domingo, 25 de outubro de 2015

DANCE DANCE DANCE


Um dia recebi uma mensagem do meu amigo gaúcho-paulistano Roberto Camargo que dizia: “Estou devorando Dance Dance Dance do Haruki Murakami”. Roberto é um desbravador de cultura e graças às suas indicações conheci cantoras como Stacey Kent e Melody Gardot, li Trem Noturno para Lisboa e A Elegância do Ouriço, que já comentei aqui no blog. Nossa sintonia vem desde os tempos da Terça Insana, às vezes o Roberto lia pra mim os textos que escrevia para o seu Mestre de Cerimônias e ficávamos horas e horas às gargalhadas reescrevendo o texto. Guardo com todo carinho o Troféu Terça Insana de Humor - 2003, pelo trabalho de coautoria, e tenho muito orgulho em ver meu nome citado nos agradecimentos nos dois dvds que a Terça lançou. Era divertido esse convívio quando morei em São Paulo e mantivemos nossa amizade intacta mesmo depois que mudei para Salvador.

É claro que comprei imediatamente o livro do Haruki Murakami (1929), mas, ao contrário do Roberto, levei quase um mês para lê-lo na íntegra. Murakami tem os dois pés no realismo fantástico kafkiano, nos seus escritos tudo é referência: comida, roupas, casas, bebidas e principalmente as músicas. Seu personagem principal é um escritor freelance de artigos para revistas, principalmente gastronômicas, que se auto define um ‘limpa-neve cultural’. O protagonista tenta achar uma antiga namorada chamada Kiki que sumiu quando ambos estavam hospedados no Hotel do Golfinho. Nessa busca por Kiki ele se envolverá com uma garota clarividente e sua excêntrica família, um ator canastrão, garotas de programa, revisitará um personagem do livro anterior, o Homem Carneiro, e, por fim, conhecerá o amor verdadeiro. A partir daí vivenciará a ansiedade da possível perda desse amor para a efemeridade da vida.

Murakami não é econômico e seu personagem narrador não se furta em descrever tudo que vê. Como são as pessoas e o que elas vestem, relata suas refeições, o que bebe, lê e ouve. E foi aí que o livro me pegou porque sou fascinado por descrições. Quando alguém me conta uma história fico questionando para saber como estavam vestidos, como era o ambiente, o que comeram e por aí vai. Para mim isso é essencial para que eu possa ouvir a história e fotografar a cena na minha cabeça. Nesse momento as citações musicais, que são muitas, assim como bebe em demasia e gosta de cozinhar sua própria refeição, o protagonista ouve música o tempo todo e nos diz exatamente o que está ouvindo. Em vários momentos fui procurar na internet a música citada para ouvir enquanto lia. Agora que você já tem certeza que sou louco eu te devolvo a constatação, quem não o é, mesmo que secretamente?

Dance Dance Dance não é um livro fácil, vai exigir uma boa dose de dedicação para vencer as 492 páginas. Mesmo sendo um universo totalmente japonês você se sentirá inserido num contexto universal. Pense globalmente e escreva localmente é um estilo muito utilizado em nossa literatura contemporânea. Afinal, um Maserati conversível, um casaco Adidas, um Dunkin Donut’s e a música do Talking Heads serão exatamente os mesmos em qualquer lugar do mundo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Solar Café - Palacete das Artes
Data: 02/01/2016

domingo, 18 de outubro de 2015

TUDO QUE EU QUERIA TE DIZER


Conheci a autora Martha Medeiros (1981) através do teatro. Lília Cabral arrastava multidões ao teatro para assisti-la em Divã e eu fui um desses espectadores que torceram pela libertação de Mercedes. Mas tarde fui arrebatado pela atuação de Ana Beatriz Nogueira na peça Tudo Que Eu Queria Te Dizer. Quando descobri que as duas peças eram adaptações de livros da mesma autora comecei a ler suas obras publicadas: poesia, crônica e romance. Mas confesso que não gosto de tudo, prefiro as crônicas, acho que Martha é boa nisso e nesses sucintos textos consegue extrair a essência e a emoção da vida.

O livro Tudo Que Eu Queria Te Dizer me pegou logo de cara, talvez porque sou do tempo das cartas escritas à mão, envelopadas, seladas e enviadas pelo correio. Levaria uns três dias para que o destinatário lesse minhas palavras, dependendo do endereço esse prazo poderia ser estendido para mais de uma semana. O cuidado que eu tinha em comprar o papel colorido, a caneta de tinta nanquim, de fazer colagens com recortes de revista, expressavam meu carinho para com o outro. Também não sei se o livro me abocanhou pelo tema, coisas que gostaríamos de dizer e não temos coragem de fazê-lo pessoalmente, mas precisamos dizer e a carta é a forma de revelar o sentimento sem estar necessariamente ao lado de quem queremos falar. Expressar-se é difícil, e falar de sentimentos olho no olho é mais difícil ainda, dizer ‘eu te amo’ ou ‘me perdoe’ para alguns é quase impossível, mas, ao escrever essas palavras podemos mudar o rumo de nossas vidas.

O livro é exatamente sobre isso, cartas. São pessoas que escrevem para desabafar, matar as saudades, pedir perdão, exorcizar sentimentos e prazeres encobertos. Parecem cartas reais já que trazem os sentimentos comuns das pessoas e nisso Martha é uma mestra, ela sabe como emocionar de forma simples e direta. Seus personagens trazem essa verdade de quem precisa dar uma virada, por isso são cartas reveladoras, de despedida, que passam uma situação a limpo. A amante enviando uma carta para a esposa traída, o jovem que escreve para a mãe do amigo que ele matou num acidente, a esposa que ganha a vida como prostituta, a viúva que descreve a saudade daquele que se foi, como observadora atenta do cotidiano Martha consegue colocar um pouco de nós mesmos em cada texto.

Mas não se engane o leitor, nem só de dramas vive o mundo e as cartas também soam engraçadas. Como a da mulher que escreve para seu demônio interior por querer livrar-se do “coisa-ruim” que ela sente existir e a atormenta. Bem divertido é ler a resposta do “coisa-ruim” para ela.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio do Museu Palacete das Artes
Data: 02/01/2016

domingo, 11 de outubro de 2015

O ESTRANGEIRO


Quando li O Estrangeiro pela primeira vez eu tinha vinte anos, era um ávido leitor por obras que mostrassem o caminho para o sentido da vida, e na época Albert Camus (1913-1960) já era considerado um autor controvertido, revoltado, existencialista, comunista e até um pouco reacionário. Confesso que sua obra me pareceu confusa, desprovida de sentimentos, e ao mesmo tempo muito visceral. Contraditória a percepção dos sentimentos por um jovem de vinte anos em 1983. Quando já tinha mais de quarenta anos reli a obra e percebi como é fantástica a sua narrativa e o quanto Mersault, o anti-herói de O Estrangeiro, personifica a busca pelo existencial, jogando fora o sentimentalismo e as tradições para ser ele mesmo, o ser sozinho.

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.’  Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

Esse é o primeiro parágrafo do livro, o protagonista recebe um comunicado sobre o falecimento de sua mãe, viaja para o enterro e durante a cerimônia não consegue expressar nenhuma emoção. O livro prossegue com os fatos seguintes de sua vida, ele conhece um dos vizinhos de nome Raymond e o ajuda a livrar-se de uma de suas amantes árabes. Ambos se encontram com o irmão da mulher “o árabe” e após uma briga Raymond é ferido. Meusault volta à praia e atira no árabe. Durante seu julgamento a acusação concentra-se no fato de Meusault não ter conseguido chorar no velório da mãe, acusando-o de ser incapaz de sentir remorsos e por isso deve ser condenado à morte para prevenir que mate outras pessoas e também para tornar-se um exemplo. Nas linhas finais Meursault reconhece sua insignificância perante a indiferença do universo em relação a ele, e deseja sentir-se menos só.

Estamos falando de uma obra escrita em 1942, mais de setenta anos depois de sua publicação ela consegue nos instigar e questionar. Até hoje é discutida por acadêmicos, assim como outros livros do autor: A Peste e A Queda, e as peças de teatro Calígula e Estado de Sítio.

E aqui faço outra confissão, vou precisar ler novamente esse livro quando estiver mais velho. Se der tempo de ler, e tomara que sim, já que tantos livros ainda esperam na estante por um pouco da minha atenção.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mezanino da G1 - Shopping Barra
Data: 02/01/2016

domingo, 4 de outubro de 2015

MORTE NO NILO


Em sua autobiografia Agatha Christie (1890-1976) nos conta que sua mãe, Clara, era uma mulher muito tímida que vivia à sombra do marido Frederick, um rico empresário que estava sempre viajando. Seus irmãos mais velhos tiveram uma educação formal, mas a caçula Agatha foi educada precocemente pela mãe que lia muitos livros para a filha, o que era uma distração para ambas. Entre seus autores preferidos estavam Charles Dickens, Alexandre Dumas e Jane Austen, tanto Aghata quanto Madge, sua irmã mais velha, adoravam histórias de detetives, não à toa a futura escritora leu a primeira história de Sherlock Holmes aos oito anos de idade e na mesma época passou a ler também as obras de Edgar Allan Poe.

Aos dezessete anos, após ler O Mistério do Quarto Amarelo de Gaston Leroux, Agatha diz para sua irmã que poderia escrever uma história de detetive e óbvio que a irmã duvidou. Agatha confessa que foi aí que a semente foi plantada, ela havia sido desafiada e atingida pela determinação de escrever histórias policiais. Em 56 anos de carreira publicou mais de 80 livros, fora as peças para o teatro e as adaptações cinematográficas e televisivas protagonizadas pelo detetive Hercule Poirot, seu personagem famoso pelo bordão do uso das ‘células cinzentas’, e Miss Marple, a solteirona que gostava de observar a natureza humana e assim conseguia desvendar os mistérios mais obscuros.

O livro Morte no Nilo foi publicado em 1937, conta a história de Linnet Ridgeway, jovem herdeira e inteligente que não pensou duas vezes ao roubar o noivo de sua melhor amiga e casar-se com ele. Mas talvez Linnet tivesse ido longe demais. Viajando em lua de mel num cruzeiro pelo rio Nilo é assassinada com um tiro na cabeça. O detetive Hercule Poirot, que por acaso também estava no navio gozando de merecidas férias, entra em ação para desvendar mais esse mistério e começa a montar um verdadeiro quebra-cabeças. Seria também por acaso que neste mesmo navio estavam viajando uma série de antagonistas interessados na fortuna de Linnet e em provocar sua infelicidade?

No post da semana passada falei sobre George Simenon, outro grande autor de livros policiais, mas não o compare com Agatha Christie, são estilos completamente diferentes que só enriquecem a nós, seus leitores.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento Perini - Graça
Data: 20/12/2015

domingo, 27 de setembro de 2015

MEU AMIGO MAIGRET


Era fevereiro do ano de 2010 quando resolvi criar um blog sobre literatura e fiz previamente uma seleção dos livros que pretendia escrever. Eu tinha acabado de mudar para um novo apartamento e percebi que na nova moradia não caberiam todos os livros que um dia embarquei de Salvador para São Paulo e agora, quase treze anos depois, fazia o caminho inverso com um volume muito maior. Como não queria simplesmente doar, ou vender para um sebo, a ideia de escrever sobre eles e depois abandonar pela cidade tomou forma e estamos aqui.

O quarto livro que abandonei foi A Velha Senhora cujo autor Georges Simenon (1903-1989) eu conheci de forma bem inusitada. Já contei essa história no post em questão mas vou repeti-la. Estava assistindo um capítulo da novela Brilhante (Globo – 1982) quando a personagem Chica Newman, interpretada pela Fernanda Montenegro, chique, refinada, rica e a vilã da história, está lendo um livro quando seu motorista Carlos, interpretado pelo Cláudio Marzo, entra na sala para avisa-la de alguma coisa e, percebendo o livro, comenta que também gosta do autor. Chica então elogia seu refinamento literário e a cena acaba com um olhar de admiração da patroa pelo motorista, não à toa havia uma química entre os dois que acabam juntos no último capítulo após a redenção da personagem e para espanto de muitos.

Curioso, fui atrás da obra de Simenon e li A Velha Senhora. Até hoje, volta e meia, leio um de seus mais de cem títulos escritos para o comissário Maigret quando quero dar um tempo na literatura contemporânea. Alternar esses tempos me enriquece profundamente. Meu Amigo Maigret foi escrito em 1949, mais de meio século depois a obra está intacta e Jules Maigret continua sendo meu anti-herói favorito. Antes de ser policial ele é uma pessoa comum, não há genialidade nos casos que desvenda, não há comportamentos excêntricos ou hábitos diferentes que o marcariam, não há golpes de mestre e nenhum raciocínio dedutivo espetacular, ele é um ser humano que busca compreender o que há de melhor e pior nos seus semelhantes investigados. O mérito da escrita de Simenon é que a obra não é concentrada o tempo todo na figura do comissário, deslocando a atenção para o contexto que está inserido.

Nesse livro o comissário depara-se com um crime que envolve antigos conhecidos seus, um homem e uma mulher, ex-marginais que ele ajudou no passado. Só que dessa vez a polícia vai designar um membro da Scotland Yard, Mr. Pyke, para acompanha-lo e conhecer seus métodos. Maigret vive uma saia justa porque não possui método algum de trabalho, como traduzir em teoria o que se passa no interior de um homem que nunca sabe como vai iniciar uma investigação. Como dizer ao colega que não é a polícia, nem o crime ou a solução deste, que o motiva e o impulsiona.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - 2o. andar
Data: 29/11/2015

domingo, 20 de setembro de 2015

LEILA DINIZ


Sou apenas Leila Diniz, qual é o problema?

Em março desse ano Leila Diniz completaria setenta anos. Eu tinha nove anos quando Leila morreu aos vinte e sete num acidente de avião na Índia. Pelo que me lembro da época já que as lembranças são bem poucas, não dei muita importância ao fato. Afinal eu era uma criança e a imagem daquela mulher grávida mostrando a barriga na praia me pareceu uma coisa normal e corriqueira. Mal sabia eu que isso foi um escândalo na época.

A gravidez é um negócio maravilhoso. Dá uma sensação de absoluto; a gente fica completa. Acho que o negócio máximo de ser fêmea é estar prenhe. É um negócio muito forte que o homem não entende. Eu tenho muita pena do homem que não pode ficar grávido.”

Descobri muitos anos depois que Leila era uma mulher como poucas. Libertária, gostava de viver de verdade e pautava seu dia pelo sol. Foi musa de Ipanema e madrinha da sua famosa banda no carnaval, também foi Rainha das Vedetes e Grávida do Ano, atriz, dona de loja, júri no programa Flávio Cavalcanti, foi perseguida pela repressão, censurada, suas falas eram mantras de uma geração que havia queimado o sutiã.

Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo.

Em 1984 quando li o volume da série Encanto Radical com sua sucinta biografia fiquei encantado e apaixonado por Leila, ela tinha conquistado o que muitos até hoje querem: fama, beleza não planejada, alegria de viver, ela tinha uma sinceridade contagiante, uma honestidade que beirava a ingenuidade e viveu sua curta vida com poucos artifícios. Foi invejada.

Não tenho preconceitos. Não faço sequer regimes.

Com exceção de Todas as Mulheres do Mundo, filme de Domingos de Oliveira que marcou sua carreira e elevou Leila ao patamar de ‘diva’, suas participações como atriz na TV ou no cinema foram mornas, Leila era uma persona e não uma personagem. Ao ler esse livro escrito pela Cláudia Cavalcanti sinto não ter vivido sua época, é como ter saudade de algo que você não viveu, mas consegue compreender sua essência.

Nem de amores eu morreria porque eu gosto mesmo é de viver de amores.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada do Teatro Gamboa Nova
Data: 24/10/2015

domingo, 13 de setembro de 2015

MOFOLÂNDIA


Gosto de dicionários, tenho muitos e de todos os tipos, gosto de consulta-los porque não confio cem por cento nos dicionários virtuais. Internet é papel em branco e aceita qualquer coisa, quando vira papel impresso tem outra conotação e ninguém em sã consciência imprime algo sem revisar ou verificar suas fontes. Tenho Aurélios em diversas edições, Houaiss, algumas versões do dicionário baianês, um dicionário só de termos de moda e outro de termos médicos, dicionários de bolso, de idiomas, e muitos almanaques. Também gosto muito de almanaques.

Não sabe o que é um Almanaque? Segundo o Houaiss “é um folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades, etc. Edição especial, mais volumosa, de revistas, de publicação esporádica ou periódica”. É uma boa definição para Mofolândia – O Almanaque dos anos 40, 50, 60, 70, 80, 90, compilado por Antonio Carlos Cabrera, que pretendo abandonar.

Se você gosta de um pouco de nostalgia então este é o almanaque certo, traz a relação dos programas de TV, seriados, desenhos, músicas, brinquedos, celebridades, novelas e tudo que embalou as décadas de 40 a 90 do século passado, com citações e curiosidades, fotos, ilustrações e muito humor. Como diria Cissa Guimarães quando o Vídeo Show era bom de assistir; “direto do túnel do tempo”, frase que já fazia uma alusão ao seriado Túnel do Tempo exibido pela Globo.

Mofolândia é fruto do site homônimo que abriga infinitas curiosidades, virou almanaque em 2005 e é uma delícia de leitura para os que viveram a época, como eu, e fonte de consulta para aqueles que não sabem como éramos ingênuos. Época que as meninas brincavam com Susi e os meninos com Falcon. Que ficávamos com medo cada vez que o Robô gritava “Perigo Will Robinson!” no seriado Perdidos no Espaço. Que muitos pediam uma Grapette e não uma Coca para acompanhar o misto quente. Que assistíamos Telecatch, o MMA dos anos 70 sem suor ou sangue e o lutador era obrigado a usar uma fantasia. Época que já tinha Topo Gigio, muito antes do Louro José. Que Boa Noite Cinderela era só um quadro do programa Silvio Santos que exibia as histórias das meninas que queriam ser a Cinderela da noite, a mais pobre sempre vencia e ganhava uma montanha de prêmios. Que estar na moda era usar uma bolsa a tiracolo e isso valia para homens e mulheres, assim como usar a famosa grife Hang Tem. Uma época que Os Trapalhões era um programa infantil de muito sucesso e tinha um personagem que vivia bêbado, eles faziam todas as piadas possíveis denegrindo gays, negros e nordestinos, e nós, ignorantes, riamos muito disso tudo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da capela N. S. do Resgate - Cabula
Data: 10/10/2015

domingo, 6 de setembro de 2015

UM DIA


Nunca tinha ouvido falar em David Nicholls (1966) até ler uma matéria no jornal sobre seu quarto livro, Nós. Nessa entrevista ele falava do retumbante sucesso de Um Dia, seu terceiro livro, lançado em 2009 e adaptado para o cinema em 2011 com Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis principais. Imediatamente fiz um retrospecto de onde eu estava em 2009 e em 2011 respectivamente para não ter sequer percebido o livro e principalmente o filme, porque gosto imensamente da Anne Hathaway. Depois de pensar um pouco e descobrir que eu não estava em Marte, me recolhi à insignificância do meu ser e entendi que não consigo saber 100% de tudo que acontece no mundo. Mas é possível correr atrás do prejuízo e então tratei de comprar o livro e saber que história é essa.

Um Dia parece, a princípio, ser um livro bobinho sobre o amor de dois jovens que, exatamente por serem jovens, não conseguem expressar o que sentem um pelo outro. Ela, Emma, mais centrada, preocupada com a sobrevivência, cheia de planos para o futuro, dispara uma pergunta para ele no primeiro dia que se conhecem e passam, sem sexo, a noite juntos: Como você acha que estará quando estiver com 40 anos? Ele, Dexter, mais indeciso, sem problemas financeiros, paradoxalmente seguro com todas as mulheres do mundo, mas, completamente inseguro ao lado de Emma, não sabe que resposta dar.

Nesta noite de 15 de julho de 1988, Em e Dex se conhecem na festa de formatura após passar todo o curso sabendo da existência um do outro sem se aproximar. Esse dia é a marca do livro. Data que definirá cada capítulo ao longo dos próximos vinte anos, quando ambos estarão na faixa dos quarenta, saberemos ano a ano como eles estão vivendo. O autor consegue a proeza de alternar no mesmo capítulo a visão de Emma, os sentimentos de Dexter e as descrições dos fatos pelo narrador onipresente sem que fique confuso. Sabemos exatamente os sentimentos de cada um, o que estão fazendo e o que não fizeram. Tantas coisas não ditas, atitudes não tomadas e outras pessoas envolvidas traçam a vida de dois jovens amigos... Não, é mais que isso, namorados... Também não, nunca foram oficialmente, melhores amigos... Talvez seja a descrição mais acertada, ou quem sabe... Feitos um para o outro. Você acredita nisso?

O fato é que me emocionei no final, sou um panaca que gosta de comédias românticas, canceriano incurável, e me peguei fazendo um retrospecto. Um dia escolhido nos últimos dez anos, lembrando o que estava fazendo e o que deixei de fazer, quem era importante, quem deixou de ser, e quem continua fazendo parte da minha insignificante existência. Vai tentar?

Agora que já li o livro, vou ver o filme.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco da Praça N. S. da Luz - Pituba
Data: 03/10/2015

domingo, 30 de agosto de 2015

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS


Fico cada vez mais feliz e ao mesmo tempo muito intrigado em saber como uma obra que foi escrita há 150 anos continue despertando os mais diversos interesses midiáticos. Eu particularmente gosto muito das obras cuja alcunha de “Clássico” surge assim que pronunciamos seu título. Mas não fico vivendo só do passado, tenho um olho que vê lá atrás e outro que vê o agora, e assim vou levando a vida com o máximo de referências que consigo. Antes de escrever esse post coloquei o título Alice no País das Maravilhas do Google e apareceram 430 mil verbetes em 0,34 segundos de pesquisa, sem contar o que aparece no final com o título de ‘Obras Relacionadas’, no Wikipédia foi igual, vários subtítulos e as chamadas “desambiguações”.

Seu autor, Lewis Carroll, pseudônimo utilizado por Charles Lutwidge Dodson (1832-1898), estava passeando num barco com sua amiga Alice Liddell, esta com 10 anos de idade, quando começou a inventar uma história para entreter a criança. Alice gostou tanto do que ouvia que pediu a Charles que escrevesse aquela história maluca. Assim nasce Alice’s Adventures Underground. Um ano depois ele refaz o manuscrito original, aumentando a história, e em 1865 publica pela primeira vez a história de Alice no País das Maravilhas, na nova versão incluiu dois personagens que se tornariam emblemáticos: o gato e o chapeleiro.

Conheci a história de Alice ainda criança através de uma coleção de discos de vinil coloridos, colocava-se na vitrola e as histórias eram narradas. Muito tempo depois ganhei uma coleção de livros em formato pocket lançados pela editora L&PM e lá estava Alice. O interessante desse livro é que dependendo da versão e da idade que você lê a obra, sua percepção sobre a história da menina Alice, que cai num buraco quando perseguia um coelho falante e se vê num mundo cheio de aventuras e desventuras, pode mudar radicalmente.

Em 2010, quando Tim Burton nos apresentou sua versão cinematográfica de Alice, coloridíssima e cheia de efeitos que só o cinema pode proporcionar, reli a obra na versão original e me apaixonei novamente por Alice, garota destemida e cheia de atitude. Só tenho medo que essa onda conservadora e politicamente correta venha por suas mãos nefastas sobre o texto como já andaram fazendo com a obra de Monteiro Lobato. Seria tristíssimo se a Rainha de Copas não pudesse mais gritar “Cortem-lhe a cabeça!”.

OBS: Na foto acima está a capa do primeiro exemplar publicado em 1865, no meio a capa do livro versão pocket que vou abandonar, e por último a versão pra lá de colorida que comprei para minha sobrinha-neta.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sorveteria A Cubana - Praça Municipal
Data: 26/09/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

O PRIMO BASÍLIO


Hoje acordei pensando num assunto que é recorrente entre meus amigos quando descobrem que sou um consumidor voraz de livros e escritor desse blog; como convencer alguém a ler uma obra já esmiuçada pela mídia e adaptada para outras artes? Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que não sou pastor da Igreja Livreira, se é que esse lugar existe, e não fico por aí pregando e enchendo o saco dos amigos para que eles leiam, leiam e leiam. Em segundo lugar quero deixar claro que não fico fazendo citações de livros em conversas informais, ou formais, com a pretensão de ser/parecer erudito ou culto. E por último, deixo claríssimo que não procuro convencer ninguém a nada, não sou o tipo de pessoa que quer ver no outro seu espelho.

Quando esse assunto vem à tona eu sempre tinha uma resposta pronta: ‘o livro é sempre melhor que o filme, a peça, a novela, etc.’ Mas depois de alguns exemplos como O Diabo Veste Prada, Budapeste, A Culpa é das Estrelas, Ensaio Sobre a Cegueira e outros, cujas versões cinematográficas ficaram melhores ou tão boas quanto o livro, eu parei de dizer isso. Hoje eu tenho outra resposta: Cada obra tem um impacto diferente nas pessoas, para alguns o livro é mais detalhista, para outros basta o filme ou a minissérie, o que importa é o conhecimento que essa experiência vai te trazer.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo quando assisti a minissérie O Primo Basílio em 1988. Não sei se foi o impacto da trama escrita por Gilberto Braga e Leonor Bassères, baseada no romance de Eça de Queirós (1845-1900), se foi o quarteto principal de atores cuja formação era Tony Ramos, Giulia Gam, Marcos Paulo e Marília Pêra, ou se foi a excelente reconstituição de época, cenário e figurinos sob a direção geral de Daniel Filho. O fato é que, no dia que ia ao ar o último capítulo eu comprei o livro, começava ali minha incursão pela obra o Eça de Queirós, que em algumas publicações aparece como Eça de Queiroz, quem puder explicar isso manda uma mensagem.

A obra, cuja primeira edição foi publicada em 1878, é atualíssima quando a vemos pelo prisma da vilania, da luta de classes, do subir a qualquer preço, e do preço que se paga pela traição. Não estou julgando Luísa por viver seu grande amor pelo primo Basílio durante as longas temporadas de tédio por causa das viagens constantes do seu marido Jorge, cidadão pacato, cumpridor das leis e inquestionavelmente apaixonado pela esposa. Não julgo Basílio, apesar da evidente dubiedade de caráter já estabelecida na primeira descrição do autor, e não julgo Juliana, a empregada vil, que rouba os sonhos românticos da sua patroa pelo simples fato de nunca ter sido amada.

Não vou recomendar a leitura do livro, não vou recomendar ver a minissérie que foi lançada recentemente em dvd, e nunca recomendarei ver o filme, apesar da boa atuação de Glória Pires no papel de Juliana. Assim como na música, algumas interpretações na TV ou no cinema são definitivas, não é possível cantar Atrás da Porta como Elis o fazia e, na minha mais humilde opinião, a Juliana que Eça de Queirós imaginou era a Marília Pêra.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Praça Castro Alves
Data: 26/09/2015