domingo, 5 de agosto de 2012

LIV ULLMANN SEM FALSIDADES


Já falei muito aqui no blog, adoro histórias, e quando se trata de histórias verídicas, histórias de vida, eu me perco no tempo e só consigo parar quando chego à última página. Mas não é com qualquer história que sigo me aventurando, nos tempos das redes sociais que a biografia é escrita diariamente através de postagens e fotos de pratos de comida feitas pelo Instagran, um mínimo de critério se faz necessário para conseguir ler coisas interessantes.

É justamente nesse mote que apresento a vocês ‘Liv Ullmann Sem Falsidades’. Escrito por David E. Outerbridge e traduzido pelo Roberto de Cleto este livro é composto por uma série de entrevistas que a atriz Liv Ullmann concedeu ao autor durante a temporada na Broadway da peça ‘Ana Christie’ de Eugene O’Neill. Segundo o autor uma entrevista “sem falsidades” porque penetra no próprio ser da atriz que nos oferece os segredos de sua arte, a forma como é capaz de encontrar a essência de cada personagem, e isso, por sua vez, leva finalmente à revelação da sinceridade de uma interpretação.

O autor disse em uma entrevista quando perguntado por que dar tanto espaço para uma atriz até então tão pouco conhecida nos Estados Unidos: “Talvez existam duas respostas: Uma delas só pode ser compreendida vendo-a atuar, pois o texto de uma peça ou de um filme e a interpretação que a ele é dada pertencem ao momento e à plateia. O momento passa tão rapidamente quanto uma respiração. A segunda tem a ver com a face que transmite a emoção das palavras. Esse livro é a respeito dessa face e da persona que está por trás. É uma composição de uma atriz que, extraordinariamente, entra em cada novo papel em sua forma essencial.”

No Brasil o texto foi apresentado a Roberto de Cleto pelo ator/diretor André Valli, que era fanático por Liv Ullmann. O Roberto achou que podiam ser úteis aos seus alunos da Escola de Teatro da Uni-Rio quando fossem estudar o método Stanislavski de preparação do ator e resolve fazer a tradução. Para Roberto o livro pode ser de grande utilidade para todos que se interessam pelo teatro como profissão, como apreciadores, e até por aqueles que querem saber sobre as colocações humanas de uma personalidade que é uma atriz.

O livro que vou abandonar tem um prefácio lindo e emocionado escrito por Marília Pera e uma dedicatória do amigo Agê Habib que me presenteou o livro, que diz: “Os atores impressionam o público não quando estão furiosos, mas sim quando representam bem a fúria.”

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge em frente a Livraria Cultura
Data: 11/11/2012

domingo, 29 de julho de 2012

MINHA VIDA


Lá vou eu de novo falar em histórias... É fato, mas isso é o meu grande motivador para a leitura desde a adolescência. Hoje volto um pouco ao passado já que personalidades biografadas que tiveram uma contribuição com o comportamento dito moderno não morrem jamais, e os livros, assim como outras mídias, tem função importante para que não ocorra esse esquecimento.

Dito isso apresento a vocês o livro Minha Vida cuja personagem biografada é Isadora Duncan (1877-1927). Considerada a pioneira da dança moderna por usar as técnicas do balé clássico para movimentos mais soltos, inspirados no vento, nas plantas, com os cabelos soltos e sem sapatos. Algo totalmente impensado para os clássicos da época. Também na vida privada Isadora não era muito convencional, casou-se três vezes e reza a lenda que só consentiu com os casórios porque sabia que podia separar-se caso necessário, e assim o fez com os três maridos.

No livro que pretendo abandonar há uma indicação de que a biografia foi muito planejada mas só foi concluída no verão de 1927 e Isadora faleceu sem ter feito a última leitura do manuscrito, por isso tudo que foi publicado não foi corrigido ou suprimido.

Isadora Duncan morreu de uma forma inusitada. Em Nice, ao passear com um amigo num carro de corrida, a echarpe que a princípio esvoaçava ao vento prendeu-se na roda traseira do carro. Sem que houvesse tempo de pedir por socorro ou mesmo fazer um simples gesto ela foi estrangulada com tal violência que, acredita-se, sua morte foi quase instantânea.

Uma fatalidade interrompe aos 50 anos uma vida riquíssima, e deixa um legado que jamais será esquecido.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Louge em frente a Etna
Data: 11/11/2012

sábado, 21 de julho de 2012

VALE TUDO - TIM MAIA


“Sou preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofências e deficiências capilares.” Assim se autodefinia Tim Maia (1942-1998) e quem nos conta isso é Nelson Motta (1944), a partir de uma imensa pesquisa e de uma intensa convivência, uma história de som, fúria, muita fúria, amores, chifres, brigas, muitas brigas, drogas, bebidas, shows maravilhosos, muitos shows maravilhosos, vários não realizados, amigos, dinheiro e gargalhadas, muitas gargalhadas.

Uma biografia deliciosa de ler, pontuada em ordem cronológica desde o nascimento e também através do peso adquirido pelo artista ao longo da sua existência. É muito interessante a forma com que o Nelson Motta nos conduz ao mundo de Tim Maia, desde a infância, a vida com os pais, a ida aos Estados Unidos que seria um marco para o seu som, a volta ao Brasil, os programas da Jovem Guarda, o sucesso, a independência financeira, a independência das gravadoras, a preocupação com a administração do dinheiro, as festas regadas a mulheres, bebidas e drogas, muitas drogas.

Era incrível a capacidade do Tim de se autodestruir, alias, acho que isso é o mal dos gênios, ou daquelas pessoas especiais em suas áreas de atuação. Será que a vida breve faz com que esses ídolos/ícones sejam cultuados para sempre? Impossível que várias gerações não estejam marcadas de alguma forma com a música do Tim, sua voz potente e seu fabuloso sentido rítmico. A minha teve o privilégio de ter sido embalada por grandes sucessos e eu particularmente tive a oportunidade de assistir ao Tim em algumas fases, aqui em Salvador no antigo Troféu Caymmi e em São Paulo em vários momentos. Azul da Cor do Mar, Sossego, Chocolate, Gostava Tanto de Você, Primavera, Você, Não Quero Dinheiro, Me Dê Motivo, O Descobridor dos Sete Mares, Vou Pedir Pra Você Voltar, Não Vou Ficar, Do Leme ao Pontal, W Brasil, me fizeram dançar, cantar e ser feliz, muito feliz.

“Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!”
Tim Maia

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: MAM - Museu de Arte Moderna
Data: 29/09/2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O MONSTRO DE OLHOS AZUIS


Continuando a série de livros sobre biografias hoje vou escrever sobre um tipo muito comum de livros, verdadeiros caça níqueis literários; a biografia de famosos. Muito comum na Inglaterra e em Hollywood, existem biografias de famosos de tudo quanto é tipo: por fases da vida, biografias autorizadas, não autorizadas, póstumas, mas ao contrário daqui onde alguns biografados conseguem na justiça o embargo da obra, lá isso não é possível. Só para vocês terem uma ideia, há mais de 40 biografias da Lady Dy, a cantora Adele já lançou a primeira e por aqui até o cantor/ator Fiuk já “escreveu” a sua, para o delírio das fãs.

Longe de ser uma obra relevante, apesar de muito bem escrita, Monstro de Olhos Azuis é uma biografia parcial da atriz Tonia Carrero (1922), escrita pela própria como enfatizam os editores o livro revela uma fase bem romântica da vida entre a infância e a adolescência. Uma reconstituição minuciosa dos fatos, pessoas, acontecimentos, sentimentos, da solidão de uma menina, suas alegrias e decepções, escritas com uma narrativa pungente e por vezes emocionada.

Os fofoqueiros de plantão deram com a cara na porta, não há detalhes picantes, nem abusos, ou sofrimentos exacerbados, é uma infância de outros tempos, afinal Tonia nasceu na década de 20 do século passado e era outro tipo de criação e vivências. Os cheiros da casa da avó, a Bá que ajudou na sua criação e todos os irmãos, o primeiro amor, as comidas, as festas, etc.

Eu recomendo a leitura, como se você estivesse vendo um filme antigo, uma reconstituição de época, ou simplesmente como uma forma de conhecer melhor a base que sedimentou a personalidade da atriz, uma das damas do teatro brasileiro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Salvador Shopping - Em frente a Lojas Americanas
Data: 30/09/2012

sábado, 7 de julho de 2012

UMA VIDA INVENTADA


Minha memória diz que eu lembro da Maitê Proença (1958) da novela As Três Marias, que atuava junto com a Glória Pires e a Nádia Lippi. Mas para mim foi em Guerra dos Sexos que ela despontou como uma mulher forte, bonita e desejada pelas revistas masculinas. Eu gosto muito da fase GNT, diga-se Saia Justa, em que a atriz se torna persona e põe pra fora na TV opiniões e conceitos que já havia começado a escrever para uma seleta plateia que comprava a revista Época entre 2003/2004.

Este não é o primeiro livro da atriz/escritora, mas é o primeiro que fala de si de um jeito tão especial. Misturando literatura e vida real, verdades cruas e um pouco de imaginação, como num jogo de esconde esconde, embora para o leitor seja fácil perceber quando é realidade e quando é ficção. Não pense em dramas e tragédias de uma vida amargurada, foi sofrida, penosa, mas de um jeito engrandecedor. Tem o devido peso nas revelações mais fortes, e até surpreendentes, mas no todo é uma narrativa divertida, bem humorada e irônica com casos surpreendentes entremeados com a história quase ficcional de uma menina que quer desbravar o mundo.

Maitê diz: “Não sei o que faço aqui. Com quem estou falando? Por que essas revelações? Isso de passar a vida interpretando textos de outras criaturas vai abafando a própria voz. (...) Talvez esteja tentando construir uma ponte mais sólida entre mim e as pessoas porque preciso me comunicar para sair do isolamento onde me enfiei para me proteger, ora... da solidão. Escrevo contra a solidão. E quando eu derramar aqui toda a intimidade, com a lista exposta a minha frente nessa associação livre, talvez a vida se revele dando algum sentido à caminhada.”

Para muitos o nome de uma atriz da Globo na capa de um livro significa o mesmo que “não compre”, mas na minha humilde opinião vale a pena conhecer as personagens reais encenadas pela atriz e reinventadas pela escritora, o livro vale o que se paga por ele, se duvidar, você ainda sai no lucro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Municipal - Rua Chile
Data: 09/09/2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

SÓ AS MÃES SÃO FELIZES


Hoje começo uma nova série de livros que pretendo abandonar e que será sobre biografias. Confesso que estou empolgado porque gosto imensamente de biografias, sejam elas autorizadas ou não e principalmente quando o biografado tem, ou teve, uma vida rica, não exatamente de dinheiro, mas de valores e experiências.

Para começar com todo gás vou me desfazer de um livro importantíssimo na minha vida: ‘Só as Mães são Felizes’. Em um depoimento dado à escritora/jornalista Regina Echeverria num tom quase confessional, Lucinha Araujo, mãe do Cazuza, relata fatos da vida de seu único filho morto em 1990 em consequência da AIDS.

Todo mundo conhece o Cazuza e já sabe que ele está morto, mas, ao ler o primeiro capítulo cujo título é “O Inevitável” é impossível não se emocionar. Como mãe, Lucinha consegue chegar aos nossos corações de forma ímpar. É o relato de uma mãe que conta como foram os últimos momentos do filho, contrariando a ordem natural das coisas, os mais novos enterram os mais velhos e a vida segue o curso.

Aqui confesso que demorei para conseguir ler esse livro. Primeiro por ser sobre o Cazuza, que tive a oportunidade de assistir em vários dos seus shows, tanto no Barão Vermelho quanto em carreira solo e nunca vou me esquecer da última vez que o vi cantando, já bem debilitado pela doença que o corroia. Segundo porque suas músicas embalaram importantes momentos da minha vida e isso não muda com a sua morte. Depois de ler três vezes o primeiro capítulo e não conseguir continuar a leitura do livro tamanha a emoção, na quarta vez que tentei fui direto para o segundo capítulo e só quando acabei voltei a ler o primeiro capítulo novamente. E mesmo agora, escrevendo esse post, estou emocionado só de lembrar.

Tem gente que vive 100 anos e tem uma existência morna, Cazuza viveu 32 em quase total ebulição, isso me fascina. Lendo essa visão maternal da sua existência consigo imaginar que nada acontece por acaso. O talento é nato e isso ninguém tira de você.

“Homem que é homem volta atrás, mas não se arrepende de nada.”
Cazuza

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Itau de Cinema
Data: 09/09/2012

sábado, 23 de junho de 2012

O DESLUMBRAMENTO


Quando vivia em Salvador, antes de mudar para São Paulo, morava num apartamento grande que tinha até quarto para empregados, e como eu não tinha empregados para dormir em casa usava o local para guardar coisas. Sou canceriano e gosto de colecionar, guardar, ter. Neste quarto invariavelmente tinha muitos livros, revistas, jornais, fitas de vídeo, coisas que eu jurava ser um arquivo pessoal para consultas. Quando fui morar em São Paulo deixei várias caixas na garagem da casa da minha tia Liane para vir buscar depois. Mas o apartamento de São Paulo não era tão grande e nunca consegui levar as coisas para lá. Quando voltei a morar em Salvador fui intimado a levar as caixas e dar um destino ao seu conteúdo. É o que tenho feito ultimamente, abro as caixas, revisito o passado, presenteio amigos com relíquias que guardei e doei muita coisa para reciclagem. A cooperativa de papel ficou bem feliz quando cheguei com o carro cheio, mais de setenta quilos.

Mas porque abri esse post com uma preleção sobre o passado? Tenho uma mania de grifar textos, seja de livro, jornal ou revista, e quando estava separando as coisas me deparei com inúmeros recortes de revista e jornais grifados com lápis ou caneta. Uma revista Veja de 17/7/1985 me chamou a atenção, era uma entrevista com a escritora Marguerite Duras e o grifo que eu fiz estava sob a seguinte frase: “diante de um bom escritor, a gente nunca sabe aonde ele quer nos levar...”.

Já falei de Marguerite Duras (1914-1996) aqui no blog, post ‘A Dor’ de 28/11/2010, e acho-a perfeita para esta série de livros que nos levam a pensar. Então cheguei a O Deslumbramento, reli em uma tarde de sábado porque o livro é curto, apenas 145 páginas, e novamente me pus a pensar. Por que temos a necessidade de viver uma história duas ou mais vezes? Uma quando efetivamente a vivemos e outras quando contamos aos amigos, escrevemos sobre ela, ou sonhamos com ela tempos depois. E porque damos à segunda vez mais importância que a primeira? Damos mais importância ao sonho, ao relato, do que a hora da vivência. Ficou complexo?

No livro temos a história da adolescente Lol Stein que perde o noivo Michael para uma desconhecida no baile do Cassino Municipal de T. Beach. Até aí nada de novo, exceto pela cena melodramática e quase patética que a autora descreve e que necessita que seja assim para criar um romance instigante na minha humilde opinião.

“Quando Michael Richardson se voltou para Lol e a tirou para dançar pela última vez na vida deles... Ele se tornara diferente. Todos podiam percebê-lo... Lol olhava-o, olhava-o mudar. A mulher estava só. Michael dirigiu-se para ela com emoção tão intensa que se ficava com medo só de pensar que ele pudesse ser rejeitado. Também Lol, em suspense, esperou. A mulher não recusou. Terminada a primeira dança, Michael se aproximara de Lol como de costume. Depois, ao fim da dança seguinte, não mais tinha ido reencontrar Lol... De olhos baixos, os dois passaram diante dela. Lol seguiu-os com os olhos pelos jardins. Quando não mais os viu, caiu no chão, desmaiada.”

Dez anos se passam desde a cena interrompida e que agora volta. Lol está casada, tem três filhos, é uma mulher alegre e tranquila até que precisa voltar a morar em T. Beath. Certa tarde passa em frente a sua casa uma mulher que lhe pareceu familiar. Depois desse dia ela sonha com o baile, seu desequilíbrio e a imutável sucessão de dias que se seguiram.

Eu fico a pensar... Lol precisa mesmo viver duas vezes a mesma cena?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Rocca Forneria
Data: 07/09/2012

sábado, 16 de junho de 2012

LAÇOS DE FAMÍLIA


Às vezes o texto de Clarice Lispector (1920-1977) costuma ter uma ilusória facilidade pelo seu vocabulário simples e as imagens de animais, plantas e objetos domésticos em situações da vida cotidiana e ainda por cima envolvidos numa espécie de frequência de intenso lirismo. Mas que o leitor não se engane, em poucas linhas você será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade a vida das pessoas.

É desse modo que o leitor entra em contato com a experiência de Laura com as rosas e o impacto de Ana ao ver o cego no Jardim Botânico, ou a peregrinação de uma galinha no domingo de uma família com fome. Pequenos detalhes deflagram o mundo e quebra fronteiras falsamente estáveis em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parecia marcado pela ameaça de nada acontecer.

Nesta coletânea de contos as personagens debatem-se, sejam quais forem, e os laços que os unem são, em sua maioria, elos familiares que são mesmo tempo de afeto e de aprisionamento.

Clarice tem o dom de fazer você pensar, seja pelo lado irônico com que trata as relações humanas ou pelo lado introspectivo das mesmas. Mas outra vez o digo: que não se engane o leitor achando que lerá um texto por demais filosófico ou chato. Muito pelo contrário, na minha humilde opinião Clarice tem humor, é estratégica, é reveladora, e quando você menos espera estará a pensar no que leu e fatalmente será afetado pelo seu texto.

Experimente!

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão
Data: 22/08/2012

sábado, 9 de junho de 2012

ILUSÕES


Quem já leu Fernão Capelo Gaivota com certeza já ouviu falar de Richard Bach (1936), seu livro mais famoso e pelo qual amargaria pelo resto da vida o peso de não conseguir escrever algo melhor, ou em tese, que fosse tão surpreendente quanto, e faria com que outros bons livros do mesmo autor fossem desprestigiados pelo grande público.

É o caso de Ilusões, livro que pretendo abandonar e que faz parte dessa série de livros que nos leva a pensar. Para o autor esse livro faz parte do processo de Fernão, livro que contava a história de uma gaivota que decide que voar não deve ser apenas uma forma para a ave se movimentar. A história desenrola-se sobre o fascínio de Fernão pelas acrobacias que pode realizar durante o voo e em como isso transtorna o grupo de gaivotas do seu clã. É uma história sobre liberdade e aprendizagem.

Ilusões é quase uma continuação de Fernão, escrito sete anos depois é uma história leve, mística, quase uma aventura entre dois homens que se encontram nos campos do meio oeste americano onde cada um deles está fazendo o que realmente deseja fazer. As ideias por trás das palavras são ideias simples, que funcionam na vida cotidiana: descobrir aquilo que mais desejamos fazer e fazê-lo, aconteça o que acontecer. E ao tomar essa decisão arcar com todos os ‘senões’, os ‘talvez’ e os ‘e se’ que tornarão tudo muito mais difícil, mas se é o que queremos da vida, ela será mais feliz.

Este livro há de significar coisas diversas para pessoas diferentes. Para uns apenas uma história de milagres ou uma história sobre dois vagabundos, para outros quem sabe um livro sobre a realidade ou a assustadora aparência que a realidade tem. Nos tempos atuais em que ‘ter’ é melhor que ‘ser’, em que as redes sociais mostram pessoas felizes 24 horas por dia a ponto de publicar a foto de um prato de comida... É um livro que se constitui num desafio e que até pode contribuir para modificar sua vida.

Mas isso só acontece se você estiver disposto a isso.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Av. Presidente Vargas - Centro
Data: 22/08/2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

PERDAS & GANHOS


Não é a primeira vez que vou escrever sobre Lya Luft e espero falar dela ainda muitas e muitas vezes nesse blog já que Lya possui uma obra vasta, muito rica na minha humilde opinião, que me fascina e ao mesmo tempo dá uma chacoalhada no meu cotidiano. Isso me deu uma ideia para começar a nova série de livros que pretendo abandonar; livros que nos levem a pensar. Não me canso de repetir aqui que gosto de histórias, e isso não se traduz simplesmente em aventuras ou biografias, eu gosto da forma como os autores às contam. Alguns livros nos trazem apenas entretenimento, outros juntam a isso uma boa dose de informações sobre os mais variados assuntos, e poucos ainda conseguem juntar neste caldeirão um toque de filosofia e experiências de vida.

Esse é o caso de Lya Luft (1938). Perdas & Ganhos é o seu 17º livro, é nele que Lya leva a escrita para o lado pessoal e busca dar um testemunho sobre suas experiências e o amadurecimento. Um livro que convoca o leitor para ser seu amigo imaginário, cúmplice de reflexões sobre a infância, a solidão da morte, o valor da vida e à transcendência de tudo. E por mais pretensioso que possa parecer é assim que escrevo para o blog. Imaginando quem está lendo, em como irá reagir aos meus pitacos literários, e se terá humor para entender minhas reflexões. Você, meu ilustre leitor, é o meu amigo imaginário e a quem dedico meu tempo.

Lya disse numa entrevista sobre o livro: “O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento, um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. Nesse curso entendi que a vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos”. Tratar assuntos tão complexos como ternura, amor, amizade, compaixão, ética, morte, delicadeza, não é fácil, mas também não é uma tarefa inglória. Gosto de Lya porque ela nos traz o pensar e sempre nos lembra de que somos responsáveis e ao mesmo tempo inocentes em relação ao que acontece em nossas vidas, somos autores e também vítimas das nossas escolhas e omissões.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 06/07/2012