domingo, 20 de março de 2011

O VERÃO E AS MULHERES


O verão acabou ontem, dia de muita chuva em Salvador, e eu, que estive possuído por uma gripe pós carnaval, e ainda amargo alguns resquícios da maldita, fiquei sem escrever por alguns dias. Na verdade a gripe me deixou sem inspiração. Mas eis que, neste primeiro dia de outono surge um lindo dia de sol, com aquela brisa marinha que só os moradores de Salvador conseguem desfrutar, e isso me animou. Finais de semana ensolarados me deixam bem mais feliz.
Lembro que comecei o verão indicando um livro do Rubem Fonseca, 200 Crônicas Escolhidas, e pretendo termina-lo com a indicação de mais um livro desse autor fantástico. Não sei se por causa da gripe, cujo mau humor me assolou nos últimos 10 dias, a falta de concentração fez com que eu me refugiasse em leituras mais rápidas.
Em O Verão e as Mulheres Rubem Braga seleciona suas crônicas publicadas entre 1953 e 1955 no jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro e em outros periódicos. Na verdade, este livro é a quarta edição de A Cidade e a Roça. Em 1985 o autor, como ele mesmo revela em nota no livro, tem a coragem de mudar o título, que, segundo ele, “era muito ruim”, alem de lembrar muito As Cidades e as Serras de Eça de Queiroz. Rubem disse ao editor que não agüentava mais aquele título frio que em má hora escolhera. De resto nada foi mudado.
No livro contamos com a presença de Joaquina, a “que fazia olhos azuis”, e algumas crônicas que já foram transcritas em um sem número de antologias escolares e livros de leitura como: O Cajueiro e Homem no Mar. Outras são cortes na intimidade da vida brasileira como O Homem dos Burros, Caçada de Paca, Buchada de Carneiro, O Lavrador e Recado ao Senhor 903. São páginas de lirismo e humor completamente diferentes do que lemos atualmente, basta um pouco de sensibilidade para apreciar.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Em frente a Biblioteca Juracy Magalhães Jr. - Rio Vermelho
Data: 24/06/2011

domingo, 6 de março de 2011

O GRANDE GATSBY


Hoje é domingo de Carnaval e para quem imagina que eu, leitor assíduo de qualquer coisa que me caia às mãos, sou uma pessoa introspectiva que vive cercada de livros desprezando veementemente as festas mais populares é porque não me conhece direito. Sou folião assíduo do Carnaval, esteja eu onde estiver, e quem mora em Salvador, mais precisamente no bairro da Barra onde atualmente resido, sabe que é impossível fugir da festa momesca que invade a cidade.
Pensando nisso busquei entre os livros que pretendo abandonar essa obra primorosa de Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940) intitulada O Grande Gatsby. O livro é uma festa, na Long Island dos anos 20 do século XX vivia-se o sonho americano, havia belos jovens, mulheres exóticas, muito álcool, jazz, elegância, glamour e, pairando sobre tudo isso, a certeza de que a vida seria uma festa sem fim. Como se vivessem numa constante recusa da maturidade, a incapacidade de envelhecer e uma obstinação: a de continuarem todos jovens e ricos para sempre.
O livro foi lançado em 1925, segundo uma enquete feita pela prestigiosa série ‘Modern Library’, foi considerado o segundo melhor romance da língua portuguesa da década de 20, perdendo para Ulisses de James Joice que abandonarei em breve. Narrada por Nick Carraway, assíduo convidado das festas de Gatsby, conta o lado glamouroso do ricaço que um dia amou a bela e mimada Daisy Buchanan, mas a perdeu para um rapaz endinheirado. Só que agora Gatsby ficou misteriosamente muito rico e está disposto a arriscar tudo para tê-la de volta, esse é o motivo de, na intimidade, ser um homem infeliz.
Filmado em 1974 com um Robert Redford no papel de Jay Gatsby no auge de sua beleza e carisma, e Mia Farrow transbordando beleza e fragilidade sob a direção de Jack Clayton, O Grande Gatsby faturou o Oscar de Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora, um primor.
Esse é um livro que merece ser lido no embalo das cantoras de jazz. Eu recomendo.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 2 - Shopping Barra
Data: 21/05/2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

TUBARÃO


O que acontece quando um tubarão abandona seu habitat e mata uma mulher que cai no mar para um mergulho noturno numa cidade balneária? O que acontece se os políticos do lugar abafam o caso para evitar uma fuga em massa dos veranistas que sustentam a cidade? O que acontece quando esse mesmo tubarão volta a atacar num domingo de sol numa praia cheia de crianças e adolescentes? O que acontece quando um xerife, um velho marinheiro e um pescador high tech decidem caçar o tubarão embarcados numa velha traineira?
Nos dias de hoje eu diria; absolutamente nada, porque esse argumento estaria mais indicado para um documentário do National Geographic que poderia ser esquecido no meio da programação. Mas estávamos em 1974 e a resposta é: um best seller que vendeu mais de oito milhões de livros, que foi adaptado para o cinema pelo próprio autor, Peter Benchley (1940-2005), cujo filme foi dirigido pelo Steven Spielberg um ano depois do lançamento do livro, e que em poucas semanas arrecadou mais de cento e vinte milhões de dólares. Nos dois anos seguintes em que esteve na mídia somou mais de duzentos e sessenta milhões de dólares em arrecadação de todos os tipos de tranqueiras que um filme arrasa quarteirão pode lançar, inclusive mais algumas dezenas de edições do livro.
Mesmo sem ler uma linha sequer do livro várias gerações sabem exatamente seu começo, meio e fim, tendo como base o filme. Entretanto posso afirmar que o livro tem um outro final que foi ignorado na adaptação pelo próprio autor para dar um lado mais humano ao filme.
Assim como Peter Benchley, que ficou conhecido como autor de um livro só, uma vez que suas outras obras não emplacaram, a continuação do filme: Tubarão II, III e IV não deram em nada e amargaram fracassos de bilheteria. O próprio Steven Spielberg fez uma sátira de si mesmo no filme De Volta Para o Futuro II, o personagem Marty McFly está em 2015 e é engolido por uma animação do lançamento do filme Tubarão XXXIV, Agora é Pessoal.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Garagem 1 - Shopping Barra
Data: 21/05/2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ESCOLHA O SEU SONHO


Estava aqui parado, vendo a tela em branco do computador, com um livro da Cecília Meireles ao lado, e me perguntei... Quem hoje em dia lê Cecília Meireles? Digo, espontaneamente. Quem hoje em dia chegaria até uma livraria para comprar um livro da Cecília Meireles? Não vale trabalho escolar do segundo grau. Autores como Cecília, Drummond, Machado de Assis, Clarice, estão relegados às prateleiras das bibliotecas ou aos trabalhos escolares. Nos dias de hoje que imperam as aventuras do bruxo Harry Potter, que por sinal li todos, ou a saga Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer, que ainda não li, mas já comprei e estão todos na fila, que adolescente se interessaria pelas poesias e crônicas de Cecília Meireles?
Modismos à parte, afinal na literatura também há os livros da ‘estação’, e isso é normal, sempre existirão os professores de literatura e os livros indicados para o vestibular que aguçarão a curiosidade das pessoas sobre esses autores, assim por dizer, “antigos”.
No livro que abandono dessa escritora maravilhosa, poetiza, pintora, professora e excelente jornalista, estão reunidas crônicas extraídas dos programas; Quadrante, apresentado pela rádio do Ministério da Educação e Cultura - MEC, e Vozes da Cidade, apresentado na rádio Roquette Pinto. São crônicas leves e ótimas para ler na praia como já escrevi aqui no blog, com um prefácio do não menos importante Carlos Drummond de Andrade que nos diz: “Nestas páginas, Cecília Meireles vê o mundo como ele é, e corrige-o para como deveria ser. Não o corrige pela violência, mas pela poesia.”
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Perini - Pituba
Data: 15/05/2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

COM LICENÇA, EU VOU À LUTA


Em fevereiro de 1983 o escritor, jornalista e sociólogo Herbert Daniel escreveu no prefácio do livro Com Licença, Eu Vou à Luta, o seguinte texto: “É preciso coragem para lê-lo – com toda parcialidade. É preciso abandonar toda adulteração para redimensionar a vida inteira, criança total, para que não haja direitos menores, nem abandonadas menores liberdades.” Ele estava certo ao recomendar a leitura para crianças, adolescentes, pais e educadores.
Eliane Maciel tinha quinze anos quando procurou um advogado pela primeira vez. Estava recorrendo a justiça para deixar de ser subjugada pelos pais como se fosse um uma prisioneira. Como será o estado psicológico de uma garota que chega ao ponto de pedir ajuda à justiça para se libertar da própria família? Elaine seria então julgada como se tivesse cometido um “crime”. E qual seria ele? Afrontar, com sua vontade de viver, um mundo estruturado para garantir a onipotência dos “maiores de idade”. Afinal, é ilegal ser “menor”?
O sociólogo Herbert Daniel estava surpreso com o processo de guerra civil estabelecido dento daquela família de classe média moradora da Baixada Fluminense, aprisionando-os em meio às farpas de violência, miséria, e o medo de perder as frágeis seguranças materiais e as deturpadas obrigações morais.
O livro é um soco no estômago, por isso a recomendação da parcialidade, e, embora já tenha se passado 28 anos desde o seu lançamento, é indubitavelmente atual. Eliane hoje é uma jornalista, já escreveu vários livros voltados ao público infanto-juvenil e tem cinco filhos. Sinal de que feridas saram e as cicatrizes podem não durar para sempre.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Frans Café - Pituba
Data: 15/05/2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O NOME DA ROSA


Este livro virou febre no início dos anos 80 (Séc. XX) quando foi lançado na Itália, aqui no Brasil por volta de 1983 todos os intelectuais e “antenados” da época gabavam-se da leitura, muitos sem jamais terem vencido as quase 600 páginas (562 na edição que abandono). Os que não concluíram a leitura foram salvos em 1986 quando assistiram ao filme homônimo ao livro.
Umberto Eco (1932) ambientou seu romance em um mosteiro na Itália medieval. A morte de sete monges, um por dia em circunstâncias insólitas, com requintes de crueldade, por vezes erotismo, e até um pouco de humor negro, é a base para desvendar os conflitos no seio dos movimentos heréticos do Séc. XIV, as violências sexuais, a luta contra a mistificação, o poder e a demagogia da igreja. O autor, que além de escritor, é filósofo, semiólogo, linguista, e bibliófilo italiano, nos propõe uma reflexão já na escolha do título de seu livro “O Nome da Rosa” que nos remete ao nominalismo... “que é entre o que parece ser o nome da ‘rosa’ como nome, em si um conceito, portanto um nome universal e, dessa forma, eterno, imutável, imortal, e de sua contraposição a ‘rosa’, flor de existência única na realidade, mas passageira, mortal e transitória.”
No enredo, Frei Guilherme de Baskerville é designado para investigar uma suspeita de heresia em um mosteiro franciscano mas tem sua missão interrompida, ou iniciada a meu ver, pelo acontecimento dos excêntricos assassinatos. Esse é o mote da divulgação do livro que, quando virou filme, contou com uma excelente atuação de Sean Connery se desvencilhando de vez do fantasma do espião 007, e um Christian Slater em começo de carreira no papel de Adso de Melk, o fiel escudeiro do Frei Guilherme. Dizem por aí que o nome Adso foi uma homenagem fonética de Eco a ‘Watson’, fiel acompanhante de Sherlock Holmes, detetive de quem é fã.
Demorei para ler esse livro, e não vi o filme até que o concluí. Confesso que reli duas vezes até entender a dinâmica do mosteiro, acompanhar no mapa as idas e vindas dos personagens e me fascinar com a Biblioteca. Esta sim, no meu entender, o personagem principal, o viés da história, a causadora de todos os acontecimentos, e, principalmente, as justificativas e razões lançadas pelo autor para as mortes. Um dado importante no livro me chamou à reflexão; o fato de a cultura, sabedoria e conhecimento serem um privilégio de apenas alguns poucos, e por essa razão, ter o poder de manipular os damais em função de outros interesses que não a descoberta da verdade, e o mais relevante: a dúvida lançada se a instituição ‘Igreja’ possa ter ou não destruído uma grande parte da nossa herança cultural, pela simples razão de ser incômoda para a religião e fé católicas, e sobretudo, para a manutenção dos seus privilégios e condição social, econômica e política. Dan Brown viria a lançar essa mesma dúvida 20 anos depois com Anjos e Demônios e O Código Da Vinci, mais aí já é outra história.
É ler e tirar suas próprias conclusões.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Av. Reitor Miguel Calmon - Ponto de ônibus - Escola de Medicina da UFBA
Data: 23/04/2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

O QUARTO FECHADO


“O leitor que pega esse livro não o largará antes do final”, assim prometia o release da Editora Nova Fronteira ao lançar em 1984 'O Quarto Fechado', sétimo livro publicado de Lya Luft (1938). Mas uma coisa eu posso opinar, tem que ter perseverança para ler estes escritos. Lya não é uma escritora “fácil” e, O Quarto Fechado, não é o tipo de livro que se lê na praça de alimentação de um shopping durante o almoço. Este livro exigirá dedicação, tempo e maturidade para absorver o que se lê.
A trama mostra um casal separado que se reencontra ao lado do caixão de seu filho morto, cada um vai rever a sua vida e o que os conduziu a aquela trágica situação. Lya Luft aborda novamente um tema recorrente em sua literatura: as relações humanas, sobretudo familiares, e mais especificamente a morte, um dos temas mais questionados pelo homem e pouco explorado pelos escritores. Neste livro ela se torna personagem central, tema do qual não se pode fugir, porém todos procuram negar, e é tratada de maneira densa, misteriosa e por vezes poética. O leitor assiste em flashback o sofrimento de um adolescente suicida e sua irmã gêmea, um ser repulsivo trancado num quarto, e outros personagens que retratam as inquietudes do ser humano. Loucura, amores frustrados, fatalidade, segredos, omissão, culpa, ternura, desencontros e delicadeza fazem com que o leitor por vezes sinta-se retratado, tocado, compreendido, cumplice. Somos nós esses personagens, estamos aí, expostos, frágeis, corajosos, lutando por abrir caminho, por enxergar a noite.
Por ter traduzido para o português obras de Virginia Wolf alguns críticos teimam em afirmar a influência da escritora londrina na obra de Lya. Também muito comparada a Clarice Lispector, pela sensibilidade feminina, e aí leia-se feminina e não feminista, como se somente uma escritora brasileira pudesse dissertar sobre os sentimentos humanos, Lya rebate; “Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento.”
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus - UFBA - Pavilhão de aulas do Canela - Av. Reitor Miguel Calmon
Data: 27/03/2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A ESTRELA SOBE


Nascido Eddy Dias da Cruz (1907-1973) construiu sua carreira literária com o pseudônimo de Marques Rebelo, e, segundo o próprio, usar pseudônimo não deixaria sofrimentos na família caso fosse perseguido ou preso por causa da campanha que se criou contra os modernistas logo após a fatídica Semana de Arte Moderna em 1922.
Em A Estrela Sobe, o autor demonstra ser um observador atento e apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro. Leniza Máier, a personagem central do romance, luta desesperadamente para ser uma cantora de rádio. A partir desse argumento, com dissertações, diálogos (sim, é um livro com diálogos), e notas de rodapé repletas de ironia que muitas vezes revela um pouco de crueldade necessária face ao desejo sem freios de Leniza, tornando-nos quase íntimos, ou porque não dizer cúmplices dela.
Marques Rebelo constrói um painel lírico de um Rio de Janeiro na segunda metade da década de trinta cujos hábitos cortesãos relutam em ceder espaço para a praticidade de uma metrópole que já se dizia ‘moderna’. E é nesse cenário que conheceremos a trajetória da personagem principal, desde a infância até o final que não é um final, como diz o autor; “Não a abandonei, mas, como romancista, perdi-a. Fico, porém, quantas vezes, pensando nessa pobre alma tão fraca e miserável como a minha. Tremo: que será dela, no inevitável balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado de suas vaidades”.
Em 1974 Bruno Barreto dirigiu Betty Faria no papel de Leniza Máier no filme adaptado do livro. Destaque no prêmio APCA de 1975 de melhor roteiro.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Hospital da Bahia
Data: 09/04/2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE UM ATOR PORNÔ


Em função do meu trabalho, durante os anos que vivi em São Paulo, tive a oportunidade de conhecer uma quantidade muito grande de pessoas, e por causa de um projeto chamado Quinta No Cinema, no qual a Embratel comprava todos os ingressos de uma sessão de cinema e sorteava entre os funcionários interessados, frequentei muito o Espaço Unibanco de Cinema do Shopping Frei Caneca. Acompanhei esse projeto por quase dois anos e já conhecia todos por lá; os gerentes (de diferentes turnos), os relações públicas, os bilheteiros, as pessoas da limpeza e da cafeteria.
Nos dias do evento chegava cedo ao shopping e ia direto para a cafeteria comer uma quiche de alho-poró, um pão de queijo e um café com leite grande, ritual sagrado para quem saiu do trabalho às pressas e foi direto ao evento sem direito a jantar. Foi então que conheci o Sergio Clemente, autor desse livro que ora abandono. Sergio era balconista da cafeteira, um cara inteligente, articulado, sensível e até um pouco tímido. Ele me presenteou com um livro de sua autoria e pediu que escrevesse uma resenha no site da Livraria Cultura para ajudar na divulgação da sua obra.
Dias se passaram eu tive que ir até Porto Alegre ministrar um treinamento, bem naquela fase dos aeroportos em estado de caos completo, os vôos atrasavam até dez horas sem que nada pudesse ser feito a não ser esperar. Me vi numa sala de espera apinhada de pessoas e para passar o tempo eu tinha o material de trabalho e o livro Memórias Póstumas de um Ator Pornô, não demorei muito a decidir pelo livro e com isso me desliguei completamente do aeroporto.
O livro é uma homenagem burlesca ao Machado de Assis e sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escrito na primeira pessoa pelo personagem principal Hator P.P.P. que morre em 1988 em pleno trabalho, num set de filmagem gravando seu vigésimo sétimo filme pornô. A partir daí Hator nos conta da sua infância, sua mãe, suas vizinhas, suas colegas de escola e como se tornaria o maior ator pornô do Brasil. Confesso a vocês que dei boas risadas e até fiquei chateado quando anunciaram o meu vôo. Acomodei-me rapidamente no avião e voltei a me deliciar com as aventuras de Hator P.P.P.
Lição aprendida: não subestime um jovem escritor, esteja ele onde estiver, num balcão de cafeteria ou na Bienal do Livro.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de ônibus - UFBA - Pavilhão de aulas do Canela - Av. Reitor Miguel Calmon
Data: 09/04/2011

sábado, 1 de janeiro de 2011

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


Escrito em 1932, e lançado no Brasil pela Editora Globo em 1941, este livro é uma antevisão de um futuro no qual o domínio quase integral das técnicas e do saber científico produz uma sociedade totalitária e desumanizada. Esta ficção científica surpreende pela clareza do texto, pela lucidez do autor e pela atualidade das questões levantadas. Se, naquela época, a profecia parecia fantástica pela criação de um mundo onde bebês seriam gerados em tubos de ensaio e a felicidade poderia ser produzida quimicamente, no primeiro dia de 2011 isso nos parece quase banal.
Em Admirável Mundo Novo o cérebro privilegiado de Aldous Huxley (1894-1963) e sua viva imaginação descrevem, num misto de fantasia e sátira, uma sociedade futura de tipo totalitário. A visão de um futuro surpreendente e ameaçador, onde a aspiração de simplificar e estabilizar um mundo novo, os cultos à máquina e à racionalização criam uma humanidade que não conhece o esforço e nem a dor, mas que suprime também o amor, as emoções, a arte e até mesmo a liberdade.
A idéia simplista de progresso, alicerçado apenas na técnica, o materialismo mecanicista e certas ideologias filiadas numa filosofia de inspiração pragmática tornam Admirável Mundo Novo um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia do falso progresso.
Conta a lenda que esta obra quase profética viria influenciar George Orwell ao escrever o best seller 1984. A morte desse grande visionário ensaísta foi ofuscada na mídia em função do assassinato do John F. Kennedy, acontecido no mesmo dia.
Nesta edição que abandono contém um prefácio do autor, datado de 1966, em que Huxley analisa sua posição como escritor amadurecido frente ao jovem de 1931, reafirma suas convicções de homem de espírito livre e condena todas as ideologias que tentam conduzir o homem a padronização. Nada como ter um bom livro pragmático às mãos para começar o ano com novos pensamentos.
Cidade do abandono: Salvador/BA
Local: Ponto de Ônibus - Hospital da Bahia
Data: 20/03/2011