domingo, 10 de abril de 2016

ROMEU E JULIETA


Quando escrevi o post sobre Ricardo III em julho de 2015 fiz uma retrospectiva sobre a entrada de William Shakespeare (1564-1616) em minha vida e falei muito sobre como o teatro funcionou para o entendimento da obra. Lembro que o espetáculo Romeu e Julieta apresentado durante 13 anos pelo Grupo Galpão me fez chorar por causa do lirismo da encenação, embora, mesmo sem ter lido o livro, eu já soubesse do que se tratava e qual seria o final da história. Acredito que 99% dos seres humanos sabem esse enredo, mesmo que nunca tenham lido o livro ou assistido uma versão para o teatro, cinema ou TV.

Em Verona, Itália, pelos idos anos 1600, duas famílias, Capuletos e Montecchios, se odeiam ao ponto de ter a cidade onde moravam completamente dividida. Romeu Montecchio conhece Julieta Capuleto numa festa e é fisgado definitivamente pelo amor romântico plenamente correspondido. Na mesma noite Romeu pula o muro da mansão inimiga para revelar seu amor por Julieta, é aí que acontece a famosa cena da varanda e os versos de amor que serão repetidos para todo o sempre. Decididos a casar-se em segredo por causa da inimizade entre suas famílias os jovens buscam o apoio do Frei Lourenço, peça fundamental nessa trama que acabará na tragédia mais conhecida do mundo, só perdendo para a crucificação de Jesus.

Essa obra irá influenciar inúmeras versões para os mais variados gostos e estilos, fiz uma busca no Google sobre sua correlação com o cinema e encontrei desde versões teatralizadas como as dirigidas por George Cukor – 1936 e Franco Zeffirelli - 1968 até as mais modernosas como Romeu + Julieta de Baz Luhrmann – 1997 (no meu conceito a melhor) e a versão para a TV de Carlo Carlei de 2013, passando por aquelas que fazem uma analogia à obra original como West Side Story de 1961 e a nacional O Casamento de Romeu e Julieta dirigida pelo Bruno Barreto em 2005. Temos também as versões de animação como Monica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta de 1979 e a esquisita Gnomeu e Julieta de 2011. Sem deixar de fora o filme Romeu Tem Que Morrer dirigido pelo Andrzei Bartkowiak em 2000, muita ação e pouco contexto literário. Claro que não posso esquecer a citação no filme chanchada Carnaval no Fogo – 1949, a paródia da cena do balcão com Oscarito interpretando Romeu e Grande Otelo como Julieta é impagável.

O livro que vou abandonar tem uma tradução primorosa de Heliodora Carneiro de Mendonça (1923-2015), mas conhecida como Barbara Heliodora, professora, escritora, tradutora e ferrenha crítica de teatro. Foi a maior autoridade brasileira sobre a obra de Shakespeare. Portanto prepare-se.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Banco do jardim na entrada da Escola de Teatro da UFBa.
Data: 29/04/2016

domingo, 3 de abril de 2016

A DEUSA CEGA


Quando trabalhava no Café Teatro Rubi sempre havia um hiato entre a passagem de luz do show ou peça de teatro e a efetiva realização do mesmo. Um espaço de tempo de mais ou menos noventa minutos entre os ajustes finais e a abertura da cortina. Eu ocupava esse tempo conversando com os colegas e também lendo, claro. Desde a adolescência que me faço acompanhar de um livro quando vou a algum lugar e desfruto do tempo a meu favor. Já revelei esse fato algumas vezes aqui no blog. Numa dessas esperas a diretora de teatro e grande mestra Hebe Alves me encontrou lendo num canto e surpreendeu-se, sem querer desmerecer os demais colegas técnicos de luz ou som, mas tenho de concordar que a leitura não é um hábito da classe técnica.

Começamos a conversar e ela me contou sobre sua predileção por livros com histórias de crimes e suspense e então me fez anotar o nome Anne Holt (1958) para que pudesse pesquisar sua obra. Não sou um aficionado por esse tipo de literatura, mas histórias são histórias e é delas que gosto. Pesquisei a autora e descobri uma série de livros publicados, desde 1993, dedicados ao crime e a resolução deles pela inspetora de polícia Hanne Wilhelmsen. Resolvi começar com o primeiro, A Deusa Cega.

A história começa num passeio matinal da advogada Karen Borg com o seu cachorro que é interrompido pela descoberta de um corpo desfigurado jogado num canteiro de plantas. Em seguida Hakon Sand, seu ex-colega de curso e ex-melhor amigo, que agora trabalha como assistente da promotoria de Oslo, a chama para defender o assassino que foi preso vagando todo ensanguentado pelas ruas. Em seguida um advogado é assassinado de forma fria e cruel com um tiro no rosto. Os crimes não parecem ter relação até a chegada da inspetora Hanne Wilhelmsen que tem a intuição de que algo grande está para acontecer e começa uma investigação em parceira com Hakon.

Prepare-se porque a autora gosta de nos ver sofrer, ela antecipa acontecimentos para que fiquemos curiosos em saber como isso irá se desenrolar, escreve capítulos curtos e explicativos dos fatos passados e nos instiga a querer mais e mais. Rapidinho as 342 páginas serão consumidas avidamente pelos leitores mais afoitos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada do Teatro Jorge Amado
Data: 28/04/2016

domingo, 27 de março de 2016

O ROMANCE D'A PEDRA DO REINO


Tive a oportunidade de ouvir Ariano Suassuna (1927-2014) numa palestra pouco antes do seu falecimento e me emocionei ao ver aquele senhor ser conduzido por um acompanhante até a cadeira no centro do palco, após sentar-se, humildemente agradeceu às mil e quinhentas pessoas que foram ouvi-lo dizendo: “Obrigado por vocês terem vindo, se fosse eu não viria, ficaria em casa vendo a novela que tá muito boa.” A plateia explodiu em gargalhadas e eu secretamente contive as lágrimas que enchiam meus olhos. Acho sensacional quando temos a oportunidade de ouvir uma pessoa que permeou nossa vida, mesmo que longinquamente.

A primeira vez que li O Auto da Compadecida tinha treze anos, leitura obrigatória por causa de um trabalho na escola, eu não consegui perceber a dimensão da importância de Ariano e nem sequer gostei do livro. Achei por demais fantasioso e de vocabulário rebuscado até para mim, nordestino que sou, acostumado com o palavreado do sertão. Anos depois e já envolvido no universo literário comprei através do Círculo do Livro a obra O Romance D’a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, título completo, publicado pela primeira vez em 1971. Nessa edição de capa dura a obra possui 642 páginas e eu tenho que confessar que não consegui ler até o fim, o livro amargou anos com o marcador na página 331 até que em 2007 a rede Globo anunciou a adaptação da obra para uma microssérie dirigida pelo Luiz Fernando Carvalho. Me empolguei em recomeçar a leitura e dessa vez fui até o fim.

A história de Dom Pedro Diniz Quaderna não é contada linearmente, são histórias dentro das histórias que, por sua vez, migram para outras histórias e voltam para história anterior que liga tudo num romance que não é romance. Não pode ser categorizado de forma tão simplista. É também uma novela de cavalaria, música de cordel, epopeia de amor, ódio e sangue. É também comédia, há trechos bem engraçados nas discussões entre o fidalgo Samuel e o tapuia Clemente, e é claro que temos um pouco de picardia e tragédia nessa família cuja história nasce na cidade de São José do Belmonte, fruto da mente genial de Ariano.

No prefácio, escrito por Rachel de Queiroz, você tem uma boa dica para ler o livro até o fim. Ela diz: "Ler livro escrito por um erudito é o diabo. Ou você eleva seu pensamento ao nível do visionário e delirante Quaderna (e da genialidade de seu autor), ou deixará a leitura inacabada." E eu, na minha infinita insignificância, lhes dou outra dica: não é um livro para ler às pressas ou de qualquer jeito. É uma obra que exigirá tempo, e não só o tempo traduzido em número de horas de leitura, mas o tempo de decifrar as palavras, entender o seu contexto e entregar-se ao mundo mágico de Ariano Suassuna.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Doces Sonhos - Pituba - Mesa 3
Data: 23/04/2016

domingo, 20 de março de 2016

O MÉDICO E O MONSTRO


Não faço questão de assistir a filmes de terror, é uma categoria que me interessa muito pouco com exceção de alguns clássicos como Psicose, O Exorcista, O Iluminado e outros poucos escolhidos a dedo. Tenho pela convicção de que três livros publicados no século 19 foram fundamentais para esse gênero: Frankenstein (1818), O Médico e o Monstro (1886) e Drácula (1897), foram os primeiros a falar no assunto que originou inúmeras obras relacionadas. Não posso afirmar com certeza absoluta, mas posso dizer em licença poética que foram esses livros os inspiradores de tudo que existe hoje.

O Médico e o Monstro é o meu preferido, o primeiro livro nessa categoria que li quando tinha entre 12 e 13 anos e buscava outras leituras que não fossem os gibis, confesso que o fato de ter apenas 85 páginas foi fundamental para a escolha. Para quem estava acostumado às aventuras de Mickey, a história de Robert Louis Stevenson (1850-1894) foi lida sob tensão e vários aspectos da dupla personalidade do Dr. Jekll/Mr. Hyde não foram compreendidos por mim na época.

Tudo começa com quando o advogado, Mr. Utterson, ouve a história sobre um homem sinistro chamado Mr. Hyde que estava rondando a cidade e lembra imediatamente que seu amigo, Dr. Jekll, havia redigido seu testamento deixando todos os bens para essa pessoa. Mr. Utterson não desconfia que o Dr. Jekll havia descoberto uma beberagem capaz de fazer o desdobramento da personalidade de uma pessoa comum em seus lados bom e mau, com efeito psicológico e também físico. A história é tão bem escrita e seu final é tão amarrado que se tornou um clássico do gênero terror e mistério.

Nos dias de hoje é tão comum livros sobre seriais killers, monstros e vampiros, as séries com zumbis se proliferam feito ervas daninhas na TV e no cinema. Recentemente lançaram um filme que me fez estremecer todos os fios de cabelo que ainda me restam na cabeça; ‘Orgulho e Preconceito e Zumbis’, é o nome do filme, a Jane Austen deve estar se revirando no túmulo tal qual um espeto rodopiando na churrasqueira.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada da Sala de Arte - Cinema do Museu
Data: 21/04/2016

domingo, 13 de março de 2016

PORTA DOS FUNDOS


Quando ouvi falar dos vídeos feitos pelo grupo Porta dos Fundos fiquei fascinado pela qualidade cinematográfica e o forte apelo cômico dado pelos autores e atores para situações do cotidiano. Lembro que o primeiro filme que vi relatava a revolta de um atendente numa rede de restaurantes face à indecisão do cliente na escolha dos oito ingredientes que iriam compor o molho para sua massa. Achei maravilhosa a ideia porque já me irritei algumas vezes com a indecisão da pessoa que estava a minha frente na fila e imaginei a vida do atendente que aturava o fato se repetir dezenas de vezes ao dia.

O que achei mais interessante é que a rede de fast food retratada no vídeo não se ofendeu com a caricatura e passou a usar o vídeo no treinamento dos funcionários. Mais tarde financiou uma segunda versão com o mesmo atendente fazendo o processo de forma correta, e aceitou que o Porta dos Fundos imprimisse sua marca com um pequeno deslize durante no final. Sem perder o bom humor e jogando pela janela o chatíssimo “politicamente correto” o grupo se firmou com milhões de visualizações de seus vídeos na internet, ganhou um programa de TV num canal fechado e em 2013 lançou os roteiros dos vídeos em livro, visando obviamente amealhar mais uns trocados.

Tirar a imagem e o som de um produto visto por milhões de pessoas poderia ser um tiro no pé, mas, na minha mais humilde opinião, o foco no roteiro salvou a obra de tornar-se objeto de decoração em mesas de centro. O livro possui uma introdução sobre a ideia do texto e como ela se desenvolveu, esse bônus traz um pouco dos bastidores dos trinta e sete esquetes que são apresentados e eu dei risada do texto mesmo sem ter visto boa parte dos vídeos, prova cabal do quanto ele é importante no processo.

Ainda na minha modestíssima opinião acho que o diagramador inseriu cores em excesso, senti também a falta de uma ficha técnica mais apurada dos esquetes para completar o conhecimento de como se faz, mas isso não tira o mérito do livro que pode tornar-se uma boa fonte de consulta para quem quer escrever roteiros de humor. Os tecnológicos de plantão vão adorar os CR Code inseridos na primeira página de cada esquete, de posse de um tablet ou celular mais moderninho você pode ler o roteiro e depois assistir ao vídeo correspondente, uma boa chance para ver a teoria na prática.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: DNA Natural - Barra
Data: 15/04/2016

domingo, 6 de março de 2016

DIÁRIO DA CORTE


Já escrevi sobre o Paulo Francis (1930-1997) no post “As Filhas do Segundo Sexo”, livro que gostei muito embora tenha sido esquecido pela crítica e público. Acredito que a personalidade difícil do autor tenha gerado uma certa má vontade na leitura da obra. Eu o conheci através dos artigos escritos para a revista Status, que adquiria em conluio com o conivente dono da banca de revistas uma vez que não tinha idade para comprar essa publicação. Não entendia tudo que lia mas lembro perfeitamente que achava interessante seu modo de escrever e pensava, esse cara deve ser muito culto.

Como a ditadura agora é outra e vivemos numa época do chatíssimo ‘politicamente correto’, o antigo DPOS (Departamento de Ordem Política e Social) foi transferido para as redes sociais, onde tudo se julga e todos são julgados, ao reler Diário da Corte tenho quase certeza de que mais da metade dos textos não seriam publicados nos dias de hoje. Quer um exemplo? Ao criticar o Sr. Caio Túlio Costa, que na época era o ombudsman da Folha de São Paulo, jornal para o qual trabalhava, Francis escreveu: “Certamente a redação da Folha está infestada de pentelhos.” Mesmo tratando-se de uma disputa interna o texto foi publicado pela Folha em 30 de novembro de 1989.

Organizado pelo jornalista Nelson de Sá e publicado como livro em 2012, o livro contém 76 artigos escritos entre 1976 e 1990. Os assuntos vão da política norte americana à redemocratização brasileira, de Nelson Rodrigues a Woody Allen, ataques ferozes contra José Guilherme Melquior e Caetano Veloso. Ao terminar a leitura você pode ter a impressão de que o Paulo Francis “se acha” e, em parte, é verdade. Há sempre a impressão, principalmente para quem o conheceu pela TV, que ele falava de cima para baixo, com sua voz inconfundível e cheia de inflexões como se dialogasse com ignorantes e ele o arauto da elegância e do bem viver, e isso, em parte, também é verdade.

Li certa vez uma matéria na revista Cult que dizia: “... o texto de Paulo Francis é sempre uma delícia de ler e tem uma qualidade rara: é uma escrita tão sedutora que, de repente, faz com que se esteja concordando com ele, mesmo a contragosto. Ele faz uma mistura do culto com o popular, vai do erudito ao palavrão...”, e arrematava: “Manejava bem o humor, sobretudo quando se tratava de espinafrar alguém.” Eu, na minha mais humilde opinião, concordo plenamente.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Doces Sonhos - Pituba
Data: 09/04/2016

domingo, 28 de fevereiro de 2016

TARJA PRETA


Quando morava em São Paulo gostava de passear pela Fnac que fica localizada no bairro de Pinheiros, num desses passeios me deparei com um livro que tinha um título inusitado e uma lista de autores. Ir à livraria era um programa perfeito para um final de tarde de sábado, três andares de pura diversão e um café no térreo para começar a folhear e ler os livros comprados. Então, com um café Machiatto, meu preferido, uma cesta de pão de queijo, um strüdel de maçã, e meu exemplar recém adquirido de Tarja Preta às mãos, devorei tudo, inclusive o primeiro conto intitulado Frontal com Fanta de autoria do Jorge Furtado, os demais eu li ainda no mesmo fim de semana porque o livro tem apenas 176 páginas.

O livro é composto por sete contos, escritos por sete autores diferentes: Jorge Furtado, citado acima, Pedro Bial, Adriana Falcão, Jorge Mautner, Luiz Ruffato, Márcia Denser e Isa Pessôa, com um elo em comum: medicamentos controlados, mais conhecidos como ‘tarja preta’, aqueles que o farmacêutico retém a receita médica e são vendidos com o controle do CPF do paciente. Mas, longe de qualquer apologia, os contos são bem distintos e preservam as características dos seus autores, nem todos são bons já vou logo adiantando, mas nada de usar isso como desculpa para não ler o livro.

Pedro Bial (1958) conta uma história cujo protagonista deu o nome dos remédios preferidos para seus jogadores do time de futebol de botões. Adriana Falcão (1960), muito boa, escreve a história de uma serial killer que toma remédios e tem conversas hilárias com seu próprio cérebro. O Luiz Ruffato (1961) lança mão de uma crônica denúncia quando conta a história da mulher que vai ao hospital com um histórico de traições e violência doméstica sofridas por causa do marido alcóolatra e sai de lá com um “remedinho” para autoestima. Jorge Mautner (1941) vai para a terapia quando conta a história de um casal em busca de uma felicidade sempre constante e plena que desaba numa viagem quase lisérgica dos personagens.

Recentemente fui assistir ao filme Boa Sorte da cineasta Carolina Jabor, protagonizado por uma surpreendente Deborah Secco, quando li nos créditos que o roteiro do filme foi inspirado no conto do Jorge Furtado (1959) que mencionei no primeiro parágrafo. Que me perdoem os demais autores de Tarja Preta, mas o conto Frontal com Fanta é o melhor. Isso na minha mais humilde opinião de leitor leigo que nunca tomou um tarja preta na vida. Pelo menos até hoje.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Centenário - Ponto de ônibus
Data: 02/04/2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

GAROTA EXEMPLAR


No início de 2015 saiu a lista dos filmes que estavam indicados ao Oscar 2015 e dentre as indicações para Melhor Atriz estava Rosamund Pike pelo filme Garota Exemplar. Numa reportagem sobre o filme descobri que seu roteiro fora adaptado do livro homônimo pela própria autora. Confesso que isso aguçou minha curiosidade pela obra que eu já havia visto nos sites de livrarias. Como não houve indicação do filme para a categoria Melhor Roteiro Adaptado e a Rosamund Pike não ganhou o Oscar, decidi que só assistiria ao filme depois de ler o livro que a essa altura já estava na casa dos seis milhões de exemplares.

Comprei o livro meses depois numa liquidação e foi uma grande surpresa face aos comentários pouco elogiosos que ouvi sobre o filme, e que, acreditem, ainda não assisti. Gosto de me render a boas histórias e a autora Gillian Flynn (1971) faz do seu livro um best seller daqueles que você esquece de comer, dormir, e leva o livro até para o chuveiro. A história de Amy e Nick narrada ora por um e ora por outro, em capítulos alternados, conseguiu a proeza de me prender desde o início, a partir da página cinquenta eu já estava entregue e à medida que lia me envolvia mais e mais.

Amy é a garota exemplar, foi feita de objeto pelos pais psicólogos que publicaram livros contanto sua vida e expuseram sua infância e adolescência para uma multidão de aficionados que compravam os livros da série. Amy cresceu e o público perdeu o interesse pelos livros que seus pais escreviam. Nick nasceu minutos antes de sua irmã gêmea Margo e foi mimado, paparicado e embalado pela sua família. Amy e Nick se conhecem, casam-se e vivem suas vidas até que a recessão lhes tira o emprego e a mãe de Nick é diagnosticada com câncer. Nick usa essa desculpa como mote para sair de Nova York e voltar a morar em North Carthage, Missouri, sua cidade natal, o casamento estava desintegrando. No dia do aniversário de cinco anos de casados, bodas de madeira, Amy desaparece e várias evidências apontam Nick como culpado. Mas será que ele assassinou Amy, a garota exemplar? O pior é que ele é um babaca, mente para a polícia, esconde fatos, e só ajuda a incriminar-se ainda mais.

Mas engana-se o leitor que pensar tratar-se de mais um livro de crime e castigo, é muito mais que isso, Amy e Nick são duas mentes doentes em diferentes níveis, precisam um do outro para sentirem-se motivados e atormentados, cada um cumprindo seu papel na frente das câmeras de TV. Por diversas vezes parei de ler completamente estupefato pelo que se revelavam os capítulos. Hoje vivo num mix de emoções: tenho medo da autora, penso nela como uma desequilibrada mental e acho que seu marido devia repensar a relação, mas também estou ansioso para ler seu próximo livro. No fim das contas talvez o louco aqui seja eu.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus em frente à Sala de Arte - Cinema da Ufba
Data: 26/03/2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O BANGALÔ


Numa fase de minha vida que já relatei aqui no blog eu lia qualquer coisa, e quando escrevo as palavras ‘qualquer coisa’ não o faço no sentido pejorativo. Não eram os grandes clássicos, mas livros populares vendidos nas bancas de revista cujo preço eu podia pagar, estou me referindo à série de livros Júlia, Sabrina e Bianca cujas histórias de amor rocambolescas, passadas em castelos, ilhas ou paisagens paradisíacas, variavam sempre entre uma mulher pobre que se apaixonava por um homem rico ou vice versa.

Apesar de achar as narrativas por vezes muito pobres eu gostava de imaginar os autores debruçados em suas máquinas de escrever, único recurso da época ainda sem computadores, transpondo para o papel uma quantidade sem fim de romances ambientados em lugares exóticos, com passagens sofridas e o amor vencendo nos finais. Nesses livros a autoria das histórias não aparecia com o destaque merecido e posso até apostar que eram todos pseudônimos. Eu, canceriano que sou, gosto de um bom romance, mas acima de tudo gosto de uma história bem contada.

É como vejo a escritora Sarah Jio (1978) e seus livros. O Bangalô, que irei abandonar, faz parte de uma evolução das histórias contadas nas séries Júlia, Sabrina e Bianca. Já na capa a editora providencia um verbete que diz “Quanto tempo você está disposto a esperar por sua felicidade?” Agora é só começar a ler a primeira das 314 páginas para deparar-se com um segredo, uma carta recebida que trará recordações mais de cinquenta anos depois de vividas. Uma senhora, Anne, conta para sua neta, Jennifer, o que aconteceu em sua vida quando tinha apenas 21 anos, ia casar-se com um homem bom, tinha a segurança da família em Seattle, mas resolve seguir os passos da melhor amiga Kitty e alistar-se como enfermeira voluntária para a base aliada situada na ilha de Bora Bora durante a Segunda Guerra Mundial.

Chegando à ilha ela vai conhecer uma realidade dura e inóspita durante o período de guerra, mas também conhecerá Westry, um soldado que despertará em Anne sentimentos ainda não vividos dentro de um bangalô escondido numa praia deserta. Idas e vindas, tarefas da guerra, mal entendidos, segredos, traições e o assassinato de uma nativa serão explicados mais de cinquenta anos depois. Os românticos de plantão irão suspirar ao final.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mezanino restaurante Raízes - Shopping Barra
Data: 26/03/2016

domingo, 7 de fevereiro de 2016

GREY


Faz algum tempo que estou aqui parado sem saber o que escrever sobre o livro citado no título deste post e isso é raro de acontecer. Não tenho pretensão de ser a nova Mãe Dináh ou tão famoso quanto Walter Mercado, mas escrevi aqui no blog em junho de 2014, no post ‘Cinquenta Tons de Liberdade’ que era bem provável que a escritora E. L. James (1963) ainda abocanhasse uns trocados lançando a versão de Cristian Grey para a saga Cinquenta Tons, no último livro havia um capítulo inteiro com a versão dele para o primeiro encontro com Anastacia Steele. E não é que dois anos depois lá está ele nas livrarias com todo o alarde que a editora pôde pagar para o lançamento.

É óbvio que ninguém me obrigou a ler o livro, muito menos a compra-lo, mas quem me conhece sabe que eu não ia resistir à curiosidade de ler o que ainda poderia render da história de amor e fantasias BDSM soft sob a perspectiva de Christian Gray. Nos três livros da série li sobre todas as inseguranças, questionamentos e devaneios românticos de Anastacia, o Christian aparecia nos diálogos, e-mails, SMS, e nas ações que ambos faziam juntos. Nesse novo volume eu li sobre todas as inseguranças, questionamentos e devaneios antirromânticos que o Christian viveu nos momentos que não estavam juntos e Anastacia tem voz somente nos e-mails, mensagens de SMS e nos diálogos copiados do primeiro livro.

Pelo menos para mim esse livro serviu para mostrar o quanto Grey é doente, uma alma atormentada, prepotente disfarçado e bom moço com suas ações para abrandar a fome mundial ou a ajuda que proporciona aos poucos eleitos do seu séquito de empregados. Mesmo vestindo essa capa sedutora de luxos e benesses que o dinheiro pode comprar Grey se mostra extremamente machista, possessivo, subjugando a mulher como objeto de prazer sexual.  Na minha mais modesta opinião nem seu passado obscuro justifica esses atos. Fantasias sexuais todos nós temos, é uma forma de amainar o entediante “sexo baunilha”, mas imprimir dor na pessoa amada e sentir prazer com isso deve ser passível de tratamento.

Acredito que E. L. James trabalhou muito para escrever esse volume e a ideia é boa, contar a mesma história sob a ótica de outro personagem, ser fiel à primeira obra e ainda por cima buscar o ineditismo dos acontecimentos. Confesso que por breves momentos dei algumas risadas com a nova versão, principalmente na relação de Christian com seus fiéis empregados e o comportamento deles face ao atendimento inquestionável dos seus desejos.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Passeio Público - banco próximo à entrada do Teatro Vila Velha
Data: 25/03/2016