acordar cedo para trabalhar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio interno do Mercado Modelo
Data: 20/02/2016

domingo, 17 de janeiro de 2016

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES


Considero a década de 1980 como e época mais fértil das minhas leituras. Foi quando comecei a trabalhar e amargava boas horas dentro do ônibus que me levava e trazia do trabalho. Nessa época me acostumei a ler com o coletivo em movimento, mas dependia de ter acentos livres. Quando a empresa que eu trabalhava passou a oferecer ônibus fretado o hábito se intensificou, eram pelo menos três horas de leitura diária que compreendia o trajeto de ida e volta, muitos colegas dormiam e eu aproveitava o silêncio como se estivesse numa biblioteca. Durante quatro anos usei esse tempo para ler quase todos os livros das coleções que a Editora Abril lançava quinzenalmente nas bancas de revista.

Eram coleções formadas basicamente por grandes obras da literatura nacional e estrangeira, impressos em papel “inferior” os livros eram bem mais baratos que os encontrados nas livrarias. Sorte a minha que pude ler obras primas sem pagar muito, uma delas foi O Morro dos Ventos Uivantes, um clássico da literatura inglesa escrito por Emily Brontë (1818-1848) com pseudônimo de Ellis Bell. O livro foi lançado em 1847, mas só chegou ao Brasil por volta de 1940, até os dias de hoje foram muitas edições e também adaptações para o cinema e a TV. Nos dias de hoje é uma obra quase esquecida assim como foi a vida da sua autora, uma mulher extremamente tímida que vivia reclusa e morreu de tuberculose aos trinta anos sem provar o gosto do sucesso de seu único livro em prosa.

A história é contada pela governanta Ellen Dean e começa quando o patriarca da família Earnshaw volta de viagem e traz um jovem órfão de procedência não explicada para morar na propriedade de Tcrushcross Grange. O jovem de nome Heathcliff desperta a afeição da filha Catherine e ao mesmo tempo um ciúme doentio do filho Hindley por achar que o pai gostava mais do intruso que do próprio filho legítimo. Com a morte do Sr. e Sra. Earnshaw, Hindley passa a tratar Heathcliff como um criado, humilhando-o e castigando-o. Catherine e Heathcliff se apaixonam, mas ela decide casar-se com outro temendo que o jovem não consiga sustenta-la como está acostumada e isso faz com que Heathcliff abandone a propriedade. Anos mais tarde ele volta rico e disposto a vingar-se de todos que o humilharam, essa vingança irá se arrastar por três gerações.

O livro é tão rico em detalhes e por vezes tão sombrio e violento, com descrições precisas sobre a alma dos personagens, que fica difícil acreditar que foi escrito por uma mulher tão solitária e introspectiva. Li um texto que Charlote Brontë escreveu sobre a irmã Emily: “Embora seus sentimentos pelos que a cercavam fossem benevolentes, relações com eles ela nunca procurou, nem, com poucas exceções, as experimentou. E mesmo assim ela os conhecia: sabia seus costumes, sua linguagem e a história de suas famílias. Podia ouvir sobre eles com interesse, e falar deles com detalhes, porém, com eles, raramente trocou uma palavra.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sorveteria do Porto da Barra
Data: 20/02/2016

domingo, 10 de janeiro de 2016

ORFEU DA CONCEIÇÃO


Comecei recentemente a fazer uma pesquisa de textos escritos para o teatro musical quando achei na minha estante esse requinte publicado pelo Vinicius de Morais (1913-1980) cuja obra eu foi pouco citada aqui no blog. Temos o hábito simplista de ligar o Vinicius à música ou à poesia e esquecemos sua faceta de jornalista e escritor, o que é uma injustiça com a universalidade de suas obras. Em se tratando de um artista tão completo Orfeu da Conceição nasceu para ser peça de teatro, foi publicado em livro, acabou inspirando um filme e posteriormente virou um disco com canções memoráveis.

Orfeu é uma das mais lidas e encenadas obras da mitologia grega. Já Orfeu da Conceição faz parte da tragédia carioca, ambientada numa favela traz para o grande público o universo de um compositor que perde sua musa e se rende à dor. Num feriado de carnaval a história de amor entre Orfeu e Eurídice tem um final trágico, o sambista que vive no morro é filho de pai músico e mãe lavadeira. A paixão que os une desperta o ciúme doentio de Mira, ex-namorada de Orfeu que influencia Aristeu, apaixonado por Eurídice, a matá-la.

No exemplar que pretendo abandonar há um detalhe bem bacana na obra que é a cifra de todas as músicas compostas para o espetáculo, para quem sabe tocar violão é a oportunidade de cantar enquanto lê a obra. As músicas de Vinícius, estreando a parceira com Tom Jobim, são imortais: Se Todos Fossem Iguais a Você, Lamento no Morro, Um Nome de Mulher, Eu e o Meu Amor, etc, são canções que faziam parte do LP lançado posteriormente à obra e estão imortalizadas.

Algumas curiosidades sobre a peça musical é que o cenário foi feito pelo Oscar Niemeyer e a estreia foi em setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no elenco estava Abdias Nascimento, Haroldo Costa, Ademar Pereira da Silva e Ruth de Souza, dentre outros. Era a primeira vez que atores negros pisavam o palco do Teatro Municipal. O elenco composto por atores negros foi exigência do próprio Vinícius, como está escrito na sua biografia: “Todas as personagens da tragédia devem ser normalmente representadas por atores da raça negra, não importando isto em que não possa ser, eventualmente, encenada com atores brancos.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da praça em frente ao restaurante Coco Bahia
Data: 13/02/2016

domingo, 3 de janeiro de 2016

DICIONÁRIO DE BAIANÊS


Gostaria de começar o ano com um pouco de bairrismo e afirmação da minha baianidade nagô, quando escrevi sobre o almanaque Mofolândia declarei aqui no blog meu gosto pessoal por dicionários e enumerei alguns que tenho em casa. Dentre eles não poderia faltar o Dicionário de Baianês, pesquisado, divulgado e já algumas vezes revisado pelo Nivaldo Lariú, grande pesquisador da cultura baiana. Cabe alertar aos leigos que em Salvador/BA fala-se português como em todo o território nacional e o dito “Baianês” é fruto da variação dialética do português culto, que é a língua oficial do Brasil, onde se insere o sotaque baiano na emissão dos fonemas e as gírias faladas nas ruas.

Vou dar um exemplo que li outro dia sobre a evolução do tratamento clássico ‘Vossa Mercê’ que vem do português culto, ou arcaico como alguns já o denominam. Os escravos e as pessoas pouco alfabetizadas transformaram a expressão ‘Vossa Mercê’ em ‘Vosmissê’, que posteriormente foi adotado por todos por ser de mais fácil dicção. A partir daí foi adaptado para a forma mais comum: ‘Você’, que ganhou uma variação simplória para ‘Cê’ e, atualmente na linguagem da internet, escreve-se somente ‘vc’.

Vejam o caso da expressão “Vamos embora”; ela foi modificada pelo Baianês para ‘Vumbora’, que posteriormente foi cortada e surgiu a gíria ‘Bora’ e esta por sua vez já foi simplificada para ‘Bó’. Daí ganhou uma versão mais cheia de malemolência e criatividade do baiano que é ‘Borimbora’, adaptada de ‘Vumbora embora’, quase um pleonasmo. Mesmo sendo nativo dessa terra por vezes ouço diálogos que não entendo o linguajar, isso também acontecia em São Paulo e também quando me reunia com os amigos gaúchos, todos os lugares acabam por criar expressões regionais que só enriquecem nosso vocabulário.

Para dar um gostinho vou citar algumas expressões contidas no dicionário:

Comer água – beber com amigos, com sentido de comemorar.

Dei um ninja – escapei de um compromisso ou algo desagradável.

Vai chorar, é? – quando alguém fica cheio de explicações sobre alguma coisa que aconteceu. Ex: time do Bahia perde o jogo e o torcedor fala que o time perdeu porque estava sem os titulares e o que o juiz roubou, etc. Quem está ouvindo esse monte de desculpas diz: "vai chorar, é?"

Larga o doce – desembucha, fala logo.

A ideia do Nivaldo Lariú é pura diversão, se você é baiano vai rir bastante com suas próprias gags, mas se você é turista saberá por que o baiano é tão ‘gente boa’.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Pereira (varanda)
Data: 02/02/2016

domingo, 27 de dezembro de 2015

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Impossível não comentar o incêndio ocorrido no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, sei que esse assunto tomou as redes sociais nos últimos dias e todos que conheço se manifestaram das mais diversas formas e conteúdos. Mas, como disse antes, seria impossível para mim não ficar incrédulo diante das primeiras notícias que chegaram via WhatsApp e depois por e-mail, à noite eu vasculhei os canais de TV atrás de mais detalhes, a Globo News até reprisou um especial feito sobre o museu. Confesso que fiquei boquiaberto e me emocionei muito diante das imagens do fogo consumindo o prédio histórico, o acervo tecnológico e a linda exposição que homenageava Luis da Câmara Cascudo, grande historiador, jornalista e antropólogo que dedicou grande parte da sua vida a estudar o folclore e a cultura brasileira. A pá de cal veio com a notícia da morte do bombeiro civil Ronaldo Pereira que voltou ao prédio após retirar os funcionários para tentar combater as chamas, teve uma parada cardíaca e não sobreviveu.

Voltei imediatamente no tempo e lembrei quando fui ver a exposição Grande Sertão Veredas em homenagem ao mestre João Guimarães Rosa, evento que abria o museu para a população. Lembrei do circuito com as frases nos tijolos, os toneis com os espelhos e os pergaminhos que ficavam no teto e quando puxávamos uma fita ele descia para que pudéssemos ler trechos da obra. Lembrei perfeitamente que amarguei três meses de curiosidade para esperar passar a multidão de curiosos que faziam filas de dobrar quarteirões e dediquei um dia inteiro para o museu, fiquei seis horas lá dentro para correr os andares, ler tudo e esconder as lágrimas de emoção por presenciar um projeto tão bacana, moderno e inédito. Antes de voltar a morar em Salvador eu visitei o museu uma segunda vez e dediquei horas só na linha do tempo da língua portuguesa e para assistir todos os vídeos que passavam simultaneamente naquele corredor imenso de telões.

No fim da noite ainda assisti no Jornal da Globo o governador Geraldo Alkmin anunciando que irá reconstruir o museu, que irá buscar parceiros para traze-lo de volta à cidade de São Paulo e ao mundo. Eu pensei com meus botões: tomara que sim, tomara que não seja uma bravata política para aproveitar os holofotes e acalmar os corações amargurados como o meu. E nesse momento fui novamente jogado no túnel do tempo de lembranças quando, em 2008, todas as câmeras de TV alardeavam o incêndio do Teatro Cultura Artística, na mesma São Paulo. Era tristíssima a visão do prédio oco, lugar que assisti inúmeras peças de teatro e vários concertos, e ao mesmo tempo era espantosa a visão do painel Alegoria das Artes, assinado por Di Cavalcanti, que era a fachada do teatro e continuava lá, com pequenas avarias, mas imponente, seguro, como um ato divino de resistência cênica.

Sete anos já se passaram e o teatro ainda não foi reconstruído. Acompanho pelo site da Sociedade de Cultura Artística as poucas notícias publicadas sobre o andamento dos processos. Em 2011 fiquei muito feliz quando houve a conclusão da restauração do painel do Di Cavalcanti, e em junho de 2015 eles publicaram que haviam conseguido o alvará de execução da obra, último documento que faltava para o início da reconstrução. O projeto é lindo, veja a foto abaixo. Será que conseguirei assistir a um concerto ou uma peça de teatro que seja nas novas instalações? Será que estarei vivo para ir novamente ao Museu da Língua Portuguesa?

Fachada do Teatro Cultura Artística antes do incêndio.


Fachada do futuro Teatro Cultura Artística que está no site da Sociedade de Cultura Artística.


Como hoje é o último post de 2015, também seria impossível encerrar sem os meus votos de esperança para o ano novo que se iniciará nos próximos dias, esperança no ser humano e na humanidade. Esperança, essa será minha palavra em 2016.