domingo, 1 de junho de 2014

O TEOREMA KATHERINE


Já li em algumas entrevistas que John Green (1977) nunca teve a pretensão de tornar-se um escritor de best sellers, mas isso aconteceu depois do estrondoso sucesso de A Culpa é das Estrelas, livro que li duas vezes, presenteei amigos e já abandonei, você pode ler o post aqui no blog em Novembro/2012, mas faça-o logo, antes que o filme apareça e você seja corrompido pelo escurinho do cinema antes de ler o livro.

O Teorema Katherine foi lançado seis anos antes de A Culpa, embora muitos pensem que foi depois porque as editoras saíram relançando as obras do autor quando perceberam o filão financeiro que o John se tornara. Assim como todos os mortais eu acabei lendo O Teorema depois e demorei a encontrar aquele jeito quase moleque de escrever que o autor se consagrou em A Culpa. Mas ele está lá. É um prenuncio do estilo de escrever que o tornaria uma celebridade mais tarde. E é criativo, envolvente, inusitado, mas você terá de perseverar e vencer as cem primeiras páginas. Não esmoreça e não se arrependerá. Tudo que ele descreve no início e pode soar enfadonho será necessário para entender sobre a vida de Colin Singleton, seus dezessete anos, o fato de ter um QI muito acima da média desde a infância, seu vício por anagramas, seus dezenove relacionamentos – todos com garotas chamadas Katherine, atenção para o fato de que não são Caterines ou Katerines, todos os dezenove “pés na bunda” que levou das amadas Katherines e sua missão para elaborar e comprovar o “Teorema Fundamental da Previsibilidade das Katherines”.

O teorema que Colin pesquisa tentará tornar possível prever, usando a linguagem matemática, o fim de qualquer relacionamento mesmo que as duas pessoas ainda nem se conheçam. E para entender o tal teorema você terá de mergulhar no mundo de Colin, seu amigo de estrada Hassan e a garota Lindsey. Perceberá que Colin quer ter um destaque na vida, o desejo de fazer algo pela humanidade e ser reconhecido por isso moverá sua vida amorosa expondo-a de formas inimagináveis. Lindsay é uma garota simples, que gosta da vida que leva, sem maiores pretensões, sem buscar a evidência para si, e o curtidor Hassan, despreocupado com a vida ele embarca nas loucuras de Collin para fugir da faculdade e será o nosso refresco, o mais engraçado dos três.

Não percam a explicação do Teorema, me deixou de boca aberta.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Hotel Sheraton da Bahia - Louge da recepção
Data: 02/08/2014

domingo, 25 de maio de 2014

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO


Quando anunciei no meu perfil do Facebook que tinha escrito pela primeira vez sobre o Caio Fernando Abreu (1948-1996) e que iria abandonar o livro Morangos Mofados (post MAR/2014) meu amigo Roberto Camargo escreveu no Face o seguinte comentário: “Não abandona! Não abandona! Não abandona!!!” A transcrição é literal, com três interjeições no final da curta frase. Entendi perfeitamente o quase desespero do Roberto em virtude da relação do Caio com a sua vida, e imaginei quase que imediatamente a transformação que o Caio poderia dar na vida de quem achou o livro.

Desde então tenho revisitado constantemente a obra desse autor e, entre um afazer e outro, pego um livro e leio um conto, uma frase, ou um grifo que fiz num determinado livro. Foi assim que, ao abrir a primeira página de Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, li novamente uma recomendação do próprio Caio que diz:

“Se o leitor quiser, este pode ser um livro de contos. Um livro com 13 histórias independentes, girando sempre em torno de um mesmo tema: amor. Amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor e alegria, amor e memória, amor e medo, amor e loucura. Mas se o leitor também quiser, este pode ser uma espécie de romance-móbile. Um romance desmontável, onde essas 13 peças talvez possam completar-se, esclarecer-se, ampliar-se ou remeter-se de muitas maneiras umas às outras, para formarem uma espécie de todo. Aparentemente fragmentado mas, de algum modo – suponho – completo.”

Hoje não vou descrever nem dar pistas sobre os contos para evitar estragar o prazer do leitor na descoberta do universo caiofernandoabreuniano, entretanto, na minha insignificante opinião, reservo-me no direito de recomendar a leitura do livro por inteiro, passo a passo, ou melhor, conto a conto, e depois que cada um monte sua versão do jeito que quiser.

Na edição que vou abandonar o leitor tomará o primeiro baque só de olhar a capa, ela contém uma espécie de alvo com a foto de um ser humano pulando no vazio, mas com um paraquedas acoplado. Esse é o Caio a quem amo.

Cidade do abandono: São Paulo/SP
Local: Centro Cultural Banco do Brasil - Balcão do café
Data: 02/07/2014

domingo, 18 de maio de 2014

A BICICLETA AZUL


Ando me perguntando por que alguns livros lançados nos últimos anos tem sempre uma continuação. Vejam alguns exemplos: Saga Cinquenta Tons (Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons Mais Escuros, Cinquenta Tons de Liberdade), Saga Crepúsculo (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer), As Crônicas de Gelo e Fogo, Senhor dos Anéis, Harry Potter, As Crônicas de Narnia, e a mais recente febre entre as adolescentes românticas com três volumes até agora intitulada: A Seleção, isso sem falar no mega sucesso entre meninos e meninas que é Jogos Vorazes, também uma trilogia que já alcançou as telas de cinema com enorme sucesso. E já nas prateleiras, Insurgente, o segundo volume da série Divergente. Mais uma, oh céus.

Como curioso que sou já sei que em algum momento da minha vida vou dar um crédito e acabar lendo tudo isso, como já o fiz com Senhor dos Anéis, Harry Potter, Crepúsculo, os Tons de Cinza e por aí vai. Mas, sinceramente, não sei como a autora de Cinquenta Tons conseguiu escrever quase mil e quinhentas páginas dos três volumes para contar uma história que, na minha modestíssima opinião, poderia ser resumida em um único exemplar e já estava de bom tamanho. Sei que nessa hora vários leitores do blog vão pensar... Tolinho, em que mundo você vive... É claro que o dinheiro vale a espichada na história... Mas eu não concordo inteiramente com isso, uma vez que há trilogias fantásticas como Senhor dos Anéis e os sete livros do Harry Potter que amei ler por todas as invencionices e ramificações que a autora tirou da sua cabeça fervilhante.

Pensando nisso fui buscar no fundo do meu baú de livros A Bicicleta Azul, da autora Régine Deforges, o primeiro de uma longa jornada já que nem sei dizer quantos livros contam a vida de Léa Delmas, se alguém souber essa informação escreve aqui, mas o fato é que Léa marcou uma geração que cresceu acompanhando a publicação. Nesse primeiro volume, A Bicicleta Azul, Léa Delmas tem 17 anos e vive sua primeira experiência de amor, mas o início na Segunda Guerra Mundial interrompe sua alegria e marca sua juventude, ela terá de conviver com a ocupação nazista, a violência, e ao mesmo tempo com as inquietações dessa paixão arrebatadora.

Eu cheguei a ler algumas continuações: Vontade de Viver, O Sorriso do Diabo e Tango Negro, depois cansei. Ler tudo isso exige esforço, e perseverança. Vai tentar?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Itau de Cinema
Data: 27/07/2014

domingo, 11 de maio de 2014

O QUE É ISSO COMPANHEIRO?


Lembro perfeitamente do dia em que vi pela primeira vez uma foto de Fernando Gabeira (1941), era a famosa foto da sunga de crochê rosa que ele usou na praia de Ipanema no Rio de Janeiro após seu retorno do exílio, estávamos em 1981. Desde 1979 o livro O Que É Isso Companheiro? já circulava entre a moçada da praia e os modernetes mais antenados. Ainda vivíamos sob um clima tenso, já com anistia política, mas sob uma pressão impregnada que vinha dos governos militares.

Lembro também de uma entrevista do Gabeira em que ele dizia, de forma bem humilde, que seu livro era apenas um depoimento, um ensaio sobre sua vida, uma forma de expurgar suas angústias e os fatos que marcaram, e marcariam, sua existência para sempre. Eu era um jovem de dezenove anos nada politizado e com uma visão de mundo bem pequeno burguesa, ao ler a entrevista percebi que era chegada a hora de saber mais sobre o assunto não pelos livros de história, e sim pelas biografias daqueles que fizeram acontecer.

Cabe lembrar a você, leitor desse blog, que o ano era 1964 e se você nunca leu esse livro, ou não estava vivo no período, é bom ter em mente que estávamos no auge dos Beatles e dos Rolling Stones, havia um slogan americano “Make Love, Not War” que martelava em nossas cabeças frente à guerra do Vietnã, aqui no Brasil o Tropicalismo era o tom na revolta contra os militares e a vontade de mudanças. Algumas pessoas mergulharam de corpo e alma num comprometimento legítimo de mudanças que resultou no país livre que temos nos dias de hoje.

Fernando Gabeira conta sobre seu engajamento, sua experiência na luta armada, a clandestinidade, os bastidores do sequestro do embaixador Charles Elbrick, sua prisão e os anos de exílio. Narrado na primeira pessoa a obra tornou-se um sucesso de vendas e acredito que isso aconteceu por causa da narrativa que misturava fatos históricos relevantes, um toque de romance e reflexões do autor sobre ter valido ou não a pena tudo que viveu. Acredito piamente que era uma obra à frente do seu tempo quando foi publicada pela primeira vez em 1979.

Em 1997 o cineasta Bruno Barreto levou para as telas do cinema um filme baseado no livro. Se quiserem um conselho, não o vejam, na minha modestíssima opinião é um filme raso e ruim, um passo infeliz na carreira do diretor. Se você quer saber mais vá direto à fonte, o livro está por aí e pode ser adquirido por um precinho bem camarada.

Cidade do abandono: Fortaleza/CE
Local: Restaurante Sirigato
Data: 25/06/2014

domingo, 4 de maio de 2014

A INCRÍVEL E TRISTE HISTÓRIA DE CÂNDIDA ERÉNDIRA E SUA AVÓ DESALMADA


Amargamos recentemente a morte de um grande autor, Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) nos deixou dia 17 de abril. As TVs fizeram suas homenagens mostrando clipes de suas fotos e trechos de suas entrevistas, as Academias de Letras fizeram chás e discursos enaltecendo sua obra, nas redes sociais pipocaram fotos e legendas sobre sua morte, embora muitos daqueles que publicaram trechos de livros em seus perfis eu tenho certeza que jamais leram uma linha sequer do autor e só o fizeram para manter-se “na moda” do politicamente correto e culto.

Eu me emocionei com a sua partida, recluso desde 2009 quando anunciou uma pretensa aposentadoria e não publicou mais nenhum original, é, para mim, muito difícil saber que essa fonte de sabedoria se esgotou para sempre. Nossa sorte é que existe um legado para ser desfrutado a qualquer tempo porque sua obra é atemporal.  Já escrevi sobre ele em diversos posts: Crônica de uma morte anunciada (Ago/2010), Cem anos de solidão (Abr/2013), O amor nos tempos do cólera (Jun/2013) e Memória de minhas putas tristes (Jul/2013). Hoje, mais do que nunca, alimento a esperança para aqueles que acharam os livros que tenham-se apaixonado pelo Gabriel e continuaram a ler outros de seus escritos.

A Incrível e Triste História de Cândia Eréndira e sua Avó Desalmada faz parte do seu acervo de contos que nesse livro em particular ganhou status de titular. Ao todo são sete contos fantásticos que o Gabriel mistura acontecimentos surreais a detalhes do cotidiano, em especial os pescadores. Histórias como “O afogado mais bonito do mundo” e “O anjo idoso” revelam o melhor do seu talento como criador de tipos em meio à surrealidade dos fatos.

Eréndira foi originalmente escrita como roteiro cinematográfico, posteriormente à sua publicação como conto foi readaptada para o cinema em 1983 numa coprodução entre México, Alemanha e Portugal e dirigida pelo cineasta Ruy Guerra. Tornou-se um cult film pelo desempenho incomparável de Irene Papas no papel da avó, e a jovem Eréndira foi interpretada por uma atriz brasileira que mostrou todo seu talento, beleza e sensualidade, a até então quase desconhecida Claudia Ohana.

Rezo uma oração em memória de Gabriel Garcia Márquez e peço a Deus que sua genial obra nunca seja esquecida.

Cidade do abandono: São Paulo/SP
Local: Av. Paulista - Muro do Parque Trianon
Data: 30/06/2014

domingo, 27 de abril de 2014

CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS



Já que escrevi um post sobre o primeiro livro da saga Cinquenta Tons, fica claro para o leitor assíduo desse blog que li os outros livros que compõem a série. Confesso que o segundo livro, título do post, foi de leitura mais rápida porque eu estava embalado pelo término do primeiro, mas o terceiro ainda está na metade e demorando em me concentrar, mas saibam que sou um abnegado e vou até o fim.

Quando terminamos de ler o primeiro volume de Cinquenta Tons de Cinza e nos deparamos com o rompimento do romance entre Anastacia Steele e Christian Gray, por mais ingênuos que sejamos é possível prever que o rompimento não irá durar muito, afinal ainda temos dois volumes com, mais ou menos, quinhentas páginas cada um, e a história tem que seguir seu rumo. Então no segundo volume a autora E. L. James (1963) foca em dois assuntos principais; o passado misterioso de Christian e o casamento dos protagonistas.

Descobrimos que Christian tem uma pesada carga emocional que inclui abandono de incapaz por parte de sua mãe biológica e abuso sexual, ele foi o submisso durante anos da misteriosa Mrs. Robinson, amiga íntima da sua mãe adotiva. Isso leva os leitores a sentir uma “peninha” desse arrogante homem de negócios que possui cicatrizes pelo corpo e não permite que nenhuma mulher toque nelas.

Nessa trajetória até o casamento veremos Anastacia extrapolar os tais ‘limites rígidos’ de Christian e conquistar de vez o seu amor a ponto dele desistir de torna-la sua submissa e propor-lhe a união definitiva. Ela terá uma promoção meteórica na editora que trabalha e, como isso acontece de forma obscura, podemos prever que esse assunto ainda voltará mais à frente. Mas há de se dar um crédito pelo crescimento da personagem, não só pelos lindos trajes que o dinheiro pode comprar e que ela aceitará usar, mas também pela maneira mais madura que toma decisões relativas às brincadeirinhas sexuais que já se permite sem tantos pudores e o enfrentamento com Mrs. Robinson, catapultada à categoria de arquirrival.

Como mencionei acima, se você ler Cinquenta Tons de Cinza leia logo Cinquenta Tons Mais Escuros para não perder o embalo, e a curiosidade, é claro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça em frente ao Centro Cultural de Plataforma
Data: 17/07/2014

domingo, 20 de abril de 2014

O JARDIM DOS FINZI-CONTINI


Várias vezes já citei aqui no blog a quantidade de filmes baseados em obras literárias, eu sou quase enfático ao escrever sobre isso, o melhor amigo do cinema é o livro. Para o bem e para o mal, como tudo nessa vida, há verdadeiras obras primas e fiascos retumbantes. Como hoje é domingo de Páscoa e coincidentemente o terceiro dia de um feriado prolongado, acordei naquele estado letárgico de quem pensa; hoje posso dormir até tarde, bem tarde. Mas o cérebro já está a funcionar e muitas lembranças surgem com o tema do dia: Páscoa. Lembro-me dos domingos na infância em São Gonçalo dos Campos, interior da Bahia, com meus avós maternos, e nesse momento volta a memória um filme antigo do Vittorio de Sica que assisti a muito tempo chamado O Jardim dos Finzi-Contini.

Quem conhece a obra escrita por Giorgio Bassani (1916-2000) que inspirou o filme pode não associar o livro com a Páscoa, já que se trata da história de uma tradicional e riquíssima família judia italiana condenada a uma morte anônima num campo de concentração nazista durante a guerra. A obra descreve o cotidiano dessa família, os jovens que a cercam e suas diferenças de pensamento e personalidade. Durante o período entre 1938 e 1943 o regime fascista apertava mais e mais o cerco contra os judeus, a liberdades iam pouco a pouco sendo retiradas e os ricos enclausuravam-se em suas belas residências, jogavam tênis e mantinham seus jardins impecáveis como uma prova sutil de que a vida continuava a mesma. O momento do golpe chegando e as pessoas aguardando pacientemente, como se estivessem sentadas numa estação esperando o trem que iria leva-las.

Conheceremos Micòl e seu irmão Alberto, Giogio nosso protagonista, e Bruno Malnate, simpatizante socialista amigo de Alberto. Embora escrito na primeira pessoa o romance é um monumento à memória de Micòl tanto que quando se encerra sua participação interrompe-se também a do protagonista. Na minha modestíssima opinião, uma figura tão fascinante e enigmática quanto Blanche Du Bois de Um Bonde Chamado Desejo.

Nesse domingo lembrei a cena filmada por Vittorio de Sica, a família de Giorgio reunida para celebrar a Páscoa cantando hinos hebraicos e a ameaça chegando através do telefone, o holocausto já está acontecendo, mas é preciso continuar vivendo e festejando com os cânticos tradicionais. O telefone toca, Giorgio atende e ninguém fala do outro lado, ligação interrompida ou uma ameaça? Depois toca de novo, a vozes cantantes se abaixam, o medo estampado em seus rostos, de novo não se ouve nada do outro lado. No terceiro toque Alberto fala do outro lado da linha, todos respiram, não é a polícia, não são os fascistas, todos relaxam, deixam cair o véu da paranoia e as vozes voltam a cantar alto.

Belíssima sequencia do filme narrada com maestria no livro. Vale à pena.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento da Perini - Graça
Data: 01/06/2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

ANO QUATRO


Nem acredito que meu blog está completando quatro anos de existência, tanta coisa mudou nesses últimos tempos e o ano de 2013 foi especialmente rico em leituras, agradeço às horas na sala de espera em aeroportos nas quais consumi muitas páginas, sem falar no tempo do voou já que dormir em avião não está em meus programas prediletos. Houve também as incontáveis horas de espera pelo começo dos espetáculos que eu tive o prazer de fazer a iluminação. Meu muito obrigado às produções de Tia Judith Ao Vivo e Escândalo - A Comédia da Mulher Só que confiaram em mim para operar a luz dos seus espetáculos proporcionando horas de leitura nas cabines do Teatro Módulo e Café Teatro Rubi.

Estou chegando ao post de número 187 com resenhas de livros que serão posteriormente abandonados, e já passei das 19 mil visitas, um número enorme para um blog sobre literatura feito por um anônimo, sim, um anônimo, até hoje nunca dei entrevistas ou participei de programas de TV ou rádio para falar sobre o blog. Também não almejo isso, nada contra os assessores de imprensa, já fui um deles, mas acredito no poder magnífico do boca a boca e acho que esta é a forma mais sincera de divulgação. As pessoas entram aqui, recebem informações sobre livros e podem se inspirar para lê-los, ou não.

Minha maior satisfação é receber um comentário bacana sobre um livro achado, recentemente deixei displicentemente o livro A Mulher Que Matou os Peixes, da Clarice Lispector, post de 12/01/2014, na balaustrada da janela panorâmica da garagem G2 do Shopping Barra. Levei exatos 10 minutos dentro do shopping e, ao sair, notei que o livro não estava mais lá. A princípio fiquei chateado porque pensei imediatamente que alguém da segurança ou da limpeza do shopping havia achado e vislumbrei uma gaveta ou o lixo como destino certo para um livro tão raro.

Minha surpresa veio no mesmo dia através do comentário abaixo publicado aqui no blog de uma pessoa chamada Jamile:

“Ooown! Eu encontrei essa delicinha de livro lá no shopping Barra. Fiquei igual a uma criança quando ganha um brinquedo novo! Eu amo Clarice Lispector e coleciono todos os livros dela, mas esse eu não conhecia. Mas não se preocupe, assim que terminar de ler (daqui a pouco) vou abandoná-lo pra que outra pessoa possa ficar feliz como eu. Adorei a iniciativa. Muito obrigada!”

Não conheço a Jamile, mas me senti encantado por suas palavras. Esse exemplo é a prova cabal de que o Universo conspira pra que as coisas achem o seu destino. Um livro raro da Clarice Lispector é encontrado por uma pessoa fã da autora que não o conhecia. Isso para mim não tem preço.

Um momento de agradecimentos é padrão em todo post de aniversário. Continuo agradecendo os amigos, seguidores e incentivadores, e principalmente a aqueles foram contagiados pelo blog e começaram a ler.


OBS: A foto de capa, um bolo especial de cenoura com chocolate feito pela Juciara, uma amiga bem querida. Na foto de rodapé o que sobrou do bolo um minuto depois da foto.

domingo, 13 de abril de 2014

AGOSTO

O também autor Fernando Morais escreve na orelha de Agosto a seguinte frase: “Agosto será consagrado, sem a mais remota sombra de dúvida, como uma das melhores obras do nosso tempo. E como o melhor livro do Rubem Fonseca.”.

Na minha mais modesta opinião Rubem Fonseca (1925) possui, além de Agosto, obras muito interessantes como por exemplo: Bufo & Spallanzani, Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos e O Seminarista, além de alguns contos excepcionais como Lucia McCartney e Feliz Ano Novo. Mas o que se sobressai em Agosto é a apresentação do enredo que mistura de forma inebriante realidade e ficção, sem alterar cronologias e sem alterar os fatos acontecidos na vida real.

O começo de tudo é o assassinato brutal de um empresário no quarto do seu duplex no Rio de Janeiro, era madrugada do dia 1º de agosto de 1954. Ao mesmo tempo Gregório Fortunato, um homem conhecido como Anjo Negro, chefe da guarda pessoal do Presidente Getúlio Vargas, andava pelo Palácio do Catete verificando a segurança do local e arquitetando outro crime, um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda. Uma terceira pessoa entra nesse enredo; o Comissário Alberto Mattos. Depressivo e incorruptível, dividido entre uma úlcera gástrica e duas namoradas, ele sai atrás de uma pista sobre quem teria armado os pistoleiros do atentado da Rua Toneleiro, que também poderia ter ligação com a morte do milionário na cama.

Rubem Fonseca detém o poder de entreter a nós, leitores, na fusão entre ficção e realidade, misturando figuras públicas com bicheiros, mães de santo, golpistas, militares, pistoleiros, políticos, prostitutas, de forma tão magnética que ficamos sem saber onde é a ficção e até onde ela está inserida na realidade dos fatos históricos.

Agosto foi lindamente adaptada para a TV Globo, em 1993, pelas mãos de Jorge Furtado e Giba Assis Brasil e recentemente foi reprisada no canal Viva na TV fechada. José Mayer viveu com maestria o Comissário enquanto Vera Fischer e Letícia Sabatella emprestavam suas belezas para Alice e Salete respectivamente. Agosto é uma obra que vale a pena ser lida e uma minissérie que vale a pena ser assistida.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Barra - Balcão da praça de alimentação.
Data: 03/05/2014

domingo, 6 de abril de 2014

FILADÉLFIA


Recentemente assisti ao filme Clube de Compras Dallas e fiquei tão abalado psicologicamente quanto, há mais de vinte anos atrás, me senti depois de assistir a outro filme chamado Filadélfia. O tema principal em comum aos dois filmes é a AIDS, entretanto o enfoque é diverso porque Andrew Beckett de Filadélfia era homossexual e Ron Woodroof era heterossexual e homofóbico. Em comum nos dois filmes estão os elos de aceitação e laços afetivos criados a partir do convívio e do conhecimento do outro; é o que Ron vive com o transexual Rayon em Clube de Compras e em Filadélfia Andrew conquista o respeito e a amizade daquele que seria seu advogado, o preconceituoso Joe Miller.

O livro que pretendo abandonar foi escrito por Christopher Davis com base no roteiro do filme de Ron Nyswaner, algo diferente para esse tipo de publicação porque geralmente são livros que dão origem aos filmes, mas há de se dar o devido crédito para Christopher que consegue imprimir em suas palavras todos os sentimentos, as trocas de olhares e os silêncios do roteiro filmado.

É um livro emblemático para uma época de muito preconceito e pouca informação sobre a doença e ajudou a desmistificar e abrandar conceitos arraigados de desigualdade. Andrew Beckett, jovem e brilhante advogado contratado de uma grande empresa, é obrigado a esconder sua sexualidade para ser aceito. Quando percebe a doença manifestar-se gerando rumores na empresa e uma possível sabotagem ao seu trabalho que culminou em sua sumária demissão, não pensa duas vezes e tenta conseguir um advogado para representa-lo no processo que moverá por discriminação. Após várias negativas encontra Joe Miller que também recusa o caso, mas, ao perceber a injustiça pela qual o colega está passando resolve apoia-lo e ambos mergulham numa batalha jurídica que irá mudar suas vidas.

Acho importante que filmes como Clube de Compras Dallas venha depois de tantos anos e mostre a outra face da moeda exposta com maestria por Filadélfia, ambos baseados em fatos reais. Serve de alerta aos milhões de jovens que ainda hoje fazem sexo sem camisinha achando que a AIDS não existe mais, ou que ainda é uma doença restrita a homossexuais.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Entrada da Sala de Arte - Ufba.
Data: 01/05/2014