domingo, 30 de março de 2014

PORCOS COM ASAS


Eu não sou de falar palavrão, eles não fazem parte do meu cotidiano e não costumo me expressar com sua reles citação. Mas não me furto a dizê-los quando são necessários e geralmente o faço para mim mesmo, dando ênfase a um sentimento ou emoção. Não sou do tipo panfletário que para fazer-se ouvir deflagra uma lista de porr..., fdp, vá se f..., etc, etc, etc... Não quero reler os mais de cento e oitenta posts desse blog para ter certeza, mas acho que nunca os citei aqui. Também não quero ser um careta desmedido e não assumir que os palavrões fazem parte da minha vida, são poucos é verdade, mas eles estão aqui comigo.

Acabei de perceber que gastei o primeiro parágrafo do meu post falado sobre palavrões, não palavras grandes como “inconstitucionalissimamente”, mas aqueles chulos, de baixo calão. E antes que eu consuma o segundo parágrafo do post com eles vou apresentar o livro Porcos Com Asas, dos autores italianos Marco Radice e Lidia Ravera, publicado em sua primeira edição nos idos anos de 1976 que ainda continha um subtítulo pra lá de provocador “Diário sexo-político de dois adolescentes”. Mas vou logo avisando que, de política o livro trata muito pouco, são apenas nuances, a história de Rocco e Antonia é uma mistureba de amor, sexo, drogas e, porque não, muito rock n’ roll para acompanhar o panorama da época.

Esmiuçando bem o livro podemos facilmente notar que ele trata de conflitos vividos por dois adolescentes, conflitos de gerações, conflitos sexuais, conflitos entre irmãos, conflitos pessoais e até alguns conflitos existenciais, afinal um pouco de filosofia não faz mal a ninguém. Para a minha geração foi um livro transgressor, aos dezoito anos eu buscava conceitos sobre a vida e o livro ajudou em vários aspectos. Não havia internet para se pesquisar e as fontes de conhecimento eram os escritos. Uma geração depois viveu o boom de Confissões de Adolescentes que posteriormente se tornaria um filão editorial para os Diários de Tati e os mais diversos títulos publicados pela autora Thalita Rebouças, vertentes do seu Fala Sério!

Vale muito à pena ler Porcos Com Asas e perceber que de 1970 pra cá algumas questões foram emancipadas e outras continuam iguaizinhas. Mais de quarenta anos se passaram e nós continuamos basicamente com os mesmos dilemas.

E pra quem ficou curioso em saber por que comecei o post falando sobre palavrões, basta ler o primeiro parágrafo do livro, vocês vão entender.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sala de Arte Cine Vivo - Mesanino
Data: 01/05/2014

domingo, 23 de março de 2014

PONTO DE IMPACTO


Antes do estrondoso sucesso de O Código Da Vinci, Dan Brown (1964) já havia escrito três livros, o primeiro foi Fortaleza Digital, que já comentei aqui no blog no post divulgado em agosto de 2013. Depois publicou Anjos e Demônios, obra que deu a largada para as aventuras do simbolista Robert Langdon, ainda não comentado aqui no blog. Seu terceiro livro, para surpresa de muitos não tem nada a ver com Langdon, a exemplo de Fortaleza Digital a obra Ponto de Impacto é fruto de muita pesquisa e revela bastidores da Casa Branca e da NASA desconhecidos do grande público.

A história começa quando Rachel Sexton, analista do NRO – Escritório Nacional de Reconhecimento e filha do candidato da oposição na corrida presidencial dos EUA, é convocada para presenciar o resgate de uma incrível descoberta da NASA, um meteorito encontrado nas geleiras do Ártico que contém provas irrefutáveis da existência de vida extraterrestre. Para evitar especulações sobre a autenticidade da descoberta, além de Rachel, mais quatro renomados cientistas são enviados para as geleiras Miline, entre eles está o oceanógrafo e apresentador de TV Michael Tolland. Assim a NASA recuperaria sua credibilidade frente a população e abafaria os boatos contra sua eficiência e os gastos excessivos de dinheiro público.

Quando os cientistas começam a levantar suspeitas de fraude na descoberta do meteorito começam a ser caçados por uma equipe de assassinos profissionais controlados à distância por um inimigo poderoso que precisa elimina-los para resguardar um segredo devastador. A partir daí seremos tragados, isso mesmo, tragados pelo ritmo alucinante de um livro daqueles que você não consegue parar de ler.

Na minha mais modesta opinião as fugas lembram muito os filmes de 007, quase inverossímeis, mas plenamente justificadas pelo autor com bases científicas. Mesmo assim, para um leigo, quase irreais. A leitura vale a pena, os finais dos livros do Dan Brown são sempre surpreendentes e rocambolescos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Rampa de acesso ao Banco de Brasil - Ondina
Data: 26/04/2014

domingo, 16 de março de 2014

MORANGOS MOFADOS


Lembro-me perfeitamente quando li pela primeira vez a obra Morangos Mofados, escrita pelo Caio Fernando Abreu (1948 – 1996), era o volume de número cinco da série Cantadas Literárias da Editora Basiliense. Um projeto de literatura jovem, uma série de livros que começaram a ser publicados em 1981 com autores “marginais”, ou “marginalizados” pelas grandes editoras.

O diferencial de Caio Fernando Abreu deu-se sobre mim pelas inúmeras citações que o livro continha, isso me chamou à atenção porque vi naquele homem uma erudição que eu ainda não tinha, e através dele eu descobri outros autores de quem gosto muito até hoje. Ler Caio aos 19 anos foi uma experiência riquíssima, ele conseguia tratar de assuntos como; dor, fracasso, encontro, amor, esperança, com uma linguagem aberta, jovial, e ao mesmo tempo com a essência profunda dos sentimentos de qualquer ser humano.

Morangos Mofados é um livro de contos e é justamente aí o ganho para a minha geração, tão irrequieta como as de hoje. Começamos pelos pequenos textos e, uma vez apaixonados pela literatura, nos aventuramos mais tarde em livros com seiscentas páginas. Os contos de Morangos Mofados são agrupados em duas partes, além do conto final que dá título ao livro. A primeira parte “O Mofo” expõe com clareza a repressão à liberdade e nos leva aos sentimentos introspectivos. Fui impactado pelos contos: Os Sobreviventes, Terça-Feira Gorda e Eu, Tu, Ele. Na segunda parte, “Os Morangos”, vemos uma saída para aqueles traumas impostos pela família, sociedade, amigos, amores, e aí me reservo o direito de ressaltar: Sargento Garcia, Natureza Viva e Aqueles Dois.

Até hoje tenho fases da minha vida que procuro nos livros do Caio uma resposta, como se ele conversasse comigo e de alguma forma me desse respostas. Abaixo transcrevo um exemplo, mais atual impossível. Boa leitura.

“... as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra.”

Conto: Natureza Viva

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente à Reitoria da UFBA - Canela
Data: 25/04/2014

domingo, 9 de março de 2014

DIÁRIO DE UMA PAIXÃO


Quando Diário de Uma Paixão foi adaptado para o cinema eu fiz cara feia, dessas de menino pirracento quando não quer tomar banho. O filme é um típico ‘Sessão da Tarde’, mas uma coisa eu tenho de confessar, é um filme bem fiel ao livro. Uma história de amor, um amor tão forte e tão limpo que, de tão verdadeiro, vence o tempo e as intempéries da vida.

Nicholas Sparks (1965) não é um dos meus autores prediletos, daqueles como Dan Brown que espero avidamente o seu próximo lançamento, mas nunca me arrependi de ter lido um livro seu, varias vezes me emocionei com suas histórias por mais superficiais que elas sejam. Tanto que já escrevi aqui no blog resenhas de dois livros de sua autoria: Querido John e A Última Música. Na minha mais modesta opinião vejo-o repetindo uma fórmula já muito explorada desde os livretos da série Júlia, Sabrina e Bianca, que tanto li nos tempos de pouca grana e romantismo exacerbado.

Diário de uma Paixão tem o roteiro baseado em flashbacks e nos mostra as vidas de dois jovens que se conhecem em pleno verão num parque de diversões na Carolina do Sul. Mas quando o livro começa somos apresentados a um homem velho que vive num asilo por opção e uma senhora que está ali por causa de uma demência senil que afeta sua memória. Este homem velho passa os dias lendo para essa senhora capítulos de uma história que ele capta de um velho diário. Esse homem velho e essa senhora viveram uma história de amor, desde o parque de diversões até os dias atuais.

Na contracapa do livro há um depoimento que diz:

“Um livro para todos os que já amaram, foram amados, ou sonham em amar louca, verdadeira e profundamente. Depois de terminar este pequeno tesouro, mesmo os leitores mais cansados ficarão convencidos de que o amor eterno realmente existe.”

Você vai pagar pra ver? Ou melhor, vai ler pra ver?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Pátio do Teatro Martim Gonçalves - Escola de Teatro da UFBA
Data: 25/04/2014

domingo, 2 de março de 2014

ESCRITO NAS ESTRELAS


Sidney Sheldon (1917-2007) já estava com 75 anos quando escreveu Escrito Nas Estrelas, mais um daqueles romances que adoro, mistura de bom argumento, personagem principal carismática, inteligente e linda, roteiro que vai da pobreza à riqueza e passagens pelo mundo, enriquecendo o leitor por diversas vertentes.

Vamos conhecer a história de Lara Cameron, ela já era uma heroína desde os primórdios em sua vida miserável na cidadezinha de Glace Bay, inteligente e astuta, estava sempre prestando muita atenção nos hóspedes da pequena pousada que trabalhava. Graças a sua perspicácia conquistou a confiança de um grande empresário que mais tarde tornou-se o seu principal mentor na carreira meteórica de incorporadora imobiliária, até chegar aos inacreditáveis e luxuosos hotéis Cameron. Lara entrega-se pela primeira vez para um inescrupuloso empreiteiro que tentaria lhe passar a perna mais tarde deixando-a humilhada, mas ela vai conhecer o amor verdadeiro com o pianista Philip Adler e este pagará um preço alto por ter se apaixonado pela mulher mais poderosa dos EUA.

É um grande romance, como todos os aqueles que amo, cheio de reviravoltas e surpresas, bem no estilo de Sidney Sheldon, muitos críticos escreveram na época que se tratava do seu livro mais passional e eu, na minha mais humilde opinião, concordo plenamente. De todas as suas heroínas Lara sofre perdas irremediáveis tanto no campo profissional como no amoroso.

Depois da publicação de Escrito nas Estrelas o autor dedica-se mais a escrever livros infanto-juvenis do que aqueles que o consagrou, mas nunca perdeu a mão nos bons roteiros e argumentos precisos e diversificados. Só por curiosidade quatro livros já foram lançados, mesmo depois da sua morte em 2007 com a utilização de argumentos deixados por ele.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Oliva - Shopping Barra
Data: 20/04/2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

OS INTOCÁVEIS


Acho incrível quando uma vida se transforma em arte, e mais incrível ainda é quando o dono dessa vida não é um pintor, um músico ou um ator. Eliot Ness (1903-1957) era um policial, sério, simpático, que gostava de ópera e lia Shakespeare, líder de um grupo de agentes federais incorruptíveis que a lenda denominou de “intocáveis”, e foi responsável pela derrocada do poderoso gângster conhecido nos Estados Unidos como Al Capone.

Durante os anos entre 1920 e 1933 eram proibidos a produção e comércio de bebidas alcóolicas no EUA. Nessa época surgiram os grupos que vendiam gim e outras bebidas burlando a Lei Seca, esses produtos de qualidade duvidosa atingiam preços exorbitantes e despertavam a cobiça e o poder, além do enfrentamento público com a polícia. Al Capone, o senhor de Chicago, espalhou seu poder por todo o país e escreveu com sangue seu nome na história.

Eliot Ness é autor e personagem nessa história, ao lado de Oscar Fraley escreveu um livro contando sobre os contrabandos e o grupo de homens que lutou sem trégua para esmagar o império alcóolico, terminando assim com a capacidade dos gângsteres de pagar milhões de dólares em suborno e conseguindo informações que comprovavam a sonegação de impostos levando Al Capone para a prisão.

Os Intocáveis foi adaptado e virou uma série de TV de muito sucesso no período entre 1959 a 1963. Em 1987 Brian De Palma dirigiu um filme inspirado na série de TV, com Kevin Costner interpretando Eliot Nesse e Robert De Nito como Al Capone além de Sean Connery e Andy Garcia. Eliot Ness não viveu o sucesso, reza a lenda que morreu de ataque cardíaco com uma dívida de mais de nove mil dólares resultado de um investimento numa empresa de tintas que impediria a falsificação de cheques.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Louge entrada Shopping Barra
Data: 20/04/2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

FIM


Estava no shopping quando passei pela vitrine de uma livraria e no cume de uma pilha de livros lá estava um exemplar de FIM, sua autora: Fernanda Torres (1965). Um casal ao lado, também parado mirando a vitrine, comenta entre si: “Ué! Ela escreve?”. Ouvi aquela frase e pensei com meus botões, claro que ela escreve, com os pais que tem ela deve ter sido alfabetizada com textos de teatro. E ri sozinho. Entrei na livraria e adquiri meu exemplar antes que se esgotasse.

Entendo o casal, o grande público acostumou-se a ver Fernanda Torres no cinema, adoro Eu Sei Que Vou Te Amar, Casa da Areia e Saneamento Básico, O Filme, em paralelo houve algumas novelas não muito bem sucedidas e muitas participações especiais em diversos programas até o estouro da série Os Normais, que consolidou de vez sua veia cômico histriônica. Alguns conseguiram assistir seus trabalhos no teatro, eu vi quase tudo, senão tudo que ela fez, do fatídico The Flash and Crash Days até Orlando, Da Gaivota, 5 x Comédia e os ótimos Duas Mulheres e Um Cadáver e A Casa dos Budas Ditosos, adaptação do livro do João Ubaldo Ribeiro, obra que já falei aqui no blog. Aventurar-se na literatura seria quase que um passo adiante para uma cabeça tão fulgurante como a dela.

E, vamos combinar, ela arrasou no seu livro de estreia ao contar a saga dos cinco amigos: Álvaro, Silvio, Ribeiro, Neto e Ciro. O interessante é que todos nós, desde que nascemos, sabemos que o nosso fim é a morte, entretanto Fernanda cumpre magistralmente a saga de nos mostrar o fim de todos eles e como suas vidas foram entrelaçadas. O rabugento Álvaro, o permissivo Silvio, o atlético Ribeiro, o careta Neto e o conquistador Ciro e todas as mulheres e demais personagens que os permeiam, em maior ou menor grau de importância, todos terão um fim traçado pelos pensamentos ágeis, bem humorados e melancólicos de Fernanda.

Agora, se me permite caro leitor desse blog, vou dar-lhe um modestíssimo conselho: leia o livro duas vezes, seguidas, sem dar nem um dia de trégua entre o fim da primeira leitura e o início da próxima. E na segunda fez que o ler vá desenhando uma árvore entrelaçando todos os personagens e seus respectivos fins, descobrirás uma gama imensa de coisas novas e a engenhosidade que estava na cabeça privilegiada da autora.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus - Hospital da Cidade
Data: 12/04/2014

domingo, 9 de fevereiro de 2014

STORYNHAS


Já nem sei mais quando foi que Rita Lee (1947) entrou em minha vida, também não lembro qual foi a primeira música que ouvi ou o primeiro disco que comprei, entretanto sei perfeitamente que a “Tia” Rita, roqueira por profissão e filósofa por intuição, me encanta desde sempre por suas baladinhas rock românticas. Músicas como Lança Perfume, Mania de Você, Doce Vampiro, Baila Comigo, Caso Sério, Mutante, Cor-de-Rosa Choque, Vírus do Amor, Perto do Fogo e Amor e Sexo, embalaram momentos de amor e dor em diferentes fases da minha vida.

Quando “Tia” Rita foi escalada para o programa Saia Justa (GNT) me deliciei com seus pensamentos, frases, posturas, e a cada quarta feira aprendia coisas novas ensinadas de graça e com graça pela pessoa Rita Lee e não pelo personagem ou cantora. Admiro sua personalidade e principalmente o fato de que “Tia” Rita sempre esteve antenada com o novo, lembro perfeitamente que foi através dela que eu soube que a internet existia e fiquei curioso com a ferramenta, “Tia” Rita já navegava há tempos.

Também não foi surpresa quanto “Tia” Rita resolveu publicar seus pseudo devaneios escritos no Twitter e ainda chamou o cartunista Laerte para ilustrar suas Storynhas. É tudo muito Rita Lee, que surpreende e é ao mesmo tempo tão coerente. Pequenas pérolas de humor, narrativas cômicas, críticas, ácidas, melancólicas, doces, e sabe-se lá algumas até biográficas, em se tratando de “Tia” Rita nada é impossível.

Quem achar esse livro leia-o com graça e humor, aproveite para pensar, entender as mensagens subliminares e divirta-se com o traço tão precioso do Laerte. Mas não o deixe solto por aí, “Tia” Rita avisa: “Não é pra crianças, ein?...”

Antes de terminar o post segue um pitaco do livro para seu deleite.

Rebelada
Rapunzel ouve o príncipe pedindo
q jogue as tranças. Ela andava meio puta,
estava quase careca
“esse trepa-trepa c/ meu cabelo já deu no saco”
Joga-lhe uma carta desaforada. Ele vai embora e Rapunzel
corre ligar a tv no Shopping Channel. Compra um aparelho
p/ abdominais daquele médico d Hollywood e se torna
Miss CortiCorda. Descola uma peruca
preta com uma trança postiça d gosto duvidoso.
Ñ satisfeita c/ o resultado, Rapunzel passa máquina zero
e muda o nome. Under Sun Silva.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Café da Loja Kopenhagem - Shopping Barra
Data: 12/04/2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

DANIELA & MALU - UMA HISTÓRIA DE AMOR


Fazendo um breve retrospecto não posso deixar de afirmar que 2013 foi um ano gay, ou de maior visibilidade gay desde que me entendo por gente. Todos os manifestos, contra e a favor, pela indicação do Sr. Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, o personagem Félix da tosca novela Amor à Vida ultrapassou as barreiras das maldades cometidas, caiu no gosto popular e ganhou uma redenção com direito ao primeiro beijo gay nas telenovelas da Globo. Percebi que o personagem gay da trama tinha ganhado uma notoriedade diferente de todos os outros gays de novelas anteriores quando rapaz que faz a manutenção do ar condicionado daqui de casa me contou que no bairro dele a hora da novela era sagrada, que até o futebol da quadra parava e todo mundo ia pra casa ver o Félix.

Entre os dois fatos citados acima houve a revelação midiática da cantora Daniela Mercury que assumiu pelo Instagram seu romance com a jornalista Malu Verçosa. Corajosas essas meninas, lembrei de quando o cantor Edson Cordeiro assumiu publicamente sua homossexualidade e a MTV da época vetou seus clips, foi horrível. Várias entrevistas para a TV, rádio, capas e capas de revistas depois: Veja, Época, TPm, Caras, Contigo, etc... Elas resolvem contar sua versão da história num livro.

Ao acabar de ler a obra percebo claramente que o livro é da Malu, contando sua versão da história com foco somente no amor das duas e de como suas vidas foram afetadas por ele. Daniela faz participações no livro, mas não passa despercebida, são belos poemas e rabiscados relatos dos fatos vividos, também com foco no amor incondicional que nutre pela atual esposa. Começamos a conhecer os fatos a partir da viagem a Portugal quando, já namorando, tomam a decisão de não viver escondido e à mercê dos jornalistas de fofocas, e vamos até o casamento em grande estilo com direito a show particular, preparativos, vestidos de noiva e uma bela festa que, claro, foi capa da revista Caras.

Com exceção de um ou outro comentário sobre o preconceito e as questões gays, o relato de Malu é feito como num comercial de margarina, não sei se foi intencional das duas em publicar um livro brando, mas confesso que senti falta de mais profundidade e reflexões. Talvez para uma próxima publicação já que Malu escreve muito bem e narra tudo de forma muito eficiente.

É um livro que merece ser lido, e cada um que saiba o que fazer depois com as informações.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante RAMA - Barra
Data: 05/04/2014

domingo, 26 de janeiro de 2014

CINQUENTA TONS DE CINZA


Às vezes me considero um homem preconceituoso em relação aos livros, quando todo mundo lê e comenta uma obra eu a renego, e nem adianta perguntar por quê. Tem algo do James Baldwin em mim, no post Giovanni de 17/11/2013 escrevi sobre esse autor que numa entrevista disse: “Li realmente tudo que me caiu nas mãos, com exceção da Bíblia, talvez porque era o único livro que me diziam que lesse”. Isso aconteceu comigo em relação a vários autores, depois que a febre inicial passa eu acabo cedendo e lendo a obra, em alguns casos me arrependi pela demora e o atraso na leitura.

Um caso clássico de renegação total foi Cinquenta Tons de Cinza da escritora E. L. James (1963), virou um best seller midiático muito rápido apesar da publicação fragmentada em três livros ao invés de um só. Um ano e meio se passou desde o lançamento e eu ouvindo todos os tipos de suspiros femininos, e masculinos, enquanto devoravam a linhas escritas pela autora. Ele lindo, Ela linda, Ele riquíssimo, Ela virgem, Ele não gosta do sexo “baunilha”, Ela reluta, mas no fundo gosta das brincadeirinhas sexuais fora do padrão, Ele a apresenta ao mundo, Ela o envolve querendo amor, Ele não é do tipo que vai mudar facilmente, afinal tem um passado obscuro, e Ela, como toda mulher, tem certeza de que vai modificar o homem pelo qual se apaixonou. É claro que esse mix nos abocanha e faz aflorar todo o romantismo que escondemos até de nós mesmos.

Mas não esqueçamos que trata-se de uma obra de ficção, e vai virar filme em breve para deixar nossos hormônios sexuais mais aflorados do que nunca, e apesar da autora ter uma linguagem fácil, muitas vezes com situações que de tão irreais mais parecem um capítulo de qualquer novela da Glória Perez, não posso negar que adorei os e-mails trocados entre Anastacia Steele e Christian Gray, são espirituosos, engraçados, com um tipo de humor cínico que muito aprecio e que é difícil conseguir passar para o papel, isso sem falar nas participações especiais do ‘Inconsciente’ e da ‘Deusa Interior’.

Para a inquisição de plantão, é um belo estudo de como hoje em dia as pessoas não conseguem falar umas com as outras olho no olho quando o assunto é sentimento, e, ao escrever um e-mail, torpedo, SMS, a coragem aparece.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Hotel Catarina Paraguassu - Rio Vermelho
Data: 30/03/2014