domingo, 9 de novembro de 2014

A MORTE DO GOURMET


Da mesma autora eu li A Elegância do Ouriço, um dos meus livros prediletos de 2014. A Morte do Gourmet foi escrito oito antes. O mais interessante de ler a obra de um autor, no caso Muriel Barbery (1969), de forma reversa é descobrir que alguma coisa no livro mais recente já estava presente no livro anterior, só que com mais brilho. A Elegância do Ouriço é um livro melhor, na minha mais humilde opinião estará sempre nas listas de livros para ler antes de morrer. Entretanto A Morte do Gourmet funciona como um trampolim para uma ousada narrativa e o start para um estilo único e próprio da autora.

Em seu leito de morte o grande crítico gastronômico Pierre Arthens está obcecado em não partir sem antes lembrar-se de um determinado sabor, aquele sabor que o enfeitiçara para ser o que é hoje. Com esse mote a autora irá nos conduzir pelas lembranças do moribundo desde sua infância quando as artes culinárias da avó despertaram seu paladar. Começando pelos suculentos tomates colhidos na horta da casa de sua tia, daí vamos para o pãozinho crocante, a maionese caseira, a descoberta da comida japonesa, uma simples sardinha frita, o rasgar do primeiro gole do uísque, o inesquecível sobet de laranja, o aveludado erótico que envolve a deglutição de uma ostra. São capítulos que nos fazem salivar.

Mas há do lado de fora do quarto onde Pierre agoniza vozes dissonantes. Sua vida pessoal não é um mar de rosas e a autora enxerta entre um devaneio culinário e outro os depoimentos da esposa, filhos, amantes, discípulos, empregados que cercam, ou cercaram, a vida quase egoísta desse homem que tudo sacrificou pelos prazeres da boa mesa. Alguns sentirão sua falta e outros estão torcendo para que se vá o mais rápido possível.

Ao terminar o livro fiquei com a mesma sensação do personagem principal: qual o sabor da minha infância que gostaria de reviver? E aí me deixei inundar por uma enxurrada de lembranças, desde o sapoti colhido na árvore centenária do quintal de minha avó, do bolo que minha mãe fazia com uma cobertura de brigadeiro tão espessa que meu pai chamava de ‘bolo asfalto’, da sopa de feijão de Jana nossa empregada na infância, da salada de camarão com manga que tia Liane faz em ocasiões especiais, do beiju com manteiga e açúcar que minha avó fazia quando chegávamos em São Gonçalo, e por aí vai.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Amor aos Pedaços - Salvador Shopping
Data: 21/12/2014

domingo, 2 de novembro de 2014

O MENINO MALUQUINHO


Na semana passada fui ao teatro. Aqueles que me conhecem pessoalmente devem estar dizendo: grande novidade! E é mesmo em se tratando de teatro infantil. Como não tenho filhos e meus sobrinhos estão crescidos demais para isso, fico aguardando a oportunidade de levar meus sobrinhos netos para desfrutar desse encantamento. O teatro infantil é encantamento.  Só trabalhei com crianças uma única vez nos anos 1990 na peça Potato Pum cujo texto de Aninha Franco contava a história de uma batata inconformada por estar na feira, ela queria ser chique e desfrutar do ar condicionado das gondolas dos supermercados e da companhia de rabanetes e aspargos. Quem interpretava a batata era a atriz Cristiane Mendonça, eu a conhecia pouco, mas em questão de dias nos tornamos amigos de infância.

A peça que assisti na semana passada chama-se O Circo de Só Ler e conta a história de um garoto viciado em joguinhos eletrônicos, mas que não sabe ler. Até a chegada do circo e seus personagens atrapalhados que, não só o alfabetiza, mas lhe ensina o quanto o livro é capaz de ampliar horizontes através da imaginação. Outra vez Cristiane Mendonça surpreende e cativa a atenção dos meninos e meninas hiperativos da plateia interpretando o Livro Encantado que conduzirá o menino a mundo inimagináveis.

Num certo momento há uma música que fala sobre dar livros de presente e o quanto é bom receber livros, uma pilha deles chega até às mãos do ator mirim e percebi que entre eles está uma edição em capa dura de O Menino Maluquinho, um livro maravilhoso escrito pelo genial Ziraldo (1932). Confesso a vocês que me emocionei e peço perdão se soar “bufão” demais, mas parecia que eu já tinha vivido aquela cena.

O livro, que já foi adaptado para o teatro, cinema, quadrinhos e série de TV, foi escrito em 1980. Eu já era grandinho quando o li pela primeira vez. Estava na sala de espera da clínica odontológica aguardando para ser atendido quando fucei uma pilha de revistas e lá estava ele no meio de outros livros para crianças. Fiquei enternecido com aquele personagem tão travesso, que aprontava mil e uma confusões, era a alegria da casa e liderava as brincadeiras com os amigos. Era nota dez nas matérias e sempre ganhava um zero no quesito comportamento. Com sua panela na cabeça desbravava o mundo e por isso era chamado de Menino Maluquinho. Depois de ler a última página fechei o livro e pensei – esse garoto não tem nada de maluquinho, é somente um menino feliz.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Foyer do Teatro Castro Alves
Data: 21/12/2014

domingo, 26 de outubro de 2014

O LADO BOM DA VIDA


Sempre que surge um filme baseado em uma obra literária eu o renego até conseguir ler o livro. Esse comportamento pode parecer estranho, mas, como bem o disse Caetano na música Vaca Profana, “De perto ninguém é normal”, exerço meu direito de ser maluco beleza em várias situações. Às vezes me dou bem mal, como foi o caso de O Diabo Veste Prada cujo livro era bem chato e o filme é daqueles que se eu estiver zapeando pelos canais e estiver passando paro tudo e assisto de onde estiver.

Não foi o caso de O Lado Bom da Vida. Primeiro livro de Matthew Quick (1976) quando foi lançado em 2008 rejeitei o título por achar que era mais um exemplar dos livros “modinha” autoajuda, daqueles que nos ensina a dar bom dia ao mundo gritando alto na janela quando acordamos ou entrar naquela seara perigosa de achar que tudo tem um lado bom, e que se por acaso você pega um trânsito caótico e se atrasa para um compromisso é porque seu anjo da guarda intercedeu porque se estivesse no horário certo algo de muito ruim aconteceria.

O livro é uma grata surpresa para quem gosta das comédias românticas literárias, ao contrário do filme, apesar do Oscar de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence. Mas tenho de alerta-los de que alguma coisa interessante só vai acontecer depois da página 100. Antes disso o autor da várias voltas com a rotina de Pat Peoples, um ex-professor de 34 anos que acaba de sair de uma instituição psiquiátrica convencido de que passou por lá somente alguns meses, quando na verdade foram anos. Ele tem um bloqueio sobre o que o levou até lá e põe como foco principal de sua vida reconquistar Nikki, sua ex-esposa. Pat é de uma ingenuidade quase infantil, a dificuldade de enfrentar a realidade o torna um viciado em exercícios físicos e é a partir daí que conhece Tiffany, cunhada do seu melhor amigo, que também enfrenta problemas psíquicos com uma forte depressão após perder o marido.

Pat está determinado a reorganizar sua vida porque acredita que ela é um filme produzido por Deus e que ele será o protagonista de um final feliz. Durante toda a leitura Pat me ensinou uma coisa muito importante para os dias de hoje, a pessoa deve educar-se para ‘ser gentil’ ao invés de ‘ter razão’, testei fazê-lo em algumas situações e tenho percebido como podem ser simples os atos de gentileza e quantos problemas podem ser evitados ou minimizados quando você deixa de querer ter razão em tudo.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Lounge da Sala DeLux do Shopping Barra
Data: 20/12/2014

domingo, 19 de outubro de 2014

INCULTA E BELA 2


Quando meu amigo Roberto Camargo escreveu o comentário “Viva a Última Flor do Lácio!” no post anterior confesso que dei gargalhadas sozinho na frente do computador e resolvi alterar o texto deste post que já estava pronto. A alteração é para explicar a origem do título do livro Inculta & Bela sobre o qual falei na semana passada. O Roberto, leitor assíduo, sabe que o título é um fragmento do poema ‘Língua Portuguesa’ de Olavo Bilac, publicado em 1914, no qual o autor declara seu amor incondicional à nossa língua. Segue abaixo um trecho específico que por si só já explica tudo.

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

É óbvio que o autor Pasquale Cipro Neto (1954) publicou o segundo volume em 2001 em função do sucesso alcançado pelo primeiro, publicado em 1999. No Inculta & Bela a coletânea de textos foi garimpada na coluna semanal do jornal Folha de São Paulo no período de novembro de 1997 até dezembro de 1998. Já o Inculta e Bela 2 os textos foram retirados do período de janeiro a dezembro de 1999. O mote é o mesmo e consiste em exemplificar a forma correta, ou culta, como preferem alguns, de lidar com a palavra falada ou escrita sem complicar. O foco é torna-la corriqueira, acessível, sedutora, compreensível e adaptada ao vocabulário diário das ruas.

Confesso que sempre achei o aprendizado da gramática muito chato e só comecei a dar o devido valor às sintaxes e aos verbos irregulares quando me apaixonei pela leitura e, já adolescente, comprava cartões de Natal nas Edições Paulinas e escrevia mensagens de próprio punho para a família e os amigos. Era uma saga que começava em meados de novembro e ia até coloca-los como decoração na árvore.

Neste segundo livro o autor perde um pouco do frescor do primeiro, mas ainda é muito sábio em solucionar dúvidas constantes e frequentes em relação à nossa língua portuguesa. E para isso utiliza-se de textos jornalísticos, letras da MPB, trechos de obras literárias e da publicidade, esses os mais engraçados e divertidos. Uma boa leitura para quem não gosta de acompanhar uma história ou enredo por mais de duzentas páginas. Comece a ler Inculta e Bela e você vai se surpreender, e em vários momentos vai rir de si mesmo, tenha certeza disso.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Mesa de entrada da doceria Doces Sonhos - Shopping Barra
Data: 14/12/2014

domingo, 12 de outubro de 2014

INCULTA & BELA


Quando morava em São Paulo eu era assinante do jornal Folha de São Paulo, a escolha não se deu ao acaso, assinei um jornal diferente a cada três meses e depois disso me decidi pela Folha. Na época embasei minha decisão em alguns motivos: a Revista da Folha que trazia às sextas feiras todos os eventos culturais que aconteceriam na semana, matérias grandes e consistentes sobre cultura em especial o teatro e a literatura, os colunistas Danuza Leão, Érica Palomino, Zé Simão, Barbara Gancia, Pasquale Cipro Neto, só para citar alguns, e a coluna do ombudsman aos domingos, um profissional contratado para criticar o próprio jornal.

Depois descobri que o grupo Folha também tinha uma editora, a Publifolha, e de lá vieram alguns livros bem bacanas que li nos últimos tempos. Um deles é o livro título deste post, Inculta & Bela, uma coletânea de 61 textos que foram publicados na coluna do Pasquale Cipro Neto (1954) que eu lia avidamente a cada semana. A compra do livro me deu a oportunidade de reler e reaprender de maneira muito divertida algumas ‘pegadinhas’ da nossa língua portuguesa.

Em tempos de predominância absoluta das redes sociais, postar fotos e escrever comentários, julgamentos, opiniões, tornou-se mais essencial ao ser humano nesse início de século que o fato de beber água. No blog do Roberto Camargo há um post intitulado “A Vírgula e a Crase”, publicado no dia 5 de agosto de 2014, ele faz um desabafo sobre o uso da correta pontuação. Nas redes sociais há textos escabrosos e volta e meia quando estou lendo o jornal Correio da Bahia, que assino aqui em Salvador, me deparo com absurdos erros de acentuação e escrita. Sou um velho e tenho pequenas paralisias faciais quando isso acontece e sempre me pergunto se eles não têm corretores ortográficos na redação, ou profissionais de revisão.

Inculta & Bela pode ser lido em qualquer ordem e lá aprendi que não se coloca algo ou alguém em ‘cheque’, e sim ‘em xeque’, que você pode passar despercebido ou desapercebido, tanto faz, e que o correto superlativo de magro é macérrimo e não magérrimo, difícil vai ser falar isso numa mesa de bar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça de alimentação Shopping Barra
Data: 14/12/2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A VIDA SEXUAL DA MULHER FEIA


Quando ganhei de presente do meu amigo Eduardo Prata o exemplar desse livro percebi logo de cara que ele o comprou como um deboche. Na época eu estava bem gordo, autoestima baixíssima, e o título ‘A Vida Sexual da Mulher Feia’ além da foto de capa com uma mulher na cama com um travesseiro na cara, só podia ser uma piada... E era. Por causa disso o livro amargou uns bons meses na estante tomando doses diárias de poeira, poluição e umidade, destino de qualquer livro que fique numa estante da cidade de São Paulo sem o devido manuseio.

Por sorte dele, ou minha, num sábado daqueles bem frios que você desiste de sair por pura preguiça de ter que agasalhar-se até a alma, e quando falo em frio é frio mesmo, de quatro ou cinco graus, não esse “frio” que vivo hoje em Salvador que quando a temperatura cai para 220 e as pessoas se entocam em casa como se fossem feitas de papel crepom capazes de se desfazer caso um único chuvisco às peguem desprevenidas. Pois bem, estava procurando algo para ler e me deparei com o único exemplar de livro que ainda “virgem”. Comecei lendo a orelha escrita por Marcelo Pires, composta por seis parágrafos só de elogios, mas pensei... Quem é Marcelo Pires? Na outra orelha deveria ter uma biografia da autora, Claudia Tajes, mas eram apenas onze linhas, informando que ela é uma escritora gaúcha, nascida em 1963, publicitária e que estreou na literatura em 2000 com o livro ‘Dez Quase Amores’. Como tenho vários amigos gaúchos de quem gosto muito e também nasci em 1963 pensei com meus botões e falei para o livro... Hoje é o seu dia de sorte. Abri a primeira página e dei de cara com o primeiro parágrafo:

“Eu sou aquela que, quando cruza a sala a caminho da xerox ou levanta para pegar café na garrafa térmica, ouve dois colegas do escritório falando em voz supostamente baixa: Entre a Ju e a morte, quem você escolheria?”

Consumi as 132 páginas do livro até o anoitecer. Dividido em cinco sessões intituladas: Apresentação, As teses da mulher feia, O amadurecimento da mulher feia, Breve histórico dos amores da mulher feia e a Conclusão, conheci a personagem de nome Jucianara na certidão, ou Ju para os mais amigos, e toda vez que ela perguntava à mãe qual o motivo do nome esta repetia a mesma frase: “- Não poderia haver nome que combinasse mais com você.”

 Confesso que meu lado malvado até deu umas risadas com as desventuras da nossa heroína. Mas o que era para ser engraçado vibrava em mim de um jeito diferente, como se a autora quisesse arrancar o riso pela miséria alheia e em vários pontos senti pena e até um pouco de remorso por ler a história. No último momento, a Conclusão, que é feito de depoimentos e segundo a autora todos reais enviados através do seu programa de rádio, desmistifica a solidão como uma praga somente de mulheres feias, também para as bonitas a solidão muitas vezes é a melhor escolha.

Você vai ter que ler para saber.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 13/12/2014

domingo, 28 de setembro de 2014

BLECAUT


Na TV tem muita coisa boa e ruim, quem sou eu para avaliar, tenho cá meus prediletos e gosto de zapear e ver coisas que estão passando nos outros trezentos canais. Uma mania pós-invenção do controle remoto e radicalizada após a vinda da TV a cabo. Na minha adolescência isso era impossível de fazer, a não ser que você ficasse ao lado do aparelho girando aquele botão imenso dos canais. Sim, sou desse tempo. O canal Futura não está entre meus favoritos, mas, às segundas feiras eu sempre procuro saber quem o Tony Bellotto vai entrevistar, o programa chama-se Afiando a Língua e faz uma mistura entre músicos compositores e escritores, ou determinados assuntos que compatibilizam música e livros.

Li no jornal que o programa vai comemorar quinze anos no ar e fiquei espantado com o fato de um programa como esse ter vida tão longa com o mesmo apresentador, embora com algumas variantes de conteúdo. Daí fui conferir a programação na internet e dei de cara com um episódio que vai ao ar em 20 de outubro e reunirá Léo Jaime e Marcelo Rubens Paiva (1959). Eu gosto de ambos, mais ainda do Marcelo que ganhou um limão da vida e dele fez uma boa limonada suíça, essa dá mais trabalho que a comum.

Lembro claramente quando assisti no Teatro Augusta à montagem da peça sobre o livro Feliz Ano Velho, que já falei aqui no post homônimo publicado em janeiro de 2012. E depois veio a empolgação pelo seu segundo livro anos depois. Confesso que na época achei a história de Blecaut bem louca, além de completamente e absurdamente inspirada na série Além da Imaginação. São três jovens, Martina, Mário e Rindu, que viajaram para conhecer as cavernas no Vale do Ribeira, eles são surpreendidos por uma tempestade que alaga a caverna e os deixam presos por alguns dias. Quando finalmente as águas do riacho liberam a saída e eles chegam a São Paulo e percebem que todas as pessoas viraram estátua, estão paralisadas, duras como bonecos de cera, e que aparentemente somente eles estão vivos. No princípio é divertido, mas depois vem as dúvidas, as dificuldades, a saudade e à necessidade de sobreviver.

Anos depois quando li Ensaio sobre a Cegueira do José Saramago percebi que o Marcelo já pensava além do seu tempo. Hoje ele dedica-se mais ao teatro, o que é bem bom, mas ando com saudade do seu lado literato.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 13/12/2014

domingo, 21 de setembro de 2014

O CHEF SEM MISTÉRIOS


Eu sou do tipo de pessoa que ama cozinha e tudo que ela pode proporcionar, mas sou tão desastrado que já consegui queimar um Miojo. Não fui sempre assim, houve uma época que até tentei, eu morava em São Paulo e a cozinha do apartamento era toda montada, daí eu me viciei em programas de culinária exibidos pelos canais de TV a cabo e me propus por um tempo comprar ingredientes e transformar receitas escritas em algo comível.

Nessa época o Jamie Oliver (1975) apresentava uma espécie de reality show para transformar jovens pobres em chefes de cozinha. E aqui tenho que confessar que gosto muito desse tipo de programa e não importa muito o tema, se é uma competição que ensina alguma coisa com certeza estarei na frente da TV. Atualmente acompanho tantos que já perdi até a conta: Face Off, Hot Set, Project Runway, Masterchef, e citando alguns nacionais como Cozinheiros em Ação, Desafio da Beleza, The Voice, e até a versão nacional do Masterchef. Classifico-os de ‘Reality de Talentos’, para mim são completamente diferentes do Big Brother ou A Fazenda.

Foi exatamente nessa época que assistia o Jamie na TV e tentava colocar panelas no fogão que comprei o livro O Chef Sem Mistérios. Confesso que o li como se fosse um livro de contos e fiquei deslumbrado com o estilo do autor que fazia tudo parecer prático e fácil, de lambuja ainda dava umas boas dicas de como comprar alimentos, conserva-los, e até aproveitar as sobras ou o que seria jogado no lixo.

Foi uma rica experiência de ler sobre todas aquelas receitas de sopas, saladas, massas, carnes, frutos do mar, molhos, pães e sobremesas. Mas esse talento não é pra mim, continuo usando meu fogão como peça de decoração e saindo para comer fora, ou esquentando congelados no microondas. Espero que o livro do Jamie tenha mais utilidade para quem o achar.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Caixa Cultural - Banco da sala de entrada
Data: 13/12/2014

domingo, 14 de setembro de 2014

CONVÉM SONHAR


Você conhece aquela máxima que diz: “Papel em branco aceita qualquer coisa”, coloquei entre aspas porque não fui eu quem inventou essa frase e também por não saber o seu autor. Pois é, eu aplico essa máxima também para a internet, e com isso adultero um pouco a frase inicial dizendo: a internet aceita como verdade qualquer coisa. Estou com isso na cabeça desde que foi publicada a matéria em que se denunciava uma adulteração caluniosa ao perfil da jornalista Miriam Leitão (1953) no Wikipédia.

Ontem eu estava assistindo a reprise da entrevista que a Miriam concedeu à Marília Gabriela, exibida pelo canal GNT, e fiquei ainda mais fã dessa jornalista, escritora, apresentadora. Miriam é tudo isso, possui uma coluna diária no jornal O Globo, escreve para o blog no site do mesmo jornal, atua na rádio CBN, é comentarias de vários telejornais e ainda encontra tempo para escrever livros de ficção, não ficção e infantil. Ufa! Fico aqui pensando quantas horas ela dorme por dia.

Quando a entrevista acabou fui esmiuçar minha estante e achei um livro bem bacana que ela publicou em 2010 que reúne alguns textos já publicados em outras mídias até a época em questão. É um livro de leitura rápida e fácil porque você pode escolher o tema da leitura sem se preocupar com a ordem cronológica. O livro é um retrato do país, sua história, acontecimentos marcantes, política, economia, e não fica por aí, há espaço para questões sociais, raciais, meio ambiente e temas femininos. No fim do livro temos um bloco bacana com escritos de colunas que mais parecem crônicas e é de lá que vem o título do livro.

Convém Sonhar é uma história sobre a educação e as oportunidades que aparecem na vida das pessoas, o jeito de encarar uma chance que pode ser positivo ou negativo. Não à toa ela conta a história de três garotos e um deles ficamos sabendo quase no final que é o seu pai. Confesso que fiquei muito emocionado com o relato e admirei muito essa mulher, que exemplo bacana ela teve em casa e quantas alegrias sentiu justamente no dia que seu pai faleceu.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Escadaria Galeria Espaço Xisto
Data: 30/11/2014

domingo, 7 de setembro de 2014

EXÍLIO NA ILHA GRANDE


Li hoje no jornal o resultado de uma enquete sobre o que as pessoas fazem durante o horário político exibido na televisão nesse período que antecede as eleições, o resultado daria margem para grandes estudos sociológicos, filosóficos e humanos: 70% afirmaram mudar de canal para a TV a cabo, 22% afirmaram que desligam a TV e vão fazer outras coisas, apenas 8% alegam assistir à propaganda eleitoral. Isso significa que 92% não estão nem aí para a política deixando que os 8% que assistem, sejam lá por que motivos forem, decidam sobre suas vidas. Na minha humilde opinião, já que estou entre os 92%, está faltando engajamento social, político e humanitário.

Como sou velho e já passei por muitas fases políticas; tinha cinco anos quando houve o golpe de 1968, depois vieram os anos de chumbo, mais tarde passei pela abertura política, as diretas já, o impeachment, as manifestações de 2013 até os black bloc, e me pergunto onde estão essas pessoas? Incluindo-me nisso já que em diversas épocas da minha vida fui bastante politizado.

Fui buscar na minha estante um livro que pode servir a dois pretextos: Exílio na Ilha Grande pode ser lido como um livro político uma vez que seu autor, André Torres (1950), foi preso sob a acusação de ‘rebelde subversivo’. Desde adolescente participou de grupos de jovens e viveu na clandestinidade, usou de violência para chamar a atenção da sociedade e por isso foi encarcerado no mais temido presídio da época. Na introdução do livro ele diz: “Lá dentro, sob as lajes de concreto, parecia que o mundo ia acabar em fria escuridão.”

Para os jovens de hoje, mais preocupados em fazer selfies para as redes sociais, o livro pode ser lido como uma aventura estilo Indiana Jones, ou para ser mais moderninho, com jeito de Jogos Vorazes. Uma boa parte do livro revela os bastidores da Ilha Grande, as torturas e as fugas explicadas com desenhos e mapas, nosso “herói” consegue fugir do cárcere. O autor nos diz: “Como explicar minhas fugas? Meus êxitos, devo-os ao meu perfeito entrosamento com minha necessidade de liberdade, aos meus planos e métodos de preparação e improvisação, ao ambiente, à ousadia, aos companheiros, ao preparo físico, à simpatia, a um instinto infalível que me levou aos pontos fracos do sistema penitenciário nos momentos adequados, guiando meus passos.”

É um livro interessante, resta saber como você pretende catalogar no seu drive; política ou aventura?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping
Data: 30/11/2014