sábado, 7 de julho de 2012

UMA VIDA INVENTADA


Minha memória diz que eu lembro da Maitê Proença (1958) da novela As Três Marias, que atuava junto com a Glória Pires e a Nádia Lippi. Mas para mim foi em Guerra dos Sexos que ela despontou como uma mulher forte, bonita e desejada pelas revistas masculinas. Eu gosto muito da fase GNT, diga-se Saia Justa, em que a atriz se torna persona e põe pra fora na TV opiniões e conceitos que já havia começado a escrever para uma seleta plateia que comprava a revista Época entre 2003/2004.

Este não é o primeiro livro da atriz/escritora, mas é o primeiro que fala de si de um jeito tão especial. Misturando literatura e vida real, verdades cruas e um pouco de imaginação, como num jogo de esconde esconde, embora para o leitor seja fácil perceber quando é realidade e quando é ficção. Não pense em dramas e tragédias de uma vida amargurada, foi sofrida, penosa, mas de um jeito engrandecedor. Tem o devido peso nas revelações mais fortes, e até surpreendentes, mas no todo é uma narrativa divertida, bem humorada e irônica com casos surpreendentes entremeados com a história quase ficcional de uma menina que quer desbravar o mundo.

Maitê diz: “Não sei o que faço aqui. Com quem estou falando? Por que essas revelações? Isso de passar a vida interpretando textos de outras criaturas vai abafando a própria voz. (...) Talvez esteja tentando construir uma ponte mais sólida entre mim e as pessoas porque preciso me comunicar para sair do isolamento onde me enfiei para me proteger, ora... da solidão. Escrevo contra a solidão. E quando eu derramar aqui toda a intimidade, com a lista exposta a minha frente nessa associação livre, talvez a vida se revele dando algum sentido à caminhada.”

Para muitos o nome de uma atriz da Globo na capa de um livro significa o mesmo que “não compre”, mas na minha humilde opinião vale a pena conhecer as personagens reais encenadas pela atriz e reinventadas pela escritora, o livro vale o que se paga por ele, se duvidar, você ainda sai no lucro.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça Municipal - Rua Chile
Data: 09/09/2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

SÓ AS MÃES SÃO FELIZES


Hoje começo uma nova série de livros que pretendo abandonar e que será sobre biografias. Confesso que estou empolgado porque gosto imensamente de biografias, sejam elas autorizadas ou não e principalmente quando o biografado tem, ou teve, uma vida rica, não exatamente de dinheiro, mas de valores e experiências.

Para começar com todo gás vou me desfazer de um livro importantíssimo na minha vida: ‘Só as Mães são Felizes’. Em um depoimento dado à escritora/jornalista Regina Echeverria num tom quase confessional, Lucinha Araujo, mãe do Cazuza, relata fatos da vida de seu único filho morto em 1990 em consequência da AIDS.

Todo mundo conhece o Cazuza e já sabe que ele está morto, mas, ao ler o primeiro capítulo cujo título é “O Inevitável” é impossível não se emocionar. Como mãe, Lucinha consegue chegar aos nossos corações de forma ímpar. É o relato de uma mãe que conta como foram os últimos momentos do filho, contrariando a ordem natural das coisas, os mais novos enterram os mais velhos e a vida segue o curso.

Aqui confesso que demorei para conseguir ler esse livro. Primeiro por ser sobre o Cazuza, que tive a oportunidade de assistir em vários dos seus shows, tanto no Barão Vermelho quanto em carreira solo e nunca vou me esquecer da última vez que o vi cantando, já bem debilitado pela doença que o corroia. Segundo porque suas músicas embalaram importantes momentos da minha vida e isso não muda com a sua morte. Depois de ler três vezes o primeiro capítulo e não conseguir continuar a leitura do livro tamanha a emoção, na quarta vez que tentei fui direto para o segundo capítulo e só quando acabei voltei a ler o primeiro capítulo novamente. E mesmo agora, escrevendo esse post, estou emocionado só de lembrar.

Tem gente que vive 100 anos e tem uma existência morna, Cazuza viveu 32 em quase total ebulição, isso me fascina. Lendo essa visão maternal da sua existência consigo imaginar que nada acontece por acaso. O talento é nato e isso ninguém tira de você.

“Homem que é homem volta atrás, mas não se arrepende de nada.”
Cazuza

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Espaço Itau de Cinema
Data: 09/09/2012

sábado, 23 de junho de 2012

O DESLUMBRAMENTO


Quando vivia em Salvador, antes de mudar para São Paulo, morava num apartamento grande que tinha até quarto para empregados, e como eu não tinha empregados para dormir em casa usava o local para guardar coisas. Sou canceriano e gosto de colecionar, guardar, ter. Neste quarto invariavelmente tinha muitos livros, revistas, jornais, fitas de vídeo, coisas que eu jurava ser um arquivo pessoal para consultas. Quando fui morar em São Paulo deixei várias caixas na garagem da casa da minha tia Liane para vir buscar depois. Mas o apartamento de São Paulo não era tão grande e nunca consegui levar as coisas para lá. Quando voltei a morar em Salvador fui intimado a levar as caixas e dar um destino ao seu conteúdo. É o que tenho feito ultimamente, abro as caixas, revisito o passado, presenteio amigos com relíquias que guardei e doei muita coisa para reciclagem. A cooperativa de papel ficou bem feliz quando cheguei com o carro cheio, mais de setenta quilos.

Mas porque abri esse post com uma preleção sobre o passado? Tenho uma mania de grifar textos, seja de livro, jornal ou revista, e quando estava separando as coisas me deparei com inúmeros recortes de revista e jornais grifados com lápis ou caneta. Uma revista Veja de 17/7/1985 me chamou a atenção, era uma entrevista com a escritora Marguerite Duras e o grifo que eu fiz estava sob a seguinte frase: “diante de um bom escritor, a gente nunca sabe aonde ele quer nos levar...”.

Já falei de Marguerite Duras (1914-1996) aqui no blog, post ‘A Dor’ de 28/11/2010, e acho-a perfeita para esta série de livros que nos levam a pensar. Então cheguei a O Deslumbramento, reli em uma tarde de sábado porque o livro é curto, apenas 145 páginas, e novamente me pus a pensar. Por que temos a necessidade de viver uma história duas ou mais vezes? Uma quando efetivamente a vivemos e outras quando contamos aos amigos, escrevemos sobre ela, ou sonhamos com ela tempos depois. E porque damos à segunda vez mais importância que a primeira? Damos mais importância ao sonho, ao relato, do que a hora da vivência. Ficou complexo?

No livro temos a história da adolescente Lol Stein que perde o noivo Michael para uma desconhecida no baile do Cassino Municipal de T. Beach. Até aí nada de novo, exceto pela cena melodramática e quase patética que a autora descreve e que necessita que seja assim para criar um romance instigante na minha humilde opinião.

“Quando Michael Richardson se voltou para Lol e a tirou para dançar pela última vez na vida deles... Ele se tornara diferente. Todos podiam percebê-lo... Lol olhava-o, olhava-o mudar. A mulher estava só. Michael dirigiu-se para ela com emoção tão intensa que se ficava com medo só de pensar que ele pudesse ser rejeitado. Também Lol, em suspense, esperou. A mulher não recusou. Terminada a primeira dança, Michael se aproximara de Lol como de costume. Depois, ao fim da dança seguinte, não mais tinha ido reencontrar Lol... De olhos baixos, os dois passaram diante dela. Lol seguiu-os com os olhos pelos jardins. Quando não mais os viu, caiu no chão, desmaiada.”

Dez anos se passam desde a cena interrompida e que agora volta. Lol está casada, tem três filhos, é uma mulher alegre e tranquila até que precisa voltar a morar em T. Beath. Certa tarde passa em frente a sua casa uma mulher que lhe pareceu familiar. Depois desse dia ela sonha com o baile, seu desequilíbrio e a imutável sucessão de dias que se seguiram.

Eu fico a pensar... Lol precisa mesmo viver duas vezes a mesma cena?

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Rocca Forneria
Data: 07/09/2012

sábado, 16 de junho de 2012

LAÇOS DE FAMÍLIA


Às vezes o texto de Clarice Lispector (1920-1977) costuma ter uma ilusória facilidade pelo seu vocabulário simples e as imagens de animais, plantas e objetos domésticos em situações da vida cotidiana e ainda por cima envolvidos numa espécie de frequência de intenso lirismo. Mas que o leitor não se engane, em poucas linhas você será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade a vida das pessoas.

É desse modo que o leitor entra em contato com a experiência de Laura com as rosas e o impacto de Ana ao ver o cego no Jardim Botânico, ou a peregrinação de uma galinha no domingo de uma família com fome. Pequenos detalhes deflagram o mundo e quebra fronteiras falsamente estáveis em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parecia marcado pela ameaça de nada acontecer.

Nesta coletânea de contos as personagens debatem-se, sejam quais forem, e os laços que os unem são, em sua maioria, elos familiares que são mesmo tempo de afeto e de aprisionamento.

Clarice tem o dom de fazer você pensar, seja pelo lado irônico com que trata as relações humanas ou pelo lado introspectivo das mesmas. Mas outra vez o digo: que não se engane o leitor achando que lerá um texto por demais filosófico ou chato. Muito pelo contrário, na minha humilde opinião Clarice tem humor, é estratégica, é reveladora, e quando você menos espera estará a pensar no que leu e fatalmente será afetado pelo seu texto.

Experimente!

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Aeroporto Galeão
Data: 22/08/2012

sábado, 9 de junho de 2012

ILUSÕES


Quem já leu Fernão Capelo Gaivota com certeza já ouviu falar de Richard Bach (1936), seu livro mais famoso e pelo qual amargaria pelo resto da vida o peso de não conseguir escrever algo melhor, ou em tese, que fosse tão surpreendente quanto, e faria com que outros bons livros do mesmo autor fossem desprestigiados pelo grande público.

É o caso de Ilusões, livro que pretendo abandonar e que faz parte dessa série de livros que nos leva a pensar. Para o autor esse livro faz parte do processo de Fernão, livro que contava a história de uma gaivota que decide que voar não deve ser apenas uma forma para a ave se movimentar. A história desenrola-se sobre o fascínio de Fernão pelas acrobacias que pode realizar durante o voo e em como isso transtorna o grupo de gaivotas do seu clã. É uma história sobre liberdade e aprendizagem.

Ilusões é quase uma continuação de Fernão, escrito sete anos depois é uma história leve, mística, quase uma aventura entre dois homens que se encontram nos campos do meio oeste americano onde cada um deles está fazendo o que realmente deseja fazer. As ideias por trás das palavras são ideias simples, que funcionam na vida cotidiana: descobrir aquilo que mais desejamos fazer e fazê-lo, aconteça o que acontecer. E ao tomar essa decisão arcar com todos os ‘senões’, os ‘talvez’ e os ‘e se’ que tornarão tudo muito mais difícil, mas se é o que queremos da vida, ela será mais feliz.

Este livro há de significar coisas diversas para pessoas diferentes. Para uns apenas uma história de milagres ou uma história sobre dois vagabundos, para outros quem sabe um livro sobre a realidade ou a assustadora aparência que a realidade tem. Nos tempos atuais em que ‘ter’ é melhor que ‘ser’, em que as redes sociais mostram pessoas felizes 24 horas por dia a ponto de publicar a foto de um prato de comida... É um livro que se constitui num desafio e que até pode contribuir para modificar sua vida.

Mas isso só acontece se você estiver disposto a isso.

Cidade do abandono: Rio de Janeiro/RJ
Local: Hotel Guanabara - Av. Presidente Vargas - Centro
Data: 22/08/2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

PERDAS & GANHOS


Não é a primeira vez que vou escrever sobre Lya Luft e espero falar dela ainda muitas e muitas vezes nesse blog já que Lya possui uma obra vasta, muito rica na minha humilde opinião, que me fascina e ao mesmo tempo dá uma chacoalhada no meu cotidiano. Isso me deu uma ideia para começar a nova série de livros que pretendo abandonar; livros que nos levem a pensar. Não me canso de repetir aqui que gosto de histórias, e isso não se traduz simplesmente em aventuras ou biografias, eu gosto da forma como os autores às contam. Alguns livros nos trazem apenas entretenimento, outros juntam a isso uma boa dose de informações sobre os mais variados assuntos, e poucos ainda conseguem juntar neste caldeirão um toque de filosofia e experiências de vida.

Esse é o caso de Lya Luft (1938). Perdas & Ganhos é o seu 17º livro, é nele que Lya leva a escrita para o lado pessoal e busca dar um testemunho sobre suas experiências e o amadurecimento. Um livro que convoca o leitor para ser seu amigo imaginário, cúmplice de reflexões sobre a infância, a solidão da morte, o valor da vida e à transcendência de tudo. E por mais pretensioso que possa parecer é assim que escrevo para o blog. Imaginando quem está lendo, em como irá reagir aos meus pitacos literários, e se terá humor para entender minhas reflexões. Você, meu ilustre leitor, é o meu amigo imaginário e a quem dedico meu tempo.

Lya disse numa entrevista sobre o livro: “O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento, um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. Nesse curso entendi que a vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos”. Tratar assuntos tão complexos como ternura, amor, amizade, compaixão, ética, morte, delicadeza, não é fácil, mas também não é uma tarefa inglória. Gosto de Lya porque ela nos traz o pensar e sempre nos lembra de que somos responsáveis e ao mesmo tempo inocentes em relação ao que acontece em nossas vidas, somos autores e também vítimas das nossas escolhas e omissões.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Praça do Campo Grande
Data: 06/07/2012

domingo, 27 de maio de 2012

INSTINTO SELVAGEM


Uma cruzada de pernas em frente aos homens que a interrogam e ela, displicentemente, deixa-os perceber que não está usando calcinha. Esse detalhe, que dura exatos dois segundos, faz com que a cena entre para os anais do cinema mundial.

O filme chama-se Instinto Selvagem e eu comprei o livro achando que este teria inspirado o filme, mas foi o contrário. O roteiro cinematográfico inspirou o romance escrito por Richard Osborne e exatamente por isso faço aqui uma recomendação: quem viu o filme não leia o livro e quem se dispuser ler o livro, é melhor que não veja o filme. As obras não se completam. Geralmente o livro traz outras nuances e desenvolve mais o intelecto dos personagens, tem o poder de descrever com mais detalhes o perfil de cada um que talvez na tela grande do cinema passe despercebido, mas não é isso que acontece. Richard Osborne basicamente se limita a transcrever o roteiro escrito por Joe Eszterhas para o filme.

O enredo é: Johnny Boz, antiga estrela de rock e proprietário de um clube noturno em São Francisco é encontrado morto na sua cama. O caso é entregue ao detetive Nick Curran, no cinema interpretado por Michael Douglas, que tem um passado de alcoolismo e consumo de drogas, embora já esteja recuperado. A principal suspeita é Catherine Tramell, romancista que mantinha uma relação há algum tempo com Boz. A psiquiatra da polícia, Beth Gardner, ex-namorada de Nick, é convidada a participar nas investigações depois de se descobrir que o homicídio de Boz foi copiado diretamente de um dos romances de Catherine. Nick acaba por se envolver com Catherine e todos parecem ser suspeitos. É um thriller povoado de paixão, prazer, sexo e assassinatos.

Reza a lenda que a cruzada de pernas não estava no roteiro base, mas o diretor Paul Verhoeven propôs que a atriz levasse ao extremo o briefing do personagem. A atriz em questão é Sharon Stone, que aceitou o desafio de viver a rica, atraente e manipuladora Catherine Tramell e se tornou a protagonista da cena que permeia o imaginário coletivo desde 1992.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: G2 - Salvador Shopping
Data: 03/06/2012

sábado, 19 de maio de 2012

GOTA D'ÁGUA


Não resisto à obra de Chico Buarque, então decidi abandonar um clássico, nascido clássico, inspirado no clássico e com muitas clássicas interpretações, se me permitem.

Eu era criança quando vi Fernanda Montenegro interpretando Medéia no extinto programa Caso Especial que a Globo transmitia. A tragédia clássica de Eurípedes adaptada de forma muito bem sucedida para a TV marcou esse personagem em minha memória.

A partir dessa adaptação para a TV (1973), feita por Oduvaldo Viana Filho, Chico Buarque e Paulo Pontes transformam a história num musical (1975), estrelado por nada mais, nada menos, que Bibi Ferreira. O personagem Joana (Medéia) marcaria para sempre a carreira da atriz/cantora/diretora que até hoje, com quase 90 anos, ainda interpreta a música tema em seus shows.

A Medéia do clássico de Eurípedes se transforma em Joana no clássico Gota D’Água, mulher madura, sofrida, moradora de um conjunto habitacional, submetida pelos autores a uma injeção da nossa realidade urbana. Medéia é um clássico sobre reis, feitiços e vinganças, Gota D´Água é uma história sobre pobres, macumbeiros, personagens bem construídos para uma realidade que é nossa, e por extensão, de todos aqueles que sofrem na carne as contradições e as injustiças sociais.

Escrito em versos o texto transforma o nobre em vulgar, toda a pompa da tragédia grega é substituída pelo comum, a linguagem, mesmo em versos é quase chula, reis e príncipes dão lugar às pessoas do povo, os deuses da mitologia dão lugar às divindades do candomblé e Joana, Jasão e Creonte cumprem a sua saga.

“Pode ser a gota d’água, pode ser a gota d’água...” cantam os versos e você se arrepia. De novo, um clássico.



Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Museu Rodin
Data: 02/06/2012

domingo, 13 de maio de 2012

ÓPERA DO MALANDRO


Faz muito tempo que a peça/musical Ópera do Malandro permeia minha vida. Primeiro foi a trilha sonora que fez um sucesso estrondoso e teve vida própria independente do conteúdo e do conhecimento do texto. Gal Costa e sua interpretação impecável de Folhetim, ou Zizi Possi com Pedaço de Mim, e não posso esquecer de As Frenéticas cantando Ai, Se Eles Me Pegam Agora, marcaram época na MPB e nas carreiras das cantoras em si. Depois o filme, que assisti em 1986 e até hoje permanece gravada em minha memória a cena entre Elba Ramalho e Cláudia Ohana cantando O Meu Amor como se fossem dois galos de briga.

Anos depois assisti minha primeira versão teatral, com direção de Gabriel Vilela, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, uma montagem farsesca e pendendo para a comédia com vários amigos em cena. Mais tarde assistiria a uma nova versão com Alexandre Schumacher no papel de Max Overseas consagrado pela crítica e público.

Escrita em 1978 a peça se passa na década de 1940, tendo como pano de fundo a legalidade do jogo, a prostituição e o contrabando. Um cafetão de nome Duran, que se passa por um grande comerciante, sua mulher Vitória, uma cafetina que vivia da exploração das suas meninas, sua filha Teresinha, apaixonada por Max Overseas, que, por sua vez, vivia de golpes e conchavos com o chefe de polícia, são personagens inesquecíveis. Em especial o travesti Geni, maltratado por todos até que o comandante do zepelim resolve bombardear a cidade, mudando de ideia com a condição de ter uma noite de amor com o travesti. É um momento importante na peça e a música Geni e o Zepelim é a trilha perfeita para a cena.

Cabe uma grande ressalva para a genialidade de Chico Buarque na composição das letras e músicas, que estarão em meu inconsciente para sempre. Na edição que pretendo abandonar contém todas as letras das músicas em seus respectivos momentos de cena.

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Shopping Barra - Praça de alimentação
Data: 02/06/2012

domingo, 6 de maio de 2012

AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT


Continuando a série de livros que foram gerados em outras vertentes, mas que também mereceram uma publicação impressa, hoje vou escrever sobre uma obra fantástica de um autor que também é diretor, ator, dramaturgo, e encenador para teatro, televisão e cinema: Rainer Werner Fassbinder (1945 – 1982). Considerado o mais produtivo dos diretores do Novo Cinema Alemão, Fassbinder tinha personalidade forte e imprimiu isso em sua intensa participação na vida cultural alemã.
Embora lançado originalmente como filme em 1972, foi no teatro em 1982 que assisti pela primeira vez As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant. Com interpretações memoráveis de Fernanda Montenegro (Petra), Renata Sorrah (Karina, o amor de Petra) e Juliana Carneiro da Cunha (Marlene, a fiel escudeira). E cabe aqui ressaltar a direção segura de Celso Nunes na montagem. Fernanda consegue magistralmente encarnar o espírito que Fassbinder imprime às mulheres em suas obras.
No seu trabalho predominaram as temáticas relativas à situação dos “deslocados” na sociedade alemã, a condição humana de amar e não ser correspondido, a entrega, a trapaça, o vale tudo do amor, tema fundamental de As Lágrimas..., o texto reflete o estado dos seres humanos, independente de sexo, raça ou lugar. A solidão, o medo, o desespero, a angústia, uma busca pela própria identidade e o amor são assuntos recorrentes para Fassbinder. Em suas obras sempre haverá um lugar essencial para a mulher, figura que servirá para propagar as diversas formas de emancipação feminina. Podemos conferir isso através de três heroínas que protagonizam sua trilogia da Alemanha Ocidental: Maria Braun, interpretada por Hanna Schygulla em "O Casamento de Maria Braun" (1979), Lola, vivida por Barbara Sukowa em "Lola" (1981) e Veronika Voss, interpretada por Rosel Zech em "O Desespero de Veronika Voss"(1982).
Nunca em minha vida vou esquecer a cena: É o aniversário de Petra, Karina não aparece e não liga, Petra está com a mãe, a filha, e Sidônia, uma amiga. Elas discutem e num acesso de fúria e degradação Petra destrói tudo que foi montado para o chá, literalmente. A cena protagonizada por Fernanda Montenegro é tão visceral, tão real, que a plateia reage num misto de emoção e medo. Alguns choram, outros seguram firme a mão de seus acompanhantes. Em cena todos vão embora deixando Petra sozinha. Marlene a ampara e Petra, finalmente, a enxerga como pessoa.

- Senta aqui... Me fala da tua vida. (cai o pano)

Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Em frente ao hotel Atlantic Towers - Ondina
Data: 26/05/2012