terça-feira, 31 de agosto de 2010

O CORTIÇO


Muitos críticos dizem que o personagem principal desta obra prima de Aluísio de Azevedo não é de carne e osso, nem mesmo quando lemos toda a saga de João Romão, português bronco, ambicioso e trambiqueiro, que dorme do balcão da quitanda e come as verduras que estão por apodrecer para não gastar um centavo do que ganha, e que se apropria dos poucos recursos da escrava Bertoleza até construir suas casinhas e dar início a sua escalada para a riqueza. A negra também não serve como heroína, apesar do final primoroso do personagem, bem no estilo naturalista do autor, e nem a sensual Rita Baiana e o seu trágico e tórrido romance com Jeronimo, português recém chegado que larga descaradamente a esposa, foge com Rita e ainda manda matar a pauladas o companheiro dela. Também não é protagonista a história de Pombinha, afilhada da prostituta Leone, moça virgem e prometida a João da Costa, a única que sabe da vida de todos, por ser uma das poucas alfabetizadas dedica-se a ler e escrever cartas para os vizinhos, tomando consciência das mazelas e da podridão humana. Temos também as histórias de Albino, Machona, seu Botelho, Neném e outros. Chegamos então à conclusão de que a vida contada no livro é a do próprio Cortiço, eleito personagem principal da obra, e não de seu dono ou de qualquer um de seus infelizes moradores. Vale a leitura, é um clássico, pena que é um livro muito recomendado em vestibulares e por professores do segundo grau, e, convenhamos, nessa época não temos maturidade para perceber as linhas naturalistas de Aluísio de Azevedo e todas as suas nuances.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Supermercado Hiper Ideal - Barra
Data: 20/11/2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS


Vamos falar de um bestseller internacional, um clássico da literatura latino americana, aclamado pela crítica e transformado num belo filme recheado de estrelas internacionais como Meryl Streep, Jeremy Irons, Glenn Close, Winona Ryder e Antonio Banderas. A autora, Isabel Allende, conta a saga da numerosa e turbulenta família Trueba, com seu patriarca angustiado e suas mulheres clarividentes. O livro é uma grande saga e poderia ser um livro infinito, com muitos e muitos volumes, em virtude da narrativa vertiginosa que Isabel imprime e que parece alimentar-se de si mesma a cada nova geração que surge, cada casamento, filhos, netos e por ai vai. Mas não se espante, nesta edição com capa dura que abandono, o livro tem pouco mais de 360 páginas.
Lançado em 1982 o livro tem um toque de realismo fantástico, típico da escrita de Isabel Allende, e para quem não está ligando o nome a pessoa, ela é sobrinha do ex-presidente chileno Salvador Allende, e talvez por isso consiga imprimir como pano de fundo um panorama da história chilena que vai de 1905 até 1975, são quatro gerações da família Trueba que começa por Esteban Trueba, nasceu pobre e enriqueceu, transformou-se num latifundiário e depois senador, casa-se com Clara, uma mulher clarividente e responsável por passagens maravilhosas no livro, Blanca, filha do casal que apaixona-se por um sindicalista radical e Alba, neta de Esteban, socialista e, portanto, adversária do patriarca. Um novelão!
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Supermercado Extra - Vasco da Gama
Data: 06/11/2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA


Acusado por Ângela Vicário de tê-la desonrado, o jovem Santiago Nasar será morto a facadas pelos irmãos dela, os gêmeos Pedro e Pablo. Toda a vila está sabendo da vingança iminente, mas nada salvará Santiago de seu trágico destino anunciado logo à primeira linha do romance. Este é um livro curto, de construção perfeita, e o Gabriel García Márquez monta um quebra-cabeça cujas peças vão se encaixando pouco a pouco, através da superposição das versões de testemunhas que estiveram próximas a Santiago Nasar no último dia de sua vida.
Pelo fato de revelar logo na primeira linha que Santiago vai morrer o autor tem um desafio de nos manter interessados nestas últimas horas de vida do personagem. O que dota o livro de uma grandeza trágica é que o narrador adverte, e faz isso de forma contínua, que os assassinos não querem matar Santiago, embora tenham de fazê-lo, que toda a vila sabe o que vai acontecer, mas não faz nada para impedir, e a vítima é o único inocente na história.
García Márquez é um mestre em conduzir um relato só com a força das palavras, já que o leitor sabe como o livro termina e mesmo assim não consegue deixar de ler. Ele nos instiga a saber como o fato vai ocorrer, como se estivéssemos num imenso Big Brother embora o ano de lançamento seja 1981 e nem sonhávamos com esse jogo midiático. Com o tempo percebemos que a “fatalidade” é a personagem central do romance, uma personagem indiscutida, se é que existe essa palavra, mas que comanda a vida dos homens, nos livros ou na vida.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Almeida Couto - Praça da Biblioteca Monteiro Lobato
Data: 11/10/2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

MUTAÇÕES


Liv Ullmann é uma atriz, a meu ver uma boa atriz, é muito bom vê-la em filmes como Cenas de um Casamento, Gritos e Sussurros e principalmente Sonata de Outono.
Mas Liv Ullmann também é uma escritora; Mutações (1975) e Opções (1985). Estou abandonando Mutações, um livro pessoalíssimo, que ela escreve com total e tocante honestidade a respeito de ser mulher, mãe e atriz, a pessoa que aparece é uma mulher complexa, irrequieta, para a qual somos atraídos pelos seus relatos e pensamentos. Ela nos deixa entrar em seu mundo e em seus sentimentos, e nos mostra momentos cruciais de sua vida, expondo suas idéias e emoções.
Vejam aqui um trecho que está na página 12 do livro, logo no início ela já revela o que nos espera.
“Examinando, retrospectivamente, o que lembro dos meus sonhos de infância, vejo que se parecem com muitos que ainda tenho, mas não vivo mais como se eles fossem parte da realidade.”
Mutações é quase uma autobiografia, já que não há como saber o que é ficção e o que é realidade, um livro incomum porque não depende da celebridade da autora para demonstrar sua força.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Magalhães Neto - Praça do Coco Bahia
Data: 17/10/2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

PRIMO ALTAMIRANDO E ELAS


Sérgio Marcos Rangel Porto era o cidadão, Stanislaw Ponte Preta era o pseudônimo usado por Sérgio para escrever suas crônicas em jornais e revistas (Última Hora, Manchete, Fatos e Fotos), desfilar seu humor em programas de TV e rádio, escrever livros e peças de teatro. Com seu jeito irônico e muito bem humorado Stanislaw era um mestre das comparações enfáticas:

"Mais assanhado do que bode velho no cercado das cabritas"
"Mais duro do que nádega de estátua"
"Mais feia do que mudança de pobre"
"Mais murcho do que boca de velha"

Na mesma época (1954) em que o jornalista Jacinto de Thormes publicou na revista Manchete a lista das "Mulheres Mais Bem Vestidas do Ano", Stanislaw, que escrevia na mesma revista sobre teatro-rebolado, não quis ficar por baixo e inventou a lista das "Mulheres Mais Bem Despidas do Ano". Com o protesto das mães das vedetes, passou a usar uma expressão ouvida de seu pai — "Olha só que moça mais certa" a partir daí estavam criadas as "certinhas" do Lalau. De 1954 a 1968 foram 142 as selecionadas. Dentre elas, cito aqui Aizita Nascimento, Betty Faria, Brigitte Blair, Carmen Verônica, Íris Bruzzi, Mara Rúbia, Miriam Pérsia, Norma Bengell, Sônia Mamede e Virgínia Lane.
Criador do FEBEAPA – Festival de Besteiras que Assola o País, que tinha como característica divulgar notas jornalísticas como sendo um fato sério, noticiou certa vez a decisão da ditadura militar de mandar prender o autor grego Sófocles, que já tinha morrido há séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça de sua autoria encenada na ocasião. Coisas que o Casseta e Planeta faz hoje no seu programa da Globo.
O livro abandonado foi escrito em 1962, são crônicas e histórias sobre o tal Primo Altamirando, personagem sem nenhum caráter, mas com muita irreverência, assim como a Tia Zulmira e também o Rosamundo, outros personagens conhecidos do autor por seu humor refinado e sua crítica mordaz aos costumes. Falecido em 1968 aos 45 anos Sergio/Stanislaw ainda é um dos grandes escritores brasileiros de humor.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Unibanco de Cinema
Data: 12/10/2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

UM SOPRO DE VIDA


“Ângela – Estou sofrendo de amor feliz. Só aparentemente é que isso é contraditório. Quando se sente amor, tem-se uma funda ansiedade. É como se eu risse e chorasse ao mesmo tempo. Sem falar no medo que essa felicidade não dure.”

O texto acima está na página 66 do livro Um Sopro de Vida (Pulsações), que foi iniciado em 1974 e só concluído em 1977, às vésperas da morte de sua autora, Clarice Lispector, portanto publicado postumamente. Muitos disseram que esse livro seria o definitivo, ou que foi escrito em momentos de agonia, mas simultaneamente a ele a autora escreveu A Hora da Estrela, seu livro mais famoso cuja publicação se deu com Clarice ainda viva.
Sem querer comparar e já o fazendo, lógico, as densidades dos dois livros são parecidas, A Hora da Estrela é visivelmente anárquico e por vezes debochado, já que temos uma versão para o cinema brilhantemente interpretado pela atriz Marcélia Cartaxo e dirigido pela Susana Amaral. Um Sopro de Vida é também anárquico, literal, e por vezes sucumbe ao que facilmente chamaríamos de depressivo, mas que é, de fato, um livro introspectivo, cheio de labirintos emocionais que nos joga na cara, sem pena, os pensamentos impensáveis.

Para entender o melhor de Clarice Lispector comece lendo Perto do Coração Selvagem (1944), passe por A Paixão Segundo G.H. (1964), siga sua rota com A Hora da Estrela (1977), vá a frente com A Descoberta do Mundo (coletâneas de textos publicados em jornal – póstumo – 1984), volte no tempo e termine com Um Sopro de Vida (1978), verás então que mulher maravilhosa, lúcida e tão a frente do seu tempo era Clarice
Diz a lenda que A Descoberta do Mundo era o livro predileto de Cazuza e não é à toa que um querido e talentoso amigo Roberto Camargo tem uma foto dela na parede da sua casa.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge em frente a Etna
Data: 22/08/2010

sábado, 19 de junho de 2010

ANARQUISTAS GRAÇAS A DEUS


Publicado em 1979, foi o primeiro livro de Zélia Gattai (1916-2008), que lhe valeu o Prêmio Paulista de Revelação Literária do mesmo ano. Até então conhecida apenas como a esposa de Jorge Amado, Zélia tinha 63 anos quando começou a escrever suas histórias, a princípio somente lembranças de uma infância e adolescência ricas em acontecimentos, narrando o cotidiano das famílias dos imigrantes italianos daquela época, em São Paulo, na primeira metade do século XX. A vida que decorre, os pequenos incidentes, os grandes eventos, as dificuldades, a luta, os ideais, os sonhos, a indomável coragem de um povo que abandonou seu país para viver numa outra terra, a determinação de seu Ernesto e a paixão pelos automóveis, a convivência diária com os irmãos e sua mãe, dona Angelina, os sábios conselhos da babá Maria Negra, as idas ao cinema, ao circo e à escola, as viagens em grupo, o avanço da cidade e da política. Nestas crônicas familiares, vida e imaginação se embaralham, acompanhando um Brasil que se moderniza sem, contudo, perder a simplicidade no escrever.
É um livro de leitura leve e despretensiosa com flashes da São Paulo antiga e do modo de vida dos imigrantes. Você começa a ler, quando percebe já está na metade e num piscar de olhos o livro acaba. O livro que abandono é de capa dura, fruto da edição impecável do Círculo do Livro, alguém aí sabe se ainda existe o Círculo do Livro? Tô velho!
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Hospital Aliança
Data: 25/07/2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

STELLA MANHATTAN


“Stella Manhattan é um romance de aspectos múltiplos. Combina a discussão de idéias com uma narrativa ágil. Vai do símbolo político à dramatização dos costumes sexuais.” É isso que está escrito na contra capa do livro, e eu confesso a vocês, é a mais pura verdade. Quando foi publicado pela primeira vez em 1985, Stella Manhattan foi muito elogiado pelos críticos dos principais jornais e revistas brasileiros na época. Também foi tema de tese de mestrado e doutorado na UFF, PUC Rio, USP e até na Universidade de Pittsburgh, foi traduzido para o inglês e publicado também na França. Ler Stella Manhattan hoje é apreciar uma performance do que aconteceu no Brasil nas décadas de 60/70. O pano de fundo é a cidade de Nova York e o núcleo central é um grupo de exilados brasileiros que se transfere para a ilha de Manhattan a fim de planejar um golpe contra o adido militar sediado no Consulado Brasileiro, que, ligado aos militares responsáveis pelo golpe de 64, mantém uma identidade secreta. Com base nesta trama, que é pura ficção, Silviano constrói um romance, articulando um jogo entre aparência e realidade, entre público e privado, opressão e liberação. Um bom exemplo de literatura brasileira pós golpe.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sala de Arte - Cinema da UFBA
Data: 24/06/2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O DIÁRIO DE UM MAGO


Paulo Coelho é hoje um dos escritores mais lidos no mundo, dizem que um livro seu é vendido a cada duas horas em todo o planeta, será? Balelas à parte, porque a afirmação acima me parece mais release de editora querendo faturar do que informação confirmada, ele carrega uma polêmica desde que se tornou famoso, e muito rico, Paulo Coelho é amo-o ou odeio-o. O interessante é que as pessoas que o amam e lêem todos os seus livros não conseguem justificar esse amor de uma forma consistente, e o mesmo acontece com quem o odeia, já conversei com pessoas que o detestam sem nunca ter lido um só livro de sua autoria. Seria rancor porque ele é um escritor bem sucedido, ou porque escreve sobre magias, bruxarias, demônios, assuntos polêmicos para uma mesa de bar ou um almoço entre amigos.
Mas o fato é que, na minha modestíssima opinião, O Diário de um Mago é um livro interessante, quando o li, e isso foi no início de 1990, Paulo Coelho não era a pessoa pública que é hoje, não tinha entrado para a Academia Brasileira de Letras e também não tinha mostrado sua cara na revista Caras, era apenas um escritor que relatava uma experiência pessoal, cujos embates entre sagrado e profano, magia e realidade, deixavam no leitor uma herança de acontecimentos fantásticos e uma curiosidade sobre o tal caminho. Depois que o livro virou uma febre e o caminho um lugar turístico, onde as pessoas buscam uma “revelação”, conheci muitas que foram fazer a tal caminhada. A mais divulgada na mídia foi a Baby Consuelo, atual Baby do Brasil, que em entrevista jurou ter sido amparada pela atriz Shirley MacLaine com um spray mágico para curar os calos nos pés. Também tenho uma amiga chamada Maria, não vou colocar o sobrenome aqui mas quando ler esse post ela saberá que é ela, que fez o caminho, ou parte dele, e disse para mim que adorou tudo, mas que voltando a Madrid procurou logo um cabeleireiro para se tornar gente outra vez.
Tirei do livro um trecho para encerrar o post, está na página 154 da edição que vou abandonar, que diz: “Da mesma forma, um discípulo nunca pode imitar os passos do seu guia. Porque cada um tem uma maneira de ver a vida, de conviver com as dificuldades e com as conquistas. Ensinar é mostrar que é possível. Aprender é tornar possível para si mesmo.”
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Sala de Arte - Cinema do Museu
Data: 06/06/2010

domingo, 16 de maio de 2010

TEOREMA


Em Milão a vida de uma família burguesa é totalmente modificada por um misterioso visitante, esta não é uma história realista, mas uma parábola, os capítulos são cenas e estas se encadeiam como se fossem um filme, e é também um filme, com direção do próprio autor, Pier Paolo Pasolini. O livro/filme mostra o cotidiano e a transformação das relações dentro da família. A princípio sentimos uma inércia no ar, um marasmo, uma falsa estabilidade que é quebrada com a chegada de um visitante, um jovem belo, culto e sedutor. As insatisfações, angústias, e os sentimentos dos membros da família serão desvendados a medida que o jovem visitante, cujo nome não é revelado, irá se relacionar com cada um deles. Os desejos sufocados aparecerão gradualmente e farão uma revolução na pacata vida familiar. A primeira a ser seduzida é a empregada, depois o filho, a mãe, a filha e finalmente o pai. Quando se dá o fim da estadia e o jovem visitante vai embora, inicia-se a segunda parte da trama com a completa ruptura de toda a estrutura que unia aquela família. Ninguém consegue continuar vivendo da mesma forma, cada um deles reage de um jeito: do abandono da subserviência até a busca da liberdade sexual, da descoberta da homossexualidade à catarse de despir-se de todas as amarras, objetos e valores sociais, em busca de si próprio. Pasolini não entra na vida das pessoas de forma inócua, utiliza-se de estratagemas, da sexualidade, do tom repressor da civilização em busca de uma possível instauração do novo, estaria ele certo ou errado? É ler e apostar na transformação ou não dos seus valores sociais.
Cidade do abandono: São Paulo/SP
Local: Linha de Ônibus Aclimação
Data: 12/07/2010