domingo, 8 de fevereiro de 2015

A ÁGUIA POUSOU


Se tem uma coisa que gosto num livro é quando o autor consegue misturar fatos reais com outros ficcionais. Não que despreze os livros cem por cento ficcionais ou as biografias, longe disso, gosto mesmo é de uma boa história. Não à toa quando estava na escola lia os livros de história ou geografia como se fossem romances, volta e meia não recebia uma boa nota nas provas, principalmente quando as questões eram de múltipla escolha porque nunca fui de decorar datas ou coisas assim, portanto era capaz de saber dissertar sobre um fato histórico sem necessariamente saber o ano, o mês e o dia, a não ser que isso fosse extremamente importante para o fato. Lembro que no ensino médio tive um professor de história chamado Fábio que nos aplicava provas dissertativas, foi quando obtive as melhores notas da minha vida na matéria. Suas aulas eram conversas, ele não gostava do quadro negro e eu adorava o seu estilo despretensioso de ensinar.

O autor do livro que pretendo abandonar chama-se Harry Patterson (1929), o nome Jack Higgins que consta na capa foi um dos muitos pseudônimos usados pelo romancista britânico ao longo de sua obra. Não consegui descobrir uma razão para isso, quem souber escreve pra mim e conta, mas sua obra é muito vasta e A Águia Pousou, segundo consta, foi o seu livro mais famoso, nele o autor conta a história de uma tentativa de sequestro do Primeiro Ministro Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial.

O livro tem duas partes, a primeira é a preparação para a arrojada missão, tão secreta que nem mesmo o Almirante Canaris que era um influente chefe do Serviço Secreto alemão sabia de coisa alguma. Nessa parte todos os detalhes são muito ricos e fascinantes, além de rigorosamente autênticos. Na segunda parte, exatamente à uma hora da manhã do sábado, seis de novembro de 1943, Heinrich Himmler, o temido chefe da polícia secreta nazista, recebeu um sinal que esperava há muito tempo no seu quartel general em Berlim. Era apenas uma frase que dizia: “A Águia Pousou”. A mensagem significava que um grupo especialmente treinado de paraquedistas nazistas tinha descido sem transtornos na Inglaterra e estava a caminho de executar a perigosa tarefa de sequestrar o Primeiro Ministro Winston Churchill na sua casa de campo à beira mar onde deveria passar o fim de semana.

Como não se pode prever o imprevisto, mesmo em planos altamente organizados, este veio e interveio nos acontecimentos. A presença de um menino em um determinado lugar e hora fez com que uma cadeia de acontecimentos inesperados transformasse a pacífica região inglesa num verdadeiro campo de batalha com proporções dramáticas. Caberá ao leitor por si resolver onde está o verídico e onde está a ficção.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Museu Palacete das Artes - banco do jardim
Data: 04/04/2015

domingo, 1 de fevereiro de 2015

NA SALA COM DANUZA


Tenho pensado muito na questão da educação e ultimamente não só na educação acadêmica, mas também na educação chamada ‘de berço’, aquela que nossos pais nos ensinam em casa e por experiência própria sei que essa independe do nível de escolaridade. Ter escolaridade ajuda mas não é primordial. Tive uma babá que não sabia ler ou escrever, mas sentava-se à mesa com modos de uma princesa e nos fazia comer de garfo e faca e usar corretamente o guardanapo. Quem me conhece sabe que moro em Salvador/BA, no bairro da Barra, que recentemente foi amplamente reformado pela prefeitura. Os moradores locais aguentaram mais de 18 meses de poeira, engarrafamentos e ansiedade pelo que viria ser a nova orla da Barra.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Simples meu caro leitor, a obra foi entregue à população longe de estar cem por cento concluída, mas o que se vê está muito bonito, e as pessoas voltaram a circular pelas calçadas. Aproveitando que é verão, e para fortalecer minha lombar prejudicada por uma queda da escada enquanto finalizava a montagem da luz de um show, comecei a andar pela orla todos os dias e tenho visto todo tipo de falta de educação, não a acadêmica, mas a de berço. Das mais simples como jogar lixo no chão até a mais grotesca como descer até à praia e defecar nas pedras quando há banheiros públicos próximos e bem conservados.

Hoje pensei nos famosos manuais de etiqueta e boas maneiras que existem por aí, dos mais variados autores e preceitos, e me lembrei do livro Na Sala com Danuza. Não posso de imediato classifica-lo como um manual porque o estilo de escrita de Danuza está mais para crônica do que receita e sua leitura além de muito instrutiva é ainda muito atual. Apesar de publicado em 1992, quando ainda não havia a febre da internet e dos celulares, suas dicas para o uso do telefone ainda valem se aplicadas em conjunto com uma boa dose de bom senso. Suas crônicas quebram várias regras dogmáticas, exageros e modismos, somos apresentados a pequenos gestos que podem melhorar muito nosso dia a dia e a convivência com quem está à nossa volta. É justamente esse tom que ainda dá atualidade ao texto escrito no finalzinho do século passado.

Na semana passada durante minha caminhada eu vi uma cena inusitada. Uma família andava pelo calçadão quando o pai jogou uma lata de cerveja vazia no chão. A filha que devia ter uns seis anos de idade pegou a lata e disse: “Pai, no chão não, joga na lata do lixo”. Então ela caminhou uns três metros e jogou a lata na lixeira voltando toda sorridente. A mãe sorriu de volta e o pai, irritado por ter sido repreendido pela filha, deu um tapa na cabeça dela e disse: “Não envergonhe seu pai na rua sua diaba!”. A filha segurou a mão da mãe e chorou, talvez porque o tapa doeu ou talvez porque se sentiu confusa sem saber se tinha feito certo ou errado ao jogar a lata no lixo. Os três seguiram sem dizer mais nenhuma palavra. Eu fiquei parado vendo aquelas pessoas se distanciarem e me emocionei com aquela menina. Será que ela vai resistir ou vai sucumbir?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Restaurante Iemanjá
Data: 21/03/2015

domingo, 25 de janeiro de 2015

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


Com a pausa para reflexão na semana passada hoje vou escrever sobre um livro complexo, um livro que demorei muito para ler, não porque tivesse muitas páginas, mas porque sofri muito enquanto lia. Por diversas vezes dei uma pausa e li outro livro mais ameno para compensar o estarrecer e a dor que me fazia fechar o livro no fim de uma determinada descrição e pensar na minha vida. O grande José Saramago (1922-2010) tem essa capacidade de me fazer sofrer, chorar durante a leitura e querer parar ao invés de continuar. Seu estilo de escrita fluente que mistura a forma direta com a indireta na estética, o pouco uso de parágrafos, travessão e aspas, nesse livro não há personagens com nomes.

O início de tudo parece ficção científica, mas depois veremos que Saramago vai muito além de explicações plausíveis ou de mera ficção. O primeiro caso da “treva branca” manifesta-se num motorista no meio do trânsito, depois vai se espalhando indiscriminadamente por quem tem contato com o primeiro cego e logo o governo anuncia uma epidemia. Levam os infectados para uma espécie de campo de concentração, é lá que uma nova sociedade se formará e o humano dará lugar ao primitivo. Nesse mundo apenas uma mulher, a mulher do médico, misteriosamente não infectada e que tudo vê, presencia e enfrenta os horrores que seremos cúmplices na obra: poder, obediência, ganância, carinho, desejo, vergonha, lutas entre grupos dominadores e dominados, compaixão pelos doentes e velhos, violência bárbara e gratuita, abuso sexual e mortes, o ser primitivo e seus piores instintos de sobrevivência.

A mulher do médico, que tudo vê mas finge-se de cega para ficar perto do marido, descobre que não há mais guardas, que toda a cidade está deserta e os homens primitivos sobrevivem vagando como nômades. Fugindo de um grupo de cegos que monopoliza a escassa comida e subjuga os famintos por favores sexuais, ela guia o marido médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego e a rapariga de óculos escuros pela cidade abandonada, depara-se com cadáveres espalhados pelas ruas, incêndios, supermercados saqueados e, ao entrar numa igreja percebe que todos os santos estão vendados, o autor nos diz: “se os céus não veem, que ninguém veja...”

Ao concluir a leitura desse livro que durou mais de seis meses, percebi o quanto é urgente que resgatemos nossa lucidez, o afeto, a ética, honestidade e responsabilidade sobre o que fazemos. Nesses tempos de grandes escândalos que desvendam muita corrupção percebo que alguma coisa se perdeu e aí cito novamente o mestre Saramago: “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Existe uma boa versão do livro adaptada para o cinema em 2008 e dirigida pelo Fernando Meireles, recomendo somente ver o filme despois de ler o livro. Só assim você perceberá a dimensão do trabalho do autor e como o Fernando Meireles conseguiu traduzir tanto sentimento.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Av. Oceânica em frente ao Hotel Othon
Data: 28/02/2015

domingo, 18 de janeiro de 2015

HOJE NÃO TEM LIVRO


Pela primeira vez em quase cinco anos de blog hoje não vou escrever sobre um livro que pretendo abandonar, andei um pouco estarrecido com o noticiário da última semana e tomei essa decisão ontem ao ler uma matéria no jornal sobre o resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) realizado no final do ano passado. Segundo a matéria que li foram 8,7 milhões de inscritos, desses 6,1 milhões efetivamente comparecem para as provas, o que retira do páreo mais ou menos 29% da concorrência. Até aí nada de novo porque isso é bom para quem realmente enfrentou o desafio.

O que me deixou bestificado foi que mais de 500 mil inscritos que foram fazer as provas tiraram zero, isso mesmo, z-e-r-o, na prova de redação. E isso significa desclassificação para concorrer a uma vaga nas universidades já que a regra é clara. O terrível é que quase 8 mil não conseguiram escrever o mínimo de linhas exigidas e em torno de mil redações ganharam o zero porque seus textos feriam os direitos humanos, isso quer dizer que continham claras insinuações de racismo, xenofobia ou explícito preconceito.

Quando a nossa presidenta Dilma fez o discurso relativo ao segundo mandato e anunciou a alteração do lema do seu governo para “Brasil, pátria educadora” levantou uma questão importante e eu espero, sinceramente, que se faça algo pela educação. Não tenho partido político definido, sou daqueles que gostam de políticos honestos e com boas ideias, independente de partidos ou coligações, mas penso em quantos anos serão consumidos para reequipar escolas públicas, torna-las aprazíveis e foco de orgulho da cidade, bairro ou comunidade. Quantos anos serão necessários para que professores consigam melhor remuneração e tempo para estudar, sim, estudar, professor que não estuda é que nem médico que não estuda, fica defasado, cai do trem, fica pra trás.

Sinceramente parabenizo os 250 alunos que receberam a nota máxima, menos de 1% dos que fizeram a prova, no meu conceito não são pessoas especiais, são aqueles que se tornaram especiais porque estudaram, leram, buscaram informações. Quem me conhece sabe perfeitamente que não acredito em pessoas que nascem especiais, acho que tornar-se especial é fruto de muito trabalho, perseverança, dedicação e abnegação. Meu abraço sincero para todos os jovens que conseguiram uma pontuação acima de 800 e tomara que esses pontos façam a diferença em suas vidas, um sinal de que tudo valeu a pena.


A foto que ilustra o post é da Gabriela Almeida Costa, estudante de geologia do Instituto Federal da Bahia (IFBA), publicada na versão on line do jornal Correio. Ela diz “Gostei bastante do tema. Tinha lido muitas coisas durante o ano que estavam relacionadas com a proposta. O meu gosto por leitura também ajudou a obedecer aos critérios exigidos na correção da prova”. Segundo o jornal Gabriela tem em sua casa três estantes repletas de livros. Atualmente o livro que está na cabeceira da estudante é a biografia de Malala Yousafzai, exatamente o livro que abre o ano de 2015 no blog. Fica a dica.

domingo, 11 de janeiro de 2015

QUEM É VOCÊ, ALASKA?


Um grande talvez, essa é a busca do adolescente Miles Halter quando deixa a casa dos pais na Flórida e aventura-se na escola Culver Creek, um internato que funciona do estado do Alabama. Como quase todos os personagens adolescentes dos livros de John Green (1977), Miles, ou Gordo, como será conhecido posteriormente, tem pais bacanas, vive em harmonia familiar padrão e tem pouquíssimos amigos. No início das histórias os personagens têm dificuldades em relacionar-se, e no fim dos livros as amizades são externadas nas formas mais inusitadas.

‘Quem é Você, Alaska?’ é o primeiro romance do até então desconhecido John Green que foi publicado em 2005, portanto sete anos antes do seu maior sucesso A Culpa é das Estrelas. Sua história é universal, emocionará nos momentos certos, nos fará pensar sobre religião de uma forma pouco acadêmica e nos intrigará quando a imagem politicamente correta dos jovens for transgredida. John mostrará jovens inteligentes, estudiosos, leitores assíduos de obras importantes, e que por serem jovens também possuem características inconsequentes e autodestrutivas. Eles vão fumar e beber muito, e em muitas ocasiões os protagonistas carentes de amigos se sentirá forçado a acompanhar as transgressões pelo simples fato de querer se integrar e fazer parte do coletivo. Dez anos após a publicação é ainda muito atual.

Os capítulos do livro possuem uma contagem regressiva no bloco intitulado “Antes” e uma contagem progressiva no bloco “Depois” e Alaska Young é o mote principal dos dois tempos. A história vai envolver Miles (Gordo), Chip (Coronel), Takumi e Lara em torno dela. Cinco adolescentes descobrindo uma improvável amizade, debatendo sobre os ‘comos’ e os ‘porquês’ da existência, vivendo a adrenalina de desobedecer às regras, o quão importante é o valor da vida e o sofrimento de viver em um grande labirinto sem saber direito se é bom descobrir a saída e o preço que se paga por isso.

Miles (Gordo) é o nosso narrador e será a partir dele que faremos a mesma pergunta, a mesma escrita por Alaska no seu trabalho para a aula de Religião: “Como sairemos deste labirinto de sofrimento?” Mas não se espante o leitor em achar que se trata de um livro filosófico sobre adolescência, os intrincados trotes escolares, os porres no Buraco do Fumo e a história do primeiro boquete fará você dar boas gargalhadas. Vale à pena.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Ana Lucia Magalhães - Pituba
Data: 28/02/2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

EU SOU MALALA


Este é o primeiro post do ano de 2015, quem me conhece bem sabe que o Natal não é das minhas festas preferidas, o Réveillon muito menos, mas sei que é quase impossível não se contaminar com a enxurrada de mensagens de paz, harmonia, etc, etc, etc... Como disse outro dia um amigo, é uma época que paira no ar uma energia bacana de bons pensamentos e bons desejos. Imbuído desse clima de bons agouros para o ano que se inicia vou abandonar um livro que me emociona muito, um desses livros que volta e meia presenteio amigos e sempre que posso releio partes para me assegurar que boas ações só dependem de nós mesmos.

Malala Yousafzai (1997) é uma garota nascida no vale do Swat, província de Khyber Pakhtunkhwa, no Paquistão, uma região dominada pelo Talibã desde meados de 2007 por ser um ponto crucial de vizinhança com o Afeganistão. Malala cresceu numa sociedade que privilegia e valoriza somente os filhos homens, é uma região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e a violência do Talibã. Ela obteve algumas regalias porque sua família gerenciava algumas escolas e proporcionou a filha uma educação escondida. Aos 11 anos Malala conseguiu se fazer ouvir, escrevia escondida para um blog contando seu quotidiano durante a ocupação Talibã, seus pontos de vista sobre a educação e principalmente a revolta com tratamento dado às mulheres no vale do Swat. O blog chamou a atenção da BBC de Londres e no verão seguinte o jornal The New York Times quis saber quem era essa garota. A popularidade de Malala cresceu muito depois que foi indicada pelo ativista Desmond Tutu para o Prêmio Internacional da Criança.

Em 9 de outubro de 2012 um homem armado subiu em um ônibus escolar cheio de crianças, chamou pelo nome de Malala, apontou-lhe uma pistola e disparou três tiros, uma das balas atingiu-lhe o lado esquerdo da testa. Ela ficou entre a vida e a morte por vários dias e a repercussão do atentado Talibã tentando calar Malala foi internacional, nesse trágico acontecimento sua luta pela educação ganhou proporções mundiais.

O livro conta essa fascinante história e os momentos cruciais que passou por causa da luta pelo direito à educação. Com apenas dezessete anos Malala foi a ganhadora do Nobel da Paz, juntamente com Kailash Satyarthi. Sua luta fez com que uma petição da ONU, com o slogan ‘I am Malala’, impulsionasse a retificação da primeira lei de direito a educação no Paquistão.

Num trecho do livro, escrito em parceira com a jornalista britânica Christina Lamb, ela diz: “Sentar numa cadeira, ler meus livros rodeada pelos meus amigos é um direito meu”. Malala, no seu tempo e na sua pequenez, fez uma diferença enorme no mundo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Cinema do Shopping Barra - Grade de Panfletos
Data: 10/02/2015

domingo, 28 de dezembro de 2014

TODO VÍCIOS


Ganhei esse livro de presente na noite de Natal e confesso que o li em dois dias tamanha a curiosidade que se apoderou de mim frente às histórias de João e Stella, personagens do novo livro de Maitê Proença (1958). Eu já havia abandonado outro livro dela, Uma Vida Inventada, veja o post publicado em julho de 2012, do qual gostei muito e essa sua faceta de escritora a cada dia me agrada mais.

Neste livro não existe uma trama. Os personagens João, um publicitário que já passou dos cinquenta anos, feioso, viciado em remédios reguladores de humor, e Stella, uma mulher madura, atriz, escultora, muito bonita e viciada em relacionamentos difíceis, são o protótipo dos casais atuais. Eles vivem se falando pelo celular já que o João foge da intimidade do telefone ou de encontros pessoais, o sexo entre eles é meio insosso, e pelo fato de escrever muito bem ele se safa em conversas bem humoradas e inteligentes. Stella por sua vez não consegue deixar de mergulhar nesse relacionamento, ela tem uma personalidade meio doentia ou não cairia nessa armadilha de desamor.

Isso me chamou a atenção, o desamor, os personagens dessa história não são o fator primordial do livro. O que eles fazem profissionalmente, suas famílias, seus bens, nada disso, seus sentimentos é que me interessaram, a forma como cada um se expressa e pensa é o grande trunfo do livro de Maitê. Fica claro logo nos primeiros capítulos que há pinceladas de experiências pessoais nos relatos e essa composição de humanidade tão próxima e tão atual me pegou de jeito. É uma relação improvável e confusa, de pessoas imersas em pensamentos e voltadas para o mundo virtual com uma falsa sensação de vida exuberante e feliz.

Vou abandonar esse livro para compartilhar rapidamente as sensações e tomara que quem o ache consiga trazer para si uma luz no fim desse túnel de relacionamentos. Boa leitura.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça de Alimentação em frente ao Baby Beef Express
Data: 08/02/2015

domingo, 21 de dezembro de 2014

SETE ANOS


O ano era 2007 quando Fernanda Torres (1965) recebeu um convite do Mario Sergio Conti para escrever um artigo para a recém-lançada revista piauí sobre o medo do ator de estar em cena. Ao ler esse texto na revista intitulado “No dorso instável de um tigre” a editora Cristina Grillo sentiu que dava um caldo e convidou-a para escrever uma coluna quinzenal na revista Veja Rio. Aceito o convite da Veja Rio e vários outros textos escritos para a piauí, em 2010 o sempre atento Sérgio Dávila propôs que ela abordasse o assunto eleições em uma coluna para o caderno Poder, do jornal Folha de S.Paulo. Convite aceito lá estava Fernanda Torres lançada aos leitores em diversas facetas.

Na apresentação Fernanda justifica o livro e título escolhido escrevendo: “as crônicas aqui reunidas foram escritas ao longo de sete anos e contam a história do meu noviciado. Desenvolver uma ideia dentro de um espaço determinado de linhas, falar de temas de interesse comum sem abrir mão do tom pessoal e dar valor à concisão são algumas lições que tomei do jornalismo.”

É óbvio que o lançamento vem na aba do sucesso de FIM. Já escrevi sobre ele aqui no blog em fevereiro desse ano, e é uma oportunidade de conhecer mais o pensamento da autora sobre outros assuntos que fogem completamente da ficção, tem um que de diário de bordo, é bem humorado e para quem gosta de bastidores é um deleite. E você ainda pode decidir a ordem de leitura subvertendo completamente a ordem meio que por assunto imposta pela editora.

Na minha mais humilde opinião recomendo a leitura do livro sem criar expectativas. Principalmente se você já leu FIM. Se não o leu então inverta a ordem de publicação e leia Sete Anos primeiro. Você vai se acostumar com o estilo de escrever e o humor fino de Fernanda e quando for ler FIM vai gargalhar. Eu recomendo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Perini - Graça
Data: 01/02/2015

domingo, 14 de dezembro de 2014

A SANGUE FRIO


No início do ano perdemos o ator Philip Seymour Hoffman (1967-2014), não por acaso porque não acredito em coincidências esta semana eu assisti pela terceira vez o filme Capote, do qual gosto imensamente, cuja interpretação do personagem título Philip arrebatou o Oscar de Melhor Ator em 2005. Do filme fui para o livro A Sangue Frio, o mais célebre da carreira de Truman Capote (1924-1984) e que inaugurou uma até então inédita classificação na literatura ‘Romance de Não-Ficção’.

Em setembro de 1965 a revista The New Yorker publicou o último dos quatro capítulos sobre o assassinato da família Clutter com recordes de venda, a história toda em formato de livro só seria publicada um ano depois. Os Clutter foram mortos com tiros de espingarda, depois de amarrados e amordaçados, Herb Clutter, o pai, Bonnie Clutter, a mãe, e os filhos Kenyon e Nancy eram muito queridos na pacata cidade de Holcomb, estado do Kansas, e o motivo dos crimes era uma incógnita uma vez que só foi levado da casa um rádio, um par de binóculos e quarenta dólares.

Poucos meses depois Richard Hickock e Perry Smith foram presos pela chacina e logo depois condenados à morte. A sentença foi cumprida em 1965 por enforcamento. Truman Capote tomou conhecimento do caso por uma nota no jornal e resolveu investigar o caso. Um mês depois dos crimes já estava na cidade e entrevistou moradores e familiares das vítimas. Com a apresentação dos assassinos foi mais fundo, recolheu documentos oficiais, leu diários, conheceu os familiares e conseguiu entrevista-los. Toda essa ação durou seis anos, tempo suficiente para que Truman ficasse íntimo dos condenados, principalmente Perry Smith cujos depoimentos revelam uma tamanha proximidade que há indícios que eles tenham tido um relacionamento amoroso até a data da sentença. Truman assistiu ao enforcamento dos assassinos.

Por não ser uma reportagem houve quem duvidasse de alguns relatos e de várias passagens descritas na história acusando Truman de romanceá-las demais, mas há de se dar o devido crédito pela reconstituição dos perfis psicológicos das vítimas e de seus algozes. O livro, claro, é muito mais rico que o filme. E este tem a seu favor o talento inigualável de Philip Seymour Hoffman.

Leia o livro e veja o filme, na minha mais humilde opinião, necessariamente nessa ordem.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Campo Grande - Parquinho
Data: 10/01/2015

domingo, 7 de dezembro de 2014

WILL & WILL - UM NOME, UM DESTINO


Toda Vez que vou abandonar um livro do John Green (1977) fico na dúvida se devo fazê-lo ou não. O primeiro livro dele que abandonei foi A Culpa É das Estrelas e já faz algum tempo, foi em novembro de 2012. Li esse livro duas vezes e presenteei amigos antes dele ficar ‘famosinho’ e virar filme em 2014. Depois escrevi sobre outro livro: Teorema Katherine, que John havia escrito seis anos antes. Desde 2012 venho lendo obras anteriores do autor, já que não houve nada de novo posterior ao grande sucesso editorial e cinematográfico de A Culpa... E cada vez me surpreendo com o jeito de escrever e o estilo bem peculiar do autor de colocar frases e pensamentos na boca de adolescentes de maneira tão bem humorada e verdadeira.


A bola da vez é Will & Will, que na tradução brasileira ainda ganhou o subtítulo; Um nome, Um destino. De todos os livros do John Green que já li esse é o mais gay, entretanto é quase um gay idealizado para um mundo perfeito. A homossexualidade é tratada de forma normalíssima, até no ambiente escolar, com uma ou outra raríssima cara feia. E se estou usando todos esses superlativos é porque sei bem o que estou dizendo.

No livro fica bem claro quando estamos lendo separadamente a história de cada um dos Will Grayson e sua forma de encarar a vida. Ambos tem problemas em arranjar amigos, e nesse assunto tanto o Will Gayson hétero quanto o Will Gayson homo padecem de formas diferentes, o Will hétero tem um enorme amigo, com mais de 100 quilos e é o aluno mais gay da escola. O Will homo tem uma tendência depressiva e sua baixa autoestima deixa que sua melhor amiga Maura o puxe ainda mais pra baixo.

A vida de ambos será ligada pelo destino, coisas que acontecem e fazem com que as pessoas se conheçam. O amigo gay do Will héreto, Tiny Cooper, será o protagonista do livro. Será ele quem vai unir esses dois Will’s de forma tão intensa e para o bem. O livro parece uma daquelas comédias quase românticas que passarão um dia na Sessão da Tarde, um mix de jovialidade, vida escolar, relacionamento com os pais, os amigos, o primeiro amor e, claro, um musical para dar vazão aos talentos de jovens atores e justificar a união de todos para um final feliz.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Rio Vermelho - Escada do mezanino
Data: 10/01/2015