quinta-feira, 21 de abril de 2011

A QUEDA PARA O ALTO


Muitos leitores podem confundir esse livro como biográfico, não o vejo assim, eu penso nessa obra como um ato confesso, ou o relato de uma vida conturbada e curta, muito curta. Sandra Mara Herzer, que posteriormente viria a adotar o nome de Anderson Herzer, cujo apelido Bigode consta na lista dos internos da antiga FEBEM, é o(a) nosso(a) autor(a).
Para entender um pouco sobre a obra posso dizer que Sandra/Anderson foi um poeta, escritor, uma obra publicada que posteriormente serviu de argumento para o filme Vera do diretor Sergio Toledo com Ana Beatriz Nogueira no papel principal. Uma infância complicada; o pai morreu assassinado quando ela tinha três anos, a mãe, prostituta, morreu antes de Sandra completar oito anos. Criada por tios nunca foi compreendida em seu mais íntimo conflito, o de “identidade de gênero”, sensível a ponto de escrever belos poemas e rebelde a ponto de assumir-se homossexual e depois transexual, adotando o nome de Anderson, envolvia-se em brigas na escola, bebia muito e atirou-se fundo nas drogas.
A essa altura já interna da FEBEM Sandra está cada dia mais masculina, é quando corta o cabelo, joga fora todas as roupas “de mulherzinha” e assume a identidade de Anderson. É descoberto e apoiado pelo então senador Eduardo Suplicy, sensibilizado com sua história e a qualidade de seus poemas, levou-o para trabalhar em seu gabinete dando-lhe a oportunidade de uma vida fora dos muros da instituição e apoio na publicação do livro A Queda Para o Alto.
O livro foi escrito com a simplicidade de um jovem cheio de energia, não há divagações ou a procura dos porquês do comportamento humano, sejam de natureza social ou sexual. As conclusões são nossas; dos leitores, pais, profissionais de educação e daqueles que tem o poder público de transformação.
Sandra/Anderson não quis esperar o lançamento de seu livro, deixou-o como um recado. Aos 20 anos se jogou do viaduto da Av. 23 de Maio em São Paulo, recebeu os primeiros socorros ainda com vida, mas não resistiu aos graves ferimentos.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Estacionamento Perini - Graça
Data: 24/06/2011

domingo, 17 de abril de 2011

UM ANO


Exatos 17 de abril de 2010 publiquei o primeiro post deste blog.
Um ano depois contabilizo em números 41 resenhas, ou post, para quem prefere uma linguagem de internet, 25 seguidores e mais de 1.000 visitas. Isso sem contar os comentários publicados, os e-mails recebidos, os elogios, e críticas, porque nada é perfeito para todo mundo, feitos pessoalmente por amigos e pessoas que não conhecia, mas que vieram falar comigo quando descobriram que eu era o autor.
Números à parte, ter um blog e eternizá-lo no mundo virtual foi um sonho que acalentei durante um bom tempo, exercitar a escrita e compartilhar experiências é um processo, quase uma terapia de regressão, afinal, lembrar das histórias, buscar dados sobre a obra, o autor, e, principalmente, rememorar fatos e acontecimentos que marcaram minha vida durante a leitura daquele livro comentado, trouxe ótimas lembranças.
Entretanto, na vida sempre há um ‘entretanto’, abandonar livros não é uma tarefa fácil. Das 41 resenhas que escrevi, até hoje abandonei efetivamente 33 livros. Confesso que a timidez me atrapalha, o coração dispara e as mãos tremem no momento crucial de um abandono. Às vezes me sinto um terrorista, um homem bomba prestes a explodir. Tomei quatro cafés e comi cinco pães de queijo até achar um bom momento para abandonar um livro numa loja do Fran’s Café, tomei três sorvetes no McDonald’s até sair sorrateiramente da lanchonete com o coração disparado e logo depois ser interpelado no estacionamento pela solícita garçonete que me trouxe o livro de volta porque ela achou que eu tinha esquecido, rodei quilômetros pela cidade até achar um ponto de ônibus vazio para deixar um livro sobre o banco, andei por quase duas horas dentro Espaço Unibanco de Cinema até perceber o momento exato para deixar o livro em local visível e sair sem ser abordado por uma pessoa que imediatamente te devolve o livro dizendo “Olha! Você deixou na mesa lá dentro”. Bendita cidadania. Isso quando estou sozinho, porque já coloquei pessoas próximas “pagando o mico” comigo, como na vez que minha mãe me ajudou distraindo o garçom enquanto eu deixava o livro numa mesa do restaurante Spaguetti Lilás, e na vez em que minha amiga Isabel Vasques, em São Paulo, foi ameaçada por uma senhora ao abandonar um livro no ônibus e teve que ouvir “Leve seu lixo com você, não deixe aqui para dar trabalho aos outros”.
Entretanto, já disse que na vida sempre há um ‘entretanto’? Continuo sentindo um enorme prazer em ler e agora me aventurando também na escrita, meu amigo Ricardo Linhares disse uma vez que escrever, assim como ler, é ato diário, deve tornar-se hábito para que o façamos bem, e esse hábito eu não quero perder até o fim da vida. Agradeço aqui ao Paulo Ricardo, que esteve ao meu lado quando criei e nomeei o blog, ao Roberto Camargo, pela inspiração de sempre, e a todos os leitores amigos e amigos leitores. Vamos em frente.
Para quem, como eu era, tem vergonha de escrever algo público, pode utilizar-se do e-mail abandonandolivros@gmail.com para mandar uma mensagem, um comentário, uma crítica, um oi, uma cutucada ou uma lufada de vento.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A ARTE DE AMAR


Confesso que não gosto de livros que nos ensina a viver, na minha modestíssima opinião, a vida é única e para cada ser humano ela vem de forma diferente, portanto, a meu ver, receitas de bolo para agir dessa ou daquela maneira, pensar dessa ou daquela forma, comigo não cola, acho chato e não perco meu tempo.
Em 2000, logo depois da emblemática virada do ano, digo emblemática porque quando eu era pequeno pensava que os anos 2000 não chegariam nunca, fui a um evento na Livraria Martins Fontes em São Paulo e ganhei o livro que agora abandono. É um livro que fala sobre amor, o título assusta, eu então, que passava na época por uma fase de desamor e desacreditado do tema, levei quase um ano com ele na estante até que um dia resolvi ler algo sobre quem o escreveu. Descobri que Erich Fromm é Dr. Erich Fromm (1900-1980), psicanalista, filósofo e sociólogo. Fiquei curioso para saber o que um alemão pensava sobre o amor em 1956, ano da publicação do ensaio, e engatei a leitura página por página, tópico por tópico.
O livro explora as maneiras pelas quais essa extraordinária emoção pode alterar todo o curso de nossa vida. A maioria das pessoas não consegue desenvolver sua capacidade de amar no único nível que realmente importa - um amor constituído por maturidade, autoconhecimento e coragem. O aprendizado do amor, como o de todas as outras artes, exige prática e concentração. E, mais do que qualquer outra arte, exige insight e compreensão. E há a abordagem sob todos os seus aspectos, não apenas o amor romântico, tão cercado de conceitos, literatura, filmes, músicas e publicidade contemporânea, mas também o amor dos pais pelos filhos, entre irmãos, o amor erótico, o amor-próprio e o amor por Deus, ou o seu Deus, ou a forma de energia que nos impregna quando estamos em estado de graça, ou cogitamos compreender o Universo.
Não é livro para chorar ou para deprimir, é livro para se perceber humano e achar o seu ponto de vista.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Quartel de Amaralina
Data: 24/06/2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

O CHEFÃO

A edição do livro que tenho é de 1981, embora o original tenha sido lançado em 1969, isso para vocês terem uma idéia do sucesso alcançado pelo livro, que também foi adaptado para o cinema e ainda rendeu boas continuações lançadas posteriormente também em livro, feito raro até para os dias de hoje.
O autor, Mario Puzo (1920-1999), já havia escrito vários romances que, apesar de bem recebidos pela crítica, passaram despercebidos pelo público. Até que recebeu uma proposta irrecusável; cinco mil dólares de adiantamento para escrever um livro sobre um assunto que ouvira falar nos tempos de jornalista, a Máfia. O resultado foi The Godfather e uma vida nova para Puzo, alçado imediatamente para a categoria de celebridade literária.
O chefão é D. Vito Corleone e a história transcorre no período de 1945-1955 com lembranças e reminiscências da infância do personagem principal que datam de 1901. Centrada na ascensão do imigrante pobre até transformar-se no poderoso líder de uma das famílias mafiosas que partilhavam o poder no submundo de Nova York. Para quem já viu o filme o livro complementa e muito o entendimento da intrincada família Corleone, pode-se compreender mais sobre o processo de hierarquia e o porque da violência ser o fator preponderante na briga pelos melhores negócios. Contrariando indicações anteriores hoje eu recomendo que se veja o filme primeiro antes de ler O Chefão, ter em mente a imagem do Marlon Brando, em uma atuação impecável que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator em 1973, pode tornar mais aprazível a degustação de tanto sangue. Em alguns momentos você tem a impressão de que o livro vai pingar em você tamanha a crueldade das descrições.
Mas vale a pena, acredite, é um clássico.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Rua da Fonte do Boi - Rio Vermelho
Data: 24/06/2011

domingo, 20 de março de 2011

O VERÃO E AS MULHERES


O verão acabou ontem, dia de muita chuva em Salvador, e eu, que estive possuído por uma gripe pós carnaval, e ainda amargo alguns resquícios da maldita, fiquei sem escrever por alguns dias. Na verdade a gripe me deixou sem inspiração. Mas eis que, neste primeiro dia de outono surge um lindo dia de sol, com aquela brisa marinha que só os moradores de Salvador conseguem desfrutar, e isso me animou. Finais de semana ensolarados me deixam bem mais feliz.
Lembro que comecei o verão indicando um livro do Rubem Fonseca, 200 Crônicas Escolhidas, e pretendo termina-lo com a indicação de mais um livro desse autor fantástico. Não sei se por causa da gripe, cujo mau humor me assolou nos últimos 10 dias, a falta de concentração fez com que eu me refugiasse em leituras mais rápidas.
Em O Verão e as Mulheres Rubem Braga seleciona suas crônicas publicadas entre 1953 e 1955 no jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro e em outros periódicos. Na verdade, este livro é a quarta edição de A Cidade e a Roça. Em 1985 o autor, como ele mesmo revela em nota no livro, tem a coragem de mudar o título, que, segundo ele, “era muito ruim”, alem de lembrar muito As Cidades e as Serras de Eça de Queiroz. Rubem disse ao editor que não agüentava mais aquele título frio que em má hora escolhera. De resto nada foi mudado.
No livro contamos com a presença de Joaquina, a “que fazia olhos azuis”, e algumas crônicas que já foram transcritas em um sem número de antologias escolares e livros de leitura como: O Cajueiro e Homem no Mar. Outras são cortes na intimidade da vida brasileira como O Homem dos Burros, Caçada de Paca, Buchada de Carneiro, O Lavrador e Recado ao Senhor 903. São páginas de lirismo e humor completamente diferentes do que lemos atualmente, basta um pouco de sensibilidade para apreciar.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Em frente a Biblioteca Juracy Magalhães Jr. - Rio Vermelho
Data: 24/06/2011

domingo, 6 de março de 2011

O GRANDE GATSBY


Hoje é domingo de Carnaval e para quem imagina que eu, leitor assíduo de qualquer coisa que me caia às mãos, sou uma pessoa introspectiva que vive cercada de livros desprezando veementemente as festas mais populares é porque não me conhece direito. Sou folião assíduo do Carnaval, esteja eu onde estiver, e quem mora em Salvador, mais precisamente no bairro da Barra onde atualmente resido, sabe que é impossível fugir da festa momesca que invade a cidade.
Pensando nisso busquei entre os livros que pretendo abandonar essa obra primorosa de Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940) intitulada O Grande Gatsby. O livro é uma festa, na Long Island dos anos 20 do século XX vivia-se o sonho americano, havia belos jovens, mulheres exóticas, muito álcool, jazz, elegância, glamour e, pairando sobre tudo isso, a certeza de que a vida seria uma festa sem fim. Como se vivessem numa constante recusa da maturidade, a incapacidade de envelhecer e uma obstinação: a de continuarem todos jovens e ricos para sempre.
O livro foi lançado em 1925, segundo uma enquete feita pela prestigiosa série ‘Modern Library’, foi considerado o segundo melhor romance da língua portuguesa da década de 20, perdendo para Ulisses de James Joice que abandonarei em breve. Narrada por Nick Carraway, assíduo convidado das festas de Gatsby, conta o lado glamouroso do ricaço que um dia amou a bela e mimada Daisy Buchanan, mas a perdeu para um rapaz endinheirado. Só que agora Gatsby ficou misteriosamente muito rico e está disposto a arriscar tudo para tê-la de volta, esse é o motivo de, na intimidade, ser um homem infeliz.
Filmado em 1974 com um Robert Redford no papel de Jay Gatsby no auge de sua beleza e carisma, e Mia Farrow transbordando beleza e fragilidade sob a direção de Jack Clayton, O Grande Gatsby faturou o Oscar de Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora, um primor.
Esse é um livro que merece ser lido no embalo das cantoras de jazz. Eu recomendo.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 2 - Shopping Barra
Data: 21/05/2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

TUBARÃO


O que acontece quando um tubarão abandona seu habitat e mata uma mulher que cai no mar para um mergulho noturno numa cidade balneária? O que acontece se os políticos do lugar abafam o caso para evitar uma fuga em massa dos veranistas que sustentam a cidade? O que acontece quando esse mesmo tubarão volta a atacar num domingo de sol numa praia cheia de crianças e adolescentes? O que acontece quando um xerife, um velho marinheiro e um pescador high tech decidem caçar o tubarão embarcados numa velha traineira?
Nos dias de hoje eu diria; absolutamente nada, porque esse argumento estaria mais indicado para um documentário do National Geographic que poderia ser esquecido no meio da programação. Mas estávamos em 1974 e a resposta é: um best seller que vendeu mais de oito milhões de livros, que foi adaptado para o cinema pelo próprio autor, Peter Benchley (1940-2005), cujo filme foi dirigido pelo Steven Spielberg um ano depois do lançamento do livro, e que em poucas semanas arrecadou mais de cento e vinte milhões de dólares. Nos dois anos seguintes em que esteve na mídia somou mais de duzentos e sessenta milhões de dólares em arrecadação de todos os tipos de tranqueiras que um filme arrasa quarteirão pode lançar, inclusive mais algumas dezenas de edições do livro.
Mesmo sem ler uma linha sequer do livro várias gerações sabem exatamente seu começo, meio e fim, tendo como base o filme. Entretanto posso afirmar que o livro tem um outro final que foi ignorado na adaptação pelo próprio autor para dar um lado mais humano ao filme.
Assim como Peter Benchley, que ficou conhecido como autor de um livro só, uma vez que suas outras obras não emplacaram, a continuação do filme: Tubarão II, III e IV não deram em nada e amargaram fracassos de bilheteria. O próprio Steven Spielberg fez uma sátira de si mesmo no filme De Volta Para o Futuro II, o personagem Marty McFly está em 2015 e é engolido por uma animação do lançamento do filme Tubarão XXXIV, Agora é Pessoal.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 1 - Shopping Barra
Data: 21/05/2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ESCOLHA O SEU SONHO


Estava aqui parado, vendo a tela em branco do computador, com um livro da Cecília Meireles ao lado, e me perguntei... Quem hoje em dia lê Cecília Meireles? Digo, espontaneamente. Quem hoje em dia chegaria até uma livraria para comprar um livro da Cecília Meireles? Não vale trabalho escolar do segundo grau. Autores como Cecília, Drummond, Machado de Assis, Clarice, estão relegados às prateleiras das bibliotecas ou aos trabalhos escolares. Nos dias de hoje que imperam as aventuras do bruxo Harry Potter, que por sinal li todos, ou a saga Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer, que ainda não li, mas já comprei e estão todos na fila, que adolescente se interessaria pelas poesias e crônicas de Cecília Meireles?
Modismos à parte, afinal na literatura também há os livros da ‘estação’, e isso é normal, sempre existirão os professores de literatura e os livros indicados para o vestibular que aguçarão a curiosidade das pessoas sobre esses autores, assim por dizer, “antigos”.
No livro que abandono dessa escritora maravilhosa, poetiza, pintora, professora e excelente jornalista, estão reunidas crônicas extraídas dos programas; Quadrante, apresentado pela rádio do Ministério da Educação e Cultura - MEC, e Vozes da Cidade, apresentado na rádio Roquette Pinto. São crônicas leves e ótimas para ler na praia como já escrevi aqui no blog, com um prefácio do não menos importante Carlos Drummond de Andrade que nos diz: “Nestas páginas, Cecília Meireles vê o mundo como ele é, e corrige-o para como deveria ser. Não o corrige pela violência, mas pela poesia.”
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Perini - Pituba
Data: 15/05/2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

COM LICENÇA, EU VOU À LUTA


Em fevereiro de 1983 o escritor, jornalista e sociólogo Herbert Daniel escreveu no prefácio do livro Com Licença, Eu Vou à Luta, o seguinte texto: “É preciso coragem para lê-lo – com toda parcialidade. É preciso abandonar toda adulteração para redimensionar a vida inteira, criança total, para que não haja direitos menores, nem abandonadas menores liberdades.” Ele estava certo ao recomendar a leitura para crianças, adolescentes, pais e educadores.
Eliane Maciel tinha quinze anos quando procurou um advogado pela primeira vez. Estava recorrendo a justiça para deixar de ser subjugada pelos pais como se fosse um uma prisioneira. Como será o estado psicológico de uma garota que chega ao ponto de pedir ajuda à justiça para se libertar da própria família? Elaine seria então julgada como se tivesse cometido um “crime”. E qual seria ele? Afrontar, com sua vontade de viver, um mundo estruturado para garantir a onipotência dos “maiores de idade”. Afinal, é ilegal ser “menor”?
O sociólogo Herbert Daniel estava surpreso com o processo de guerra civil estabelecido dento daquela família de classe média moradora da Baixada Fluminense, aprisionando-os em meio às farpas de violência, miséria, e o medo de perder as frágeis seguranças materiais e as deturpadas obrigações morais.
O livro é um soco no estômago, por isso a recomendação da parcialidade, e, embora já tenha se passado 28 anos desde o seu lançamento, é indubitavelmente atual. Eliane hoje é uma jornalista, já escreveu vários livros voltados ao público infanto-juvenil e tem cinco filhos. Sinal de que feridas saram e as cicatrizes podem não durar para sempre.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Frans Café - Pituba
Data: 15/05/2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O NOME DA ROSA


Este livro virou febre no início dos anos 80 (Séc. XX) quando foi lançado na Itália, aqui no Brasil por volta de 1983 todos os intelectuais e “antenados” da época gabavam-se da leitura, muitos sem jamais terem vencido as quase 600 páginas (562 na edição que abandono). Os que não concluíram a leitura foram salvos em 1986 quando assistiram ao filme homônimo ao livro.
Umberto Eco (1932) ambientou seu romance em um mosteiro na Itália medieval. A morte de sete monges, um por dia em circunstâncias insólitas, com requintes de crueldade, por vezes erotismo, e até um pouco de humor negro, é a base para desvendar os conflitos no seio dos movimentos heréticos do Séc. XIV, as violências sexuais, a luta contra a mistificação, o poder e a demagogia da igreja. O autor, que além de escritor, é filósofo, semiólogo, linguista, e bibliófilo italiano, nos propõe uma reflexão já na escolha do título de seu livro “O Nome da Rosa” que nos remete ao nominalismo... “que é entre o que parece ser o nome da ‘rosa’ como nome, em si um conceito, portanto um nome universal e, dessa forma, eterno, imutável, imortal, e de sua contraposição a ‘rosa’, flor de existência única na realidade, mas passageira, mortal e transitória.”
No enredo, Frei Guilherme de Baskerville é designado para investigar uma suspeita de heresia em um mosteiro franciscano mas tem sua missão interrompida, ou iniciada a meu ver, pelo acontecimento dos excêntricos assassinatos. Esse é o mote da divulgação do livro que, quando virou filme, contou com uma excelente atuação de Sean Connery se desvencilhando de vez do fantasma do espião 007, e um Christian Slater em começo de carreira no papel de Adso de Melk, o fiel escudeiro do Frei Guilherme. Dizem por aí que o nome Adso foi uma homenagem fonética de Eco a ‘Watson’, fiel acompanhante de Sherlock Holmes, detetive de quem é fã.
Demorei para ler esse livro, e não vi o filme até que o concluí. Confesso que reli duas vezes até entender a dinâmica do mosteiro, acompanhar no mapa as idas e vindas dos personagens e me fascinar com a Biblioteca. Esta sim, no meu entender, o personagem principal, o viés da história, a causadora de todos os acontecimentos, e, principalmente, as justificativas e razões lançadas pelo autor para as mortes. Um dado importante no livro me chamou à reflexão; o fato de a cultura, sabedoria e conhecimento serem um privilégio de apenas alguns poucos, e por essa razão, ter o poder de manipular os damais em função de outros interesses que não a descoberta da verdade, e o mais relevante: a dúvida lançada se a instituição ‘Igreja’ possa ter ou não destruído uma grande parte da nossa herança cultural, pela simples razão de ser incômoda para a religião e fé católicas, e sobretudo, para a manutenção dos seus privilégios e condição social, econômica e política. Dan Brown viria a lançar essa mesma dúvida 20 anos depois com Anjos e Demônios e O Código Da Vinci, mais aí já é outra história.
É ler e tirar suas próprias conclusões.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Reitor Miguel Calmon - Ponto de ônibus - Escola de Medicina da UFBA
Data: 23/04/2011